quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Egotrip (BA)

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Foto: divulgação

Rafael Medrado, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e Alexandre Moreira


Ótima comédia de João Sanches

“Egotrip - Ser ou não ser? Eis a comédia” é o quinto espetáculo do grupo soteropolitano Tribo. A comédia narra a aventura de quatro amigos que saem de Salvador e viajam pelo interior da Bahia em busca de um anel de nobreza que um deles teria herdado de seus parentes portugueses. Enquanto se diverte, o público vê nascer dentro de si a saudade das amizades antigas e dos relacionamentos duradouros, esses que ajudam a enfrentar o futuro. Escrita e dirigida por João Sanches, a peça é interpretada por Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e por Rafael Medrado, todos eles em excelentes interpretações. Ao vivo, Leonardo Bittencourt participa com a trilha sonora. A produção fica em cartaz até 19 de fevereiro no Teatro do Sesi, no bairro Rio Vermelho, na zona sul da capital baiana.


Aventuras pelo interior da Bahia
Rafael (Rafael Medrado) está às portas do casamento com sua antiga namorada quando descobre que seu pai herdou de seus familiares portugueses um anel de nobreza. A notícia vem com uma revelação estarrecedora: por desvalorizar o objeto, o tal foi dado a um primo distante. Rafael quer o anel e, sem contar nada para a noiva, combina de empreender com seus dois melhores amigos – o coxinha Alexandre (Alexandre Moreira) e o marxista Jarbas (Jarbas Oliver) – uma rápida viagem até Morro do Chapéu, cidade onde mora o referido parente. O que deveria durar um simples pernoite acaba por levar bem mais tempo que isso.

Os problemas do trio começam quando Galego (Igor Epifânio) surge no meio de uma rodovia e é atropelado pelo carro de Rafael. Ao levá-lo para o hospital, o automóvel é roubado e, por causa disso, todos vão parar em Bom Jesus da Lapa, a oitocentos quilômetros de Salvador. A mudança na rota acaba por incluir, entre outras coisas, um forró, uma velório, um duelo e um belo amanhecer em situações cheias de novos e engraçados personagens.

“Egotrip”, sem trocas de cenário e de figurino, tem uma encenação quase que inteiramente sustentada na composição de personagens pelo trabalho de corpo e de voz dos quatro atores. Seus méritos como intérpretes na viabilização da dramaturgia fazem ver os melhores valores do texto principalmente em termos do ótimo ritmo da narrativa. Em outras palavras, a análise da peça inicia pela contribuição de João Sanches, mas chega inevitavelmente a de Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e de Rafael Medrado.

Uma ótima comédia de João Sanches
O texto começa, se estabelece e termina com simplicidade. O fato dos nomes dos personagens serem iguais aos primeiros nomes dos intérpretes e o modo como esses se apresentam para o público e dão início à narrativa já defendem o caráter da obra em sua abertura. Essa é uma peça sobre a amizade e sobre o valor das coisas simples apesar de, em superfície, falar de um anel de nobreza e se organizar a partir de mil aventuras insólitas. A dramaturgia de Sanches traz o problema a ser resolvido de modo muito claro, a curva dramática é repleta de pontos de virada bem tradicionais e o final, ainda que com uma pequena “barriguinha”, corresponde equilibradamente a todas as intenções possíveis. Em tudo, a comédia tem força.

A qualidade dos diálogos reclama e sustenta o interesse. O ritmo é ágil, as estruturas são inteligentes e os momentos são criativos. O texto de “Egotrip”, de um modo geral, é envolvente sobretudo pelas situações nas quais os personagens se veem envolvidos e pelas quais eles têm a oportunidade de se deixarem conhecer.

A encenação de cem minutos assinada pelo dramaturgo equilibra os valores dos personagens. Jarbas e Alexandre, nem de longe, são tão bem construídos no texto como Galego e como Rafael. Isso revela, como mais adiante se tratará, a qualidade da interpretação de Jarbas Oliver e de Alexandre Moreira, mas antes vale destacar o jogo proposto pela direção de João Sanches.

