segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Calango Deu (RJ)

Foto: divulgação

Suzana Nascimento é Dona Zaninha em linda homenagem a Minas Gerais


           “Calango Deu – Os causos de Dona Zaninha” é o novo frisson do teatro carioca, porque celebra o encontro de seres humanos, a valorização do tempo, do ato de contar histórias. Parece coisa simples, mas não é. É bem feito mesmo. E bem feito em todos os sentidos. De forma inteligente, a peça idealizada, escrita e interpretada por Suzana Nascimento se apresenta sem as marcas de complexidade com que foi construída. No palco do Teatro Café Pequeno, no Leblon, a narrativa flui ao natural durante os noventa minutos de monólogo que passam voando. E poderia durar mais. 

Dirigida por Isaac Bernat, Suzana Nascimento é Dona Zaninha, uma senhora mineira, que mora no interior de Minas Gerais. Tal qual Riobaldo conta suas histórias pro Compadre Quelemém de Gois, em “Grande Sertão: Veredas”, ela “desfia seus causos” para o público que lhe visita em sua casa. Faz café, ouve rádio, conversa com passarinho e com cachorro, costura, reza, homenageia seus antepassados, se reinventa. Com o sotaque bem trabalhado no universo complexo que o distancia do estereótipo, a atriz apresenta excelente trabalho, esse visível no corpo, na postura, nos movimentos e na forma de se relacionar com o espaço, com o cenário, com as histórias que conta. Como Dani Barros, em “Estamira”, o público sente que a intérprete está abrindo um pouco de sua história pessoal nessa montagem. Sentir-se digno de tal confiança é ser especial e é assim que o público de teatro gosta de se sentir. Esse tipo de relação faz emergir uma fruição mais familiar, mais amigável, um tanto quanto mais íntima. O homem contador de histórias ainda existe e impressiona. 

A dramaturgia é um dos elementos mais interessantes dessa estrutura. Do ponto de vista intelectual, é possível prever que o texto dramático no papel seja uma espécie de caos monótono, uma justaposição de histórias cuja articulação é frágil e imprecisa. No palco, não. A dramaturgia cênica, a partir da direção de Bernat, é viva e construída fundamentalmente na relação entre a intérprete e o público. Os acordos são mantidos por ambas as partes sem esforço: um mérito duplo. 

Excelentes o figurino e o cenário de Desirée Bastos. O modelo de caixas que se abrem e deixam ver os móveis e os cômodos da casa de Dona Zaninha expressa, ao mesmo tempo, o delicado cuidado com cada minúsculo detalhe e a praticidade do conjunto em relação ao palco. Se, no texto, a personagem narra seus vôos, as “malas” expressam concretamente essa disponibilidade da peça em viajar. Nesse sentido, as partes são símbolos do todo e o todo se mostra coeso e coerente entre si, o ponto de partida básico para a catarse de “Calango Deu”. 

Ao final, espontaneamente, a plateia puxa a canção “Oh, Minas Gerais! Oh, Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais! Oh, Minas Gerais!”. O gesto prova que não só se entendeu a peça como dali não se quer sair. Houve emoção, houve gargalhada, houve um excelente programa teatral. Dona Zaninha, a personagem, ficou para sempre nos corações de quem assistiu. E que “Calango Deu” tenha vida longa nesse Brasil imenso e rico. 

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Ficha Técnica:


Concepção, texto, direção musical e atuação: Suzana Nascimento
Direção: Isaac Bernat
Cenário e Figurino: Desirée Bastos
Direção de movimento: Marcelle Sampaio
Supervisão musical e preparação musical: Pedro Amorim
Edição de som: André Poyart
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenotécnicos: Articulação Cenografia & Eventos
Fotografia: Sergio Santoian
Projeto gráfico: Raquel Alvarenga
Operador de Luz: João Gioia
Administração do projeto: Amanda Cesarina
Direção de Produção: Aline Mohamad
Produção Executiva: Diana Behrens
Assistência de produção: Heder Braga
Participações nas fotos: Olavo José e Maria Mirabel
Realização: Luminis Produções Artísticas

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