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quinta-feira, 24 de maio de 2012

Quebra-Ossos (RJ)


Foto: divulgação


O teatro do absurdo em uma bela produção contemporânea

            “Quebra-Ossos” é uma comédia escrita por Julia Spadaccini e dirigida por Alexandre Mello com vários méritos. A começar pelo texto, conhecem-se três personagens: João, Augusto e Maria. O primeiro foi deixado pela namorada e recebe a visita surpresa de um casal de amigos. O segundo conversa com o entregador de pizza enquanto sua esposa não chega. A terceira chamou dois amigos que não vê há doze anos para um reencontro na casa da avó. Se a dramaturgia é uma comédia de costumes, a encenação é absurda. Não há lógica em boa parte de “Quebra-Ossos”: os personagens são cheios de marcas, mas não farsescos; os diálogos se repetem; a movimentação é desenhada; o ritmo é crescente na evolução de cenas cada vez menores. Tudo é arranjado numa atmosfera estranha, inusitada, improvável e esse é o maior mérito da produção realizada pela Múltipla Companhia Teatral, embora a proposta não se confirme até o fim.
            Rodrigo Turazzi, Patrícia Elizardo e Cirillo Luna estão excelentes nas suas interpretações de João, Maria e Augusto respectivamente, executando as marcas previstas com perfeição: detalhes minuciosos na expressão gestual, intenções bem postas, corpos precisos, sobretudo em Turazzi, em destacável performance. Alexandre Mello dirige o elenco, produzindo uma narrativa carregada de traços, de forma que não há qualquer desperdício, havendo até alguns excessos. Dada aí a distância do real além da narrativa, os personagens e os movimentos da narrativa se apresentam a partir de lentes de aumento, vindo daí a comédia refinada e elegante que tanto faz valorizar o teatro nessa peça. Nas cenas finais, a relação entre as três histórias vai ficando mais clara, mais justificada, e é quando o absurdo perde força, o que não é, nesse caso, ruim, já que a comédia já está estabelecida.
            O cenário de Dani Geammal confere suavidade à carga pesada de signos cênicos positivamente. O figurino de Flavio Souza, além de valorizar os atores, age em igual sentido na narrativa, como também faz a trilha sonora de Leandro Baumgratz e a iluminação de Renato Machado, essa última com detalhes meritosos em luminárias, cordas e pequenos focos. Nos elementos plásticos, vale ainda destacar a projeção do filme “Quebra-Ossos”, um dos pontos altos da comédia.
            Com atualizações no século XIX, na obra de Qorpo Santo, e, principalmente, nos anos 50, com Ionesco, é muito interessante observar como o Teatro do Absurdo vai aparecendo, mesmo que de forma sutil, em produções mais contemporâneas. “Quebra-Ossos” atualiza o gênero sobretudo na encenação, possibilitando um espetáculo que enriquece à programação teatral da capital fluminense.

*

Ficha técnica:

Texto: Julia Spadaccini
Direção: Alexandre Mello
Elenco: Cirillo Luna, Patrícia Elizardo e Rodrigo Turazzi
Cenário: Dani Geammal
Iluminação: Renato Machado
Figurino: Flávio Souza
Trilha Sonora: Leandro Baumgratz
Visagismo: Sandra Moscatelly
Direção de Produção: Rodrigo Turazzi
Produção Executiva: Rogério Garcia
Assistente de Produção: Larissa Sarmento
Assessoria de Imprensa: Ana Paula Sant’Anna
Programação Visual: Paula Sattamini
Áudio Visual: Multiphocus Arte & Comunicação
Fotografia: Claudio Senra
Operação de Luz: Eduardo Hoffmann
Operação de som e de imagem: Ricardo Lacerda
Idealização: Cirillo Luna
Produção: Turazzi Produções
Realização: Múltipla Companhia Teatral

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Sopro de vida (RJ)


