quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Círculo da transformação em espelho (RJ)

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Foto: Rodrigo Castro

Fabianna de Mello e Souza, Alexandre Dantas, Sávio Moll, Carol Garcia e Júlia Marini

Méritos na encenação de um texto tolo


Escrita durante uma oficina de escrita dramática em 2008, “Círculo da transformação em espelho” é a segunda peça escrita pela jovem dramaturga americana Annie Baker. Sem quase qualquer coisa de relevante no texto, a obra se apoia exclusivamente nos méritos da direção e dos intérpretes. No Brasil, é a primeira aparição da autora em nossos palcos, chegando a partir da idealização e tradução de Rafael Teixeira em montagem dirigida por César Augusto e com Alexandre Dantas, Carol Garcia, Fabianna de Mello e Souza, Júlia Marini e Sávio Moll no elenco. Graças aos talentos e esforços deles, o espetáculo talvez não sucumba aqui como sucumbiu nos Estados Unidos e em Londres. Fica em cartaz até 29 de outubro no Teatro de Arena do Espaço SESC de Copacabana.

Dramaturgia muito superficial
Pretensamente realista, a dramaturgia tem um único ponto positivo: criar condições para que se saia do teatro refletindo sobre o fato de que nossas visões de mundo estão coladas à experiência temporal. Quando o tempo passa, e a paisagem muda, os posicionamentos poderão também se alterar e, nesse sentido, as sensações da gente sobre o que nos ocorre também se modifica. Fora isso, há uma justaposição de cinco personagens com histórias particulares pouco desenvolvidas e que, de modo muito superficial, se cruzam talvez apenas motivados pelo encontro casual.

A adolescente Lauren (Carol Garcia), a atriz Thereza (Júlia Marini) e o carpinteiro Shultz (Sávio Moll), esses dois últimos de meia idade, fazem um curso de iniciação teatral com Marty (Fabianna de Mello e Souza), tendo como colega o quase idoso James (Alexandre Dantas), marido da professora. Esses encontros, que se dão em uma pequena cidade fictícia do estado de Vermont, no noroeste dos Estados Unidos, se estendem durante seis semanas. Nas aulas, Marty conduz séries diversas de jogos teatrais por meio das quais o público tem a oportunidade de conhecer um pouco de cada participante. Lá pelas tantas, há um envolvimento amoroso entre dois personagens e fica mais clara uma discórdia entre outros dois. As aulas preparam o espectador para a cena final, que acontece anos depois do último encontro, que é quando a “mensagem final” (a expressão é péssima!) poderá ser absorvida.

Para além de não ter nada de sólido, o contexto geral da dramaturgia esbarra em três problemas. O primeiro deles é que o russo Anton Tchekhov já pautou a monotonia no teatro de modo ainda muito difícil de superar. E a própria Annie Baker sabe disso, tanto que seu primeiro prêmio como dramaturga se deu em 2012 por uma releitura dela de “Tio Vânia”. Além disso, o teatro realista americano ainda se serve de Edward Albee, de David Mamet, de Sam Shepard, Tennessee Williams, de Arthur Miller e de tantos outros excelentes escritores que exigem da análise muito cuidado antes de incensar jovens talentos. Isso nos leva ao segundo problema: “Circle Mirror Transformation” ficou apenas dois meses e meio em cartaz na Off-Broadway (em montagem dirigida pelo orientador de Baker na oficina de dramaturgia) e um mês em cartaz em Londres, o que nos mostra que nem em seu próprio idioma a peça foi bem aceita pelo público (ainda que a montagem americana tenha ganhado alguns prêmios pelos méritos da encenação). A última questão é: considerando a profusão de novos autores brasileiros e também de oficinas em que novas dramaturgias são escritas, sem falar nos escritores já com carreira consolidada por aqui e nos nossos países vizinhos, “Círculo da transformação em espelho” parece ter versão brasileira unicamente sustentada por um colonizado apego ao que é estrangeiro. Em outras palavras, se o tédio e a monotonia não sustentam o texto, se a proposta estética dele também não é relevante, se tampouco a obra dramatúrgica se destacou no seu país de origem, por que um produtor brasileiro vai investir nisso?

Os méritos da encenação
Aparte os problemas da dramaturgia, valem reconhecer alguns méritos da encenação. A direção de César Augusto, assistido por Pedro Uchoa, visivelmente parece ter percebido que do nada não poderia sair muito e optou por uma estrutura espetacular bastante simples. Não há grandes entradas e saídas, as marcações são bem simples, quase não há cenário e os investimentos estéticos em luz e em figurino são poucos também. Ao concordar com o texto, a montagem não pesa, mas positivamente permanece leve, modesta, sem pretender grande saltos que não poderia dar.

Os figurinos de Ticiana Passos e o cenário de Mina Quental, em mesma direção, colaboram na constituição de um quadro simples, mas digno e muito honesto em suas limitações. A luz de Adriana Ortiz praticamente se mantém aberta durante toda a encenação, respeitando o contexto de “Sala de Ensaio”, onde noventa porcento da narrativa acontece. Sendo Augusto, Passos, Quental e Ortiz profissionais já muitas vezes elogiados no mercado por seus recursos criativos, há que se destacar positivamente o modo como se limitaram aqui para não atrapalhar.

No geral, dentro da proposta e considerando o material que tinham em mãos, todas as interpretações são positivas, embora se reconheçam maior e menor mérito, observando os desafios irregulares dos personagens. Carol Garcia (Lauren) e Fabianna de Mello e Souza (Marty) tiveram mais dificuldades de vencer porque seus personagens são mais isolados que os demais. Tanto uma como a outra, com raras exceções, só tiveram oportunidades de boas contracenas (aquelas com conflitos minimamente definidos) quando juntas do grupo inteiro, problema que pulveriza as ofertas e acaba por valorizar seus empenhos como atrizes. Já Alexandre Dantas (James), Júlia Marini (Thereza) e Sávio Moll (Shultz) tiveram mais chances de mostrar trabalho, aproveitando todas elas e ganhando destaques propiciados desde a dramaturgia. Suas figuras, com contornos mais definidos, ficaram mais claras para o público. Justifica-se, assim, o equilíbrio do grupo.

Boa
“Círculo da transformação em espelho”, em geral, é uma boa peça que fica bem melhor se considerada a tolice da dramaturgia.


*

Ficha técnica

Texto: Annie Baker

Idealização e tradução: Rafael Teixeira

Direção: Cesar Augusto

Elenco / Personagem:

Alexandre Dantas / James

Carol Garcia / Lauren

Fabianna de Mello e Souza / Marty

Júlia Marini / Theresa

Sávio Moll / Schultz

Direção de movimento: Dani Cavanellas

Assistente de direção: Pedro Uchoa

Cenário: Mina Quental

Iluminação: Adriana Ortiz

Figurinos: Ticiana Passos

Programação visual: Daniel de Jesus

Fotos: Rodrigo Castro

Vídeos: tocavideos – Fernando Neumayer e Luís Martino

Direção de produção: Luísa Barros

Produção executiva: Ana Studart

Administração financeira: Amanda Cezarina

Assessoria de imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Realização: Sesc Rio



Tom na fazenda (RJ)

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Foto: divulgação

Gustavo Vaz e Armando Babaioff


Uma das melhores peças de 2017

Tom na fazenda” é uma das melhores peças de 2017 no teatro carioca, tendo já ganhado as principais indicações aos Prêmios Shell e Cesgranrio do ano e recebido inteiramente críticas bastante positivas tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. Escrito pelo franco-canadense Michel Marc Bouchard em 2010, o texto é o primeiro do dramaturgo montado no Brasil. Rodrigo Portella assina um excelente trabalho de direção em que o uso do espaço e o modo como estabelece a tensão se articulam em uma proposta estética que une a dramaturgia original e a versão fílmica que a peça recebeu em 2013 pelas mãos de Xavier Dolan. No elenco, Armando Babaioff, que interpreta o personagem título, está em seu melhor trabalho. Ele divide o palco com Gustavo Vaz, Kelzy Ecard e Camila Nhary, todos também em performances muito meritosas. O espetáculo, em que se veem brilhantes contribuições do cenário, do figurino, da luz e da trilha sonora, está atualmente em cartaz no Teatro Poerinha, em Botafogo, na zona sul da capital fluminense.

Um texto brilhante!
A história começa com a chegada do publicitário Tom (Armando Babaioff) à casa da família de seu namorado logo após o falecimento desse como vítima de um acidente automobilístico. É aí que, conhecendo Ágatha (Kelzy Ecard), a mãe do falecido, o protagonista descobre que a orientação sexual do morto era um tabu em sua pequena cidade de origem. Tom conhece também Francis (Gustavo Vaz), filho mais velho de Ágatha, que, desde o início, deixa clara a sua antipatia pelo visitante desconhecido bem como por qualquer motivo que possa tê-lo trazido ali. De modos diversos, a mãe e o irmão de seu namorado acabam convencendo Tom a permanecer entre eles alguns dias na fazenda.