As cenas são articuladas de modo a esconder o que as divide, defendendo uma narrativa bem estruturada em um só fôlego. Além dos personagens principais, os atores interpretam os coadjuvantes. Diferente de todos, Isabel – a namorada de Rafael – ganha vida pelos quatro intérpretes ao longo da peça em uma proposta que auxilia na autorreferência do texto espetacular. Lá pelas tantas, há cinco personagens ao mesmo tempo em cena e, por causa disso, um deles deixa de ganhar corpo, mas permanece presente, acontecimento esse que deixa ver, de um lado, a coragem dos autores e, de outro, a habilidade do público em decodificar o discurso proposto. Em termos de dramaturgia bem como de direção, eis um grande trabalho de Sanches.

Não há destaques no cenário de Erick Saboya, Igor Souza e de Sanches e no figurino do diretor. Ambos elementos, assim como a iluminação de Alexandre Moreira e de Sanches (que é operada em cena pelos próprios intérpretes), colaboram com o ótimo ritmo da narrativa por não acrescentarem muitas novas informações relevantes.

Excelente conjunto de elenco
Alexandre Moreira (Alexandre), Igor Epifânio (Galego), Jarbas Oliver (Jarbas) e Rafael Medrado (Rafael) apresentam, em conjunto, excelentes contribuições, mas seus méritos se fazem ver por motivos diferentes. Moreira e Oliver partem de protagonistas não tão bem construídos pela dramaturgia, como já se disse. Pelo texto, quase não se sabe qualquer coisa sobre seus Alexandre e Jarbas a não ser que são opostos politicamente e de orientações sexuais diferentes (um é homossexual e o outro heterossexual). No entanto, as colaborações dos atores acabam por ser tão carismáticas quanto a dos demais, o que, consideradas as dificuldades iniciais, é um feito destacável.

A verdade sobre o passado do Galego de Igor Epifânio nutre o terceiro quarto da narrativa, o que faz desse personagem até aí e durante esse momento uma figura muito interessante desde a dramaturgia. Porém, o modo como o ator participa de “Egotrip” com sua versão de Isabel e com o pai de Joaquim (o tio do pai de Rafael) é brilhante. Essas são figuras inesquecíveis no espetáculo, sem dúvida.

Rafael Medrado é o protagonista na dramaturgia por ser em torno de quem toda a narrativa acontece. De um jeito muito sutil, pouco a pouco, o intérprete vai deixando ver que há um conflito interno por trás de seu personagem capaz de driblar a aparente superficialidade inicial de sua figura. O público acaba por ser convidado a torcer por uma reviravolta em sua vida, o que aproxima ainda mais a audiência da história. Com menos desafios em termos de variedade de composições – pois Medrado praticamente interpreta o mesmo personagem durante a peça inteira –, o ator teve mais chances de aprofundar seu material, aproveitando todas elas elogiosamente. É por isso também um ótimo trabalho.

O quadro de “Egotrip” se completa com a participação de Leonardo Bittencourt que permanece visível no fundo do palco ao longo de toda a apresentação. Discreto, mas participativo, sua presença, além de ser outro sinal da fluência linguística da encenação, colabora por manter firme o diálogo proposto pela peça na abertura. Em termos de direção musical, o trabalho de Bittencourt é responsável por ótimos efeitos cômicos além dos méritos em termos de ritmo do conjunto como um todo.

Grupo Tribo em seu 12o ano de trabalho
“Egotrip - Ser ou não ser? Eis a comédia” estreou no início de julho de 2016 e acumula até agora indicações ao Prêmio Braskem de Teatro Baiano de Melhor Texto, Melhor Direção e de Melhor Ator (Igor Epifânio). Os vencedores serão conhecidos em abril de 2017. Vale ver o espetáculo para também torcer por eles nessa seleção, mas principalmente pelo contínuo trabalho desse grupo de artistas tão valoroso. Aplausos.


*

Ficha Técnica:
Texto e Encenação: João Sanches
Elenco: Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e Rafael Medrado
Trilha musical ao vivo: Leonardo Bittencourt
Figurino: João Sanches
Cenário: João Sanches, Erick Saboya e Igor Souza
Iluminação: João Sanches e Alexandre Moreira
Produção: Wanderley Meira e Carambola Produções

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Indicados ao Prêmio APTR de Teatro 2016



Indicados ao Prêmio APTR de Teatro 2016


Vinte e dois espetáculos receberam indicações ao Prêmio APTR de Teatro por suas temporadas em 2016 na grade de programação carioca. “Dorotéia”, “Nós”, “O camareiro”, Os realistas” e “Se eu fosse Iracema” receberam três nominações cada um. Os líderes na lista são “Auê”, “Gritos” e “Os cadernos de Kindzu” com quatro indicações cada. O prêmio está previsto para ser entregue em abril de 2017. Veja abaixo a lista completa dos indicados.

