sábado, 3 de dezembro de 2016

Lili (RJ)

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Foto: divulgação

Darwin Del Fabro e Suzana Castelo

A versão teatral do filme “A garota dinamarquesa”

A primeira temporada de “Lili” terminou há alguns dias, mas espera-se que esse bonito espetáculo retorne à programação teatral em breve. Trata-se de uma peça emocionante que toca o público através de temas pertinentes à contemporaneidade: a transexualidade e o amor além das diferenças. Com texto escrito por Walter Daguerre e com direção de Susana Ribeiro, a montagem interpretada por Darwin Del Fabro e por Suzana Castelo sofre por questões relacionadas à estética e por algumas indefinições que não a permitem chegar ao máximo de sua potência infelizmente. A força do recente belíssimo filme “A garota dinamarquesa”, de Tom Hooper, com Eddie Redmayne e Alicia Vikander, esse lançado no ano passado, também pode ser o responsável pela expectativa em relação à versão teatral da mesma história. De qualquer modo, eis uma boa produção que merece atenção.

Lili Elbe: menos documental, mais lírico
Segundo a divulgação, o texto de “Lili” está unicamente baseado nos diários de Lili Elbe publicados em 1931, ano de sua morte. Isso explica uma das diferenças entre a peça e o filme “A garota dinamarquesa”, esse que foi inspirado no romance homônimo do americano David Ebershoff, publicado em 2000. Feita em primeira pessoa, a dramaturgia apresenta o ponto de vista particular do personagem-título: suas impressões, seus desejos e seus sonhos. Tornado em palavras, seu olhar chega corrompido pelas emoções com seu fluxo de pensamento organizado a partir dois limites da linguagem escrita. Já o filme, além dessa visão pessoal, explora também o contexto em torno do qual os acontecimentos se deram, esses que talvez tornem a história de Lili ainda mais interessante sob determinados aspectos.

Lili Elbe foi uma das primeiras pessoas a fazer intervenções cirúrgicas de redesignação de gênero. Nascida em corpo de homem, foi batizada como Einar Mogens Andreas Wagener em 1882 na Dinamarca. Aos 22 anos, casou-se com Gerda Gottlieb (1886-1940), sua colega nas aulas de pintura em Copenhagen. Por volta de 1907, a modelo e atriz Anna Larssen (1875-1955) avisou não poder comparecer a uma sessão de pintura no ateliê do casal Wagener, mas acabou indo. Ao chegar, viu Einar vestido de mulher e sugeriu-lhe que ele fizesse isso mais vezes, batizando-a como Lili. Algumas semanas depois, Lili apareceu no Baile dos Artistas e fez um grande sucesso. Em 1912, os Wagener moravam, em Paris, na casa onde havia morrido Oscar Wilde. Na capital francesa, Einar exibia suas obras no Salões enquanto Gerda, uma personalidade de destaque na Arte Decó, trabalhava para a Vogue e para La Vie Parisienne. Suas pinturas de mulheres, que depois se descobriu serem de Lili, faziam muito sucesso. Em 1924, já era de conhecimento público que Lili era Einar, pois ele ia a eventos, fazia recepções em casa e viajava pequenas distâncias como a personagem. Gerda apresentava Lili Elvenes como a irmã de Einar, mais solar que ele e de companhia mais agradável.

Nessa época, Einar se via atormentado pela possibilidade de não ser Lili. O livro “The transvestites: the erotic drive do cross-dress”, do doutor alemão Magnus Hirschfeld (1868-1935), publicado em 1910, bem como seus estudos e atuação política no campo da sexualidade ainda não eram amplamente conhecidos de maneira que Einar se sentia isolado no mundo. Por volta de 1927, a jornalista de arte Louise (Loulou) Lassen (1876-1947) foi quem, a partir de uma entrevista, sugeriu o nome Elbe no lugar de Elvenes. Assim, a história de Lili Elbe passou a ser conhecida no mundo. Dörchan Richter (1891-1933, que fez cirurgias entre 1922-1931), Carla von Crist (com cirurgias entre 1929-1930), Toni Ebel (1881-1961, entre 1929 e 1931), além de outras mulheres transexuais, tinham passado pela cirurgia de redesignação de gênero também, mas Elbe ficou mais conhecida do que elas e as causas disso valem uma reflexão.

