terça-feira, 10 de janeiro de 2017

60! Década de Arromba – Doc. Musical (RJ)

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Foto: divulgação

Wanderléa e elenco em cena


Oportunidade rica para lembrar de uma década e para aplaudir Wanderléa

Dentro do que se propõe, “60! Década de Arromba – Doc. Musical” é um ótimo espetáculo. A produção é dirigida por Frederico Reder e tem roteiro assinado por Marcos Nauer. Tony Lucchesi assina a direção musical, Victor Maia as coreografias e o figurino é de Bruno Perlatto. O elenco formado por vinte e três atores-cantores-bailarinos é complementado por Wanderléa, a estrela da Jovem da Guarda que, não fossem os vários outros méritos da produção, valeria o aplauso sozinha aqui. O título, o programa e o material de divulgação deixam claro ao público o que esperar da peça. Trata-se de um documentário musical dos anos 60, um apanhado das canções nacionais e internacionais que, a partir do Brasil, marcaram a época. Com base nessa perspectiva, é possível encontrar os pontos positivos e os negativos da produção. Porque são bem menos numerosos, comecemos por aquilo que não foi tão bom para depois chegar ao principal. Fica em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana, até 19 de fevereiro.

A força dos Estados Unidos na década
A dramaturgia de Marcos Nauer é superficial demais. O roteiro é uma casca sem qualquer aprofundamento organizado única e exclusivamente para emoldurar espaço para outros elementos da encenação. Dispostos cronologicamente, há dez quadros no total, um para cada ano da década. O primeiro ato vai de 1960 a 1965 e o segundo de 1966 a 1969. Nauer aparentemente evita tomar partido, não oferecendo qualquer opinião, limitando-se a dividir as canções dentro dos blocos e desaparecendo logo em seguida. 

Sobre esse aspecto da proposta, é preciso levantar algumas questões. A primeira dela diz respeito às justificativas do fato. O valor que costumeiramente se dá aos anos 60 é mérito ( ?) dos Estados Unidos e ratificar essa celebração é oferecer provas, antes de tudo, do quanto fomos (ou somos) colonizados. Nessa época, a Guerra Fria chegou ao auge, separando o mundo nos lados capitalista e socialista. A década iniciou após a Revolução Cubana, começou com a construção do Muro de Berlin, avançou pelas ditaduras militares na América Latina e terminou com o início do Guerra do Vietnã. Para os Estados Unidos, centro do mundo comercial, exportar o quão bom era ser americano era mais importante do que jamais tinha sido.

No Brasil, através do consulado americano, construíam-se escolas, estradas e indústrias. O governo yankee patrocinava aqui a tecnologia militar e a mídia, polarizando a política de modo brutal. Nas eleições presidenciais de 60, com o apoio do ultrarreacionário Carlos Lacerda (Governador do Estado da Guanabara), Jânio Quadros venceu contra o Marechal Teixeira Lott, mas seu vice Milton Campos perdeu. Na época, votava-se em separado para presidente e para vice. João Goulart, que tinha sido o vice de Jucelino Kubitschek, se tornou também vice de Jânio, esse que, ao longo do primeiro semestre de 1961, foi se tornando cada vez mais esquerdista para o horror de Lacerda (e dos Estados Unidos).

Em agosto daquele ano, Lacerda declarou na TV Excelsior – emissora que tinha iniciado suas atividades com incentivo americano pela tecnologia do videotape – que Jânio queria fechar o congresso nacional e isso levou o presidente à renúncia no dia seguinte. Os ministros militares, que já haviam tentado dar um golpe de estado na ocasião do suicídio de Getúlio Vargas, tentaram mais uma vez, mas foram impedidos pelo Movimento da Legalidade, protagonizado por Leonel Brizola. Sob regime parlamentarista, Jango assumiu o Palácio do Planalto tendo Tancredo Neves como Primeiro Ministro. Em 1963, através de um plebiscito, o povo escolheu voltar ao sistema de governo anterior, o presidencialismo. Um ano depois, em março, deu-se outra tentativa de golpe, dessa vez com sucesso. Os Estados Unidos varriam do país a esquerda. Em 1954, o mesmo tinha acontecido no Paraguai. Em 1966, aconteceu na Argentina. Em 1968, no Peru. Em 1971, no Uruguai e na Bolívia. Em 1972, no Equador. Em 1973, no Chile.

