quarta-feira, 11 de abril de 2018

A visita da velha senhora (SP)

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Foto: Cacá Bernardes

Tuca Andrada e Denise Fraga


Denise Fraga e Tuca Andrada protagonizam ótima versão de um clássico sempre jovial

É sempre uma alegria rever “A visita da velha senhora”, uma tragicomédia espetacular escrita pelo teuto-suíço Friedrich Dürenmatt (1921-1990). Lançada em 1955, a obra continua viva, calando fundo na alma humana, porque evoca questões pertinentes à humanidade de todas as épocas: a ambição, a hipocrisia, a opressão, a vingança, mas também o amor, o patriotismo e a fidelidade. Com direção de Luiz Villaça, uma nova montagem esteve em cartaz no Rio de Janeiro durante o mês de março, no Teatro SESC Ginástico, no centro da capital fluminense. Com excelência, ela foi protanizada por Denise Graga e por Tuca Andrada, esses acompanhados de outras ótimas atuações das quais se destacam a de Fábio Herford e a de Maristela Chelala. Outro ponto relevante foram os figurinos de Ronaldo Fraga e a direção musical de Dimi Kireeff. Depois do Rio, a peça foi participar do 26º Festival de Curitiba e deverá cumprir temporada no Paraná no próximo mês de julho, seguindo viagens pelo Brasil. 

A força e a atualidade do texto 
Em geral, o grande público brasileiro conhece bem a história, porque ela foi adaptada, pelo menos, duas vezes para a televisão nas novelas “Tieta” (1989-1990, de Aguinaldo Silva com direção de Paulo Ubiratan) e “Chocolocate com Pimenta” (2003-2004, de Walcyr Carrasco com direção de Jorge Fernando). No original, a história se passa um Güllen, uma fictícia pequena cidade provavelmente suíça. Na abertura, os principais moradores estão excitados com a anunciada chegada de Claire Zahanassian, talvez a mulher mais rica do mundo. Tendo nascido em Güllen, ela abandonou seus conterrâneos há 45 anos, mas vem agora trazendo a esperança. Completamente falida, a cidade conta que conseguir algum favor de sua filha mais ilustre. Por causa da chegada de Claire, Alfred Krank, o dono da mercearia, se torna o homem mais popular da cidade. No passado, os dois tiveram um tórrido romance. 

Para a desventura de Krank, as coisas não saem exatamente como o esperado. De fato, Claire oferece-se para ajudar financeiramente não só as contas públicas de Güllen, como também seus moradores em particular, acenando com uma gorda quantia de um bilhão (de francos suíços talvez). A graça, porém, está condicionada a um sacrifício. Décadas antes, Claire foi praticamente expulsa da cidade quando se viu grávida de Alfred. A questão da paternidade foi parar nos tribunais, que deram ganho de causa ao homem. Quando nasceu, a criança foi entregue à adoção, mas acabou morrendo. Claire se tornou prostituta e, como tal, galgou seu sucesso das ruas até os maiores palácios do mundo. Sua volta agora é nada menos que sua vingança. 

Enquanto acompanha a história, a audiência é convidada para experimentar as várias matizes da narrativa. De início, se compadece das dificuldades dos moradores: fecharam as indústrias, o trem já não passa mais na cidade, todo o brilho da Güllen de outrora sumiu. Depois, se aproxima da mágoa de Claire Zahanassian: ela é vítima de uma sociedade moralista, misógina, hipócrita e cruel. Passa ainda por um sentimento bom de fidelidade, de insurgência, de união, que logo se desfaz pelo predomínio da ambição, da corrupção, da luxúria, do mal. De degrau em degrau, esse belíssimo texto envolve e faz pensar, diverte e lança ao público uma imagem degradada de si mesma que ele denuncia e critica. Há 63 anos, é uma texto essencial. 

“A visita da velha senhora” chegou ao palco com tradução de Christiane Röhrig e adaptação dela, de Denise Fraga e de Maristela Chelala. A versão mantém os méritos do original, flertanto sutil e elegantemente com a contemporaneidade sem negativas concessões comercialescas felizmente. 

Firme direção de Luiz Villaça 
A direção de Luiz Villaça é brilhante em todos os aspectos sobretudo porque não se vende às tentações do momento, mas impõe a glória do texto em um casamento igualitário com o palco. Assistido por André Dib, Villaça viabiliza o texto, servindo a ele sem aquele medo adolescente de não estar fazendo teatro, mas uma homenagem à literatura. Com coragem, sua criatividade constrói o jogo em meio ao qual as palavras ganham corpo, ganham voz, ganham expressões cênicas que se celebram no encontro entre os atores e o público. Em resposta, Dürrenmatt serve também a Villaça no oferecimento de várias oportunidades para o talento do elenco. Assim, os artistas encontram o aplauso do público quando concretizam as imagens mentais que a audiência está produzindo ao ouvir a história. 

