sexta-feira, 17 de junho de 2016

O lago dos cisnes (RJ)

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Foto: Júlia Rónai


Márcia Jaqueline e Moacir Emanuel
Belíssimo espetáculo na programação dos 80 anos do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

A belíssima montagem atual de “O lago dos cisnes” celebra os 80 anos do Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, esse com direção artística de Ana Botafogo e de Cecília Kerche. Composta em 1877 pelo russo Pyotr Tchaikovsky (1840-1893), a peça é a mais famosa e popular entre os balés românticos. Criada em 2006, especialmente para o Brasil, a coreografia da russa Yelena Pankova é baseada na tradicional criação assinada pelo francês Marius Petipa (1818-1910) e pelo russo Lev Ivanov (1834-1901), dupla responsável pela versão de janeiro de 1895. Nos papeis centrais dessa temporada, se revezam os primeiros bailarinos Claudia Mota, Márcia Jaqueline, Cícero Gomes, Filipe Moreira e Moacir Emanoel, além dos solistas Carolina Neves, Deborah Ribeiro, Mel Oliveira, Priscila Albuquerque, Priscilla Mota, Anderson Dionisio, Carlos Cabral, Edifranc Alves, Joseny Coutinho, Murilo Gabriel, Rodrigo Negri e Wellington Gomes, ao lado de Karen Mesquita e de Diego Lima, aos quais essa análise principalmente se refere. A produção conta ainda com a participação de alunos da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa. Com regência do Maestro Javier Logioia Orbe, essa destacável produção fica em cartaz até amanhã, dia 18 de junho, na Cinelândia, zona central do Rio de Janeiro.

O balé entre os balés
“O lago dos cisnes” é a primeira composição para balé de Piotr Ilyich Tchaikovsky, que depois também ficou conhecido por “A bela adormecida” (1890) e por “O quebra-nozes” (1892). Consta que, em 1871, o compositor escreveu uma pequena música chamada “O lago dos cisnes” como presente de aniversário para seus sobrinhos. Ela animava sua versão familiar dos contos “Os seis cisnes”, dos Irmãos Jacob (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859); “O véu roubado”, de Johann K. Augustus Musäus (1735-1787); bem como das lendas folclóricas “O pato branco” e “A moça cisne”. O projeto se tornou profissional à convite do dramaturgo Vladmir Petrovic Begitchev (1828-1891) que, ao lado de do bailarino Vasiy Geltser, escreveu o libreto peça que estreou em 4 de março de 1877 no Teatro Imperial do Bolshoi. A montagem, com coreografia de Julius Reisinger, recebeu muitas críticas negativas, incluindo as do próprio compositor.

“O lago dos cisnes” ficou mundialmente reconhecido a partir da versão de janeiro de 1895, dois anos depois do falecimento do seu compositor maior. Na origem dessa, está uma apresentação do segundo ato em homenagem a Tchaikovsky, ocorrida poucos meses após sua morte. Com regência do italiano Riccardo Drigo (1846-1930), que reestruturou toda a partitura, compondo alguns números novos, a segunda versão fez enorme sucesso. O primeiro e o terceiro ato foram coreografados pelo francês Marius Petipa (1818-1910) e o segundo e o quarto por seu assistente, o russo Lev Ivanov (1834-1901). A montagem se apresentou à corte russa no Teatro Mariinsky, em São Petesburgo, e, a partir daí, ganhou o mundo.

A história começa quando um feiticeiro chamado Von Rothbart (Joseny Coutinho) transforma uma moça, Odette (Karen Mesquita), em cisne e, depois dela, várias outras a fim de que elas não concorram com a beleza de sua filha Odile (também interpretada por Karen Mesquita). Apenas à noite, elas retornam à figura humana e só um juramento de amor eterno poderia livrá-las da maldição. Perto dali, a corte celebra o aniversário de vinte e um anos do jovem e belo Príncipe Siegfried (Diego Lima). Como presente de aniversário, ele ganha uma besta (um tipo de arco e flecha) com o qual sai para caçar à noite. É aí que ele conhece Odette por quem se apaixona.

De volta à festa de aniversário, várias moças da região são apresentadas ao príncipe para que ele escolha uma com quem possa se casar. Seu coração, no entanto, rechaça todas elas, aparentemente fixado na lembrança de Odette, que conheceu na noite anterior. Mas tudo isso muda quando Von Rothbart chega trazendo sua filha Odile. Ela dança sensualmente diante do Príncipe e conquista sua atenção. Siegfried, por um momento, esquece de Odette e jura amor a Odile, condenando a primeira, que assiste à cena, à maldição eterna. Consciente do terrível mal que causou, ele parte para a floresta em busca do seu primeiro amor.