Foto: divulgação

Uma história monótona contada dignamente

            Escrito há dez anos pelo inglês Sir David Hares (1947), “Sopro de vida” (The Breath of Life) estreou em Londres tendo Dame Judy Dench e Dame Maggie Smith nos papéis de Francês Beagle e Madeleine Palmer respectivamente. Na produção dirigida por Naum Alves de Souza, é Rosamaria Murtinho e Natália Timberg quem estão no palco. Na história, vemos Frances visitando Madeleine com o objetivo de escrever um romance. Aos poucos, o diálogo deixa ver o que as une: Martin, o ex-marido de Frances, foi amante de Madeleine. A partir daí, esse é o aspecto negativo da dramaturgia, todos já sabem o que vai acontecer: as duas vão conversar até que os detalhes das relações estejam revelados uma para a outra. Porque paira a possibilidade (remota) de surpresas, é preciso assistir ao espetáculo para averiguar se elas acontecem ou não. Aqui vale dizer que Natália Timberg, Rosamaria Murtinho e Naum Alves de Souza têm suas marcas suficientemente postas na história do teatro brasileiro para que seus trabalhos sejam vistos por multidões.
            Traduzido por Naum Alves de Souza e Nathalia Timberg, o texto deixa ver muitas frases profundas e pouco movimento. Lento do início ao fim, o ritmo avança quando detalhes na relação entre Martin e Madeleine (Timberg) são expostos por Frances (Murtinho), mas, mesmo aí, a curva dramática é sutil demais, fazendo com que os méritos, não muitos, não estejam na dramaturgia, mas nos signos visuais.
            O cenário de Celina Richers e a iluminação de Wilson Reiz garantem à plateia a chance de encontrar no palco algo que se aproxime do real além da narrativa. Rico em detalhes, os trabalhos de Richers e Reiz são valorosos à fruição que não encontra entraves no estabelecimento da verossimilhança, fator indispensável num drama realista como é o caso aqui. Apesar de agir nesse sentido, os figurinos de Beth Filipecki e de Renaldo Machado não colaboram com o resultado visual porque não oferecem nenhum movimento à história já parada. Do verde ao bege, passando pelo marrom e pelo mostarda, os figurinos concordam com o verde musgo das paredes de forma monótona porque obediente.
            Natália Timberg e Rosamaria Murtinho são grandes damas do teatro brasileiro assim como Dench e Smith são no teatro inglês. Em uma direção cujos traços são invisíveis, encontra-se em cena um jeito positivamente realista de dizer o texto, sendo que o volume é auxiliado pelo uso de microfones. As intenções e as entonações são bem postas, apesar de não garantirem a evolução tradicional que caracteriza as boas histórias. Bem interpretada e bem produzida, “Sopro de vida” é uma história monótona contada dignamente que embeleza a riquíssima programação do Theatro Net Rio, a nova pérola do teatro carioca, certamente aí mais um motivo para as boas multidões.

*

Ficha Técnica
Autor: David Hare
Tradutor: Naum Alves de Souza e Nathalia Timberg
Diretor: Naum Alves de Souza
Elenco: Nathalia Timbeg e Rosamaria Murtinho
Figurinos: Beth Filipecki e Renaldo Machado
Cenários: Celina Richers
Iluminação: Wilson Reiz
Produção Executiva: Carol Marques
Assessoria de Imprensa: Natasha SteinDireção de Produção: Montenegro e Raman
Co-produção: Hermes Frederico e Humberto Braga

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Requintado e incisivo (RJ)


