sexta-feira, 24 de março de 2017

Bita e a imaginação que sumiu (RJ)

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Foto: divulgação



Elenco em cena




Delicioso musical traz para palco sucesso entre as crianças

“Bita e a imaginação que sumiu” é a versão para teatro do universo Bita, famoso personagem para crianças lançado em 2011 pela dupla de pernambucanos João Henrique Souza e Chaps Melo ao lado de Enio Porto e de Felipe Almeida. Assinada por Souza, a dramaturgia une algumas histórias já conhecidas pelo público do mercado editorial, da internet e da TV. Com as canções, essas composições originais de Melo, acontece o mesmo. A trilha sonora é cantada ao vivo pelos atores Rodrigo Drade, Bárbara Ferr, Isabela Quadros, Robson Lima, João Manoel, em ótimos trabalhos ao lado de João Velho, esse em excelente atuação. A direção é assinada por Alessandra Colasanti na produção de Bianca de Felippes e de Gabriel Bortolini que fica em cartaz até domingo, dia 26 de março, no Teatro ABEL, em Niterói.

O mundo Bita
A peça começa quando dois habitantes do distante planeta Plot (Rodrigo Drade e Bárbara Ferr) começam a sofrer a falta de imaginação, seu combustível motor. Sem ela, é como se eles vivessem sem oxigênio, correndo o sério risco de deixar de exigir. Por isso, recorrem a Bita (João Velho), o grande sábio intergalático. Para resolver o problema, ele recorre aos seus amigos Lila, Tito e Dan (Isabela Quadros, Robson Lima e João Manoel), um trio de crianças na Terra em quem se pode confiar. Primeiro eles precisam voltar a produzir e a enviar imaginação aos plots. Depois, vão ter que descobrir se há algo bloqueando a comunicação entre os dois planetas. As crianças precisarão se unir.

A direção de Alessandra Colasanti, assistida por Lorena Morais com direção de cena de Lucia Martinusso, abre caminho em cena para que o público, principalmente o infantil, possa participar da peça. Os personagens, em vários momentos, dialogam com as crianças, mantendo-as interessadas na narrativa da qual elas vão tomando ciência e aparentemente gostando. Ao longo do espetáculo, a algazarra comum do apagar das luzes vai dando lugar à participação uníssona, sinal de que a plateia está envolvida. Nos trechos finais, a excitação de quem está curtindo volta a tomar conta e é uma alegria contagiante lembrar de como é bom ser criança e acreditar que é possível, como heróis do cotidiano, mudar o mundo. Os adultos que assistem à peça, se se porem no lugar dos pequenos, poderão levar para casa a sensação desse gostinho de retorno ao olhar infantil do qual nunca é bom se afastar de todo.

Mantendo um ritmo adequado à integração do público de idades bem pequenas até as maiores, a encenação tem o mérito de não fazer do previsível um problema, mas uma espécie de poesia sempre bom de ser recontada. As aventuras de Bita, em sua simplicidade narrativa, vai se parecendo um mito repassável de boca e em boca, e isso, tendo sido valores dos positivos dos trabalhos de criação, de dramaturgia e de direção, chega à audiência do teatro graças aos dos atores.

O enorme carisma de João Velho
Robson Lima (Tito), João Manoel (Dan) e principalmente Isabela Quadros (Lila) apresentam ótimo trabalho de atuação, contribuindo aos méritos do espetáculo sobretudo em termos de canto e de dança. Bárbara Ferr e Rodrigo Drade, na viabilização de diversos personagens menores, vão ainda além por defender um conjunto grande de pequenas figuras com elogiável profissionalismo. O trio, mas principalmente a dupla de intérpretes elevam a qualidade do trabalho como um todo positivamente, valendo destacar o modo como empregam grande repertório de marcas expressivas na construção de uma narrativa cênica que, dentro da proposta, vai muito a contento.

João Velho (Bita), com enorme carisma tantas vezes destacado, aqui recebe contínuos parabéns. Com delicadeza, o ator agrega ao texto uma dose de complexidade que ele talvez não tenha, buscando incluir o público adulto nos conflitos mais profundos das situações dentro dos limites a que o contexto parece ter se proposto. Em outras palavras, a atuação de Velho deixa ver a problemática do personagem título na busca por salvar seu mundo, providenciando de sobra uma melhora na Terra, sempre percebendo a importância do feito e também suas dificuldades.