O texto reaviva uma história que compõe a coletânea “Les Limbes”, que Bouchard escreveu em 1995 e que nunca foi encenada. Em 2010, “Tom à la ferme” foi levado às mãos do diretor Claude Poissant, que encenou a primeira versão da peça em janeiro de 2011 em Montreal, no Canadá. A montagem brasileira, cuja tradução é assinada por Armando Babaioff, parte da adaptação para cinema dirigida por Xavier Dolan, mas com roteiro desse e do próprio Bouchard. De uma para outra e chegando à terceira, houve um aprofundamento vertiginoso do psicologismo da situação com ênfase na complexidade dos signos que dão a ver a narrativa.

No passado, o namorado de Tom abandonou o interior e partiu para a grande metrópole. Agora é Tom quem faz o caminho de volta. Ele vem para enterrar o falecido, mas, de algum modo, acaba ele próprio enterrado em um buraco do qual é difícil de sair. Como publicitário, o visitante trabalha com imagem, com identidade, mas, no recorte da narrativa, ele tem acesso a outras perspectivas dessas questões. Há duas mortes e um parto; há uma família cerceada pelo olhar alheio, mas com membros extremamente solitários. Tom manda mensagens de áudio para o WhatsApp de seu namorado ausente que nunca serão ouvidas por ele. No entanto, conhece segredos do outro aos quais nunca até então teve acesso. Essas e outras ambivalências que organizam a estrutura dramática são pontos-limite cujos elos de ligação expõem a complexidade a partir da qual Bouchard, Dolan e Babaioff parecem ter preferido na sua visão do homem. Em uma frase célebre de uma de suas entrevistas, o dramaturgo diz que “os homossexuais aprendem a mentir antes mesmo de aprender a amar”. Longe de um juízo de caráter, a fala trata de uma dimensão de teatralidade. Envolvida em processos discursivos de construção, defesa e de expressão da identidade, ela tem tudo a ver com uma narrativa em que quatro personagens têm pontos de vista muito diferentes sobre um quinto que já morreu. Eis aqui um texto brilhante!

Excelente direção de Rodrigo Portella
A direção de Rodrigo Portella em “Tom na fazenda” é o seu melhor trabalho em um universo de outros já bem elogiados. A articulação de todos os elementos estéticos da obra evidencia uma concepção rica em possibilidades e que se expressa por meio de quadros muito profundos. Em primeiro lugar, há que se prestar a atenção no uso do espaço. O palco aberto, sem cortinas nem móveis tira dos personagens qualquer moldura na qual eles poderiam se apegar. A opção traz à superfície a solidão e o sentimento de perda e os obriga a se conectar entre si na falta de qualquer coisa ou pessoa melhor. A tensão desenvolvida nesse aspecto se mantém nos modos como as falas aparecem na dramaturgia cênica. Há uma série de silêncios maiores ou menores em meio aos quais as relações entre os pontos se cruzam. Nesses intervalos, a perspectiva impressionista se impõe, garantindo que a paisagem vista por Tom possa chegar ao espectador corrompida por seus filtros, o que é muito interessante.

Outro destaque da encenação é a maneira como o barro se torna um signo forte. Tanto na tradição judaico-cristã como na africana, o homem veio do barro e a ele volta. Durante as quase duas horas de espetáculo, os personagens vão se enlameando na “sujeira” que domina o chão sob seus pés de modo que suas características particulares vão gradualmente sumindo. É como se a peça estabelecesse uma curva em direção à materialidade mais profunda do homem, ao lugar onde todos se encontram. Além de belo, é um feito inteligentíssimo.

Por fim, Portella usa bem todos os níveis que tem em mãos: os atores se deitam, andam e são alçados a voos em uma rica exploração do panorama que permanece no olhar por sobre os outros elementos do texto espetacular como o cenário de Aurora dos Campos, o desenho de luz de Tomás Ribas e o figurino de Bruno Perlatto. Esses últimos colaboram com o espetáculo na medida em que ocupam seus espaços, elevando as possibilidades visuais da obra. Já elogiado, a jeito como o chão invade os personagens e os enterra exige a participação da luz e do figurino: a primeira estabelecendo o choque e o segundo se neutralizando.

É, no entanto, na concepção sonora e na direção musical de Marcello H. que “Tom na fazenda” atinge seus patamares mais elevados entre os elementos externos às interpretações. Mais uma vez, H. incluiu a banda sonora em uma produção cênica de modo a inventar um novo personagem. Graças ao som, o público tem chances de fruir, em primeiro lugar, um certo isolamento da propriedade onde quase toda a peça acontece e o resto do mundo. Em segundo lugar, na medida em que as cenas vão acontecendo, a música revela variações na intimidade entre as figuras. Por fim, H. realça o silêncio dos diálogos, escrevendo falas musicais nos intervalos de Bouchard, colaborando com a manutenção da tensão provavelmente sonhada por ele, por Dolan e por Babaioff.

Os destaques de Armando Babaioff e de Gustavo Vaz
Kelzy Ecard e Gustavo Vaz
Todo o elenco apresenta valorosos trabalho de interpretação. Camila Nhary, que interpreta Sara, a amiga de Tom e de seu namorado falecido, tem uma participação relativamente pequena na dramaturgia, mas marcante também no espetáculo. Sua personagem entra na narrativa para salvar um amigo, mas, de algum modo, acaba salvando outro, enquanto reestabelece o contato entre o mundo externo e a situação interna. E a atriz meritosamente pauta esse estranhamento, se utilizando dos bons recursos expressivos de que dispõe. Kelzy Ecard, que já foi a Mãe em outra história também filmada por Xavier Dolan (“Apenas o fim do mundo”, filme de 2016), traz sua melhor força para a personagem Ágatha, contribuindo com a montagem sem aparentemente grandes desafios.

Gustavo Vaz e Armando Babaioff repetem a dupla formada em 2009 em “Na solidão dos campos de algodão”, de Bernard-Marie Koltès, com direção de Caco Ciocler, mas agora em trabalhos muito melhores. Os dois, protagonista e antagonista, são a força que sustenta todos os demais aspectos da encenação que gravitam em seu redor. Se os outros elementos caracterizam o conflito, esse surge através de seus personagens Francis e Tom. E o resultado é muito positivo. Ambos os intérpretes apresentam excelentes trabalhos de corpo e de voz por meio dos quais se ouvem diálogos precisos e figuras interessantes em universos, a princípio opostos, mas que depois talvez nem sejam tanto. Há uma masculinidade vibrante que mantém a narrativa vinculada à questão LGBT, mas sem estar presa a ela, permitindo que se invista em voos mais altos, como a própria humanidade, por exemplo. Eis dois trabalhos excelentes que elevam os méritos dos atores na programação carioca desse ano.

Para ver, rever e aplaudir!
“Tom na fazenda” também estreou esse ano na Ucrânia, na Alemanha e na Venezuela depois de já ter sido montado em muitas outras cidades do mundo nesses apenas sete anos desde sua escritura. Em uma montagem sem patrocínio e que depende inteiramente do público, a produção tem colhido o calor das audiências em retribuição ao excelente espetáculo que apresentam. Vale a pena ver, rever e aplaudir!

*

Ficha técnica:

Texto: Michel Marc Bouchard

Tradução: Armando Babaioff

Direção: Rodrigo Portella


Elenco:

Armando Babaioff - TOM

Kelzy Ecard - ÁGATHA

Gustavo Vaz - FRANCIS

Camila Nhary - SARA



Cenografia: Aurora dos Campos

Iluminação: Tomás Ribas

Figurino: Bruno Perlatto

Concepção Sonora e Direção Musical: Marcello H.

Guitarra e Violões: JR Tostoi

Preparação Corporal: Lu Brites

Coreografia: Toni Rodrigues

Hair Stylist: Ezequiel Blanc

Fotografia: José Limongi, Renato Mangolin e Ricardo Brajtman

Assessoria de Imprensa: Bianca Senna e Paula Catunda

Direção de Produção: Sérgio Saboya

Produção Executiva: Milena Monteiro

Assistente de Produção: Pri Helena

Produção: Galharufa Produções

Idealização: ABGV Produções Artísticas

domingo, 1 de outubro de 2017

Omi – do leito ao mar (RJ)

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Foto: divulgação

Kadú Monteiro, Ivan de Oliveira, Michael Alves, Erika Ferreira e Nívea Santana


Belíssimo musical para toda a família valoriza as lendas africanas

O belíssimo musical “Omi – do leito ao mar” termina hoje sua temporada no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Produzido pela Cia. Ávida, de São Gonçalo, ele tem seu texto escrito por Gabriel Mendes, que também assina a direção. No elenco em ótimas interpretações, Nívea Santana, Kadú Monteiro, Michael Alves, Erika Ferreira e Ivan de Oliveira, esses dois últimos em preciosos destaques, apresentam em torno de cinco lendas da mitologia africana. Todas elas têm a ver com a água (“omi” em ioruba), mas a narrativa trata também de muitos outros temas além desse. Os figurinos de Valério Bandeira e a música original de Kadú Monteiro são dois entre os melhores elementos de toda a encenação. Vale a pena torcer para que o espetáculo volte a cartaz novamente.