O casamento entre Einar Wagener e Gerda Gottlieb durou 26 anos e, nesse período, não se tem notícias de traições. Em 1930, depois da primeira cirurgia de Lili, o Rei Christian X, declarou a união deles inválida e permitiu a Einar que ele fizesse novos documentos, inclusive um outro passaporte com sua nova identidade: Lili Ilse Elvenes. Em Berlin, quando foi procurar pelo Dr. Magnus Hirschfeld, conheceu outras pessoas que já tinham passado por processos similares aos seus ou ainda estavam neles, mas não estabeleceu relações com elas. Sobre esse momento, declarou a um amigo que elas lhe causavam náusea e que não se sentia atraído sexualmente por homens. Essas questões foram exploradas pela mídia, sobretudo por Louise (Loulou) Lassen, que se interessava pelo tema. Elbe não podia ser visto como um homossexual, tampouco como heterossexual e também não queria ser travesti, causando um choque no pensamento conservador. O termo intersexual só seria cunhado nos anos 40.

Lili Elbe passou por quatro cirurgias. Na primeira, retirou os testículos; na segunda, implantou dois ovários; na terceira removeu o pênis; e, na quarta, implantou um útero (de uma jovem de 26 anos) e construiu uma vagina. Infelizmente, seu sistema imunológico rejeitou os implantes e ele veio à óbito em setembro de 1931, dois meses antes de completar 49 anos. Semanas depois, seus diários foram publicados com o título “De homem para mulher: a confissão de Lili Elbe” com outros textos de Lassen. Gerda estava casada com outro homem em Marrocos e não veio para o enterro do ex-marido. Em 1940, já divorciada, ela morreu pobre e esquecida em Copenhagen.

No que diz respeito à Elbe, além do interesse da mídia pelo personagem, há que se destacar o cenário que ele/ela tinha diante de si. Por piores notícias que se tenha hoje sobre as agressões aos transexuais mesmo em países que se dizem livres como o Brasil, há informações disponíveis. Na época, no período entre guerras, quase nada havia. Einar Wagener, por isso, partia em direção ao quase total desconhecido com coragem. Talvez esse seja um dos pontos mais relevantes de sua história.

No filme “A garota dinamarquesa”, cujo título traz um traço de ambiguidade sobre se se refere à Elbe ou se à Gerda, há dois protagonistas. Na versão de Hooper sobre a de Ebershoff, ao mesmo tempo em que se narra a história de Lili, tem-se o ponto de vista de Gerda muito presente. Na medida em que Einar partia em busca de si, mais sozinho ele deixava sua esposa e melhor amiga. Dessa forma, a disposição em encontrar-se também punha em conflito o abandono. E tudo em uma sociedade, repleta de arte, sim, mas em uma época em que a igualdade de gêneros era um sonho muito distante para as mulheres. Indicada ao Oscar ao lado de Eddie Redmayne (Lili), Alicia Vikander (Gerda) ganhou a estatueta de Melhor Atriz pela brilhante atuação.

Por causa desses pontos, a dramaturgia de Daguerre, ao se concentrar nas visões de Lili, abdica do entorno e dos demais pontos que fazem parte do contexto. Essa opção pode ser considerada empobrecedora se se valorizar o aspecto documental da obra em questão. Por outro lado, há quem possa ver o resultado do texto de “Lili” como mais poético, com um enaltecimento do lirismo no depoimento pessoal. E ambas as percepções, menos que contrastantes, são válidas.

Problemas na direção de Susana Ribeiro
A direção de Susana Ribeiro coloca muitos desafios à narrativa e alguns ela não consegue vencer. Outros sim. Números mais líricos surgem ao lado de aspectos mais documentais como se a peça quisesse apresentar a história, mas também, ao mesmo tempo, chamar a atenção para a sua força ela própria. O palco é mal usado na direção de movimento de Renato Vieira e tem péssimos efeitos estéticos no cenário de Beli Araujo e principalmente no figurino de Antônio Medeiros. Vale uma análise mais demorada sobre esses pontos.

