sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O duelo (RJ)

No centro, Vanderlei Bernardino
Foto: divulgação

Mais uma excelente produção da Mundana Companhia

De torto, esse Tchekhov não tem nada. Nova produção da Cia. Mundana de Teatro, a mesma de “O idiota – uma novela teatral”, o espetáculo “O duelo” investe no realismo psicológico do dramaturgo e romancista russo e, sabendo que o teatro é mais vivo que a literatura, ou pelo menos outra coisa, vai além inteligente e positivamente. Ou seja, ao contrário de dissociar o universo do autor e o “experimento narrativo”, temos aí um investimento sublime do teatro em relação à dramaturgia, esse feito por um grupo que reconhece o valor do segundo, mas se sabe (bom) fazedor do primeiro. Dirigido por Georgette Fadel, em “O duelo”, se vêem bons duelos. Antes de ser entre um funcionário público (Laiévski, Aury Porto) e um zoólogo (Von Koren, Pascoal da Conceição), esse duelo é entre o protagonista (Laiévski) contra si mesmo, tornando-se, depois, entre o antagonista (Von Koren) e si próprio também. E toda a “espetaculosidade” dos elementos utilizados em cena nada mais são que ótimos corrimões para a descida do espectador adentro do universo psicológico do funcionário. Em cartaz no Espaço Tom Jobim, a montagem vale a pena ser vista por vários motivos, alguns dos quais serão tratados abaixo.

Em um primeiro momento, temos ou personagens sem problemas ou personagens cujas soluções encontram-se externas a eles. Laiévski é o protagonista porque ele é o único (ou o primeiro a aparecer assim) que, desde o início, tem um problema que só ele poderá resolver ou deixa-lo sem solução. Há dois anos, Nadiejda (Camila Pitanga) abandonou o marido para seguir com Laiévski para o Cáucaso, uma região ao sul da Rússia Europeia, banhada pelo Mar Negro. A peça começa quando Laiévski confessa para seu melhor amigo, o médico Samóilenko (Vanderlei Bernardino), que já não está apaixonado pela mulher com quem vive e não sabe o que fazer com ela, visto que ela depende dele. O sentimento de Laiévski fica ainda mais complexo quando ele recebe uma carta que diz que Dimov, o marido de Nadiejda, faleceu. O fato autoriza o funcionário a casar-se com sua concubina finalmente, que é justamente o que ele menos quer. Esse é o universo do russo Anton Tchekhov (1860-1904) que faz com que uma novela escrita em 1891 possa ser plena e maravilhosamente atual. Longe da Rússia e estando oficialmente Nadiejda viúva, não há nada que impeça Laiévski de se casar com a mulher com quem mora. Só que isso ele não quer.

Enquanto esse lugar significativo se estrutura na cabeça do espectador, Fadel apresenta com calma os outros plots que dão sustentação à trama principal. Conhecem-se o casal Bitiugova (Carol Badra) e o militar Kirílin (Sergio Siviero), a única família na cidade que recebe Nadiejda e Laiévski, apesar de não serem esses últimos oficialmente casados. Também, o diácono da cidade (Fredy Állan), o comerciante Atchmiánov (Guilherme Calzavara) e o zoólogo Von Koren (Pascoal da Conceição). Entre programas fúteis, como banhos de mar, almoços, picnics e festas de aniversário, a sociedade se expõe e se deteriora na visão recorrente na literatura de Tchekhov. Sem saber um do outro, o comerciante e o militar almejam a atenção de Nadiejda. Enquanto isso, o diácono e o zoólogo planejam uma expedição para estudar a fauna local, momento em que o Von Koren expõe suas opiniões acerca do desenvolvimento humano em relação à lei do mais forte seguida pelos animais. É quando se conhece, de um lado, a ojeriza declarada que Von Koren tem por Laiévski, e, de outro, a ojeriza velada que Bitiugova tem por Nadiejna, por terem, o funcionário e sua amante, trazido o pecado para a pequena localidade. Apesar de demorar a descrever os momentos, Tchekhov e Fadel andam rápido com a narrativa: toda a história de “O duelo” se passa em alguns dias, menos que uma semana.