Foto: Vicente de Mello

Requintado e incisivo

            O romance “De verdade” (Portraits of a Marriage) foi escrito pelo húngaro Sándor Márai (1900-1989) e publicado pela primeira vez em 1941. Lançado no Brasil em 2008, foi traduzido por Paulo Schiller e é considerado um dos melhores romances do autor. Adaptado para teatro por Isabel Muniz e Susana Schild, a peça “De verdade [ou A Mulher Certa]” apresenta um ponto de vista bastante rico acerca dos relacionamentos, sobretudo pela maneira como, com direção de Marcio Abreu, a dramaturgia cênica conta a história.
O livro se organiza em quatro depoimentos. Aqui valem três: em Budapeste, Ilonka conta a uma amiga a história de seu casamento desfeito, relembrando a inutilidade do esforço para decifrar a intimidade e para conquistar a alma do ex-marido, Peter, encantado, desde a juventude, por uma simples criada, Judit. Depois, em um café, Peter narra a um amigo a sua própria versão sobre a separação, evocando a dor da perda de um filho e reconhecendo o preço pago pela paixão inconfessável por Judit, a empregada que servia a rica mansão de seus pais. Mais de trinta anos depois, na cama de um quarto de hotel em Roma, Judit fala ao novo namorado sobre a infância miserável, sobre os dissabores vividos na casa dos patrões e sobre a união fracassada com Peter, condenada de início pelo abismo existente entre eles.
Em cena, na peça teatral, vemos dois atores, Guilherme Piva e Kika Kalache, a interpretar dois personagens cada um: ele interpreta O Marido e Lazar (o amigo escritor do Marido) e ela interpreta A Primeira Esposa e Judit. Em termos actanciais, nota-se que os personagens ocupam lugares diferenciados na narrativa: O Marido e A Primeira Esposa têm lugares de destaque enquanto os personagens nominados, Lazar e Judit, são coadjuvantes. A sutileza excessiva com que Kalache dá vida às duas figuras apresenta um ponto de vista sobre a história: de um casamento ao outro, O Marido encontra as mesmas dificuldades nos diferentes relacionamentos. A mulher certa não existe. Nesse sentido, o maior mérito da peça “De Verdade”, em termos estéticos, é produzir sentido a partir de significantes tão simples como a escolha do elenco, a tonalidade das interpretações, as nuances discretas do signo cênico. É verdade que tudo poderia ser de outra forma. Interpretados por Piva, O Marido e Lazar estão visivelmente caracterizados de forma diferentes, o que não acontece, como se disse, no trabalho de Kalache. O Marido e A Primeira Esposa poderiam ter nomes na peça como o têm no livro (Peter e Ilonka). Mas eis aí significados que se desdobram: a produção vê os relacionamentos com contornos sutis, com marcas discretas, a partir de meio tons. Nada em cena, nessa cena, é por acaso, o que caracteriza, sem dúvida, uma obra com diferentes níveis de compreensão e, por isso, inteligente.
Os meio tons se vêem desde as interpretações aos signos visuais. Os gestos são moderados, as vozes são macias e quase não há exageros. Pretos, brancos e vermelhos quase não são vistos, mas pairam o cinza e os tons pastéis. Uma saia cheia de rosas e uma cena de sapateado ajudam a construir o clímax melodramático um tanto quanto destoante que passa rápido felizmente. O olhar confessional aproxima, a música interpretada por Antônio Saraiva suavisa, os espelhos devolvem: sem sobressaltos emocionais, o público se sente convidado a se identificar delicadamente.
Com cenário de Fernando Marés de Castilho, figurinos de Cao Albuquerque, iluminação de Nadja Naira e preparação de Márcia Rubin, “De Verdade” toca numa questão fundamental nos relacionamentos de uma forma requintada, mas incisiva. Se buscamos nos outros o que não há em nós, precisaremos de vários outros porque ninguém tem tudo de que precisamos.

*

Ficha técnica:
Direção: Márcio Abreu
Elenco: Kika Kalache e Guilherme Piva
Adaptação da obra de Sándor Márai: Isabel Muniz e Susana Schild, com colaboração de Guilherme Piva, Marcio Abreu, Mariana Lima e Kika Kalache
Direção Musical: Antônio Saraiva
Direção de Produção: Francisco França
Figurino: Cao Albuquerque
Preparação Corporal: Marcia Rubin
Preparação Vocal: Babaya
Cenografia de Fernando Marés de Castilho
Luz: Nadja Naira
Fotografia: Vicente de Mello
Design Visual: Sônia Barreto
Visagismo: Ricardo Moreno
Divulgação: Sidmir Sanches e Alan Diniz – Uns Comunicação
Produção Executiva: Alexandre Leandro
Adminstração: Marina Gama – Clan Design
Contrarregra: Roberto Prado
Assistente de Figurino: Kleyton Rigon
Assistente de Luz: Henrique Linhares e Lara Cunha
Operação de som: Anderlon Braga
Realização: Clan Design       
            

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