Os pintores Einar (Darwin Del Fabro) e Gerda (Suzana Castelo) surgem em cena em um espaço quase deserto na abertura. Composições com tiras de elástico limitam o fundo e as laterais do palco e um sofá tipo provençal, mas com o estofamento só pintado, está à frente. O negro do fundo do espaço cênico está visível e se repete nas roupas deles: peças de malha mal costuradas em péssimo acabamento. Tudo isso impõe aos dois intérpretes o desafio insólito de dar conta de todo o espetáculo. A dupla se movimenta pelo palco, tentando dar sentido para os espaços e buscando meios de estabelecer algum lirismo com a luz e com tecidos esvoaçantes que se desprendem dos elásticos. Esses esforços, formais demais, emperram a fluência da dramaturgia.

Del Fabro aparece com uma pesadíssima máscara de base no rosto que, na tentativa de esconder suas marcas masculinas, acabam por revelá-las ainda mais. Seus movimentos mais endurecidos contrapõem com a naturalidade do corpo de Castelo, nua e sem maquiagem aparente. Ao longo de toda a primeira parte da peça, a direção de Ribeiro parece não saber o que fazer para esconder o fim da narrativa e, por isso, deixa-a mais evidente.

“Lili” melhora muito a partir do momento em que Einar se veste de mulher. Pouco a pouco, Del Fabro e Castelo vão ficando mais naturais, mais conectados em cena. A dramaturgia também ajuda nisso, porque, como já exposto, é quando os conflitos entre eles e deles consigo próprios ficam mais óbvios. A partir daí, vê-se a narrativa apesar do quadro em que ela se dá. A plateia recebe com emoção os relatos das cirurgias e se encanta com a dedicação mútua da causa Lili por Einar e por Gerda. E isso evidencia o quanto “Lili”, mesmo com problemas, ganha o coração do público.

A luz de Rodrigo Belay e a trilha sonora de Ricco Vianna
Darwin Del Fabro e Suzana Castelo apresentam bons trabalhos de interpretação. Castelo brilha no início da peça e Del Fabro brilha mais no fim dela. A falta de sintonia entre eles e a pouca conexão deles com o quadro talvez justifiquem uma avaliação menos positiva. Se se considerar as dificuldades de ambos, é possível que os aplausos fiquem mais justos porém. Há méritos no modo como dizem o texto, nas expressões faciais e corporais em quase toda a encenação.

A luz de Rodrigo Belay a música original e a direção de Ricco Vianna são os aspectos mais positivos do espetáculo, criando ambientes e energias capazes de contextualizar a narrativa de modo mais colaborativo que os demais elementos. Investe-se na dureza da história, essa, depois de quase cem anos, ainda um dilema para a sociedade. Produções como “Lili” fazem parte de uma história que quer e que precisa se modificar para que tenhamos todos um mundo mais humano. Parabéns.

*

FICHA TÉCNICA

Texto: Walter Daguerre

Direção: Susana Ribeiro

Elenco: Darwin Del Fabro e Suzana Castelo

Música Original e Direção musical: Ricco Vianna

Direção de movimento: Renato Vieira

Cenografia: Beli Araujo

Figurinos: Antônio Medeiros

Iluminação: Rodrigo Belay

Preparação vocal: Rose Gonçalves

Criação de acessórios: Paulo Bijoux

Programação Visual: Andrea Batitucci

Mídias Sociais: Leo Ladeira

Fotografia: Lucio Luna

Preparação Corporal: Manoela Cardoso

Coach de Pintura: Pablo Ferretti

Orientação Fonoaudiológica: Verônica Machado

Direção de Produção: Alice Cavalcante – Sábios Projetos

Produção Executiva e Administração de Temporada: Luísa Reis

Idealização e produtores associados: Darwin Del Fabro e Suzana Castelo

Realização: Sábios Projetos e SESC Rio

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany



quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Noés (RJ)