A música, as roupas, os comportamentos no mundo mudavam. Iniciado em 1962, o Concílio Vaticano II terminou em 1965, abolindo as missas em latim, colocando, no mundo todo, os padres de frente para as pessoas na missa e autorizando o uso de roupas convencionais para todos os religiosos. A minissaia, o biquíni, o rock`n`roll inspiravam uma sociedade mais livre do preconceito de raça, de gênero, de orientação sexual e de religião. Pregando a liberdade de um lado e espalhando a ditadura de outro, os Estados Unidos venceram por aqui nessa década tão controversa.

No roteiro de “60! Década de Arromba”, Marcos Nauer não comenta qualquer dessas questões. Em lugar disso, empilha fatos como o lançamento das bonecas Barbie, Ken e Christie; as mortes de Marilyn Monroe, Edith Piaf e Ary Barroso, dentre outros; a conquista da Lua; os lançamentos de filmes de sucesso; e a explosão da Bossa Nova, da Jovem Guarda e da Tropicália. A aparentemente despretensiosa listagem de inúmeros eventos da década acaba, pela escolha de uns e não de outros, expressando uma opinião. E qual é ela? A de que somos todos impregnados do consumo cultural dos produtos principalmente americanos. E esse, pelo tamanho enorme da seleção feita – a peça dura mais de três horas – se torna o maior mérito do todo de seu trabalho como dramaturgo aqui. E talvez o único.

Dentre vários aspectos positivos, os figurinos de Bruno Perlatto são excelentes!
A partir do roteiro, “60! Década de Arromba” surge como um produto de simples entretenimento a partir das excelentes contribuições da direção musical de Tony Lucchesi, das coreografias de Victor Maia, dos figurinos de Bruno Perlatto, mas também do cenário de Natália Lana, da luz de Daniela Sanchez, do vidografismo de Thiago Stauffer / Studio Prime e sobretudo de alguns trabalhos de interpretação. No todo da obra, vê-se facilmente o bom trabalho da direção de Frederico Reder assistido por Alessandra Brantes.

Tony Lucchesi dá unidade para material tão diverso, vasto e rico em um dos seus melhores trabalhos de sua carreira. Ao longo de toda a extensão da peça, o repertório imenso se desenvolve com vibrante fluidez de modo que as horas passam voando no oferecimento de uma estrutura espetacular divertida e bem defendida pelos dez músicos ao vivo no palco, pelos técnicos (o desenho de som é assinado por Talita Kuroda e por Thiago Chaves) e principalmente pelos atores em seu conjunto. Victor Maia, cada vez melhor como coreógrafo, brilha ao seu lado em números cheios de méritos em que se destacam os quadros das bonecas Barbie, Ken e Christie. Com excelência, as cenas oferecem motivo de êxtase para o público, que se diverte enquanto vê o ótimo desempenho dos intérpretes em dar vida aos seus intentos complicados e belos.

São também bastante positivas as colaborações do cenário assinado por Natália Lana, esse composto por inúmeros objetos reais da época que surgem em cena trazendo viva a década de cinquenta anos atrás. Vê-se extremo bom gosto em todas as escolhas e também quanto ao seu uso no palco. E fora dele também, pois, na moldura do palco, há vários objetos fixados na parede explorando o consumismo da época retratado pela dramaturgia. A luz de Daniela Sanchez e o videografismo de Thiago Stauffer / Studio Prime participam do ótimo ritmo com protagonismo a que se deve aplaudir sem exceção. No entanto, são os figurinos de Bruno Perlatto o ponto mais alto dos signos estéticos de “60! Década de Arromba”.