Dramaturgia a partir de lendas africanas
A peça começa com a entrada de cinco lavadeiras, trazendo seu trabalho para as margens de um rio. Enquanto executam sua lida, lhes vêm histórias antigas à cabeça que umas contam para as outras. A primeira delas é de Oxalá (Nívea Santana) que, com a ajuda de Nanã Burucu (Ivan de Oliveira), conseguiu criar o primeiro homem da terra com a condição de que, ao morrer, o homem devolvesse todo o material com o qual tinha sido criado. A perenidade da vida humana, como marca indelével de sua natureza, é um dos primeiros temas da lenda que abre a peça.

A narrativa continua com a lenda de Euá (Michael Alves), que precisou transformar-se em rio para salvar da morte seus dois filhos; de Oloú (Alves também), que foi castigado por Oxum (Erika Ferreira) pelos maus tratos a sua esposa Prenda Bela (Ivan de Oliveira); e do Rei dos Nupes (ou Oxaguiã) (Kadú Monteiro), que, com a ajuda de Iansã (ou de Odô-Oiá) (Nívea Santana), salva seu povo.

A última história é uma lenda de Iemanjá (Kadú Monteiro), que se casou com Oquerê, o Rei de Xaci (Ivan de Oliveira), sob a condição de que esse nunca comentasse a respeito de seus seios fartos. Um dia, porém, embriagado, Oquerê quebrou o pacto e, por causa disso, Iemanjá fugiu com a ajuda de um presente de sua mãe Olocum, transformando-se em rio. Oquerê, para impedir a fuga da esposa, transformou-se em montanha, mas Xangô, filho de Iemanjá, com um raio, partiu o monte em dois, criando um vale. O rio, assim, pode seguir livremente seu curso até o mar. Fidelidade, família, carinho e liberdade são os temas dessa última lenda.

Direção de Gabriel Mendes com belíssima trilha sonora e excelente figurino
“Omi – do leito ao mar” teve sua origem a partir de uma esquete que participou do 7o Niterói em Cena, em 2014. Depois de lá, participou de outros festivais, obtendo bastantes elogios até se tornar um espetáculo longo. Nessa versão, ele tem aproximadamente oitenta minutos em um belíssimo uso do tempo. Esse aspecto, mérito fundamental da direção de Gabriel Mendes, que também assina a dramaturgia, se dá a ver pela maneira como os signos teatrais estão articulados. O espetáculo começa com um palco praticamente vazio e, ao longo de sua realização, as cenas vão encontrando seu lugar e se transformando em um ritmo equilibrado e saboroso. Nisso também se veem a colaboração, principalmente, da trilha sonora e do figurino.

A trilha sonora original de Kadú Monteiro é belíssima e faz lembrar, com muita honra, do trabalho que a Barca dos Corações Partidos vêm desenvolvendo a partir de espetáculos como “Auê” e como “Ariano Suasssuna – O auto do Reino do Sol”. As músicas surgem encantadoras, ganhando o tempo e o espaço da narrativa, mas, ao mesmo tempo, impondo suas particularidades, o que eleva as qualidades da obra. Por si só, são um espetáculo a parte. A direção musical é assinada por Monteiro, mas também por Raquel Terra. Nelson Gaia, Silvano Marciano, Walace Dantas e Raquel Terra são os músicos que executam todos os sons ao vivo durante o espetáculo.

O mesmo que se disse das canções, pode-se dizer do figurino – que é também o cenário – de Valério Bandeira. Das próprias roupas que os personagens usam, com o auxílio das trouxas que as lavadeiras trazem para lavar, saem belíssimas imagens que compõem quadros visualmente bastante potentes. Dessa forma, a variedade das histórias encontra eco nas possibilidades imagéticas de sua realização em cena, alimentando o interesse e colaborando positivamente para o excelente ritmo da narrativa.

A valorização da cultura africana
Sobre os trabalhos de interpretação, vale destacar o uso do corpo por Michael Alves e as excelentes vozes de Erika Ferreira e de Ivan de Oliveira. No todo, os cinco intérpretes apresentam bom repertório expressivo na viabilização do enorme número de personagens, se servindo do, mas também colaborando para o enorme carisma do espetáculo. Em conjunto, o grupo canta lindamente (Kadú Monteiro e Erika Ferreira em especial) e, com perceptível integração, defende de maneira unânime a obra que disponibilizam.

“Omi – do leito ao mar”, em tempos em que se descobre a cultura africana, e se apaixona por ela, colabora lindamente com a extinção do preconceito cultural. Trata-se de um belíssimo espetáculo que cumpre com habilidade, além da função de existir como obra de arte, a tarefa de integrar diferenças, fazer conhecer e ajudar a respeitar. Aplausos!

*

Ficha técnica
Adaptação e Texto: Gabriel Mendes
Cenário: Ronald Lima
Figurino e Maquiagem: Valério Bandeira
Direção Musical: Kadú Monteiro e Raquel Terra
Músicas: Kadú Monteiro
Direção de Movimento e Preparação Corporal: Anderson Hanzen
Preparação para Canto: Marília Serrapio
Iluminação: Raphael Grampola
Direção Geral: Gabriel Mendes
Stand-in: Anderson Hanzen
Produção: Erika Ferreira, Kadú Monteiro, Nívea Santana e Gabriel Mendes
Assistente de Produção: Fernanda Fernandes
Apoio de produção: Luciano Barbosa
Ilustrações: Rogério Nery
Programação Visual: Tiago Torres
Fotos: Bernardo Marques
Teaser e Vídeo: Tom Marinho
Assessoria de Imprensa: Márcia Demézio
Costureiras: Denise Chagas (figurino) e Norma Sueli Farias (adereços)
Elenco: Erika Ferreira, Ivan de Oliveira, Kadú Monteiro, Michael Alves e Nívea Santana
Músicos: Nelson Gaia, Silvano Marciano e Walace Dantas

domingo, 17 de setembro de 2017

10o Festival Niterói em Cena - Mostra de Cenas Curtas (RJ)

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Foto: divulgação

Ivan Fernandes em "Jogo da velha"


28 esquetes no 10o Festival Niterói em Cena

O 10o Festival Niterói em Cena teve a etapa da Mostra Competitiva de Cenas Curtas encerrada ontem à noite. Foram 28 esquetes apresentadas ao longo de quatro dias, de 13 a 16 de setembro, unindo cidades como São Gonçalo, Niterói e Rio de Janeiro, mas também São Paulo e Belo Horizonte em um evento bastante bonito. Os espetáculos concorrem a vários prêmios a serem conferidos pela comissão julgadora formada por Ivan Sugahara, Vilma Melo e Moacir Chaves em cerimônia de premiação que acontecerá no próximo domingo, 24 de setembro. Todas as apresentações foram gratuitas e aconteceram no Teatro Popular Oscar Niemeyer, no centro de Niterói. Destacaram-se positivamente as esquetes “Jogo da Velha” (Cia Ávida), “Aguarde para ser atendido obrigado por aguardar” (Vendaval Fulminante), “2 homens e 1 um dinheiro” (Melan Cia), “Enjaulados de la passion” (Cia. Crisálida) e “Last dance” (Este coletivo). Abaixo alguns comentários gerais sobre todos os espetáculos apresentados.

1o dia – 13 de setembro
“Jogo da velha” – Produzida pela Cia. Ávida (São Gonçalo – RJ), a esquete foi dirigida por Gabriel Mendes. Com tons épicos, a dramaturgia narra a história de uma cidade aterrorizada pela chegada de uma Velha Senhora (Ivan de Oliveira), que traz a morte para toda a vida da pequena população. Como desafio, ela impõe que só irá embora se alguém conseguir com que ela faça algo sem a sua vontade. Então, dois irmãos gêmeos (Kadú Monteiro e Michael Alves) bolam um plano para expulsá-la com a ajuda de uma música incessante e ensurdecedora e o público torce para que os corajosos heróis vençam a batalha. Com belíssimos trabalhos de interpretação e um precioso investimento estético em todos os aspectos da direção de arte, a peça que abriu a programação do Festival foi um dos melhores trabalhos apresentados nele. Excelente!

