domingo, 23 de outubro de 2011

História de amor (últimos capítulos) (SP)

Foto: Edu Marim

Mais retórica e menos teatro

“História de amor (últimos capítulos)” é um espetáculo do grupo Teatro da Vertigem, uma das companhias mais interessantes do teatro brasileiro contemporâneo. Suas montagens, desde 1991, costumam causar um certo frisson na crítica especializada que elogia (quase) sempre seus trabalhos, ansiando por despertar com isso maiores e melhores públicos. “As montagens exibem um uso afinado dos códigos teatrais, manifestam uma profunda reflexão sobre o fazer teatral e são sinais de cuidado, zelo e dedicação ao processo artístico.” – é o que, de modo geral, corre de site em site, blog em blog, debate em debate por aí. A produção da peça, escrita em 1983, é uma leitura dramática do texto homônimo de Jean-Luc Largarce, escritor francês, nascido em 1956 e morto em 1995, em decorrência de doenças causadas pela AIDS, hoje, um dos autores mais montados na Europa. Integrante da programação do 6º Palco Giratório, evento produzido pelo Sesc Porto Alegre/RS, o espetáculo não decepciona quem espera ver uma produção inteligente. Mas enfastia quem espera ver teatro.

O Grupo Teatro da Vertigem produz o espetáculo de um jeito peculiar. As cadeiras dispostas em círculo no palco com luz geral acesa estão em volta de uma mesa. O público entra e, ao ocupar sua cadeira, ganha uma cópia do texto. Quando o espetáculo “começa”, quem assiste vai percebendo o espetáculo e como lidar com ele. Entende que tudo o que é dito pelos atores está no texto e acompanha as falas, lendo as frases sempre que quiser. Aí começam os problemas.

O texto tem 26 páginas. A encenação, então, funciona como uma ampulheta: é só esperar ela terminar. Página por página a assistência vai tendo acesso ao que acontecerá, calculando o tempo, prevendo as ações, eliminando a esperança por alguma surpresa. O discurso é sempre metalingüístico, isto é, o teatro fala do teatro. Os personagens falam de si usando a terceira pessoa, a situação em que eles se encontram não é aberta. As três figuras (dois homens e uma mulher) partilham uma história que não é de todo dividida com quem assiste de forma aberta. Ao público fica a tarefa de tentar adivinhar o que aconteceu ou o convite para criar.
Narrativamente, é interessante (ou inteligente) o fato de que há uma relação que fala de uma relação: o presente falando do passado, os personagens em busca do significado de si mesmas para aquele que escreveu a peça e, talvez, para si mesmo. A expressão manifesta cenicamente disso, no entanto, é fria. As frases não são articuladas de forma direta, nem quando ditas, nem quando escritas. O texto se perde, as imagens são quase inexistentes, tudo paira num lugar bastante confuso. Todos os signos mobilizados pelo diretor Antônio Araújo cheiram a teatro contemporâneo, mas são vazios porque não se consegue identifica-los enquanto código.

Há que se dizer, no entanto, que há alguns traços que não só são inteligentes, mas também belos. O uso do som, que redunda o texto verbal, ajuda a deixar mais ágil a história e as relações existentes entre os personagens. Algumas imagens isoladas também conferem ao espetáculo uma marca de contemporaneidade que seja realmente válida. Um exemplo: em determinado momento, há uma fala que versa sobre a relação entre o ato de escrever e o ato de morrer. Um refletor acende sobre a plateia vazia. Ao espectador, é dada a possibilidade de encontrar nas cadeiras relação com as teclas de uma máquina de escrever citada fisicamente pela presença de uma em cena e também verbalmente no texto dito e escrito. Bastante forte, a presença cênica da atriz Luciana Schwinden se destaca entre Roberto Áudio, o primeiro homem, e Sérgio Siviero, o segundo homem. Ela, por méritos do dramaturgo, com mais possibilidades que eles em mostrar talento e técnica, colabora com a cena, agregando força, curvas expressivas (choro, riso, sussurros, clareza) e belas imagens. Com isso, não há que se pensar que Áudio e Siviero não estão bem em cena. Ao contrário, fica-se ansioso por mais teatro menos retórica, mais Araújo e menos Lagarce, mais momentos em que o Vertigem possa, de fato, ratificar a boa fama que consigo traz.

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Ficha técnica:
Tradução: Sergio Siviero / Direção e adaptação: Antonio Araújo / Elenco: Luciana Schwinden, Roberto Áudio, Sérgio Siviero / Iluminação: Guilherme Bonfanti / Cenografia: André Cortez Trilha sonora: Laércio Resende / Direção de produção: Teatro da Vertigem e Henrique Mariano / Duração do espetáculo: 55 min / Gênero: leitura dramática / Classificação etária: livre

* Texto escrito em maio de 2011 por ocasião do 6º Festival Palco Giratório do SESC/RS

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