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Foto: divulgação

Leonardo Netto, Plínio Soares, Maureen Miranda, Raquel Alvarenga, Rick Yates e Alexandre Mofati

Oportunidade para estar dentro do Cassino da Urca


A montagem de “Noés” tem dois aspectos muito positivos. O primeiro deles é o conjunto de ótimas interpretações e o segundo é o fato do espetáculo ter cumprido sua primeira temporada nas ruínas do antigo Grill-Room, o teatro do Cassino da Urca. A peça foi escrita por Rafael Neumayr e dirigida por Carlos Gradim. Em sua narrativa, há a intercalação de três histórias diferentes, ficando para o público a tarefa de reconhecer (e de decidir sobre) os elos de ligação entre elas. O título diz respeito a Noé, personagem bíblico a quem Deus teria dado a tarefa de construir uma grande arca capaz de proteger sua família e um casal de cada espécie animal para ser salvos de um enorme dilúvio que destruiria a Terra. Alexandre Mofati, Plínio Soares, Leonardo Netto, Raquel Alvarenga, Maureen Miranda e Rick Yates estão no elenco. A produção ficou em cartaz até o último domingo, dia 20 de novembro e espera-se que ela volte para novas oportunidades.

Falsa analogia
As histórias são bem escritas individualmente, mas o modo como elas aparecem impõe ao espectador o desafio de buscar o sentido possível de sua articulação no espetáculo como um todo. E é aí que está o problema, pois facilmente se identifica uma falsa analogia entre a obra de Rafael Neumayr e a alegoria de Noé a qual o título da peça se refere.

Na narrativa, as ruas estão paradas porque o povo está se manifestando contra o governo. Por causa disso, três duplas ficam impossibilitadas de seguir seu caminho. Lucas (Alexandre Mofati) foi visitar seu amigo Aldo (Plínio Soares), que não sai de casa há tempos porque desenvolveu uma fobia de elevador. Pedro (Leonardo Netto) e Natália (Maureen Miranda) são dois atores que, depois do fim da última apresentação de uma peça, se preparam para ir para suas casas. Moça (Raquel Alvarenga) e Moço (Rick Yates) são dois personagens que estão presos dentro de um carro no meio do trânsito parado. Ela é prostituta e foi contratada por ele, que é professor de língua portuguesa, para um programa sexual. A imobilidade obriga as seis figuras a permanecerem em suas conversas por mais dolorosas que elas possam vir a ser.

Lá pelas tantas, um personagem diz para o outro que, em alguma medida, somos todos como Noé, pois, em meio ao dilúvio, nos abrigamos em uma arca onde esperamos a chuva passar. A lenda de Noé, que repercute em outros personagens similares na mitologia grega, egípcia, chinesa, africana e em muitas outras, é narrada no livro do Gênesis entre os capítulos 5 e 10. Esse livro, cuja autoria é atribuída a Moisés, é considerado sagrado pelos judeus, pelos cristãos e pelos muçulmanos em todas as suas variações. Utilizando a bíblia como parâmetro, é possível aferir que o dilúvio teria acontecido, na Mesopotâmia (onde hoje fica o Iraque), entre 2.370 e 2.072 a.C., isto é, pelo menos, há quarenta séculos. Sua narrativa teria sido transmitida oralmente de geração em geração até ser escrita mil anos depois. Segundo ela, Deus teria se decepcionado com a humanidade e, por causa disso, decidido destruí-la, salvando apenas Noé e sua família. Mandou, por isso, que ele construísse uma arca e abrigasse nela um casal de cada espécie de animal. Depois, durante quarenta dias e quarenta noites, uma chuva torrencial inundou o mundo, matando tudo o que não havia sido salvo por Noé.