“Offshore – afastado da costa” – Assinada pelo Coletivo Criativo (Rio de Janeiro – RJ) a peça surge a partir do desejo de duas atrizes (Júlia e Lívia Bravo) que, na vida real, são irmãs gêmeas idênticas, de falar sobre sua relação com seu pai. Defendendo a proposta a partir da operação de todos os elementos estéticos (visuais, sonoros, plásticos) do espetáculo, elas têm algum mérito na aproximação do tema e de seus meios de realização com o público sobretudo quando assumem a subjetividade de sua narrativa. A esquete foi dirigida por Wellington Fagner e teve seu maior valor nos desafios da proposta de encenação, alguns bravamente vencidos, como a criatividade no uso dos signos teatrais.

“Berenice” – Realizado pelo Grupo descarte (Rio de Janeiro – RJ), o monólogo de Juliana Bittencourt com direção de Kako Leitão teve seu melhor mérito pela inclusão na pauta do evento do tema da velhice. Não há dúvidas, pois, de que é preciso discutir o que fazemos e faremos com o número cada maior de idosos em nosso mundo. Apesar da concepção apresentar algumas incoerências vistas pela indecisão sobre quais referencias estéticos utilizar – se o realismo, se o teatro contemporâneo –, a esquete conquistou o público pelo carisma da atriz e, mais ainda, do tema.

“Selecionado” – Da Arrebol Companhia de Teatro (Rio de Janeiro – RJ), a comédia escrita e dirigida por Isabele Riccart narra o azar de um homem que, enfrentando a notícia de que seu filho é homossexual, recebe constantes ligações de uma empresa de telemarketing querendo lhe vender um plano de Seguro Personal. O diálogo entre os dois personagens, interpretados por Betina Rezende e Rafael Queiroz, com destaque mais positivo para a primeira, vence a graça através da ironia. Como um todo, no entanto, a esquete perde oportunidades de aproveitar as possibilidades da narrativa, investindo mais na comédia nonsense e parando por aí.

“A mui lamentável advertência de Píramo e Tisbe” – Produzida pelo grupo Primitivos (Rio de Janeiro – RJ), a esquete dirigida por Jéssika Menkel adapta a versão de William Shakespeare (1564-1616) da lenda grega que está no meio de “Sonho de uma noite de verão” (1594), mas que ele adaptou do original de Ovídio (43 a.C – 18 d.C.) e também da de Geoffrey Chaucer (1343-1400). Com muitos méritos, sobretudo pelo modo como a concepção deu ótima unidade aos trabalhos de interpretação, a esquete tem seus pontos mais sensíveis na introdução e na finalização da narrativa. No elenco, Alex Marcolini, Raphael Joia, Francisco de Assis, Ian Oliveiras e Marcelo Britto, com destaques para os dois primeiros positivamente.

“A grande festa” – Com texto e direção de Rafael Souza-Ribeiro, o monólogo interpretado por Paula Valente teve, como seus pontos mais altos, a dramaturgia e a concepção de direção. Em cena, Valente interpreta uma socialite que dá uma festa luxuosa em seu apartamento, mas vê, diante de si, toda a decadência da sociedade que a circunda. Seu ponto de vista ultrarreacionário, como uma espécie de espelho invertido para os valores culturais que cada vez mais são difíceis de defender, se responsabilizam pela comicidade ácida que o espetáculo propicia. Além disso, a personagem surge como que uma escultura dura e fria, resistindo às transformações e sofrendo as consequências de seu conservadorismo. Por isso, foi um dos melhores trabalhos da primeira noite do festival.

“Linha de frente” – Realizada pela Espantalhos Cia. de Comédia (Rio de Janeiro – RJ), a esquete com texto de Léo Gaviole e direção de Lipe Dál-Col narra alguns momentos entre dois soldados medievais (Léo Gaviole e Luiz Prata) que estão em frente ao exército inimigo, esse último com mais chances de vencer a batalha. O despreparo e sobretudo o medo dos militares fazem nascer o temor em meio à coragem, o que vai deixando a dramaturgia cada vez mais engraçada. Com bons trabalhos de interpretação em uma proposta bastante simples, a obra encerrou a noite positivamente.

2o dia – 14 de setembro
“Anjo azul acerca de tudo” – Assinado pelo grupo Odara Produções (Niterói – RJ), o espetáculo tem como único (e valoroso!) mérito a inclusão do tema do autismo na pauta. Tanto o texto de Mônica Ferreira e de Joel Vieira, como a direção de Mario Souza, chegando às interpretações de Mônica Ferreira, de Joel Vieira, Silvano Marciano, Luana Cantinin e de Helena Dantas revelam muitas carências no uso da linguagem teatral. No todo, sobraram incoerências e faltou unidade. O trato superficial do tema, porém, não impediu o espetáculo de receber os aplausos por suas boas intenções na abertura da segunda noite de apresentações.

“A balança” – Realizada pelo grupo Teatro 96 (Rio de Janeiro – RJ), a esquete com texto e direção de Wladimir Alves Fernandes narra a história de um homem (Silvio Garcia) que chega ao inferno e lá, diante do diabo, descobre os motivos de sua condenação. O altíssimo fundo moralista da dramaturgia e sua monótona linearidade no desenvolvimento da narrativa dificultaram, talvez, os trabalhos do elenco composto por Danilo Maia, Silvio Garcia, Mariana Pompeu, Elisa Barbosa e Rodrigo Ladeira de obterem melhores resultados. O jeito superficial como os recursos estéticos foram utilizados também trouxe problemas ao espetáculo infelizmente.

“Fragmento Pagú pra quê?” – Assinado pelo grupo UchoArte (Rio de Janeiro), o monólogo dirigido por Luã Batista tem texto e atuação de Gleice Uchoa. Os belíssimos usos da luz e do figurino colaboraram para aproximar o público da personagem histórica Patrícia Rehder Galvão, a Pagu (1910-1962), figura célebre do movimento modernista da primeira metade do século XX e sobretudo da luta comunista no Brasil no mesmo período. A esquete, no entanto, apesar dos seus esforços, não conseguiu apresentar bem a personagem histórica e nem tampouco aproximá-la do público talvez pelo limite de tempo que a situação exigia. Ficou, apesar disso, o mérito pela intenção e pelo bom trabalho de interpretação.

“Do lado de cá” – Produzida pela Cia. Parioca de Teatro (Rio de Janeiro – RJ), a esquete apresenta uma deliciosa brincadeira com os códigos do teatro contemporâneo. No texto escrito por Fabrício Branco, um casal (Bayron Alencar e Cristiane Maquiné em ótimas atuações) está sentado na plateia de uma peça de teatro reagindo ao que supostamente vê. Os interesses distintos deles em relação ao programa, suas compreensões diversas de mundo e seus backgrounds artísticos opostos geram conflitos engraçados que divertiram a plateia. Eis uma ótima comédia!

Raquel Alvarenga em
"Aguarde para ser atendido obrigado por aguardar"
“Aguarde para ser atendido obrigado por aguardar” – Realizada pela Vendaval Fulminante (Rio de Janeiro – RJ), a excelente esquete foi um dos melhores trabalhos apresentados no Festival. O belíssimo texto escrito por Clara Meirelles é dividido em dois monólogos. No primeiro, uma mulher (Ana Abbott) às portas da meia idade requisita por telefone o congelamento de seus ovários e ganha, de “brinde”, a possibilidade de congelar-se inteiramente de modo que nem envelheça e nem morra. No segundo, décadas depois, a mesma mulher (Raquel Alvarenga) liga para o mesmo serviço e tenta oferecer suas impressões sobre o serviço utilizado, tentando modificar o plano. De maneira leve e carismática, a comédia oferece ao público uma discussão pertinente que é tratada com complexidade e poesia. Os excelentes trabalhos de interpretação qualificaram ainda mais o todo positivamente. Excelente!

“Caim” – Assinado pela Oficina Social de Teatro (Niterói – RJ), o espetáculo com texto de Sylvio Moura e direção de José Geraldo Demezio começa com a luta de Caim e de Abel e o consequente assassinato do segundo pelo primeiro. O mote bíblico, desafiando os preconceitos e vencendo todos eles com relativo mérito, é ponto de partida para um embate entre os homens e deus. O excelente trabalho de interpretação de Jean Maciel (Caim), ao lado da ótima dramaturgia, alçou a esquete dramática para lugar de destaque na noite positivamente. Valeu a pena ter visto!

“Amor em 8 tempos” – Produzido pelo grupo Potcha (Rio de Janeiro – RJ), o espetáculo é uma comédia romântica como zilhões das outras que se conhece bem. O texto de Raul Franco apresenta um homem e uma mulher (Raul Franco e Gizzela Mascarenhas) que se conhecem, se apaixonam, passam a morar juntos, brigam e se separam, oferecendo à direção de Carmem Frenzel o desafio de oxigenar a velha história batida que, sem qualquer preconceito, continua agradando o grande público. A colaboração de Frenzel, vencendo o desafio com criatividade, parece ter sido vital e mereceu os aplausos recebidos no encerramento da última noite de apresentações do festival.