Nesta versão de “A visita da velha senhora”, a opção por um centro de palco quase que inteiramente livre pode ser metáfora para a praça grega onde tudo acontecia. É ali que os cidadãos se veem confrontados pela esfinge, pela peste, pela maldição que eles mesmos trouxeram a si. Os cenários, os atores que não estão em cena e os objetos não-presentes ficam em volta da cena como participantes de um devir, de um mundo imanente do qual todo nós, também personagens desse quadro, somos cidadãos. Desde o início e até o fim, Villaça inclui o público, propondo um espelho de vários lados, um calidoscópio de microenredos a girar, explodindo insights, considerações e reflexões. 

O ritmo se mantém instável positivamente, com altos e baixos, uns valorizando os outros na tomada de respiro e na consolidação de ápices. “A visita da velha da senhora” não é uma dramaturgia compromissada com a internet e com sua velocidade tão líquida quanto superficial. Ao contrário, ela exige um empenho responsável, a manutenção de um acordo produtivo, o esforço no convívio como em qualquer casamento que se quer duradouro. É bonito ver algo assim montado, em 2018, com tanta qualidade e carinho. 

Ótimas atuações de todo o elenco 
Quanto ao conjunto de interpretações, em “A visita da velha senhora”, há um todo bastante positivo no qual colaboram os treze atores do elenco. São eles: Rafael Faustino, Fábio Nassar, Fernando Neves, Luiz Ramalho, David Taiyd, Beto Matos, Renato Caldas, Eduardo Estrela, Romis Ferreira, Maristela Chelala, Fábio Herford, Maristela Chelala, Tuca Andrada e Denise Fraga. Com oportunidades maiores e menores, todos aparentemente conseguem empregar largo repertório expressivo, contribuindo, desde os detalhes até às presenças mais protagonistas, de modo íntegro, interessante, carismático e útil à narrativa. 

São destáveis as maneiras como Herford e Chelala brilham no gesto de dar vida aos seus Prefeito e Sra. Krank/Moradora. Em ambos lugares discursivos, os atores se aproveitam bastante bem das alterações de tom do texto para dar a ver interessantes jogos internos de expressões. Eles garantem ao público contemplar suas possibilidades, o que aumenta o número de méritos do espetáculo. 

Tuca Andrada, o Sr. Alfred Krank, não sugere qualquer contraponto entre o bad boy sedutor e irresponsável que Claire conheceu quase cinquenta anos antes. No entanto, ele investe bem na construção de uma figura derrotada e simples que se espanta com a responsabilidade que recebe das mãos dos seus concidadãos e, mais ainda, acredita neles e em suas fidelidades. O feito é interessante porque Andrada convida o público, através disso, a sentir pena de seu personagem e consequentente é argumento para que se entenda Claire como vilã. Em outras palavras, sua interpretação é definitiva para o desequilíbrio positivo da balança de valores do texto, o que o deixa mais rico. 

Denise Fraga, na pele da personagem título, renova a possibilidade de elogios aos seus méritos como atriz. Sua Claire Zahanassian é o ponto chave para o conceito de tragicomédia com o qual melhor se analisa o texto de Dürrenmatt. A figura bizarra que beira ao grotesco parece, nessa versão, uma interessante consequência dos (des)valores sociais do mundo em que vivemos. O luxo exagerado parece ter tornado a pobre menina ultrajada em produto consumível e que, por sua vez, também consome. Esse aspecto dúbio, que não concilia pureza e podridão, mas apresenta ambos como duas pontas coexistentes da mesma faca, é o que mantém a função calidoscópica da peça. Trata-se de um belíssimo trabalho de interpretação que defende a complexidade do mundo que o texto discute. 

Espelho da sociedade 
A direção de arte de Ronaldo Fragas apresenta bom trabalho na criação de um espaço cênico-narrativo imparcial que une palco e camarins e oferece um nível superior interessante à encenação. No entanto, seu maior mérito está, ao lado do visagismo de Simone Batata, nos figurinos. Com destaque para o guarda-roupa de Denise Fraga, todos os personagens são caracterizados de modo excelente, valorizando o realismo através do qual a peça pode ser espelho da sociedade, mas também o fantástico pelo qual a crítica fica clara. A luz de Nadja Naira reforça a beleza de vários momentos da arte positivamente. Há ainda a trilha sonora original de Rafael Faustino e de Dimi Kireeff, com direção musical desse segundo, que, além de definir a participação do público na narrativa, pontua os ápices e os momentos de respiro qualificadamente. 