Melhor FIGURINO
· Beth Filipeck e Renaldo Machado por “O camareiro”
· Carol Lobato por “Cinderella”
· Kika Lopes por “Auê”
· Lulu Areal por “Dorotéia”
· Marina Reis por “Galileu Galilei”

Melhor CENOGRAFIA
· Andre Cortez por “O camareiro”
· Daniela Thomas e Camila Schmidt por “Os realistas”
· Fernando Mello da Costa e Estúdio Radiográfico por “Céus”
· José Dias por “Dorotéia”
· Márcio Medina por “Galileu Galilei”

Melhor MÚSICA
· Alfredo Del-Penho e Beto Lemos por “Auê”
· Beto Lemos e Marcello H. por “Gritos”
· Luciano Moreira e Felipe Vidal por “Cabeça – um documentário cênico”
· Nando Duarte por “Gilberto Gil, Aquele abraço – O musical”
· Stephane Brodt por “Os cadernos de Kindzu”

Melhor ILUMINAÇÃO
· Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier por “Gritos”
· Beto Bruel por “Os realistas”
· Jorge Farjalla, Patrícia Ferraz e José Dias por “Dorotéia”
· Maneco Quinderé por “O como e o porquê”

Melhor ATRIZ em papel PROTAGONISTA
· Adassa Martins por “Se eu fosse Iracema”
· Claudia Mauro por “A vida passou por aqui”
· Debora Bloch por “Os realistas”
· Julia Lund por “Amor em dois atos”
· Laila Garin por “Gota d`água [a seco]”
· Suzana Faini por “O como e o porquê”

Melhor ATRIZ em papel COADJUVANTE
· Clara Carvalho por “Anti-Nelson Rodrigues”
· Juliana Guimarães por “Sucesso”
· Luciana Lopes por “Os cadernos de Kindzu”
· Lydia del Picchia por “Nós”

Melhor ATOR em papel PROTAGONISTA
· Kiko Mascarenhas por “O camareiro”
· Marcos Caruso por “O escândalo Philippe Dussaert”
· Otto Jr. por ”Amor em dois atos”
· Zécarlos Machado por “Gata em telhado de zinco quente”

Melhor ATOR em papel COADJUVANTE
· Ary França por “Galileu Galilei”
· Gustavo Damasceno por “Os cadernos de Kindzu”
· Pedroca Monteiro por “Sucesso”
· Stephane Brodt por “Os cadernos de Kindzu”

Melhor AUTOR
· Claudia Mauro por “A vida passou por aqui”
· Felipe Vidal por “Cabeça - um documentário cênico”
· Fernando Marques por “Se eu fosse Iracema”
· Grace Passô por “Vaga carne”

Melhor DIREÇÃO
· Aderbal Freire-Filho por “A paz perpétua”
· Artur Luanda Ribeiro e André Curti por “Gritos”
· Duda Maia por “Auê”
· Márcio Abreu por “Nós”

Melhor ESPETÁCULO
· “A paz perpétua” da Somar Produções Artísticas
· “Auê” da Barca dos Corações Partidos
· “Gritos” da Cia. Dos à Deux
· “Nós” do Grupo Galpão

Categoria ESPECIAL
· César Augusto pela multiplicidade de ações artísticas
· Eduardo Rieche pelo lançamento do livro “Yara Amaral, a operária do teatro”
· Flávio Marinho pelo lançamento do livro “Teatro é o melhor programa”
· Rio Diversidade
· Wolf Maia pela construção do Teatro Nathalia Timberg.