3o dia – 15 de setembro
“El salto de la muerte” – Realizado pelo Núcleo Artístico Gema (Rio de Janeiro), o monólogo circense tem texto e atuação de Renato Garcia. De algum modo recuperando o universo da palhaçaria, o espetáculo apresenta uma situação bem simples, mas que é, em certa maneira, interessante: um palhaço se propõe a saltar sobre o chão e permanecer vivo. Com a participação do público, obstáculos são impostos a esse salto, desenvolvendo a narrativa. Em questão, está o risco físico, elemento vital capaz de aproximar o público do texto espetacular de forma ímpar. Com méritos, a esquete consegue atingir o objetivo de fazer o público torcer pelo herói e ganha “de brinde” uma cena final com uma poética relativamente interessante. Um bom espetáculo na abertura da terceira noite de apresentações.

“Os construtores da ponte” – Produzido pela Agromelados Cia. Teatral (Niterói – RJ, o espetáculo revelou problemas interessantes no choque entre a dramaturgia literária e a dramaturgia cênica, embate esse tão caro à pesquisa em artes cênicas. De um lado, o texto de Sylvio Moura quis adaptar um conto homônimo do indiano Rudyard Kipling (1865-1936) que narra a história da construção de uma ponte sobre o rio Ganges sob uma forte tempestade que dificulta o trabalho dos operários. De outro, a direção de Erika Ferreira quis explorar ao máximo as potencialidades estéticas de três escadas de alumínio dobráveis. No palco, Ferreira venceu com facilidade, tornando obsoleta a dramaturgia e boa parte das interpretações, além dos figurinos e das interpretações. O resultado foi uma propaganda de como pode ser usada de maneiras interessantíssimas uma escada de alumínio, mas quase nada além disso.

“Do fim para a frente” – Assinada pela Coletivo Dupla de 3 (Rio de Janeiro 0 RJ), a esquete com texto de Isis Pessino e interpretação dessa e de Julianna Firme apresenta uma divisão entre mente consciente e corpo de uma mesma personagem aprisionada em um buraco no fundo o mar. Na encenação, de um lado, a mente fazendo seus percursos em busca da compreensão do momento e da saída das dificuldades. De outro, o corpo com suas idiossincrasias. No geral, o espetáculo teve maiores méritos pelos bons usos das ferramentas cênicas na viabilização dos objetivos aparentes da obra.

“Elenco de apoio” – Produzida pela Cia. de três (Rio de Janeiro – RJ), a comédia com texto baseado no original de Fernanda Crescêncio e de Katia Letícia traz duas jovens personagens atrizes na luta pelo reconhecimento profissional. Elas (Patrícia Oliveira e Laura Serpa em ótimas atuações), depois de vários testes para trabalhos em vídeo, são escaladas para uma novela das 21horas na Rede Globo e, por causa disso, embarcam para o Rio de Janeiro. As coisas, infelizmente, não saem exatamente como o esperado e o público se diverte com as desventuras das duas garotas. De um modo simples e bastante positivo, a obra agradou o público e recebeu merecidamente calorosos aplausos.

Akauã Santos e Cássio Duque em
"2 homens e 1 dinheiro"
“2 homens e 1 dinheiro” – Assinado pelo grupo Melan Cia (Rio de Janeiro – RJ), o espetáculo recupera com vigor e muita qualidade a estética da palhaçaria. No palco, em excelentes interpretações, Akauã Santos e Cássio Duque, que assinam também a dramaturgia, são dois desconhecidos que esperam um ônibus com apenas o dinheiro da passagem em seus bolsos. Embates acontecem entre eles e, dessa situação simples, muitas coisas acontecem. Elogiáveis usos dos tempos, dos corpos, dos elementos visuais e sonoros, elevaram a já alta qualidade do trabalho nessa que foi uma das melhores esquetes do festival. Brilhante!!

“Sobre Viver” – Realizado pela Fantástica Cia. (Rio de Janeiro – RJ), o espetáculo dirigido por Carmen Frenzel apresenta uma situação abstrata, unindo notícias reais tiradas da mídia brasileira e mundial à reflexões filosóficas sobre vários temas caros à contemporaneidade. No elenco, Andra dos Anjos, Deco Mansilha, Marcelo Alvim, Mariana Queiroz, Max de Oliveira e Nathália Araujo são veículos de expressão desse discurso que revela o absurdo da época em que vivemos. Como maior mérito, está o esforço em pautar a estética do absurdo na programação do festival.

“Aracy” – Escrito, dirigido e interpretado por Flavia Millioni, a esquete retoma parte dos muitos méritos do seu espetáculo “O quadro ou Pequeno poema para o fim do mundo” com galhardia. Em cena, a atriz narra, de um jeito cuja simplicidade é seu maior e melhor elemento poético, o suicídio de sua avó materna, personagem que dá nome ao trabalho. A pureza do discurso cênico ajuda o público a se conectar com o espetáculo de maneira vibrante de modo que a terceira noite do festival terminou de um jeito doce, delicado e sensível positivamente.

4o dia – 16 de setembro
Maria Hermeto e Guilherme Gomes em
"Respiro"
“Respiro” – Produzido pelo grupo nós + 2 (Rio de Janeiro – RS), esse espetáculo de dança abriu de maneira vibrante a quarta e última noite do festival. Convocando parte do público para dividir o palco com os intérpretes-bailarinos (Guilherme Gomes e Maria Hermeto), a produção criou um meio de fazer com a audiência se aproximasse fisicamente dos personagens, mas, mais e melhor do que isso, talvez para pontuar a responsabilidade do olhar alheio nas relações humanas. Ao longo da sessão, de algum modo, o olhar silencioso do público parecia invadir a relação estabelecida entre os personagens e essa parece ser uma questão cara o projeto artístico visto. Foi uma excelente participação da dança no evento.

“O último delírio de Van Gogh” – Realizado pela Cia de Arte EM CriAção (Rio de Janeiro – RJ), a dramaturgia do espetáculo assinada por Jiddu Saldanha apresenta um conjunto de desabafos imaginários do pintor holandês Vincent Van Gogh (1853-1890) ao seu irmão Theo Van Gogh (1857-1891), que era comerciante de obras de arte. Através de uma verborragia mental, o espectador adentra à parte do universo mental do artista interpretado de maneira brilhante por Rafael Mannheimer. O limite do tempo talvez tenha sido o maior desafio para o alcance de objetivo tão nobre que houve aqui um belo uso das potencialidades dos signos na defesa de um espetáculo bastante interessante.

Thalita Ribeiro e Rafael Silva em
"Enjaulados de la passion"
“Enjaulados de la passion” – Assinada pela Cia. Crisálida (Rio de Janeiro – RJ), a comédia foi uma das mais aplaudidas de todo o festival. Com texto, direção e atuação de Thalita Felix Ribeiro e de Rafael Peixoto da Silva, ela satiriza as telenovelas mexicanas, fazendo o público se lembrar de “El Pánico”, ótima comédia de Rafael Spregelburd que Ivan Sugahara dirigiu há dois anos. Com ótimos trabalhos de interpretação, excelente uso do palco e desenho de ritmo vibrante, o espetáculo divertiu o público. Foi ótimo!!

“Meu corpo noite adentro” – Realizada pelo Grupo Übermensch (São Paulo – SP), a peça começa narrando uma noite na vida da travesti Mona (Wallace Ruy), mas, lá pelas tantas, abandona a proposta para assumir um tom mais de discurso direto em defesa da luta contra o preconceito de orientação sexual e de identidade de gênero. Em termos estéticos, os valores da esquete caem nesse segundo ponto, embora a força política da obra continue. Com texto de Rafael Carvalho e de William da Silva, e direção do primeiro, o espetáculo se conecta com os célebres “BR-Trans” (de Silvero Pereira) e “Borboletas de sol de asas magoadas” (de Evelyn Ligocki), mas fica atrás desses por investir pouco nos recursos estéticos além da dramaturgia. Destaque positivo para o uso das projeções.

“A boneca e a borboleta” – Produzido pela Ato I Cia de Teatro (São Gonçalo – RJ), o espetáculo com texto, direção e atuação de Bruno Praxedes e de Suelen Gom narra a história de um cientista que, ao criar uma boneca de brinquedo, enfrenta a reprovação dela quanto a diversos aspectos de sua existência. Desconsiderando o mito de “O pigmalião”, que a gente conhece por Ovídio e por George Bernard Shaw (1856-1950) principalmente, a dramaturgia estanca monotonamente em cima de um diálogo infindável e extremamente redundante. Isso prejudicou bastante as interpretações e impediu o espetáculo como um todo de se aproximar mais do público e, assim, conseguir melhores resultados infelizmente.

