sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Razões para ser bonita (SP)

Foto: Caio Gallucci

Com boa vontade, um bom espetáculo surgindo


            “Razões para ser bonita” é a nova comédia de Ingrid Guimarães depois do sucesso de “Cócegas”. O êxito da atriz é o mesmo, ou , talvez, maior, exibindo grande talento e técnica através da exposição de sua força enquanto intérprete e do bom uso de suas expressões e pausas. Ao lado do ator Gustavo Machado, sob a heroica direção de João Fonseca, é quando se veem os bons momentos da peça, cujo texto do americano Neil LaBute (ou adaptação de Susana Garcia) é recheado de muitas partes mal construídas. Não fosse Ingrid, Gustavo e João, teríamos, sem dúvida, um grande fracasso. Felizmente, os temos e o resultado, com boa vontade, não é negativo. 

O tema anunciado é a obsessão pela beleza. Steph (Ingrid Guimarães) é casada há quatro anos com Greg (Gustavo Machado), colega de trabalho de Leo (Marcelo Faria), cuja esposa Carla (Aline Fanju) é a melhor amiga de Steph. Um dia, numa conversa casual, Greg comenta com Leo que acha o rosto de sua esposa comum. Através de Carla, que escutou o comentário, a informação chega rapidamente aos ouvidos de Steph. A peça abre com a briga de Steph com seu marido Greg por causa disso. O casal chega a vias de se separar, pois Steph não consegue conviver com a certeza de que Greg não a ache bonita. A situação criada por LaBute é simples e potente. Steph diz impropérios para Greg motivada pela raiva e todo esse sentimento ruim não é páreo para o despretensioso comentário dele para um amigo em função do peso da verdade que havia ali. Positivamente, porque de forma bem clara, o tema da importância beleza abre a narrativa, colocando o espectador em estado de atenção. Com excelentes interpretações de Guimarães e de Machado, o jogo inicial se estabelece em plenitude com tensão e graça, reflexão e entretenimento. 

A partir da segunda cena, no entanto, “Razões para ser bonita” não se apresenta como uma boa narração e tampouco se configura como uma dissertação bem escrita. Na sequência entre os colegas Léo e Greg, apesar de uma menção quanto a importância de manter a saúde e o corpo em forma, o que corrobora com o tema da beleza, o diálogo começa e se aprofunda sobre as diferenças entre os homens e as mulheres. O tema batido, cansativo, superficial e cafona começa a imperar negativamente, apresentando, a partir daí, personagens com concepções divergentes. Enquanto Steph e Carla (Aline Fanju) sofrem em relação à importância da beleza, Greg se mostra como desapegado de tudo isso e interessado em continuar vivendo um bom casamento ao lado do amor de sua vida. De forma oposta e estranha, Leo é o personagem ligado unicamente a sexo e ao puro prazer, desperdiçando negativamente uma possível ligação ao narcisismo, o que poderia aproximá-lo do tema central. A terceira cena é uma exata repetição da primeira e, na quarta, já não há muito para ser apresentado. O final é previsível e, de novo, só não é pior em função das boas interpretações e de uma direção cuidadosa. 

Marcelo Faria repete o personagem que a TV lhe consagrou: o cara bonito, malandro, conquistador e superficial. Como esperado, pela ausência de desafios, a performance está a contento. Aline Fanju, que dá a vida a bela Carla, defende com fragilidade a sua personagem, ficando infelizmente muito aquém de Ingrid Guimarães. O ideal, que não aconteceu na sessão de estreia carioca, mas poderá acontecer na continuidade da temporada, seria que a mesma força, que age em sentidos opostos, tivesse a mesma intensidade. 

Os figurinos de Antônio Medeiros são positivamente óbvios, mas se esquivam de trazer o “a mais” que a iluminação de Daniela Sanchez e o cenário de Fernando Melo da Costa trazem. São elogiáveis as placas transparentes que oferecem possibilidades ricas de sentido com as palavras “Por que”, “Sexo”, “Comum” e “Espelho”. João Fonseca, com maestria, aproveita a possibilidade e aprofunda a reflexão usando bem esses elementos. No mesmo sentido, a iluminação de madrugada cria um ambiente silencioso e não menos pantanoso para as conversas que nessa hora da noite acontecem. A trilha sonora de Ricardo Leão age em total parceria com o ritmo imposto à encenação por João Fonseca. 

“Razões para ser bonita”, em cartaz no Teatro dos 4, do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, estreou em São Paulo em setembro último. Trata-se de uma peça de entretenimento disposta a fazer rir, emocionar e refletir. Apesar dos percalços, evidentes na narração de uma história frágil e na dissertação superficial de um tema importante, é possível em função dos méritos ver aí um bom espetáculo surgindo. 


*

Ficha Técnica:

Texto: Neil LaBute
Direção: João Fonseca
Tradução e Adaptação: Susana Garcia
Elenco: Ingrid Guimarães, Marcelo Faria, Gustavo Machado, e Aline Fanju
Iluminação: Daniela Sanchez
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Antonio Medeiros
Produção musical: Ricardo Leão
Programação Visual: Rene Machado
Fotos Estúdio: Nana Moraes
Preparação vocal: Rose Goncalves
Designer de lutas: Dani Hu

6 comentários:

  1. Excesso de palavrões... precisamos acabar com isso !!

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  2. Propaganda enganosa
    Os espectadores têm o direito de saber, antes de pagar a entrada, que se trata de uma peça com roteiro desbocado somente usado em casas de prostituição, cais do porto e orgias. Nossos ouvidos não são pinico. Além de um roteiro para quem tem QI inferior a 20, a atriz sem demonstrar a menor vergonha, inicia a peça com uma apresentação de todos os palavrões que são conhecidos em antros morais, gratuitamente, tentando fazer o público mais ignorante rir de palavrões. Isso é propaganda enganosa. Paguei para ver teatro e tive que me retirar logo no início para não vomitar. Nosso teatro que já foi brilhante não merece isso.

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  3. Propaganda enganosa
    Os espectadores têm o direito de saber, antes de pagar a entrada, que se trata de uma peça com roteiro desbocado somente usado em casas de prostituição, cais do porto e orgias. Nossos ouvidos não são pinico. Além de um roteiro para quem tem QI inferior a 20, a atriz sem demonstrar a menor vergonha, inicia a peça com uma apresentação de todos os palavrões que são conhecidos em antros morais, gratuitamente, tentando fazer o público mais ignorante rir de palavrões. Isso é propaganda enganosa. Paguei para ver teatro e tive que me retirar logo no início para não vomitar. Nosso teatro que já foi brilhante não merece isso.

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  4. Achei o espetáculo satisfatório. Os palavrões fazem parte do contexto da primeira cena e não permanecem durante todo o espetáculo. Dei boas risadas e relembrei momentos importantes da minha vida. Recomendo!

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