Os jurados foram Beatriz Radunski, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Luiz Felipe Reis, Macksen Luiz, Rafael Teixeira, Rodrigo Fonseca, Rodrigo Monteiro e Tânia Brandão.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

60! Década de Arromba – Doc. Musical (RJ)

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Foto: divulgação

Wanderléa e elenco em cena


Oportunidade rica para lembrar de uma década e para aplaudir Wanderléa

Dentro do que se propõe, “60! Década de Arromba – Doc. Musical” é um ótimo espetáculo. A produção é dirigida por Frederico Reder e tem roteiro assinado por Marcos Nauer. Tony Lucchesi assina a direção musical, Victor Maia as coreografias e o figurino é de Bruno Perlatto. O elenco formado por vinte e três atores-cantores-bailarinos é complementado por Wanderléa, a estrela da Jovem da Guarda que, não fossem os vários outros méritos da produção, valeria o aplauso sozinha aqui. O título, o programa e o material de divulgação deixam claro ao público o que esperar da peça. Trata-se de um documentário musical dos anos 60, um apanhado das canções nacionais e internacionais que, a partir do Brasil, marcaram a época. Com base nessa perspectiva, é possível encontrar os pontos positivos e os negativos da produção. Porque são bem menos numerosos, comecemos por aquilo que não foi tão bom para depois chegar ao principal. Fica em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana, até 19 de fevereiro.

A força dos Estados Unidos na década
A dramaturgia de Marcos Nauer é superficial demais. O roteiro é uma casca sem qualquer aprofundamento organizado única e exclusivamente para emoldurar espaço para outros elementos da encenação. Dispostos cronologicamente, há dez quadros no total, um para cada ano da década. O primeiro ato vai de 1960 a 1965 e o segundo de 1966 a 1969. Nauer aparentemente evita tomar partido, não oferecendo qualquer opinião, limitando-se a dividir as canções dentro dos blocos e desaparecendo logo em seguida. 

Sobre esse aspecto da proposta, é preciso levantar algumas questões. A primeira dela diz respeito às justificativas do fato. O valor que costumeiramente se dá aos anos 60 é mérito ( ?) dos Estados Unidos e ratificar essa celebração é oferecer provas, antes de tudo, do quanto fomos (ou somos) colonizados. Nessa época, a Guerra Fria chegou ao auge, separando o mundo nos lados capitalista e socialista. A década iniciou após a Revolução Cubana, começou com a construção do Muro de Berlin, avançou pelas ditaduras militares na América Latina e terminou com o início do Guerra do Vietnã. Para os Estados Unidos, centro do mundo comercial, exportar o quão bom era ser americano era mais importante do que jamais tinha sido.

No Brasil, através do consulado americano, construíam-se escolas, estradas e indústrias. O governo yankee patrocinava aqui a tecnologia militar e a mídia, polarizando a política de modo brutal. Nas eleições presidenciais de 60, com o apoio do ultrarreacionário Carlos Lacerda (Governador do Estado da Guanabara), Jânio Quadros venceu contra o Marechal Teixeira Lott, mas seu vice Milton Campos perdeu. Na época, votava-se em separado para presidente e para vice. João Goulart, que tinha sido o vice de Jucelino Kubitschek, se tornou também vice de Jânio, esse que, ao longo do primeiro semestre de 1961, foi se tornando cada vez mais esquerdista para o horror de Lacerda (e dos Estados Unidos).

Em agosto daquele ano, Lacerda declarou na TV Excelsior – emissora que tinha iniciado suas atividades com incentivo americano pela tecnologia do videotape – que Jânio queria fechar o congresso nacional e isso levou o presidente à renúncia no dia seguinte. Os ministros militares, que já haviam tentado dar um golpe de estado na ocasião do suicídio de Getúlio Vargas, tentaram mais uma vez, mas foram impedidos pelo Movimento da Legalidade, protagonizado por Leonel Brizola. Sob regime parlamentarista, Jango assumiu o Palácio do Planalto tendo Tancredo Neves como Primeiro Ministro. Em 1963, através de um plebiscito, o povo escolheu voltar ao sistema de governo anterior, o presidencialismo. Um ano depois, em março, deu-se outra tentativa de golpe, dessa vez com sucesso. Os Estados Unidos varriam do país a esquerda. Em 1954, o mesmo tinha acontecido no Paraguai. Em 1966, aconteceu na Argentina. Em 1968, no Peru. Em 1971, no Uruguai e na Bolívia. Em 1972, no Equador. Em 1973, no Chile.