Entre essa história e a de Neumayr, há uma contradição. O Noé bíblico vai para a arca para salvar-se a mando de Deus que o privilegiou entre os demais homens da Terra. Os personagens da peça estão presos em lugares distintos por causa das manifestações que visam a um mundo melhor contra a corrupção. Ou seja, no primeiro, o personagem cumpre uma determinação que é externa, uma ordem. No segundo, as figuras estão presas pelo acaso. Noé sabe do que vai acontecer (Gn 6,17) do lado de fora da arca e pacientemente espera durante o dilúvio. Os personagens Neumayr, quando chegaram aos lugares onde estão no início da peça, não sabiam que de lá não poderiam sair. Faz-se, assim, uma analogia entre dois pontos que não são análogos. Sendo falacioso, o argumento da peça desaba, prejudicando a construção do seu sentido. 

A encenação dirigida por Carlos Gradim enfrenta dois desafios. O primeiro deles é da ordem do modo como a dramaturgia está construída e essa questão já foi tratada no parágrafo acima. O segundo diz respeito ao espaço onde o espetáculo acontece. “Noés” fez sua primeira temporada nas ruínas do antigo Cassino da Urca, um lugar importantíssimo para história da cultura brasileira. De maneira controversa, por isso, o espaço acaba funcionando como um espetáculo independente e que concorre com a narrativa que nele acontece.

A história do Cassino da Urca
O Cassino da Urca foi construído sobre o antigo Hotel Balneário, esse que datava de 1922, época do centenário da independência. Foi aberto em 1933 e, durante treze anos, foi um dos lugares mais luxuosos do Rio de Janeiro. No palco do Grill-Room, nome da área onde aconteciam as apresentações artísticas, brilharam nomes como Carmen Miranda, Grande Otelo, Francisco Alves, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira além de Josephine Baker, Nat King Cole e Bing Crosby e de muitos outros ao som de três orquestras que se alternavam em cada noite com estilos musicais diferentes. Na plateia, astros e estrelas internacionais eram assíduos. Entre eles, estavam Walt Disney e seus executivos, que haviam colaborado, ao lado de Getúlio Vargas, para a “política de boa vizinhança”, através da qual o Brasil ganhou notoriedade artística no mundo entre guerras. Em abril de 1946, sem resistir às pressões do jornal O Globo e da igreja católica, o jogo foi proibido no Brasil e o Cassino foi fechado. (Conta-se que a mãe de Roberto Marinho havia exigido do filho que ele parasse de frequentar o lugar, do qual era vizinho, sob pena de ser retirado do comando da empresa.)

Em 1954, a TV Tupi, que havia inaugurado a televisão brasileira no país quatro anos antes, passou a utilizar o antigo Cassino como estúdio, funcionando daí até julho de 1980, quando sua concessão não foi renovada pelo General Figueiredo. Abandonado, o prédio quase foi demolido em 1986 quando foi tombado pela prefeitura. Vinte anos depois, o Instituto Europeo de Design passou a funcionar no local e, desde então, há o projeto de restauração do lugar. Hoje em dia, pilhas de escombros dividem o espaço com a vegetação que cresce nas paredes e com os morcegos, atuais zeladores. Tudo isso tenta, mas não consegue esconder de todo a memória presente no ambiente, essa que é muito forte e, em vários momentos, supera o interesse de qualquer coisa que possa acontecer por lá. Assim, por melhor que seja tudo na peça, a atenção facilmente se perde, impondo barreiras quase intransponíveis ao ritmo da narrativa tanto dramatúrgica quanto cênica.

Ótimo conjunto de elenco e méritos nos demais elementos
Alexandre Mofati (Paulo), Plínio Soares (Aldo), Leonardo Netto (Pedro), Maureen Miranda (Natália), Raquel Alvarenga (Moça) e Rick Yates (Moço) apresentam ótimos trabalhos de atuações. Movimentando-se por caminhos tortuosos, eles exibem segurança plena. Suas vozes ecoam pelo espaço de modo claro e com excelentes entonações. Nas contracenas, mas também individualmente, todos eles deixam ver os contornos de cada quadro em nobre luta contra os desafios, defendendo a narrativa com galhardia no que cabem óbvios elogios à direção de movimento de Daniela Carmona e sobretudo à direção geral de Carlos Gradim.