É difícil descrever o tamanho do mérito dos figurinos de Bruno Perlatto em “60! Década de Arromba”. O guarda-roupa é imenso, porque o espetáculo é longo e o elenco numeroso, mas, em nenhum momento, se vê economia nem em termos de pesquisa, nem em termos de realização. Cada peça é cheia de detalhes, esses compõem vários todos que juntos elevam para altíssimos níveis o valor estético da obra. Podem-se destacar os quadros dos calangos na inauguração de Brasília, do incêndio do circo em Niterói, “Hair”, “Tropicália”, da cena final e as roupas usadas por Wanderléa, mas há que se dizer que todos são excelentes. Perucas, sapatos, gravatas, além dos belíssimos vestidos, cada detalhe há que ser visto com atenção e efusivamente aplaudido.

A oportunidade de ver Wanderléa
No que diz respeito às interpretações, vale dizer de início que tratam-se de desempenhos em termos de canto e de dança essencialmente, pois não há, no melhor sentido do termo, construção de personagens. Contando Wanderléa, são vinte e três pessoas no elenco e, nesse grupo, valem algumas menções. Erika Affonso e Marcelo Ferrari apresentam trabalhos muito bons ao lado de Matheus Ribeiro, de Leo Araújo, de Julie que estão ótimos e principalmente de Cássia Raquel que está excelente! Rodrigo Naice e Tauã Delmiro, nas figuras mais cômicas, são bastante carismáticos e se destacam no todo pelo modo como aproximam o público também. É um prazer reencontrar boa parte desse grupo numeroso - e conhecer a outra parte – para lembrar do quão potente está o nosso teatro musical no que se refere ao talento dos nossos intérpretes. Cantam e dançam lindamente!

Wanderléa, que em 2016 completou 70 anos de vida e 56 de carreira, é uma estrela capaz de fisgar a atenção e de manter o sorriso aberto. Belíssima, ela surge no fim do primeiro ato e faz diversas aparições ao longo do segundo, cantando e fazendo o público cantar também com ela. Suas primeiras gravações datam de 1962 e, ao fim dos anos 60, ela já era uma artista famosa em rede nacional, sucesso mantido ao longo das décadas. Vale a pena assistir a “60! Década de Arromba” também pela oportunidade de vê-la.

Não há, no Rio de Janeiro, equipe receptiva tão qualificada quanto a do Theatro Net Rio. Tudo lá parece servir ao público, ao seu prazer, à sua confortabilidade, ao seu bem. Da compra dos ingressos à recepção, da higiene à qualidade dos serviços de copa e de banheiros, do bom gosto no interior do teatro ao cuidado na saída da sessão, tudo é feito com delicadeza, afinco, elegância e gentileza. Sem dúvida, essas questões são motivos que explicam parte do sucesso das produções que lá estão em cartaz. No caso de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”, dirigido por Frederico Reder, um dos administradores do teatro, os méritos do espaço se confundem com os méritos do espetáculo destacados acima e juntos eles oferecem uma ótima noite. Aplausos!

*

FICHA TÉCNICA:

Roteiro e Pesquisa: Marcos Nauer

Direção: Frederico Reder

Direção Musical: Tony Lucchesi

Elenco: Wanderléa, Amanda Döring, André Sigom, Bel Lima, Cássia Raquel, Deborah Marins, Erika Affonso, Fabiana Tolentino, Giu Mallen,

Jade Salim, Jullie, Leandro Massaferri, Leo Araujo, Marcelo Ferrari, Mateus Ribeiro, Pedro Arrais, Rachel Cristina, Raphael Rossatto, Rodrigo Morura, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Rosana Chayin, Tauã Delmiro