Um mundo melhor
“Bita e a imaginação que sumiu” se constrói a partir de belos efeitos dados a ver através da direção de arte de Clívia Cohen e da iluminação de Russinho, mas também da direção de movimento de Renato Linhares e da preparação vocal de Pedro Lima. Quase sem fazer uso de tecidos estampados, em preferência a quadros lisos e de cores fortes, o panorama aproxima o palco das versões da narrativa para outros contextos artísticos visuais, como as ilustrações nos livros e os vídeos na internet. A opção se define como voltada ao público de idade mais tenra, interessado nas paletas menos complicadas e mais chamativas. Assim, talvez, permita a mais rápida identificação de quem vá ver a peça já conhecendo os personagens de antes dela.

As canções de Chaps Melo, todas elas composições originais do personagem, divertem as crianças que, já apropriadas dos personagens antes da peça, cantam ao longo do espetáculo. “Bita e a imaginação que sumiu”, por tudo isso, acaba sendo uma festa onde todos se divertem, aprendem e redescobrem o prazer de lutar por um mundo melhor.

*

Ficha técnica:

Texto: João Henrique Souza

Músicas: Chaps Melo

Direção Artística: Alessandra Colasanti

Produtores Associados: Bianca de Felippes e Gabriel Bortolini



Elenco:

Bárbara Ferr

Isabela Quadros

João Manoel

João Velho

Robson Lima

Rodrigo Drade



Direção de Arte: Clívia Cohen

Direção Vocal: Pedro Lima

Direção de Movimento: Renato Linhares

Iluminação: Russinho



Assistente de Direção: Lorena Morais

Visagismo: Auri Alex Mota

Sonoplastia: Roberto Silva

Direção de Cena: Lucia Martinusso

Programação visual: Leonardo Gomez

Produção Executiva: Marcela Epprecht

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Desesperados (RJ)

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Foto: divulgação


Pedroca Monteiro, Marcus Majella e Pablo Sanábio

Deliciosa comédia

“Desesperados” é a nova ótima comédia dirigida por João Fonseca. Escrita por Fernando Ceylão, ela narra as desventuras de Bia e de Marcondes em dias preenchidos por mais de quatro dezenas de outros personagens tão desesperados quanto eles. Marcus Majella, Pablo Sanábio e Pedroca Monteiro, esse último indicado ao Prêmio APTR de Melhor Ator Coadjuvante de 2016, estão no elenco em atuações engraçadíssimas que revelam, além disso, suas vastas variedades expressivas aqui disponíveis. A peça estreou na última sexta-feira, dia 17 de fevereiro, no Teatro Abel, em Niteroi (RJ), e segue para Americana (SP), Manaus (AM) e para outras cidades desse enorme Brasil nas próximas semanas.


Ótimo texto de Fernando Ceylão
São várias histórias paralelas justapostas que, talvez, se encontram de alguma forma na excelência do texto de Fernando Ceylão. Cheia de problemas familiares, a designer Bia (Pablo Sanábio) levou um fora do namorado na mesma época em que foi demitida e agora está inconsolável. Em outra região da cidade, em uma noite, o antigo brigão da escola Marcondes (Marcus Majella) esbarra com Ricardo (Pedroca Monteiro), uma de suas vítimas e por ele se apaixona. Só que Ricardo é hétero e, no momento, está tentando oxigenar seu casamento, obtendo novas fontes de renda. O público acompanha, ao longo da narrativa, as desgraças nas vidas desses personagens e de muitos outros em volta deles.

Com maestria, Ceylão emparelha inúmeras anedotas, permitindo que, aos poucos, o público estabeleça (ou perceba) relações muito sensíveis entre elas. Lá pelas tantas, o emaranhado é tão grande que, no melhor momento da dramaturgia, a narrativa ultrapassa seus limites e invade a linguagem. Quem assistir descobrirá uma “rebelião” do conteúdo sobre a forma, expondo de modo interessantíssimo o quanto esses dois pontos de vista estão misturados.

