sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Chet Baker - Apenas um sopro (SP)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação


Jonathas Joba, Ladislau Kardos, Paulo Miklos, Piero Damiani e Anna Toledo

Um Chet Baker que não toca

O mais esquisito de “Chet Baker – Apenas um sopro” é que, apesar do título, a melhor coisa da peça é o solo de bateria que abre o espetáculo. Escrita por Sérgio Roveri, em projeto idealizado por Fábio Santana (1969-2016), e dirigida por José Roberto Jardim, a obra é protagonizada por Paulo Miklos, que estreia como ator de teatro em bom trabalho. Ao seu lado, estão Anna Toledo, Jonathas Joba, Piero Damiani e Ladislau Kardos, esse último o baterista elogiado. De resto, paira uma situação dramática que não se desenvolve e é mera oportunidade para a belas interpretações de algumas canções clássicas do jazz americano sobretudo as entorno da parte da biografia do trompetista que dá nome título à montagem. Fica em cartaz até 30 de outubro de no Teatro I do Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro.

Problemas graves na dramaturgia
Quando a peça começa, (Albert) Phil (Ladislau Kardos) está em cena sozinho, ensaiando em sua bateria. Em uma vibrante evolução de ritmos e de múltiplas sonoridades, ele confere melodia ao que sai do instrumento no entrecho que é o melhor quadro de toda a peça que ainda está se iniciando. Depois, entra Rick (Jonanthas Joba), o baixista, que apresenta a situação inicial. Uma banda de jazz muito famosa vai se reunir ali, em torno do famoso trompetista e cantor Chet Baker para ensaiar mais um disco que eles irão gravar. É possível que ele, porém, não venha porque ficou afastado nos últimos tempos, tendo sido vítima de uma briga de rua em que perdeu os dentes da frente e também de problemas relacionados ao uso de drogas pesadas. As entradas do pianista David (Piero Damiani) e da cantora Alice (Anna Toledo) reforçam essa dúvida.

A questão sobre se Chet Baker virá ou não virá ensaiar com os outros se dilui, arrastando o texto de Sérgio Roveri. Os renomados Rick, David e Alice dedicam longos tempos no achincalhe do jovem iniciante Phil em uma atitude que, sendo interessante (e até engraçada) de início, irrita depois. Isso acontece sobretudo quando se percebe que a narrativa, unindo ficção e realidade, está tropeçando nos mesmos passos sem continuar sua caminhada.

Lá pelas tantas, a entrada do personagem-título (Paulo Miklos) dá movimento para a dramaturgia, mas infelizmente tudo para de novo. Um longuíssimo diálogo entre os quatro mais experientes se organiza a partir da resistência de Baker quanto ao repertório previsto para o disco. Saber exatamente o que será gravado ou não alimenta o público para continuar adiante na história além do prazer de ouvir as canções sendo interpretadas. A espera por “My funny Valentine” (de Richard Rodgers e de Lorenz Hart) domina a audiência. Composta para o musical “Babes in Arms”, da Broadway, em 1937, essa é uma das canções mais célebres do jazz americano. Chet Baker a gravou, pela primeira vez, em 1952.

Nesse sentido, ao longo de setenta e cinco minutos, “Chet Baker – Apenas um sopro” vive da chegada dos personagens e da dúvida sobre o que eles vão gravar ou não. Em termos de dramaturgia, isso é paupérrimo!

Cenário e figurino prejudicam a encenação
A direção de José Roberto Jardim vence o desafio de trazer à cena texto tão insólito. Os personagens andam de um lado ao outro em espaço que nunca se modifica e durante um tempo narrativo que é similar ao tempo fora da cena (ou seja, sem elipses aparentes). Os méritos são possíveis de ser vislumbrados na composição de imagens durante a intepretação das canções, mas essa é prejudicada pelo cenário e pelo figurino principalmente.

Os personagens são músicos de jazz. Tocam na noite, se envolvem em brigas, convivem com o uso de drogas leves e pesadas. Em suas falas, há agressões, palavrões, desilusões. A narrativa inteira da peça acontece durante um ensaio privado deles. Ou seja, não há público ficcional, o grupo está sozinho em espaço de intimidade. Apesar disso, no cenário criado pela Academia de Palhaços, até o fio da caixa de som combina com o sofá. Tudo é ou preto ou vermelho, limpo e brilhante, chic. O figurino de João Pimenta (com visagismo de Fábio Namatame) apresenta Phil, Rick, David, Alice e Chet vestindo roupas impecáveis, em paleta de cores também em harmonia com o ambiente. Quanto à visualidade, assim, a peça a que se assiste nada tem a ver com história que ela defende. A luz de Aline Santini, colaborando com o texto e com a trilha sonora, dá um ar soturno para o panorama que o valoriza positivamente. 

Méritos nas interpretações
Jonathas Joba (o baixista Rick) e o Piero Damiani (o pianista David) interpretam mais figuras de linguagem do que propriamente personagens. Em outras palavras, nem um ator nem o outro teve, ao seu dispor, muito material para oferecer alguma profundidade que lhes destacasse. O primeiro, no longo diálogo com o Baterista que abre a peça, mostra bom usos das intenções e busca por alguma tensão capaz de favorecer o ritmo. Anna Toledo (Alice) e Ladislau Kardos (Phil) têm mais oportunidades por desempenhar, na dramaturgia, funções mais valorizadas. O Baterista traz, em sua presença, um conflito entre gerações que faz a narrativa se relacionar com o hoje além de contextualizá-la de modo mais complexo. A Cantora, por se negar a interpretar uma música que lhe tornou famosa, faz ver um conflito que é inexistente no Baixista e no Pianista. Os segundos assim como os primeiros, dados os desafios diferentes, trazem valores à produção.

Paulo Miklos (Chet Baker), sobre quem recaem as maiores expectativas da obra, apresenta bom trabalho. Estreando no teatro, como também Joba, Damiani e Kardos, há usos de expressões e de movimentos de modo colaborativo, isto é, disposto a apresentar a narrativa, mas também o seu contexto. No interior de cada fala, há mérito na valorização de um ritmo mais realista e, no conjunto das cenas, vê-se alguma variação que se esforça em impedir a monotonia. O grande problema é que, diferente da bateria, do baixo, do piano e da voz, o trompete não brilha em qualquer momento da peça, frustrando a óbvia expectativa.

Frustrante
“Chet Baker – Apenas um sopro” narra a história de um momento em que o trompetista Chet Baker estava impossibilitado de tocar. Essa justificativa, no entanto, sobretudo pelo modo como diferentes acontecimentos da vida real do músico se embaralham na peça, não convence. Sai-se frustrado do teatro infelizmente.

*

Ficha técnica:

Dramaturgia: Sérgio Roveri

Direção: José Roberto Jardim

Idealização: Fábio Santana

Elenco: Paulo Miklos, Anna Toledo, Jonathas Joba, Piero Damiani e Ladislau Kardos

Direção de Produção: Renata Galvão

Direção musical: Piero Damiani

Figurino: João Pimenta

Assistente de figurino: Marcelo Andreotti

Cenografia: Academia de Palhaços

Visagismo: Fábio Namatame

Desenho de luz: Aline Santini

Operação de luz: João Pedro Meirelles

Desenho de som: Carlos Henrique

Operação de som: Cainã Bomilcar

Camareira: Sônia Favero

Produção Executiva: Nicole Maragoni

Produção: Cibele de Lima

Assistente de direção de produção: Kamille Viola e Joca Vidal

Fotografia, vídeo e design: Victor Iemini

Realização: Centro Cultural do Banco do Brasil

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Bem-vindo!