Coreografia: Victor Maia

Figurino: Bruno Perlatto

Cenário: Natália Lana

Iluminação: Daniela Sanchez

Diretora Assistente: Alessandra Brantes

Videografismo cenário: Thiago Stauffer

Desenho de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves

Direção de Produção: Juliana Reder e Frederico Reder

Produtores Associados: Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr

Produtor Executivo: Leandro Bispo

Produtor Assistente: Allan Fernando

Estagiária de Produção: Joelma Di Paula

Diretor Executivo: Léo Delgado

Gerente de Marketing: Mauricio Tavares

Direção de Arte: Barbara Lana

Assistente de Direção Musical: Alexandre Queiroz

Operador de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves

Figurinista Assistente: Teresa Abreu

Assistente de Figurino: Karoline Mesquita

Estagiária de Figurinista: Tayane Zille

Estagiária de Figurinista: Jemima Oliveira

Estagiária de Figurinista: Gabriela Silva Fernandes

Coreógrafa Assistente: Clara Costa

Dance Captain: Rodrigo Morura

Cenógrafa Assistente: Marieta Spada

Assistente de Cenografia: Guilherme Ribeiro

Camarins: Vivi Rocha e Kaká Silva

Gritos (RJ)

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Foto: divulgação




O espetáculo mais inspirador de 2016

“Gritos”, a nova peça da Cia. Dos à Deux, é o espetáculo mais inspirador de 2016 no Rio de Janeiro e está em cartaz até o próximo dia 16. André Curti e Artur Luanda Ribeiro apresentam aqui três poemas gestuais metafóricos em um todo sem falas preparado para atingir todos os públicos e oferecer uma obra estética de primeiríssima grandeza. A peça, que estreou em 17 de novembro, está em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro da cidade, e depois seguirá para Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. É correr para ver!

"Alta arte"
A primeira coisa que se deve dizer a respeito de “Gritos” é que, ao sair do teatro, se sabe ter estado diante de uma obra de “alta arte”. O termo é horroroso, porque pressupõe – de modo grosseiro – uma arte menor. Então, é preciso descrevê-lo. O novo espetáculo da Dos à Deux, como foi com “Irmão de Sangue” no ano passado, está além das perspectivas. O modo como os signos que estruturam o espetáculo estão dispostos é tão esteticamente explosivo que, nos lugares em que a conexão talvez não seja possível de ser identificada, reconhece-se mesmo assim seu brilhantismo. Porque rico demais, torna-se a peça a melhor imagem para descrever o adjetivo “inspirador”. 

A dramaturgia se organiza em três quadros. Seus títulos são: “Louise e a velha mãe”, “O muro” e “Amor em tempos de guerra”. O primeiro traz uma transexual que mora com a mãe, essa última imobilizada em um cadeira e, por isso, totalmente dependente. A relação entre as duas revela o preconceito, o desgosto, a mágoa que habita nelas. O segundo é uma imagem surrealista de um homem cuja cabeça está separada do corpo, ambas as partes presas apesar da liberdade. O terceiro apresenta o ponto de vista de uma mulher do islã a respeito dos homens do seu mundo: a feminilidade e a maternidade em meio a necessidade de sobrevivência na guerra social e religiosa que se vive.

Com exceção de um brevíssimo momento em que há uma voz em off, não há diálogos verbais ao longo de todo o espetáculo. Isto é, o verbo não é usado enquanto signo estruturante da linguagem. No entanto, de modo vibrante, os personagens conversam entre si e consigo mesmos durante toda a peça, dando a ver diferentes contextos narrativos e poéticos capazes de viabilizar o discurso espetacular, como já disse, com grande potência.

O visual é um dos aspectos mais relevantes e essa é a segunda questão que precisa ser dita sobre “Gritos”. O modo como o cenário, a luz e a movimentação dos atores acontecem no palco parece ter sido organizado pelas regras renascentistas da perspectiva pelo excesso de triangulação entre o fundo e o público. Isso pauta um ponto de vista muito específico sobre o papel do olhar do espectador na fruição da obra. Talvez, com isso, a Dos à Deux queira humanizar o contexto, dizendo que tudo o que está em cena só pode ser compreendido a partir do homem e jamais de forma fria e mecanizada.