Se o novelista russo usa das palavras para compor a estrutura do duelo final, a diretora Georgette Fadel, assistida por Diego Moschkovich, tem outros recursos para chegar lá. O tempo gasto com diálogos frívolos na literatura é o tempo dispensado a contemplar o plástico preto a fazer ver o Mar Negro, a grande bolha de plástico verde a ver a Cordilheira do Cáucaso e as luzes de aparelhos celulares da plateia a fauna noturna daquela região, por exemplo. E há também contrastes bem marcados: o verde versus o laranja, o preto versus o branco, que, depois, evoluirão para profusão de cores junto com a narrativa cênica.

“O duelo”, como peça teatral, faz um bonito passeio por sobre os gêneros cênico-narrativos. O realismo psicológico de Tchekhov e de Ibsen (e de Doistoiévski e de Machado de Assis) dá lugar para o besteirol e, por fim, ao romantismo em uma espécie de “carnaval” que é muito interessante. Enquanto o primeiro joga o espectador para dentro da moral de um personagem e critica a sociedade em que vive por meio dele, o segundo não elege personagem algum, mas critica através da franca ironia abertamente. Depois do exagero da crítica, vem a não-crítica, isto é, o ideal romântico. Ou seja, mais do que um fetiche por estruturas cênico-narrativas longas (essa peça tem quase 4horas e “O idiota – uma novela teatral” tem quase 8horas), a experiência é conduzida de forma harmônica durante a sua viabilização. Fadel, com maestria, parece saber que 1) a história precisa de tempo para ser bem contada; e 2) o espectador precisa de confortabilidade para aguentar todo esse tempo. Sem falar nos elementos da produção (as cadeiras, o teatro, etc), os elementos teatrais estão dispostos a oferecer o sabor certo para a hora adequada. Entre o aniversário da filha de Bitiugova e a cena do bar, o besteirol espalha o ridículo daquela sociedade nauseabunda. Entre a volta ao local onde o picnic aconteceu e o final, o romantismo define, como em “A gaivota”, quem é realmente o herói (Arkadina) e quem é o fraco (Treplev). Ainda sobre a dramaturgia tanto literária quanto cênica, vale observar o momento precioso em que Von Koren se torna, de fato, o antagonista oficial. Ou seja, o quando ele passa a entrar em conflito consigo próprio. É também o momento em que o problema central de Laiévski se mostra em sua totalidade e, enfim, desaparece. Se a história fosse continuar, seria em Von Koren, a versão Hitler do gênio Tchekhov, que, aliás, mal conheceu o século XX.

Em termos de interpretação, “O duelo” é de Vanderlei Bernardino, o intérprete do pior personagem da peça, isto é, aquele com mais desafios e, por tê-los vencido todos, com mais méritos. O médico Samóilenko tem como única função ser escada para acontecimentos em que os outros se envolvem, mas sua figura é tão marcante, suas cenas são tão bem defendidas que sua imagem ressoa na retina do espectador mais atento depois do fim da peça. Depois disso, não é difícil fazer outros destaques. Aury Porto sustenta uma interpretação nervosa durante três quartos da peça para, enfim, aquietar-se e evidenciar, assim, a curva dramática do seu personagem positivamente. Camila Pitanga, uma estrela da TV, está em um trabalho teatral totalmente entregue, disponível e íntegro. Nadiejda seduz muito mais do que é seduzida e a inércia dessa personagem praticamente apenas passiva é estruturada com força evidente, em especial, no momento de loucura da personagem diante de suas dívidas no comércio local. Carol Badra chama a atenção nos momentos cômicos, mas mostra igual sucesso no drama, sobretudo em cena em que diz sobre os papéis da mulher na sociedade. Fredy Állan, Guilherme Calzavara, Otávio Ortega, Pascoal da Conceição, Sérgio Siviero, Rafael Matede e Victor Gally merecem elogios também.