Lorena Tófani e Henrique Cordoval
em "Last Dance"
“Last dance” – Realizado pelo grupo Este coletivo (Belo Horizonte – RJ), o espetáculo foi um dos mais belos trabalhos apresentados ao longo do festival. Criada pelos excelentes Lorena Tófani e por Henrique Cordoval, a obra coloca em questão as transformações ocorridas nas relações ao longo da convivência: os distanciamentos, as aproximações, as diferenças, os caminhos diversos que ora afastam, ora unem as pessoas. Unindo dança e teatro em um excelente uso do tempo, dos aspectos plásticos da luz e do figurino e sobretudo dos corpos, das vozes e das interpretações como um todo, eis um dos pontos altos da noite.

“Contorções afogadas” – Produzido pelo grupo InVersos (Rio de Janeiro – RJ), o espetáculo investiu no lirismo para tratar do modo como duas pessoas se conhecem e estabelecem suas relações. Escrita por Iza Lanza e dirigida por Edney D`Conti, a obra, que teve interpretações de Lanza e de D`Conti, parece ter procurado acessar signos sensoriais na defesa de seus intentos artísticos. Talvez um tanto quanto abstrato demais em alguns momentos, nem sempre parece ter mantido a conexão com o público, perdendo oportunidades de se viabilizar de jeito mais simples, mas mais efetivo. Encerrou, porém, o festival, apresentando corajosamente um contexto estético altamente poético.

Edilene Água Suja

Edilene Água Suja: uma hostess memorável

O 10o Festival Niterói em Cena começou no dia 12 de setembro e vai até o próximo dia 24. A partir de hoje, começa a mostra de espetáculos longos e continuam as atividades formativas (as oficinas), as festas e os debates entre os grupos e com o público. Ressalta-se que todas as atividades são gratuitas. Eis uma bela oportunidade para respirar arte, conhecer pessoas novas, revisitar obras já conhecidas e ser feliz. Aplausos para a equipe produtora, liderada por Fábio Fortes, e para a hostess Edilene Água Suja, sem dúvida, um dos pontos mais altos de todo o evento. Mais informações, confira no site: https://www.niteroiemcena.com.br/

sábado, 9 de setembro de 2017

Suassuna – O Auto do Reino do Sol (RJ)

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Elenco em divulgação


Um dos pontos mais altos da temporada nacional de 2017

“Suassuna – O Auto do Reino do Sol” é o mais novo excelente espetáculo da companhia Barca dos Corações Partidos, o mesmo grupo que recentemente assinou sucessos como “Auê” e “Gonzagão – A lenda”. Com texto de Braulio Tavares e canções de Chico César, Alfredo Del Penho e de Beto Lemos, o musical é inteiramente original para a glória do teatro brasileiro. Trata-se de uma peça escrita para o dramaturgo paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), que estaria completando 90 anos em junho último. Não é uma biografia dele, nem tem colagens de textos dele, mas é uma homenagem inédita composta a partir do seu universo. Produzida por Andrea Alves da Sarau Agência, a obra dirigida por Luís Carlos Vasconcellos fez uma elogiada primeira temporada no Teatro Riachuelo, na Cinelândia, Rio de Janeiro, e agora está em cartaz em São Paulo, no Sesc Vila Mariana, até o início de outubro. Vale a pena correr para garantir os ingressos a fim de não perder um dos pontos altos da temporada nacional de 2017. 

Dramaturgia, direção e trilha sonora excelentes!
A história começa com a chegada de um Circo-Teatro a uma região fictícia chamada Vale do Soturno, no interior do sertão nordestino, onde os estados do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e de Pernambuco se confundiriam. A trupe, liderada por Sultana (Adrén Alvez), ensaia seu novo espetáculo: “As novas aventuras de Dom Quixote de La Mancha”, em que Escaramuça (Eduardo Rios) interpretará o personagem título, Cabantõe (Renato Luciano) será o fiel escudeiro Sancho Pança e Mosquito (Fábio Enriquez) será a mula Rocinante. De repente, às vésperas da apresentação, chegam ao acampamento o casal Lucas Fortunato (Alfredo Del Penho) e Iracema Moraes (Rebeca Jair). Um diz que eles estão casados há um ano, outro que há um mês. É preciso decidir se eles serão aceitos ou não no grupo de artistas. Aos poucos, fica-se sabendo o que está por trás do interesse desses dois últimos em fugir com o circo.

A região dO Soturno é dominada por duas famílias inimigas: a do major Antônio Moraes (Ricca Barros) e a da matriarca Eufrásia Fortunato (Ádren Alvez). Ele é tio da jovem Iracema, ela é avó do jovem Lucas. Quando Lucas raptou Iracema, matou dois jagunços do tio de sua amada. E agora Antônio Moraes quer vingança. Nesse sentido, a trupe de Sultana se vê no meio de uma guerra sertaneja com a qual tem mais relações do que gostaria.

Em “O Auto do Reino do Sol”, questões de honra, a dureza da vida no sertão, a religiosidade, a habilidade de resolver problemas e o amor são ingredientes para uma narrativa popular originalmente escrita por Braulio Tavares. Coberta de influências do universo do saudoso dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, a obra acaba não sendo nem de Suassuna, nem sobre o homenageado, mas para ele. Com tão magnífica montagem, a Barca dos Corações Partidos, em uma declaração de amor a tudo o que Ariano amava, eleva a ele um sublime agradecimento em nome do público brasileiro e de si próprio.

Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho assinam as músicas originais. Cada uma é mais bonita que a outra, tocando fundo na alma dos brasileiros de todas as regiões, embargando as vozes das audiências de todos os Brasis. Temas das canções, a guerra que o sertanejo trava contra a dureza da seca, o amor como pedra de salvação dos espíritos em meio à corrupção, a força da natureza e o poder da religião são como impulsos que unem os homens entre si, mas também com sua gente e com o lugar por onde perambulam. são. Todas elas são tocadas e cantadas pelo elenco com tamanha maestria que só nos resta orgulhar-se da oportunidade de estar diante de tal experiência estética e, mais ainda, de reconhecer que eles são artistas brasileiros, nossos irmãos, em luta como nós em país tão castigado. Gabriel D’Angelo, e André Garrido e Bruno Pinho, como designers de som associados, valem ser citados.

Sobre palco quase vazio, sem quase qualquer cenário, a direção de Luiz Carlos Vasconcelos, assistido por Vanessa Garcia, faz do palco metáfora para a aridez do sertão em que os personagens lutam para se impor através de suas existências. Cada quadro viabiliza um jogo de movimentações que propõe novas regras, defende-as e as subverte na manutenção de um ritmo interessante, que é rico em possibilidades. O público vence o desafio de identificar as forças que circundam cada novo panoramas. E ganha com o registro dessas variedades que, às vezes, se repetem de modo a conservar a unidade estética da obra como um todo e, às vezes, são surpreendentes de maneira a manter ativo o estado de atenção. Dramaturgia, trilha sonora e direção, assim, são três bases iniciais sobre as quais fundam-se os primeiros méritos do texto espetacular, sendo eles acrescidos de outros, não menos valorosos, mas mais ricos em detalhes.

Belas contribuições do figurino, do cenário e da iluminação
O figurino de Kika Lopes e de Heloísa Stockler polui o quadro inicial com enorme carga de texturas, cores, formas, detalhes e referências em um embaraço neomaneirista que faz “O Auto do Reino do Sol” lembrar o Grupo Galpão em espetáculos definitivos como “Romeu e Julieta”. Pouco a pouco, porém, a profusão se estabiliza e, do meio do emaranhado de temas, começa a se ver relativa particularidade. Ao final do espetáculo, a glória do figurino será contemplada, no todo e por cada parte, pela ebulição proposta. Trata-se talvez um comentário sobre as oposições temáticas de que o espetáculo fala: a vida e a morte, a esperança e a conformidade, a riqueza e o começo, o sol e a noite, o amor e o ódio, a partida e a chegada, o fim e o começo. Tudo isso parece estar ao mesmo tempo em um só quadro que é difícil de explicar, mas muito fácil de identificar. Vale nomear nesse item o visagismo assinado por Uirandê de Holanda e por Angélica Ribeiro.

A cenografia de Sérgio Marimba tem dois grandes momentos: um carro metálico por onde se movimenta a trupe de Sultana pelo sertão e a lona que, multiforme, assume várias funções no fundo do palco, às vezes, desparecendo e deixando ver o infinito. São participações pequenas, mas que, dentro das possibilidades, elevam as qualidades estéticas da obra como um todo, inclusive por nobremente oferecer espaço para outros elementos, como o figurino e a trilha sonora, atingirem maior importância. A iluminação de Renato Machado, do céu estrelado às inclusões da plateia através da luz cumpre igualmente mais modesta colaboração, mas nem por isso menor ou menos valorosa.