Da manipulação de bonecos como extensão dos corpos dos atores ao movimento dos objetos cênicos na espacialização dos ambientes, a tridimensionalidade normal do teatro ganha aqui uma aparência rara que é belíssima. A cenografia é assinada pela dupla de realizadores Ribeiro e Curti e eles tiveram a colaboração da marionetista russa Natacha Belova e do brasileiro Bruno Dante. André e Artur tiveram partes dos seus corpos – cabeça, mãos, pés e braços – esculpidos com gesso e depois trabalhados em diferentes materiais. Os figurinos dos atores e dos bonecos são assinados por Thanara Schonardie.

O belíssimo desenho de luz é assinado por Ribeiro e por Hugo Mercier. Sobre esse ponto, vale dizer que aqui a luz não apenas ilumina, mas “em-cena” todo quadro, isto é, contextualiza os contornos, as profundidades, as formas de tudo através do quê se vê a peça, tornando os signos outras coisas, multiplicando com isso suas potencialidades significativas brilhantemente.

O som é ainda mais um espetáculo à parte. Em primeiro nível, estão a criação musical de Beto Lemos e a trilha sonora de Marcello H. É um trabalho vibrante, que envolve as narrativas sem tomar o lugar delas, elevando a qualidade estética já altíssima da obra. Em segundo nível, estão as respirações dos bonecos inanimados, as vozes das conversas não ouvidas e principalmente os gritos jamais proferidos, esses que dão nome ao texto. O jeito como os atores, a mobilização dos objetos e a luz constroem a sensação do som é o mais interessante dessa produção.

Capaz de alimentar o público por muito tempo
André Curti e Artur Luanda Ribeiro apresentam um belíssimo trabalho de corpo na interpretação dos seus personagens. Seus gestos são minuciosos na construção de cada imagem, construindo um todo delicado, sensível e tocante. Das expressões mais pequenas aos movimentos mais largos, seu balanço se estende a tudo aquilo que está no palco ao seu lado - os bonecos, os objetos, a luz -, tornando todas as coisas, para além do cênico, em material poético de primeira grandeza. Excelente!

“Gritos” é uma daquelas obras capaz de alimentar o público em termos de estética por muito tempo. É um privilégio enorme assistir-lhe! Aplausos efusivos e gritos de Bravo!

*

FICHA TÉCNICA

Espetáculo: Gritos

Concepção, dramaturgia, cenografia e direção: Artur Luanda Ribeiro e André Curti

Interpretação: Artur Luanda Ribeiro e André Curti

Criação e realização objetos/bonecos: Natacha Belova e Bruno Dante

Criação Musical: Beto Lemos

Trilha sonora: Marcelo H

Cenotécnico: Jesse Natan

Iluminação: Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier

Programaçao visual: Bruno Dante

Realização próteses: Dra. Rita Guimarães

Produção Brasil: Sergio Saboya - Galharufa

Produção executiva: Ana Casalli e Ártemis

Difusão - França: Drôles de Dames
Fotos: Renato Mangolin

Vem buscar-me que ainda sou teu (RJ)

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Foto: Danillo Sabino


Saulo Segretto, Fernanda Gabriela e Leonam Moraes


Saulo Segreto, Joana Mendes e Fernanda Gabriela no novo espetáculo do CEFTEM


“Vem buscar-me que ainda sou teu” é o novo espetáculo da turma de Prática de Montagem do CEFTEM, escola de musicais dirigida por Reiner Tenente. Dirigida por João Fonseca, a peça foi escrita pelo dramaturgo santista Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) e, nessa versão, tem músicas originais de Tony Lucchesi. O texto é uma declaração de amor ao teatro. Na trama, uma companhia tem sua história confundida com a da peça que ela apresenta: “Coração Materno”, do português Alfredo Viviani. Saulo Segreto e Joana Mendes se destacam ao lado de Fernanda Gabriela em ótimas atuações. A produção fica em cartaz no Teatro Serrador, na Cinelândia, até o dia 12 de fevereiro.