Os melhores momentos do figurino de Diogo Costa são o vestido branco de Bitiugova e o vestido também branco de Nadiejda. No primeiro, vêem-se todas as amarras sociais que cerceiam o comportamento da mulher no fim do século XIX naquele local com absoluta elegância. No segundo, vemos a personagem completamente integrada à situação de tempestade, essa exposta externamente (uma explosão de papel faz ver os raios e a trilha sonora os trovões) e internamente (Laiévski completamente insano, escrevendo cartas para sua mãe enquanto espera o amanhecer). Os demais figurinos não são menos positivos. Em “O duelo”, é destaque a sonoplastia de Otávio Ortega. Os sons que se ouvem durante toda a narrativa reforçam o realismo a bom nível cinematográfico. Iluminação e direção de arte também merecem aplausos.

Não seria mal se a Tchekhov fosse dispensado um lugar secundário em “O duelo” diante da potencialidade da articulação dos signos teatrais nessa montagem da Mundana Companhia. O caso é que, talvez por ser uma novela e não um texto dramático primeiramente, é correto afirmar que o russo está ainda melhor. Eis aqui mais um excelente espetáculo teatral.

*

FICHA TÉCNICA:
Autor: Anton Tchékhov | Tradução: KlaraGuriánova | Adaptação: Vadim Nikitin e Aury Porto |Colaboração na Adaptação: Camila Pitanga | Elenco: Aury Porto, Camila Pitanga, Carol Badra, Fredy Allan, Guilherme Calzavara, Otávio Ortega, Pascoal da Conceição, Sergio Siviero e Vanderlei Bernardino | Direção: Georgette Fadel |Assistente de Direção: Diego Moschkovich | Direção de Arte / Cenografia: Laura Vinci | Assistente da Cenografia: Marília Teixeira | Iluminação: Guilherme Bonfanti | Assistente da Iluminação / Operação de Luz: Rafael Souza Lopes | Direção Musical: Otávio Ortega e Lucas Santtana | Operação de Som: Otávio Ortega | Direção Vocal e Interpretativa: Lúcia Gayotto | Preparação Corporal: TarinaQuelho | Figurino: Diogo Costa | Figurinista Assistente: Dami Cruz | Assistentes do Figurino: Tarsila Furtado e Ana Dinniz | Visagismo: Theo Carias | Direção de Cena: Rafael Matede | Contra-Regra: Victor Gally | Camareira: Terezinha Caetano | Equipe de Montagem: Grupo Bastidores | Coordenação da Montagem: Rafael Matede e Rafael Souza Lopes | Coordenadora de Comunicação: Daniela Cantagalli | Assessora de Imprensa: Mônica Riani | Programação Visual: Elaine Ramos e Mateus Valadares | Núcleo de Comunicação Processo de Ensaios: Camila Marquez, Fredy Allan e Simone Elias | Fotos: Renato Mangolin | Criação de Site e manutenção: Thaís Guedes – Coreto Editorial | Escultura Inflável: Franklin Cassaro | Estilistas Convidados: Alexandre Herchcovitch, Paula Pinto, Lino Villaventura (Vestido vermelho aniversário de Káthia – Camila Pitanga; Figurino julgamento de Mária – Carol Badra) | Construção do Cenário: Leo Porto Carrero, Jessé Pereira e Jr. Calazans | Costureiras: Aline Gomes, Chaguinha, Lucinha, Odaide Baía, Vânia Sideaux | Ajudantes de Costura: Nayane Gomes e Daniel | Palestrantes: Aurora Bernardini, José Antônio Pasta, Svetlana Ruseishvili e TiezaTissi | Estagiário de Direção: Vicente Ramos | Produção: Camila Pitanga e Aury Porto | Direção de Produção: Sérgio Saboya | Produção Executiva: Carolina Chalita | Apoio Produção em São Paulo: Bia Fonseca | Contabilidade: GESPLAN Assessoria Contábil | Financeiro: Alex Nunes | Administração: Letícia Souza | Idealização do projeto: Aury Porto | Realização: mundana companhia | Patrocínio: Caixa Econômica Federal | Co-Patrocínio: Correios

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Bem-vindo!