A música, as roupas, os comportamentos no mundo mudavam. Iniciado em 1962, o Concílio Vaticano II terminou em 1965, abolindo as missas em latim, colocando, no mundo todo, os padres de frente para as pessoas na missa e autorizando o uso de roupas convencionais para todos os religiosos. A minissaia, o biquíni, o rock`n`roll inspiravam uma sociedade mais livre do preconceito de raça, de gênero, de orientação sexual e de religião. Pregando a liberdade de um lado e espalhando a ditadura de outro, os Estados Unidos venceram por aqui nessa década tão controversa.

No roteiro de “60! Década de Arromba”, Marcos Nauer não comenta qualquer dessas questões. Em lugar disso, empilha fatos como o lançamento das bonecas Barbie, Ken e Christie; as mortes de Marilyn Monroe, Edith Piaf e Ary Barroso, dentre outros; a conquista da Lua; os lançamentos de filmes de sucesso; e a explosão da Bossa Nova, da Jovem Guarda e da Tropicália. A aparentemente despretensiosa listagem de inúmeros eventos da década acaba, pela escolha de uns e não de outros, expressando uma opinião. E qual é ela? A de que somos todos impregnados do consumo cultural dos produtos principalmente americanos. E esse, pelo tamanho enorme da seleção feita – a peça dura mais de três horas – se torna o maior mérito do todo de seu trabalho como dramaturgo aqui. E talvez o único.

Dentre vários aspectos positivos, os figurinos de Bruno Perlatto são excelentes!
A partir do roteiro, “60! Década de Arromba” surge como um produto de simples entretenimento a partir das excelentes contribuições da direção musical de Tony Lucchesi, das coreografias de Victor Maia, dos figurinos de Bruno Perlatto, mas também do cenário de Natália Lana, da luz de Daniela Sanchez, do vidografismo de Thiago Stauffer / Studio Prime e sobretudo de alguns trabalhos de interpretação. No todo da obra, vê-se facilmente o bom trabalho da direção de Frederico Reder assistido por Alessandra Brantes.

Tony Lucchesi dá unidade para material tão diverso, vasto e rico em um dos seus melhores trabalhos de sua carreira. Ao longo de toda a extensão da peça, o repertório imenso se desenvolve com vibrante fluidez de modo que as horas passam voando no oferecimento de uma estrutura espetacular divertida e bem defendida pelos dez músicos ao vivo no palco, pelos técnicos (o desenho de som é assinado por Talita Kuroda e por Thiago Chaves) e principalmente pelos atores em seu conjunto. Victor Maia, cada vez melhor como coreógrafo, brilha ao seu lado em números cheios de méritos em que se destacam os quadros das bonecas Barbie, Ken e Christie. Com excelência, as cenas oferecem motivo de êxtase para o público, que se diverte enquanto vê o ótimo desempenho dos intérpretes em dar vida aos seus intentos complicados e belos.

São também bastante positivas as colaborações do cenário assinado por Natália Lana, esse composto por inúmeros objetos reais da época que surgem em cena trazendo viva a década de cinquenta anos atrás. Vê-se extremo bom gosto em todas as escolhas e também quanto ao seu uso no palco. E fora dele também, pois, na moldura do palco, há vários objetos fixados na parede explorando o consumismo da época retratado pela dramaturgia. A luz de Daniela Sanchez e o videografismo de Thiago Stauffer / Studio Prime participam do ótimo ritmo com protagonismo a que se deve aplaudir sem exceção. No entanto, são os figurinos de Bruno Perlatto o ponto mais alto dos signos estéticos de “60! Década de Arromba”.

É difícil descrever o tamanho do mérito dos figurinos de Bruno Perlatto em “60! Década de Arromba”. O guarda-roupa é imenso, porque o espetáculo é longo e o elenco numeroso, mas, em nenhum momento, se vê economia nem em termos de pesquisa, nem em termos de realização. Cada peça é cheia de detalhes, esses compõem vários todos que juntos elevam para altíssimos níveis o valor estético da obra. Podem-se destacar os quadros dos calangos na inauguração de Brasília, do incêndio do circo em Niterói, “Hair”, “Tropicália”, da cena final e as roupas usadas por Wanderléa, mas há que se dizer que todos são excelentes. Perucas, sapatos, gravatas, além dos belíssimos vestidos, cada detalhe há que ser visto com atenção e efusivamente aplaudido.