O mérito de Tony Lucchesi
“Coração Materno” é uma peça radiofônica escrita por Alfredo Viviani em resposta ao sucesso da canção homônima do cantor carioca Vicente Celestino (1894-1968). A música, um dos últimos grandes sucessos desse que foi uma das maiores estrelas da música brasileira na primeira metade do século XX, foi baseada no poema “A canção de Maria dos Anjos, do francês Jean Richepin (1849-1926), que havia sido traduzido para o português por Guilherme de Almeida em 1936. Na letra, uma mulher pede ao seu amante, como prova de seu sentimento, o coração da mãe dele. Cego de paixão, o obstinado jovem comete matricídio, mas, no caminho até o encontro com a amada, tropeça e deixa cair o órgão. Nesse momento, a voz da mãe morta é ouvida. Ela perdoa o filho como sinal da devoção incondicional do amor materno. Além da peça de Viviani, a canção inspirou também um filme dirigido pela franco-brasileira Gilda de Abreu (1904-1979), atriz e cantora que foi, durante muito tempo, casada com Celestino. Essa diretora foi uma das primeiras mulheres a dirigir cinema no Brasil. “Coração materno”, que tinha Abreu e Celestino como protagonistas, foi lançado em 1951.

O texto de “Vem buscar-me que ainda sou teu” foi escrito entre 1978 e 1979 e a sua primeira versão teatral foi produzida pelo Grupo de Teatro Mambembe. A peça, que ficou em cartaz em São Paulo, foi dirigida pelo israelita-brasileiro Yacov Hillel e teve, como interpretação mais destacada, a de Rosi Campos no papel da vedete pseudo-argentina Amada Amanda.

A história se passa nos bastidores de uma companhia de circo-teatro em uma pequena cidade do Brasil. Ela é dirigida por Aleluia Simões, que luta bravamente pelo sustento de seus artistas e do seu negócio desde que herdou a lona dos seus pais. Ela é mãe de Campônio, que está cego de paixão pela ambiciosa Amada Amanda, uma das dançarinas do grupo. Um dia, a chegada da talentosa Cancionina Song e partida do sedutor Lologigo incendeiam a inveja de Amada, que estimula Campônio a matar Aleluia para deixar o caminho livre no comando da empresa. A dramaturgia, ao lado da de “Na carreira do divino”, também de Carlos Alberto Soffredini, ganhou os prêmios APCA, APETESP e MAMBEMBE de melhor texto na temporada de 1979. O crítico Sábado Magaldi elogiou o trabalho, mas apontou negativamente o excesso de melodrama nas curvas finais.

As canções originais de Tony Lucchesi são bonitas, mas pesam o ritmo da dramaturgia em vários momentos. Dividido em vinte e uma cenas, todas elas previamente anunciadas, o texto sofre pela previsibilidade. Toda vez que a narrativa já emperrada estanca para a entrada da música, o enredo parece ainda mais longo. Apesar disso, Lucchesi merece ter seu trabalho elogiado pelo valor de uma composição original que se dedica a uma história tão querida principalmente por quem gosta de teatro e reconhece o valor da arte popular.

Saulo Segreto, Joana Mendes e Fernanda Gabriela
A direção de João Fonseca valoriza o melhor do texto que é a homenagem dele ao teatro. Nos vários momentos em que o olhar do público atua como mais um personagem entre as figuras da narrativa de Soffredini, Fonseca impõe um diferencial sobre a expressão delas de modo que o que é passa a conviver com o que deve parecer e, no meio do caminho entre os dois, estão os conflitos maiores da trama. Com exceção dos personagens Virgínia e Brilhantina, todo mundo é ator ali e até mesmo esses dois tem sua história com o ato de atuar que modifica o seu caráter. Essa influência da arte cênica sobre a vida daqueles através de quem a história se dá aparece em “Vem buscar-me...” de modo muito sutil, elegante e meritoso.

