terça-feira, 11 de março de 2014

12 homens e uma sentença (SP)

Norival Rizzo interpreta o Jurado n. 8
Foto: Zineb Benchekchou

Excelente!
“12 homens e uma sentença”, em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil, está entre os melhores espetáculos desse início de 2014 e certamente será um dos melhores do ano na capital fluminense. Com excelentes interpretações e com um minucioso jogo de cena dirigido por Eduardo Tolentino de Araujo, a peça foi escrita por Reginald Rose para teleteatro em 1954, quando foi veiculada pela CBS nos Estados Unidos. Três anos depois, o filme (“12 Angry Men”) dirigido por Sidney Lumet recebeu diversas premiações pelo mundo e tornou famosa a história de doze jurados debatendo o caso do assassinato de um pai por seu filho. A montagem atual, que estreou em São Paulo sob a mesma direção, mas com um elenco diferente, é a primeira produção do texto no Brasil e é assinada pelo casal Ana e Mario José Paz, que também foram responsáveis pelo belíssimo monólogo “Rosa”, com Débora Olivieri.

Antes de tudo, o público carioca tem diante de si um verdadeiro “banho de teatro” com os ótimos trabalhos de interpretação de Alexandre Mello (5), Henrique César (9), Marcello Escorel (7), Mário José Paz (11) e de Xando Graça (Jurado 2), e com os excelentes Camilo Bevilacqua (4), Genezio de Barros (3), Henri Pagnoncelli (10) e Norival Rizzo (8) (em ordem alfabética). Em “12 homens e uma sentença”, não há nada além de doze homens conversando, sem mudanças de cenário, com discretíssimos movimentos no quadro de iluminação, com figurinos em nuances bem sutis. Tudo está no texto e nas intenções, nas pausas e nos movimentos pelo espaço, esse que se restringe ao interior de uma sala auxiliar ao tribunal: uma mesa, cadeiras, um ventilador que não funciona, alguns papéis para votação. É nessa arena que grandes intérpretes mostrarão e mostram o seu melhor (e consequentemente onde os maus evidenciam suas debilidades). Não é, em se tratando dessa peça, na afetação das caricaturas que os doze homens hão de se diferenciar, mas na forma como reagem às presenças uns dos outros. E é nesse jogo de estratégia que os personagens vão se localizando, próximos de uns, distantes dos outros, mas onde, principalmente, que os intérpretes vão dando a ver a sua experiência, o seu talento e a sua formação. Os citados estão de parabéns.

Com uma sentença óbvia, os jurados entram na sala prontos para condenar o réu à morte. No brilhantismo de Tolentino, a peça começa com os 12 jurados de frente para o público, um ao lado do outro, mas às escuras, apenas com um contraluz aceso. É o único momento realmente “teatral” do espetáculo que começa verdadeiramente quando um dos jurados (Rizzo) resolve absolver o réu. Para a condenação, é necessária a unanimidade. Ou seja, o grupo dos onze investem sobre o discordante a fim de convence-lo (ou de serem convencidos). Do falar baixinho aos brados emocionados, do ritmo lento ao tom empolado, passando pelo sotaque e pela linguagem mais simples, a sensação de sufocamento vai crescendo no público que assiste ao embate completamente entregue a saber como será o fim. Nenhum dos jurados têm nome e, apesar disso, são eles quem mais se expõem ao expor detalhes do caso diante ao qual estão diante. Formalmente, nessa narrativa, quanto mais se aproxima da história do réu, mais se chega às histórias dos jurados que julgam o réu, mas o preciosismo do texto de Rose está em deixar para a direção e para as interpretações esse trabalho de equilíbrio (Um dramaturgo ruim certamente escreveria pequenos monólogos para cada jurado nos quais o público os conheceria mais de perto.). É de altíssimo nível o trabalho de direção de Eduardo Tolentino aqui.

O realismo que pauta as escolhas estéticas em todos os cantos dessa estrutura dá garantias à audiência para que a entrega seja plena. Com um belíssimo resultado artístico, "12 homens e uma sentença" é digno de todos os elogios que tem recebido desde sua estreia brasileira. Parabéns!

*

FICHA TÉCNICA
TEXTO: Reginald Rose
TRADUÇÃO: Ivo Barroso
DIREÇÃO: Eduardo Tolentino de Araújo

ELENCO:

Jurado 1 | EDMILSON DE BARROS
Jurado 2 | XANDO GRAÇA
Jurado 3 | GENÉZIO DE BARROS
Jurado 4 | CAMILO BEVILAQUA
Jurado 5 | ALEXANDRE MELLO
Jurado 6 | BABU SANTANNA
Jurado 7 | MARCELO ESCOREL
Jurado 8 | NORIVAL RIZZO
Jurado 9 | HENRIQUE CESAR
Jurado 10 | HENRI PAGNONCELLI
Jurado 11 | MARIO JOSÉ PAZ
Jurado 12 | GUSTAVO RODRIGUES
Guarda | Francisco Paz

CENÁRIO: Lola Tolentino
FIGURINO: Ana Cristina Monteiro de Castro
ILUMINAÇÃO: Nelson Ferreira
FOTOS: Dalton Valerio
DESENHO GRÁFICO: Rico Lins
PALCO E CAMARIM: José Milton Damasceno
OPERADOR DE LUZ: Rodrigo Emanuel
PATROCÍNIO: Banco do Brasil
DIRETOR DE PRODUÇÃO: Bruno Katzer
PRODUÇÃO: Ana Paz
ASSESSORIA DE IMPRENSA: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

2 comentários:

  1. Obrigada pela crítica. A peça agora está em São Paulo e foi muito útil ler suas impressões. Abraços, Lydia.

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  2. Amei !!
    Umas das melhores peça que vi.
    Assisti o filme tbm.

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