domingo, 4 de maio de 2014

O grande circo místico (RJ)

Fernando Eiras é o Adminstrador
Foto: divulgação
A melhor de João Fonseca

“O grande circo místico” é a melhor homenagem aos 50 anos do Golpe Militar. A partir do poema de Jorge de Lima, de 1938, e a partir do ballet do Teatro Guaíra, de 1982, o espetáculo atual, ainda com músicas de Edu Lobo e de Chico Buarque, tem texto de Newton Moreno e de Alessandro Toller que, de forma excelente, estabelece firme conversa com o contexto atual. Com ótimos trabalhos de interpretação de Fernando Eiras, Letícia Colin, Gabriel Stuaffer, Ana Baird, Thadeu Torres e de Reiner Tenente, a peça tem grande destaque no cenário de Nello Marrese e no figurino de Carol Lobato. A direção musical de Ernani Maletta é outro ponto alto desse novo espetáculo que já nasce um clássico e está em cartaz no Theatro Net Rio.

Jorge de Lima escreveu o poema em meio à ditadura do Estado Novo. Edu Lobo e Chico Buarque são compositores expoentes da contracultura no Brasil e entregaram a trilha para o Ballet Guaíra, de Curitiba, no fim da ditadura militar, no início dos anos 80. Agora, o país se une para conhecer e celebrar a memória do Golpe de 64, sem dúvida, um dos momentos mais terríveis de nossa história. Assim, o primeiro mérito de “O grande circo místico” é a dramaturgia de Moreno e de Toller que tão bem une as pontas das gêneses diversas desse grande tesouro da cultura nacional. A peça se passa em uma região que se parece com a Itália sem qualquer referência aos italianismos telenovelescos felizmente. E a história de amor do médico Frederico e da bailarina Beatriz acontece antes, durante e depois de algo que se parece com a Segunda Guerra. Em pleno ano de 2014, não é mais necessário usar eufemismos para tratar de assuntos políticos como se usava nos anos 60 e 70. Por isso, sabe-se que usá-los é um gesto puramente estético. Nesse sentido, o contexto narrativo de “O grande circo místico”, ao ser alternativo, é altamente poético e bastante positivo. Quando é declarada a Guerra, Frederico é obrigado a se alistar. No circo, poucos sobram para fazer o show continuar, menos ainda para assistir. Beatriz leva para os anos seguintes um filho no ventre e a certeza de que morreu o seu amor. Não sabe ela que, dou outro lado da batalha, o seu Frederico ainda está vivo.

João Fonseca tem aqui seu o melhor trabalho desde “Tim Maia” e desde “A gota d’água”. Com habilidade e segurança, o primeiro ato é alongado, mais contemplativo, mais lírico, deixando para o segundo as reviravoltas da ação, outro mérito também da dramaturgia. O alargamento do ritmo, próprio do teatro musical, atende às expectativas da plateia (desse gênero) que quer ouvir as canções, mais do que apenas entender a história. Com calma e manifesta experiência, João Fonseca, assistido por Paula Sandroni, oferece os melhores momentos de forma delicada e parcimoniosa, sustentando a ação. As coreografias de Tania Nardini têm o mérito de aparecer discretamente, não concorrendo nem com as músicas, nem com o cenário e com o figurino e, por isso, aparecendo positivamente na medida.

De um modo geral, são poucos os intérpretes que realmente deixam ver a dor em seus personagens, o que pode expressar força. O Administrador (Fernando Eiras) torna a loucura a sua válvula de escape, enquanto, de forma bem discreta, identificamos uma curva dramática em Ana Baird (Mulher Barbada), em Isabel Lobo (Charlote), em Paula Flaibann (Lily Braun) e principalmente em Reiner Tenente (Clown), cujas interpretações conduzem efetivamente a história, principalmente no segundo ato. Gabriel Sauffer e sobretudo Letícia Colin conquistam o público na viabilização dos protagonistas, oferecendo ótimas participações. No elenco de apoio, há um destaque para Felipe Habib e principalmente para Thadeu Torres.

Nello Marrese e Carol Lobato oferecem um trabalho de extrema beleza em “O grande circo místico”. O picadeiro grandioso da abertura dá lugar para trincheiras, enfermarias, cabaret, praças e para outro circo, utilizando elementos mínimos, mas fortes principalmente pela minúcia e delicadeza dos detalhes. No todo, a narrativa da peça é uma farsa, isto é, o espetáculo conta uma história para contar outra. Dentro desse mote, o romantismo que reforça a superfície para dar importância para a profundidade é o tom que pauta a concepção e resulta em acabamento tão excelente. Claro, participam desses méritos, o visagismo de Leopoldo Pacheco e a iluminação de Luiz Paulo Nenen. O maestro João Bittencourt assina os arranjos na versão para teatro desse que é considerados os melhores discos da história da música brasileira pela Folha de São Paulo.

Nesse tipo de história em que uma guerra atravessa a vida dos personagens, eles nada podem fazer a não ser esperar que ela termine. O médico Frederico cuida de seus pacientes, o Administrador vive com o olhar perdido, a bailarina Beatriz dá amparo para os colegas que lhe restaram. Do tarot que abre a narrativa, passando pelo O Senhor dos Passos tatuado no corpo, chegando na bela poesia dos mortos de nariz branco, “O grande circo místico” pode falar também daqueles que se foram esperando a dureza da vida diminuir. Nesse ponto, em cuja dor todos os homens se encontram, essa produção de Maria Siman se apresenta na hora certa, mas também no lugar certo. Frederico Reder, administrador do Theatro Net Rio, já foi (e ainda é) dono do Circo Reder. Como o picadeiro, a vida é redonda. Aplausos!

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Ficha técnica:
Músicas de Edu Lobo & Chico Buarque
Texto: Newton Moreno e Alessandro Toller
Direção: João Fonseca
Direção Musical: Ernani Maletta
Coreografia: Tania Nardini
Produção: Primeira Página Produções

Com Fernando Eiras, Letícia Colin, Gabriel Stauffer, Isabel Lobo, Ana Baird, Reiner Tenente, Paula Flaibann, Marcelo Nogueira, Thadeu Torres, Felipe Habib, Leonardo Senna, Juliana Medella, Leo Abel, Natasha Jascalevich, Luciana Pandolfo, Renan Mattos e Douglas Ramalho

Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Figurinos: Carol Lobato
Cenários: Nello Marrese
Direção de Movimento Circense: Leonardo Senna
Diretora Assistente: Paula Sandroni
Desenho de Som: Fernando Lauria
Direção de produção: Maria Siman
Produção Executiva: Luciano Marcelo e Bruna Ayres
Gerente de projetos: Paula Salles
Produtora Associada: Isabel Lobo
Realização: Primeira Página Produções Culturais

2 comentários:

  1. Também assisti o espetáculo e concordo com o Rodrigo Monteiro em vários pontos, entretanto enquanto leigo e admirador de uma boa obra de arte, destaco a atuação do elenco como um todo que além de atuarem, dançam e cantam e, ainda, desenvolvem atividades circenses. Sendo assim, parabenizo a todos, pelo esforço e dedicação com que encenam e por isso, nos emocionam durante todo o espetáculo. Destaco, também a participação de Marcelo Nogueira, que com maestria, interpreta o pai de Frederico e nos emociona com um banqueiro louco e egoísta. Marcelo, realmente prova, que além de ser um excelente cantor, é também um ator brilhante.

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