Além dos problemas da participação das canções já apontados, o ritmo de “Vem buscar-me que ainda sou teu”, em alguns momentos, também sofre com intepretações ruins. A cena dos temperos, em que Soffredini homenageia a revista “Tim tim por tim tim”, de 1889, do português António de Sousa Bastos (1844-1911), é inteiramente defendida por atores que nem atuam bem, nem cantam bem nessa produção infelizmente. Quanto aos demais do elenco, Gabriel Querino (Lologigo Valadão) e Mariah Viamonte (Amada Amanda) têm bons momentos seguidos por Leonam Moraes (Ruy Canastra), Jeff Fernandéz (Brilhantina) e Sophia Dornellas (Cancionina Song) em melhores participações.

Há que se valorizar os entrechos em que não é a tensão que faz ver as melhores marcas interpretativas, mas a operação de sensibilidades. É ela que é capaz de oferecer verdade aqui, considerando que, embora elogie a farsa, essa peça não é um exemplo dela. Em outras palavras, os célebres personagens do teatro popular, como a Dama (Aleluia), a Cínica (Amada), a Ingênua (Cancionina), entre outros, são referências aqui para os quadros em que há um teatro dentro do teatro, mas esses não acontecem sempre nessa narrativa. É nesses que se veem os melhores trabalhos de interpretação: Saulo Segreto (Campônio), Joana Mendes (Dona Virgínia) e principalmente Fernanda Gabriela (Aleluia). Os dois primeiros apresentam ótimas atuações e a última, além disso, canta lindamente em toda as suas oportunidades. Segreto e Mendes se movimentam bem na farsa, mas, com habilidade, permitem igualmente que as partituras os mantenham aparentemente vivos. Gabriela nunca vai pra farsa, mas, considerando que essa é uma peça de teatro musical, sua voz a destaca ao mesmo tempo em que eleva os méritos do espetáculo como um todo.

Votos de uma longa carreira pela frente
Em “Vem buscar-me que ainda sou teu” há que se valorizar o figurino de Carol Lobato e o cenário de Nello Marrese como elementos bastante colaborativos ao espetáculo. O ambiente promove um misto de circo e de teatro de variedades e o guarda-roupa lida bem com o desafio de uma peça que às vezes está dentro de outra peça. As coreografias de Victor Maia e a iluminação de Luiz Paulo Nenén são sem grande destaque.

Para algumas pessoas do elenco, esse é o primeiro trabalho profissional. Qualquer coisa menos positiva que se aponte, por isso, deve ficar por trás do incentivo a quem há de ter uma longa carreira no futuro. Vale a pena ver “Vem buscar-me que ainda sou teu”, um famoso marco na dramaturgia brasileira contemporânea.

*

Ficha técnica:

Texto de Carlos Alberto Soffredini
Direção e Adaptação: João Fonseca
Direção Musical & Músicas originais: Tony Lucchesi
Coreografia: Victor Maia
Cenário: Nello Marrese
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Luiz Paulo Nenén

Elenco:
Fernanda Gabriela
Saulo Segreto
Leonam Moraes
Gabriel Querino
Mariah Viamonte
Jeff Fernandéz
Joana Mendes
Sophia Dornellas
Andressa Tristão
Bruno Rasa
Eduardo Barbuto
Ingrid Manzini
Gustavo Henrique
Luiz Felipe Carvalho

Banda:
Guilherme Borges
Victor Pires
Leonardo Fiuza
Carlos Bach
Patrick Grossman

Atores alternantes: Maíra Garrido, Augusto Volcato, Gabirel Leal, Murici Lima, Vitor Louzada, Yuri Izar, Hamilton Dias, Rhuan Santos, Marina Mota, Carol Baptista, Priscila Diniz e Tecca Ferreira

Assistente de direção: Pedro Pedruzzi
Preparação vocal e Assistente de direção musical: Maíra Garrido
Direção de produção: Reiner Tenente, Joana Mendes e Gabriel Querino
Produção Executiva: Gabriela Tavares e Tecca Ferreira
Idealização: João Fonseca e Reiner Tenente
Realização: CEFTEM