João Fonseca e os outros méritos da produção
A direção de João Fonseca, contribuindo com a proposta do texto, faz com que o jogo entre os atores na encenação assuma o seu protagonismo no argumento. Os três atores – Sanábio, Majella e Monteiro – dão vida aos mais de quarenta personagens de “Desesperados” por meio de composições corporais e vocais, mas essas são bastante ajudadas por um elemento cenográfico: placas com indicações verbais das figuras interpretadas e dos objetos participantes. Durante o espetáculo, os intérpretes colam (e descolam) no próprio corpo palavras que, em primeiro momento, ajudam o público a compreender a evolução dos quadros, mas depois se tornam o próprio quadro. O ritmo é exuberante em mais uma meritosa direção de Fonseca.

O cenário de Daniel de Jesus cumpre movimento similar às placas na construção do sentido de “Desesperados”. Inúmeras mesas e cadeiras de plástico vermelhas, compondo um fundo e invadindo o palco na composição das cenas, ajudam a destacar os personagens vestidos de preto em panorama essencialmente da mesma cor. Porém, elas dão a ver uma espécie de teia em que os inúmeros personagens estão envolvidos, essa um sistema que, mesmo fora da ficção, é capaz de fazer todos se desesperar. Consequentemente, o cenário assim aponta o heroísmo de quem mantém a sanidade em meio ao caos. A peça tem figurino da Reserva, luz de Daniela Sanchez e trilha sonora de Carol Portes, essa que assina também a assistência de direção. Vale destacar a coreografia de Clara da Costa em uma deliciosa brincadeira dessa peça com o filme “La La Land”.

Os três intérpretes oferecem ótimas atuações, valorizando as intenções, o jogo da comédia, o fluxo cheio de quebras da narrativa e sobretudo o vibrante diálogo com o público. Cheio de carisma, o trio traz a atenção da audiência e a sustenta ao longo de toda a sessão de modo elogiável. Sai-se do teatro, levando para casa seus personagens favoritos e suas piadas preferidas, o que marca o alcance do objetivo com sucesso na defesa de valores estéticos.

Um viva para a boa comédia
Talvez um dos resquícios de nosso longo período de colonização seja o pouco apreço que damos às comédias apesar desse ser nosso gênero preferido na hora de escolher ao que assistir seja no televisão, no cinema ou no teatro. Por que quase nunca as narrativas cômicas são indicadas a prêmios e os intérpretes que mais frequentemente se envolvem com esse tipo de composição são pouco valorizados? Nosso país - tão célebre pelo seu carnaval, capaz até mesmo de fazer piada com suas piores desgraças - deveria “sair do armário” e assumir aquilo que mais espontaneamente leva o nosso aplauso. Vale a pena aplaudir “Desesperados” e se divertir com esse trabalho da Gargalho e da Chaim Produções. Vida longa!

*

FICHA TÉCNICA
Texto e Concepção: Fernando Ceylão
Direção: João Fonseca
Assistente de Direção: Carol Portes

Elenco:
Marcus Majella - Marcondes / Leila / Marcia / Strip / Ladrao / advogado / Dependente 1 / Chefe
Pablo Sanábio - Bia / Advogado / Strip / Amigo / Dependente 3 / TV Divã/ Diretor / Ladrao / Mente de Ricardo / Garçons / Uber
Pedroca Monteiro - Ricardo / Monica / Marcondes ideal / Amigo / Crispim / Daniel / Renato / Polícia / Manicure / Cabeleireiro

Cenário: Daniel de Jesus
Trilha Sonora: Carol Portes
Figurino: Reserva
Iluminação: Daniela Sanchez
Coreógrafa: Clara da Costa
Música da Bia: Tony Lucchesi
Operador de luz: Rayner Basilio
Operador de Luz e Contrarregra: Tallys Moreno
Produção Executiva: Arthur Monteiro
Produção Geral: Sandro Chaim
Idealização: Marcus Majella e Pablo Sanábio
Realização: Gargalho Produções e Chaim Produções

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Egotrip (BA)