A oportunidade de ver Wanderléa
No que diz respeito às interpretações, vale dizer de início que tratam-se de desempenhos em termos de canto e de dança essencialmente, pois não há, no melhor sentido do termo, construção de personagens. Contando Wanderléa, são vinte e três pessoas no elenco e, nesse grupo, valem algumas menções. Erika Affonso e Marcelo Ferrari apresentam trabalhos muito bons ao lado de Matheus Ribeiro, de Leo Araújo, de Julie que estão ótimos e principalmente de Cássia Raquel que está excelente! Rodrigo Naice e Tauã Delmiro, nas figuras mais cômicas, são bastante carismáticos e se destacam no todo pelo modo como aproximam o público também. É um prazer reencontrar boa parte desse grupo numeroso - e conhecer a outra parte – para lembrar do quão potente está o nosso teatro musical no que se refere ao talento dos nossos intérpretes. Cantam e dançam lindamente!

Wanderléa, que em 2016 completou 70 anos de vida e 56 de carreira, é uma estrela capaz de fisgar a atenção e de manter o sorriso aberto. Belíssima, ela surge no fim do primeiro ato e faz diversas aparições ao longo do segundo, cantando e fazendo o público cantar também com ela. Suas primeiras gravações datam de 1962 e, ao fim dos anos 60, ela já era uma artista famosa em rede nacional, sucesso mantido ao longo das décadas. Vale a pena assistir a “60! Década de Arromba” também pela oportunidade de vê-la.

Não há, no Rio de Janeiro, equipe receptiva tão qualificada quanto a do Theatro Net Rio. Tudo lá parece servir ao público, ao seu prazer, à sua confortabilidade, ao seu bem. Da compra dos ingressos à recepção, da higiene à qualidade dos serviços de copa e de banheiros, do bom gosto no interior do teatro ao cuidado na saída da sessão, tudo é feito com delicadeza, afinco, elegância e gentileza. Sem dúvida, essas questões são motivos que explicam parte do sucesso das produções que lá estão em cartaz. No caso de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”, dirigido por Frederico Reder, um dos administradores do teatro, os méritos do espaço se confundem com os méritos do espetáculo destacados acima e juntos eles oferecem uma ótima noite. Aplausos!

*

FICHA TÉCNICA:

Roteiro e Pesquisa: Marcos Nauer

Direção: Frederico Reder

Direção Musical: Tony Lucchesi

Elenco: Wanderléa, Amanda Döring, André Sigom, Bel Lima, Cássia Raquel, Deborah Marins, Erika Affonso, Fabiana Tolentino, Giu Mallen,

Jade Salim, Jullie, Leandro Massaferri, Leo Araujo, Marcelo Ferrari, Mateus Ribeiro, Pedro Arrais, Rachel Cristina, Raphael Rossatto, Rodrigo Morura, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Rosana Chayin, Tauã Delmiro

Coreografia: Victor Maia

Figurino: Bruno Perlatto

Cenário: Natália Lana

Iluminação: Daniela Sanchez

Diretora Assistente: Alessandra Brantes

Videografismo cenário: Thiago Stauffer

Desenho de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves

Direção de Produção: Juliana Reder e Frederico Reder

Produtores Associados: Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr

Produtor Executivo: Leandro Bispo

Produtor Assistente: Allan Fernando

Estagiária de Produção: Joelma Di Paula

Diretor Executivo: Léo Delgado

Gerente de Marketing: Mauricio Tavares

Direção de Arte: Barbara Lana

Assistente de Direção Musical: Alexandre Queiroz

Operador de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves

Figurinista Assistente: Teresa Abreu

Assistente de Figurino: Karoline Mesquita

Estagiária de Figurinista: Tayane Zille

Estagiária de Figurinista: Jemima Oliveira

Estagiária de Figurinista: Gabriela Silva Fernandes

Coreógrafa Assistente: Clara Costa

Dance Captain: Rodrigo Morura

Cenógrafa Assistente: Marieta Spada

Assistente de Cenografia: Guilherme Ribeiro

Camarins: Vivi Rocha e Kaká Silva