O desenho de luz de Telma Fernandes, a trilha e instalação sonora de Dr. Morris e o cenário de André Cortez oferecem colaboração aos méritos do todo, aproveitando o espaço nas suas enormes possibilidades quanto à ambientação e à acústica. Como já dito, tudo isso faz o espaço ficar ainda mais importante do que já é, o que é um ponto positivo e ao mesmo tempo negativo nessa montagem complexa. Não há destaques no figurino, esse também assinado por Cortez.

De “Noés”, além das ótimas interpretações, fica o mérito do uso do espaço pelo espetáculo. Visitar o Cassino da Urca é uma oportunidade. Que venham outras!

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FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO-GERAL: Carlos Gradim
TEXTO: Rafael Neumayr
ELENCO: Alexandre Mofati, Leonardo Netto, Maureen Miranda, Plínio Soares, Raquel Alvarenga e Rick Yates
DIREÇÃO DE MOVIMENTO: Daniela Carmona
DESIGN DE LUZ: Telma Fernandes
CENOGRAFIA E FIGURINO: André Cortez
TRILHA E INSTALAÇÃO SONORA: Dr Morris
PROGRAMAÇÃO DE ÁUDIO: Bruno Carneiro
PRODUÇÃO EXECUTIVA: AM Produções - Mara Vieira
ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: Tiago Muller
ASSISTENTE DE FIGURINO: Sammara Niemeyer
ASSISTENTE DE CENÓGRAFO: Rodrigo Abreu
ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO: Marcelo Aquino e Cacá Araújo
OPERAÇÃO DE LUZ: Tamara Torres
OPERAÇÃO DE SOM: Vitor Vieira
CENOTECNIA: Utopia Arte e Cenografia - Nahin Fernandes
PROJETO GRÁFICO: Alexandre Muner
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Approach Comunicação
EQUIPAMENTO DE SOM: Rz Sound
FILMAGEM E EDIÇÃO: Fitamarela - Arthur Silva
FOTOS: Elisa Mendes
VISAGISMO (Personagem "Moça"): César Marquez
ASSISTENTE ADMINISTRATIVO: Gabriela Carneiro
REALIZAÇÃO: Instituto Odeon
WEBSITE DO INSTITUTO ODEON
www.institutoodeon.com.br

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Laura (RJ)

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Foto: divulgação

Fabricio Moser


Ótimo monólogo sobre as avós e seus netos

No ótimo “Laura”, o ator Fabricio Moser oferece ao público uma oportunidade de celebrar com ele as relações existentes entre as avós e os seus netos. Partindo de sua própria história com a mãe de sua mãe, ele constrói um espetáculo interativo e plenamente sensorial em que os laços familiares surgem como elemento forte na construção da identidade de cada um. A peça é repleta de imagens bonitas que fazem valer a pena assistir à montagem que fica em cartaz, em sua quarta temporada, na Galeria do Centro Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá, na zona sul do Rio de Janeiro, até o próximo dia 18 de dezembro. Seu cenário e figurino, ao lado de depoimentos do público, fazem parte de uma instalação que fica aberta ao público também em horários mais amplos.

Dramaturgia sobre histórias e relações familiares
O sul-mato-grossense Fabricio Moser não conheceu sua avó materna porque ela, Dona Laura, foi assassinada na esquina de sua casa em maio de 1982 quando ele ainda não tinha completado um ano de vida. Em “Laura”, o público fica sabendo desde o início que, quando o crime aconteceu, ela estava voltando de um baile aonde havia se divertido com as amigas quando um senhor conhecido por Candoca atirou nela, suicidando-se logo em seguida. O ciúmes é a justificativa mais apontada do crime, esse ocorrido na cidade de Cruz Alta, no noroeste do Rio Grande do Sul, onde ela morava.