Eduardo Rios, Renato Luciano, Fábio Enriquez, Adrén Alvez nA Barca dos Corações Partidos
A Barca dos Corações Partidos é uma companhia, isto é, um coletivo onde diversos artistas unidos entre si constroem uma história conjunta unindo histórias pessoais. Nesse sentido, é inválido destacar o trabalho desse ou daquele profissional se não se entender o resultado como um fruto de processo que se deu e que se dá pela parceria espetáculo após espetáculo. Em “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”, há quatro destaques que refletem as brilhantes participações de Beto Lemos (o advogado de Dona Eufrásia), de Ricca Barros (o Major Antônio Moraes), de Alfredo Del Penho (Lucas), de Rebeca Jamir (Iracema) e de Chris Mourão e de Pedro Aune. São eles: Eduardo Rios e Renato Luciano (a dupla de palhaços), Fábio Enriquez (o jagunço Casimiro) e Adrén Alvez (Dona Eufrásia e Sultana).

Renato Luciano e Eduardo Rios
Eduardo Rios (Dom Quixote) e Renato Luciano (Sancho Pança) defendem a difícil arte da palhaçaria, uma técnica centenária de artes cênicas sobre a qual inúmeros teóricos, historiadores e pesquisadores escrevem há dezenas de anos. Em suas construções, se dão a ver toda a complexidade da forma – uma esquina de claros e escuros, de tragédias e comédias, de ironia, de ingenuidade e de esperteza, de dor e alegria – mas também um fluxo de marcas que assinala seus envolvimentos com a particularidade da dramaturgia. Seus personagens Escaramuça e Cabantõe, que por sua vez interpretam outros personagens na peça dentro da peça, são artistas sertanejos, palavras que cheiram à redundância. Neles se encontram a criatividade e a força do povo, a alegria e a ingenuidade, a malandragem e a pureza das quais tantas vezes Ariano Suassuna se utilizou para compor seus heróis. O público se diverte em seus números de plateia, torce por eles nas partes da narrativa em que essa se apresenta mais fechada e vibra pelos trabalhos aplaudindo os intérpretes ao final da sessão. É maravilhoso!

Adrén Alvez
“O Auto do Reino do Sol” tem ainda o excelente trabalho de Fábio Enriquez e o fenômeno Adrén Alvez. Sobre o primeiro, que se destacou também em “Auê”, vale ressaltar o modo como o palco enorme parece pequeno em seus solos. O intérprete capta a atenção e devolve ao público exuberante gestual, expressões mergulhadas em técnica e com altíssimo controle da espontaneidade e uso da voz magnificamente meritoso. Sem dúvida, é um dos grandes trabalhos de interpretação de 2017. Sobre o paraibano Adrén Alvez, a recorrência dos elogios que ele acumula ao longo de sua já sedimentada carreira nos palcos da região sudeste seja como ator, seja como cantor aponta para alguém sobre quem o futuro dirá se tratar de um dos mais notórios artistas desse início de século XXI. Ele é um fenômeno da natureza por sua potência musical, por sua força interpretativa, por seu enorme talento e sobretudo pelo modo ímpar como a cada nova produção ele se renova e ganha mais notoriedade. Vale a pena assisti-lo desde já para fazer parte dessa história.

Por fim, na análise das interpretações, há que se dizer que esse espetáculo apresenta Rebeca Jamil, cujo brilho aumenta gradativamente ao longo do espetáculo até seu personagem Iracema dominar a narrativa através de seu trabalho bastante positivo como atriz. Eis um novo nome nascendo que se merece acompanhar!

Relato de audiência: o mais longo aplauso
Há muito tempo não uso a primeira pessoa do singular na escrita das críticas publicadas aqui, mas talvez valha agora uma exceção porque há muito tempo não presencio o que eu testemunhei na plateia de “Suassuna – O Auto do Reino do Sol”. Eu assisti à peça em uma sessão corriqueira, isto é, nem estreia, nem estreia vip, mas ao lado de um público de pessoas anônimas, que compraram seus ingressos e que se prepararam, em um dia qualquer, para ver uma peça sem atores globais. No instante em que o espetáculo acabou, a massa de pessoas pôs-se de pé a aplaudir sonoramente em um movimento vibrante que durou muito além do normal. Isso, aos meus olhos acostumados com a gentileza do público brasileiro, criou uma energia capaz de marcar o momento para sempre. Relatar essa ovação longa, espontânea, afetuosa e grata da audiência à montagem vista quer ser aqui um convite para se prestar a atenção nessa peça e no que ela causa em nossa história. Eis um grande espetáculo!

*

SUASSUNA – O AUTO DO REINO DO SOL

Uma encenação de Luiz Carlos Vasconcelos
Texto: Bráulio Tavares
Música: Chico César, Beto Lemos e Alfredo Del Penho
Idealização e Direção de Produção: Andrea Alves

Com a Cia. Barca dos Corações Partidos: Adrén Alvez, Alfredo Del Penho, Beto Lemos, Fábio Enriquez, Eduardo Rios, Renato Luciano e Ricca Barros.

Atriz convidada: Rebeca Jamir
Artistas convidados: Chris Mourão e Pedro Aune

Cenografia: Sérgio Marimba
Iluminação: Renato Machado
Figurinos: Kika Lopes e Heloisa Stockler
Design de som: Gabriel D’Angelo
Assistente de direção: Vanessa Garcia
Coordenação de Produção: Leila Maria Moreno
Produção Executiva: Rafael Lydio

Apoio: One Health e ONS

domingo, 27 de agosto de 2017

Agosto (RJ)

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Foto: Silvana Marques

O elenco

A glória de Guida Vianna!


“Agosto” é a versão brasileira do celebrado “August: Osage County”, texto escrito há dez anos pelo norte-americano Tracy Letts. Dirigida com brilhantismo por André Paes Leme, a montagem é protagonizada por Guida Vianna em excelente trabalho de interpretação. Ao seu lado, Letícia Isnard, Cláudia Ventura, Eliane Costa, Isaac Bernat, Cláudio Mendes, Alexandre Dantas e Lorena Comparato também apresentam ótimos trabalhos de interpretação em elenco também composto por Marianna Mac Niven, Julia Schaeffer e Guilherme Siman. A história gira em torno da família Weston, cujo patriarca desapareceu deixando a esposa e as três filhas sem notícias, mas vai além, dissertando sobre o modo como as relações que as pessoas estabelecem podem interferir em suas personalidades. Esse excelente espetáculo, produzido por Andrea Alves e por Maria Siman, fica em cartaz no teatro do Oi Futuro do Flamengo, na zona sul do Rio de Janeiro, até 17 de setembro.

A dramaturgia premiada de Tracy Letts
Em “August: Osage County”, o lugar e a época em que a história se passa são aspectos bastante relevantes para se perceber os personagens do texto original do norte-americano Tracy Letts. A peça começa com a descrição da casa da família Weston, um lugar velho, grande e empoeirado que sobrevive ao tempo e ao sol escaldante no centro-sul dos Estados Unidos em cujos cômodos toda a história vai se passar. Os donos da propriedade são Beverly Weston (Isaac Bernat) e sua esposa Violet (Guida Vianna). Ele foi um professor universitário que, há quarenta anos, ganhou certo renome nacional como poeta, mantendo-se, porém, durante todos esses anos, sem escrever mais. Ele é casado com Violet Weston, a protagonista da narrativa, que está sofrendo de câncer na boca. Tudo se passa em 2007, durante o mês de agosto. No hemisfério norte, o insuportável calor do verão já deixou de ser bem-vindo e a estação começa a entrar no fim. O ponto de partida da dramaturgia é a contratação de Johnna (Julia Schaeffer), uma descendente de indígenas norte-americanos, que é trazida por Beverly para auxiliar nos cuidados de Violet.

Letts não escreveu aqui uma peça de acontecimentos. O conflito inicial se estabelece quando a irmã e as três filhas de Violet começam a chegar, prestando solidariedade à matriarca quatro dias depois do desaparecimento do pai, o velho Beverly. E o final se dá quando as pessoas vão embora. Nesse sentido, a dramaturgia se estrutura pelo jeito particular como cada personagem se dá a ver a partir do contato com os outros. São as relações diferenciadas que eles têm entre si que vão trazendo à superfície aspectos que estavam escondidos. A casa Weston é um ecossistema. Lá pelas tantas, já não importa mais essa ou aquela formiga, mas o labirinto intrincado que as une e as separa. O calor, a doença, a velhice, o desparecimento, as frustrações, as decepções parecem interferências do dramaturgo para mobilizar os personagens, obrigando-os a se revelar para nós, que estamos de fora.