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Foto: divulgação

Rafael Medrado, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e Alexandre Moreira


Ótima comédia de João Sanches

“Egotrip - Ser ou não ser? Eis a comédia” é o quinto espetáculo do grupo soteropolitano Tribo. A comédia narra a aventura de quatro amigos que saem de Salvador e viajam pelo interior da Bahia em busca de um anel de nobreza que um deles teria herdado de seus parentes portugueses. Enquanto se diverte, o público vê nascer dentro de si a saudade das amizades antigas e dos relacionamentos duradouros, esses que ajudam a enfrentar o futuro. Escrita e dirigida por João Sanches, a peça é interpretada por Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e por Rafael Medrado, todos eles em excelentes interpretações. Ao vivo, Leonardo Bittencourt participa com a trilha sonora. A produção fica em cartaz até 19 de fevereiro no Teatro do Sesi, no bairro Rio Vermelho, na zona sul da capital baiana.


Aventuras pelo interior da Bahia
Rafael (Rafael Medrado) está às portas do casamento com sua antiga namorada quando descobre que seu pai herdou de seus familiares portugueses um anel de nobreza. A notícia vem com uma revelação estarrecedora: por desvalorizar o objeto, o tal foi dado a um primo distante. Rafael quer o anel e, sem contar nada para a noiva, combina de empreender com seus dois melhores amigos – o coxinha Alexandre (Alexandre Moreira) e o marxista Jarbas (Jarbas Oliver) – uma rápida viagem até Morro do Chapéu, cidade onde mora o referido parente. O que deveria durar um simples pernoite acaba por levar bem mais tempo que isso.

Os problemas do trio começam quando Galego (Igor Epifânio) surge no meio de uma rodovia e é atropelado pelo carro de Rafael. Ao levá-lo para o hospital, o automóvel é roubado e, por causa disso, todos vão parar em Bom Jesus da Lapa, a oitocentos quilômetros de Salvador. A mudança na rota acaba por incluir, entre outras coisas, um forró, uma velório, um duelo e um belo amanhecer em situações cheias de novos e engraçados personagens.

“Egotrip”, sem trocas de cenário e de figurino, tem uma encenação quase que inteiramente sustentada na composição de personagens pelo trabalho de corpo e de voz dos quatro atores. Seus méritos como intérpretes na viabilização da dramaturgia fazem ver os melhores valores do texto principalmente em termos do ótimo ritmo da narrativa. Em outras palavras, a análise da peça inicia pela contribuição de João Sanches, mas chega inevitavelmente a de Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e de Rafael Medrado.

Uma ótima comédia de João Sanches
O texto começa, se estabelece e termina com simplicidade. O fato dos nomes dos personagens serem iguais aos primeiros nomes dos intérpretes e o modo como esses se apresentam para o público e dão início à narrativa já defendem o caráter da obra em sua abertura. Essa é uma peça sobre a amizade e sobre o valor das coisas simples apesar de, em superfície, falar de um anel de nobreza e se organizar a partir de mil aventuras insólitas. A dramaturgia de Sanches traz o problema a ser resolvido de modo muito claro, a curva dramática é repleta de pontos de virada bem tradicionais e o final, ainda que com uma pequena “barriguinha”, corresponde equilibradamente a todas as intenções possíveis. Em tudo, a comédia tem força.

A qualidade dos diálogos reclama e sustenta o interesse. O ritmo é ágil, as estruturas são inteligentes e os momentos são criativos. O texto de “Egotrip”, de um modo geral, é envolvente sobretudo pelas situações nas quais os personagens se veem envolvidos e pelas quais eles têm a oportunidade de se deixarem conhecer.

A encenação de cem minutos assinada pelo dramaturgo equilibra os valores dos personagens. Jarbas e Alexandre, nem de longe, são tão bem construídos no texto como Galego e como Rafael. Isso revela, como mais adiante se tratará, a qualidade da interpretação de Jarbas Oliver e de Alexandre Moreira, mas antes vale destacar o jogo proposto pela direção de João Sanches.