Em sua dramaturgia, “Laura” não se concentra nem na biografia da homenageada, nem exatamente nos detalhes em torno de sua morte. Na peça, o texto gira em torno, de um lado, na relação entre as avós e seus netos e, de outro, no mérito do ir em busca da própria história familiar. Mais importante que o primeiro, o segundo acaba valendo como um nobre convite a quem assiste à montagem.

Ao longo da encenação, Moser fala diretamente com o público usando a primeira pessoa em um reforço das marcas que podem fazer esse espetáculo ser recebido como uma obra documental. Objetos de seu acervo particular, depoimentos de outros membros de sua família e seu relato particular de seu próprio processo de pesquisa dividem o lugar com cenas mais poéticas de dança e alguns quadros em que Laura ganha corpo na pele do intérprete.

Na narrativa, há espaço ainda para a participação do público. Em três momentos, a maioria da plateia decide sobre a qual quadro assistir. Em um deles, Moser propõe mostrar um entre três documentos do crime que vitimou sua avó (os autos do processo, a certidão de óbito ou recortes de jornais da época são opções). Em outro, ler um entre três depoimentos de outros familiares de Dona Laura (um filho, uma neta ou outra), que também são parentes seus. Há ainda a possibilidade de Laura benzer algum quebranto de alguém do público, fazer uma leitura de tarot, um chá de baratas ou simplesmente um café. É possível também as pessoas dividirem com os demais presentes suas memórias em relação às suas famílias.

De um modo geral, todos essas opções da dramaturgia colaboram para a construção de um clima afetivo entre palco e audiência sem qualquer desmerecimento das possibilidades estéticas da obra. Música, dança, projeções de vídeo e iluminação principalmente surgem como partes do discurso e não apenas como recursos que o viabilizam. E isso é muito positivo no que diz respeito ao desenvolver do argumento. Sem a presença de uma curva narrativa desde aparentemente sua concepção, o texto de “Laura” atinge seu objetivo, esse que parece ter sido o trato de temas caros à humanidade que estão intimamente ligados: identidade e família.

Espetáculo coeso e coerente
A encenação de “Laura” tem méritos na interpretação de Fabricio Moser e no modo como ele usa os demais elementos para apresentar o espetáculo. A peça abre com um número de chula, uma dança típica do folclore gaúcho, pontuando o lugar de onde a narrativa se conta: o neto e não sua avó. Há a queima de incenso, o que colabora para o teor religioso presente na relação de alguém vivo com alguém que já se faleceu. Fotografias, móveis antigos e cartas valorizam a questão da memória, projeções em vídeo trazem outras pessoas e panoramas à defesa da proposta.

A voz de Moser é baixa, mas clara o bastante para toda a plateia entender o que ele diz e, melhor que isso, sentir-se em um ambiente íntimo. Sua movimentação é calma, o que aponta para um ritmo mais cordial e menos ficcional. Ele opera o som, a luz e os vídeos e troca de figurinos sem sair de cena, o que ratifica o interesse da produção em talvez criar a ilusão somente onde ela for inevitável. Ou seja, em todos os aspectos, o texto espetacular se mostra coeso e coerente, o que justifica os elogios que a ele cabem. Não há grandes méritos em cada parte, mas destacável valor no todo.

Teatro documental
Na programação teatral do Rio de Janeiro, “Laura” está ao lado de “Mamãe”, de Álamo Facó; de “Processo de Conscerto do Desejo”, de Matheus Nachtergale; e de “Estamira – À beira do mundo”, de Dani Barros, entre outros, todos esses monólogos em que seus intérpretes/realizadores tematizam suas próprias histórias e relações familiares. Eis um gênero que ganha força ultimamente e que merece mais atenção pela qualidade com que têm aparecido nos palcos cariocas. Parabéns.

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Ficha técnica:
Criação e Atuação: Fabricio Moser
Colaboração Artística: Ana Paula Brasil, Cadu Cinelli, Francisco Taunay, Gabriela Lírio, Nathália Mello e Rafael Cal
Assistência de Produção: Ricardo Martins
Apoio: Espaço Cultural Municipal Sergio Porto, Secretaria de Cultura, Prefeitura do Rio de Janeiro e Projeto Entre