Na versão de 1895, Siegfried entra em luta com Von Rothbart, quebrando-lhe a asa e acabando com seus poderes. O herói, assim, liberta Odette e todas as demais moças do mal, cansando-se com ela e vivendo feliz para sempre. Dos tempos de Tchaikovsky pra cá, porém, vários outros finais foram apresentados. Há aquele em que Odette morre antes de se libertar do mal de Rothbart, aquele em que Siegfried se mata junto de sua amada (pois só na morte eles estarão livres) e aquele em que o príncipe também é transformado em cisne, entre vários outros. Nesse sentido, em cada nova montagem desse clássico, sempre fica a dúvida sobre qual final será o eleito. Vale a pena assistir à montagem de Yelena Pankova, cuja assistência dessa versão atual foi assinada por Gisèle Santoro, entre vários motivos, para descobrir a opção dos criadores.

Diego Lima e Karen Mesquita

A versão dos 80 anos do Theatro Municipal
A montagem de 2016 traz ao palco do Municipal um excelente espetáculo sob todos os aspectos. Ato após ato, o tablado foi preenchido por números de enorme encantamento em que linhas retas, corpos eretos e posturas rígidas deram a ver a beleza romântica de “O lago dos cisnes”. Entre os solistas, enormes saltos com finalizações aparentemente leves e gestos delicados se alternaram em interpretações destacáveis e cheias de méritos. Logo no primeiro ato, Rodrigo Negri apresentou uma carismática versão de Bobo que, escondendo adequadamente a dificuldade do papel, abriu espaço para os aplausos que toda a montagem foi recebendo em cena aberta durante toda a sessão de quase duzentos minutos.

Joseny Coutinho (Von Rothbart) e Marjorie Morrison (Rainha), com colaborações mais pontuais, marcaram a profundidade do enredo com elogiosa performance. Os passos de dois, de três, de quatro, bem como os célebres segundos e terceiros atos, em que os cisnes no lago e as danças eslavas na festa palaciana têm seu lugar, esticaram os méritos do espetáculo como um todo em coreografias apresentadas em máxima potência. Harmonia nas formas, sensibilidade nas composições e expressões contidas foram fáceis de ser encontradas, garantindo o sucesso da sessão.

Karen Mesquita (Odette/Odile) e Diego Lima (Siegfried) apresentaram trabalhos exultantes da qual pode o Brasil se orgulhar no universo da dança clássica. Suas interpretações, em defesa de movimentos difíceis e igualmente nobres, tiveram grandes momentos sobretudo nos duos mais célebres. Uma noite memorável!

O cenário e o figurino dessa versão de “O lago dos cisnes” duelaram com o brilho dos trabalhos corporais, elevando a incomensurável qualidade do espetáculo. Cada traje, cada peça, todos os ambientes trouxeram êxtase para a sessão em beleza indescritível. A Orquestra, em nobilíssima apresentação, retumbou os nomes de Tchaikovsky e de Drigo na delicadeza dos sons e na força do ritmo em cada movimento dessa narrativa musical tão importante para a história da cultura ocidental.

Nesse momento de festa, o público com o que se orgulhar! Parabéns e vida longa!

*

Ficha técnica:

Música – Piotr Tchaikovsky

Coreografia – Yelena Pankova

Coreógrafa Assistente – Gisèle Santoro

Com base na criação original de Marius Petipa e Lev Ivanov

Regência – Javier Logioia Orbe



Primeiros bailarinos – Claudia Mota, Márcia Jaqueline, Karen Mesquita, Cícero Gomes, Filipe Moreira e Moacir Emanoel



Solistas principais – Carolina Neves, Deborah Ribeiro, Mel Oliveira, Priscila Albuquerque, Priscilla Mota, Anderson Dionisio, Carlos Cabral, Diego Lima, Edifranc Alves, Joseny Coutinho, Murilo Gabriel, Rodrigo Negri e Wellington Gomes



Ballet do Theatro Municipal do Rio de Janeiro

Diretoras Artísticas – Ana Botafogo e Cecília Kerche



Participação especial:

Alunos da Escola Estadual de Dança Maria Olenewa

Direção – Maria Luisa Noronha



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