As cenas são articuladas de modo a esconder o que as divide, defendendo uma narrativa bem estruturada em um só fôlego. Além dos personagens principais, os atores interpretam os coadjuvantes. Diferente de todos, Isabel – a namorada de Rafael – ganha vida pelos quatro intérpretes ao longo da peça em uma proposta que auxilia na autorreferência do texto espetacular. Lá pelas tantas, há cinco personagens ao mesmo tempo em cena e, por causa disso, um deles deixa de ganhar corpo, mas permanece presente, acontecimento esse que deixa ver, de um lado, a coragem dos autores e, de outro, a habilidade do público em decodificar o discurso proposto. Em termos de dramaturgia bem como de direção, eis um grande trabalho de Sanches.

Não há destaques no cenário de Erick Saboya, Igor Souza e de Sanches e no figurino do diretor. Ambos elementos, assim como a iluminação de Alexandre Moreira e de Sanches (que é operada em cena pelos próprios intérpretes), colaboram com o ótimo ritmo da narrativa por não acrescentarem muitas novas informações relevantes.

Excelente conjunto de elenco
Alexandre Moreira (Alexandre), Igor Epifânio (Galego), Jarbas Oliver (Jarbas) e Rafael Medrado (Rafael) apresentam, em conjunto, excelentes contribuições, mas seus méritos se fazem ver por motivos diferentes. Moreira e Oliver partem de protagonistas não tão bem construídos pela dramaturgia, como já se disse. Pelo texto, quase não se sabe qualquer coisa sobre seus Alexandre e Jarbas a não ser que são opostos politicamente e de orientações sexuais diferentes (um é homossexual e o outro heterossexual). No entanto, as colaborações dos atores acabam por ser tão carismáticas quanto a dos demais, o que, consideradas as dificuldades iniciais, é um feito destacável.

A verdade sobre o passado do Galego de Igor Epifânio nutre o terceiro quarto da narrativa, o que faz desse personagem até aí e durante esse momento uma figura muito interessante desde a dramaturgia. Porém, o modo como o ator participa de “Egotrip” com sua versão de Isabel e com o pai de Joaquim (o tio do pai de Rafael) é brilhante. Essas são figuras inesquecíveis no espetáculo, sem dúvida.

Rafael Medrado é o protagonista na dramaturgia por ser em torno de quem toda a narrativa acontece. De um jeito muito sutil, pouco a pouco, o intérprete vai deixando ver que há um conflito interno por trás de seu personagem capaz de driblar a aparente superficialidade inicial de sua figura. O público acaba por ser convidado a torcer por uma reviravolta em sua vida, o que aproxima ainda mais a audiência da história. Com menos desafios em termos de variedade de composições – pois Medrado praticamente interpreta o mesmo personagem durante a peça inteira –, o ator teve mais chances de aprofundar seu material, aproveitando todas elas elogiosamente. É por isso também um ótimo trabalho.

O quadro de “Egotrip” se completa com a participação de Leonardo Bittencourt que permanece visível no fundo do palco ao longo de toda a apresentação. Discreto, mas participativo, sua presença, além de ser outro sinal da fluência linguística da encenação, colabora por manter firme o diálogo proposto pela peça na abertura. Em termos de direção musical, o trabalho de Bittencourt é responsável por ótimos efeitos cômicos além dos méritos em termos de ritmo do conjunto como um todo.

Grupo Tribo em seu 12o ano de trabalho
“Egotrip - Ser ou não ser? Eis a comédia” estreou no início de julho de 2016 e acumula até agora indicações ao Prêmio Braskem de Teatro Baiano de Melhor Texto, Melhor Direção e de Melhor Ator (Igor Epifânio). Os vencedores serão conhecidos em abril de 2017. Vale ver o espetáculo para também torcer por eles nessa seleção, mas principalmente pelo contínuo trabalho desse grupo de artistas tão valoroso. Aplausos.


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Ficha Técnica:
Texto e Encenação: João Sanches
Elenco: Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e Rafael Medrado
Trilha musical ao vivo: Leonardo Bittencourt
Figurino: João Sanches
Cenário: João Sanches, Erick Saboya e Igor Souza
Iluminação: João Sanches e Alexandre Moreira
Produção: Wanderley Meira e Carambola Produções