As meninas Weston são Bárbara (46) (Letícia Isnard), Ivy (44) (Marianna Mac Niven) e Karen (40) (Claudia Ventura). Mattie Fae (Eliane Costa) é a irmã de Violet, que também oferece bases para o contraponto. Bárbara traz seu marido Bill (Isaac Bernat) e sua filha Jean (Lorena Comparato). Karen traz seu noivo Steve (Alexandre Dantas). Mattie Fae vem acompanhada de seu marido Charlie (Claudio Mendes) e de seu filho Júnior (Guilherme Siman). Ivy não traz ninguém. Cada um desses onze personagens são pequenos universos onde o contato com os demais vai interferir do balanço de seus sistemas planetários individuais. No recorte da peça, uns sofrem mais interferências que outros. No primeiro grupo, podem-se ver Violet e Bárbara e depois Ivy, Karen, Mattie e Jean. No segundo, Johana e os homens Bill, Charlie, Júnior e Steve. Isso faz ver outra questão importante para o texto: as oposições entre sol e lua, entre dia e noite, entre claro e escuro, entre homem e mulher.

Aa janelas da casa Weston receberam, por parte de seus proprietários, uma película muito escura que impede com que o sol entre pelas janelas. Assim, no interior, é difícil reconhecer quando é dia ou noite. No embate contra o elemento masculino sol, o elemento feminino lua marca suas posições. Violet anuncia, em um determinado momento, que ela é mais forte que o marido, pois foi ela quem ficou até o fim. “August: Osage County”, título que Letts pegou de um poema de Howard Starcks (1929-2003) é, sim, uma peça sobre família, mas mais do que isso é sobre mulheres e sobre a capacidade delas de se reinventar. E também sobre o que é a força, como ela é e pode ser identificada e para que ela serve.

Nos Estados Unidos, a peça estreou, em junho de 2007, em Chicago, seguida de uma célebre montagem na Broadway. Desde então, recebeu inúmeros prêmios – incluindo o Tony e o Pulitzer – tanto de teatro como de literatura em todos os lugares do mundo onde novas montagens aconteceram. Na noite de natal de 2013, a versão cinematográfica teve lançamento mundial com Meryl Streep no papel de Violet e de Julia Roberts no de Bárbara. As duas receberam indicações ao Oscar de Melhor Atriz e de Melhor Atriz Coadjuvante, entre outras honrarias. No Brasil, a produção recebeu o péssimo nome de “Álbum de família”, uma célebre peça de Nelson Rodrigues que não tem absolutamente nada a ver com Tracy Letts. Desse dramaturgo, “Agosto” é o segundo texto montado no Brasil. Em 2014, Mario Bortolotto, com o grupo Cemitério dos Automóveis, produziu “Killer Joe”, que foi bastante bem avaliada também.

Excelente direção de André Paes Leme
A produção de Andrea Alves e de Maria Siman oferece à direção de André Paes Leme um ponto de partida essencial: a alta qualidade de um elenco numeroso. Em “Agosto”, acontece uma coisa infelizmente rara no país: grandes figurões do teatro brasileiro juntos em cena. Letícia Isnard, Isaac Bernat, Alexandre Dantas, Claudia Ventura, Eliane Costa e Cláudio Mendes se unem a Guida Vianna (Shell de Melhor Atriz em 2004), cujo aniversário de 40 anos de carreira se comemorou em 2015. A estreia dela foi em 21 de outubro de 1975, na peça “O dragão”, de Eugène Scwarz, dirigida por Maria Clara Machado, em que ela interpretava Lídia.

A versão brasileira de “Agosto”, traduzida por Guilherme Siman e adaptada por André Paes Leme, tem um personagem a menos (o Xerife) e é uns 30 minutos menor que a original, mas o corte não reduz os investimentos de Letts felizmente. A opção parece ter atendido a um interesse de equilíbrio, pois é possível pensar que a equalização dos elementos cênicos visaram ao preciosismo da dramaturgia premiada. Dito de outro modo, para haver um texto verborrágico e um jogo de intepretações construído a partir de nuances muito sensíveis, era preciso economizar nas outras marcas estéticas.

Leme, assistido por Anderson Aragón, subverte os espaços, fazendo quadros diferentes dividirem o mesmo lugar no palco. O feito colabora na valorização das relações entre os personagens. Por outro lado, há paisagens coletivas que oxigenam a tensão, sugerindo beleza em panorama tão inóspito. O momento em que os personagens tomam água e a disposição deles na mesa do jantar são exemplos disso. Há ainda a defesa do ritmo: nenhuma fala surge por cima da outra, tudo é bem articulado, cada briga se constrói aos poucos, se desenvolve sem pressa e acaba de modo similar. Isso constrói a linearidade capaz de dar a ver a metáfora que se apontou aqui: não é uma narrativa de fatos, mas uma comentário sobre relações.

A luz de Renato Machado, como sempre apresentando um trabalho inteligente, mantém lâmpadas acesas através de uma tela viradas em direção ao público durante as quase duas horas e tanto de sessão. O resultado é a participação definitiva na construção de um clima sufocante. Seu desenho de luz, talvez o melhor dos elementos visuais de “Agosto”, torna suportável a narrativa, mantendo-a tocante, interessante, envolvente e emocionante para não elogiar mais.

A carência de objetos é positiva e valoriza o texto. Nesse sentido, há que se aplaudir o trabalho de Carlos Alberto Nunes na concepção de cenografia. O figurino de Patrícia Muniz, no mesmo sentido, une as mulheres em guarda-roupas simples e elegantes, com destaque para a regularidade do design dos sapatos. A música de Ricco Viana eleva a qualidade estética do espetáculo através de uma trilha que incide, mas não substitui nem o texto e nem as interpretações positivamente.

A Brava Guida Vianna!
Embora haja trabalhos de interpretação menos interessantes nessa montagem, valem citar positivamente as participações de Cláudio Mendes, de Alexandre Dantas e de Lorena Comparato ao lado das de Eliane Costa, Cláudia Ventura e de Isaac Bernat com destaque ainda para Letícia Isnard e sobretudo para o de Guida Vianna. Aproveitando as possibilidades que o recorte permite para cada construção, esses atores fazem vibrar o texto de Letts e a encenação de Leme nessa produção de “Agosto”.

Ventura deixa ver o quanto as ilusões são essenciais para sua Karen bem como seu esmero em defendê-las como em uma guerra pela sobrevivência. Costa imprime na cena o modo como talvez sua Mattie precisa se defender com acidez do seu presente frustrante. O Bill de Bernat, amarrando-se em calma irônica, garante lugar seguro onde é possível se abrigar contra a mágoa de sua ex-esposa. E a Bárbara de Isnard, pouco a pouco, aceita a missão de tomar o lugar de sua mãe em uma vida conformada, mas nem um pouco menos ácida. Nessas construções, os universos particulares atingem ótimo resultado, mas nem um é apresentado de modo tão excelente quanto o de Guida Vianna.

Em cada nova entrada entre as muitas de Violet no texto, Vianna está cada vez melhor. Sua voz clara e possante não esconde as nuances, mas as valoriza. Seu corpo está plenamente entregue ao trabalho, suas intenções atingem a audiência em um misto de força e de sensibilidade, seus olhares deixam ver que há várias dimensões em cada reação. Não há dúvidas de que Violet, defendido de maneira tão brilhante e tão diferente por Meryl Streep no cinema, é a glória de Vianna no teatro como atriz. Não há lugares comuns, não há modéstia, não há economia: tem-se aqui a coragem, o enorme talento e o resultado de décadas de experiência recebendo merecidamente os gritos de “Brava!” da plateia no aplauso final.

Um grande espetáculo em cartaz
De “Agosto”, talvez a coisa mais importante que se leva para casa é a ideia de rede que identifica, contextualiza e constrói os personagens, seus valores e suas atitudes. O público, ele também envolvido em suas teias de relações, ganha na peça um ponto de vista para avaliar seus panoramas nos quais pode-se ver preso, de onde pode se libertar ou pode ainda prender outras pessoas. Eis um grande espetáculo em cartaz.

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Ficha técnica

Texto: Tracy Letts

Tradução: Guilherme Siman

Direção e Adaptação: André Paes Leme

Direção de Produção: Andrea Alves e Maria Siman

Idealização e Coordenação Geral: Maria Siman

Elenco: Guida Vianna (Violet Weston), Letícia Isnard (Barbara Fordhan), Alexandre Dantas (Steve Heidebrecht), Claudia Ventura (Karen Weston), Claudio Mendes (Charlie Aiken), Eliane Costa (Mattie Fae Aiken), Guilherme Siman (Charlie Júnior), Isaac Bernat (Beverly Weston/Bill Fordham), Julia Schaeffer (Johnna Monevata), Lorena Comparato (Jean Fordham) e Marianna Mac Niven (Ivy Weston).

Diretor Assistente: Anderson Aragón

Cenografia: Carlos Alberto Nunes

Figurino: Patrícia Muniz

Iluminação: Renato Machado

Música: Ricco Viana

Assessoria de Imprensa: Ney Motta

Fotografia: Silvana Marques

Patrocínio: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e Oi

Copatrocínio: Multiterminais

Co-realização: Oi Futuro

Realização: Primeira Página Produções, Sarau Agência de Cultura Brasileira, Ministério da Cultura, Governo Federal – Brasil Ordem e Progresso