Nosso mundo é um lugar muito complexo. Ao mesmo tempo em que os debates são intensos, a maior parte deles parece ser pautada sobre fontes excusas e terem funções e objetivos mais ainda. Mentes críticas se constituem sobre base superficial. É nessa seara de vazios que um projeto com substância, como “A visita da velha senhora”, merece ser aplaudido e visto muitas vezes. Oxalá volte ao Rio, oxalá viaje bem pelo Brasil. Evoé! 

*

Ficha Técnica:

Autor: Friedrich Dürrenmatt

Stage rights by Diogenes Verlag AG Zürich

Tradução: Christine Röhrig

Adaptação: Christine Röhrig, Denise Fraga e Maristela Chelala

Direção Geral: Luiz Villaça

Direção de Produção: José Maria

Elenco: Denise Fraga, Tuca Andrada, Fábio Herford, Romis Ferreira, Eduardo Estrela, Maristela Chelala, Renato Caldas, Beto Matos, David Taiyu, Luiz Ramalho, Fernando Neves, Fábio Nassar e Rafael Faustino

Direção Musical: Dimi Kireeff

Trilha Sonora Original: Dimi Kireeff e Rafael Faustino

Desenho de Luz: Nadja Naira

Preparação Corporal e Coreografias Keila Bueno

Direção Vocal: Lucia Gayotto

Direção de arte: Ronaldo Fraga

Preparação Vocal: Andrea Drigo

Visagismo: Simone Batata

Fotografia: Cacá Bernardes

Assessoria de Imprensa RIO: Barata Comunicações | Eduardo Barata

Assessoria de Imprensa SP: Morente Forte Comunicações

Projeto realizado através da Lei Federal de Incentivo à Cultura.

Produção Original: SESI-SP | FIESP

Patrocínio Exclusivo: Bradesco

Realização: Sesc Rio de Janeiro, NIA Teatro, Ministério da Cultura e Governo Federal

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Romeu + Julieta – Ao som de Marisa Monte (RJ)

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Foto: Fábio Motta

Acima, Claudio Galvão; abaixo, Bárbara Sut e Thiago Machado

Aventura Entretenimento completa 10 anos com ótimo espetáculo


O ótimo “Romeu + Julieta – Ao som de Marisa Monte” é o mais novo musical produzido pela Aventura Entretenimento. Com texto de William Shakespeare adaptado por Eduardo Rieche e por Gustavo Gasparani, a montagem tem direção assinada por Guilherme Leme Garcia e direção musical por Apollo Nove. Nos papeis títulos, têm ótimas interpretações de Bárbara Sut e de Thiago Machado, mas, no palco, também se destacam positivamente Kakau Gomes como Sra. Capuleto, Claudio Galvan como Frei Lourenço e, em especial, Stella Maria Rodrigues como Ama e Ícaro Silva como Mercuccio. Toda a estética do espetáculo apresenta resultado bastante valoroso, mas os figurinos de João Pimenta protagonizam os méritos. Esse clássico da literatura mundial, cujas apresentação se dispensa, ganhou, nessa versão, a poética das músicas da cantora e compositora carioca Marisa Monte. Para além de toda a beleza de um e de outro, é ainda mais lindo estar na plateia cantando canções tão especiais enquanto se celebra tão especial  história amor em obra tão qualificada. A peça fica em cartaz até dia 27 de maio no Teatro Riachuelo, na Cinelândia, com ingressos cujos preços agora variam entre R$25 e R$140 reais.Vale a pena! 

Romeu e Julieta reais? 
Escrita entre 1594 e 1596, ninguém sabe ao certo os detalhes da elaboração de “Romeu e Julieta” e nem tampouco de suas primeiras encenações. Há, porém, várias teorias sobre as inspirações de William Shakespeare (1562-1616) para lançá-la. Uma delas, célebre pelas pesquisas de Peter Ackroyd e de Clare Asquith, traz a perspectiva histórico-biográfica, que vale a pena ser conhecida. 

Essa teoria começa na amizade entre os jovens Shakespeare e Henry Wriothesley (1573-1624), o 3º conde de Southampton, a quem o dramaturgo dedicou os poemas “Venus e Adonis” e “O estupro de Lucrécia”. Wriothesley era filho de Mary Browne (1552-1607), que por sua vez era filha do Visconde de Montagu (1528-1592), um nobre católico que havia sido banido da Inglaterra, em 1558, na época da ascenção da Rainha Elisabeth I ao trono. Ele havia apoiado os governos dos irmãos Edward VI e Mary I, que reinaram no intervalo entre Henrique VIII e Elisabeth I. Além disso, em uma época de intensos conflitos religiosos na Inglaterra entre católicos e protestantes, o avô católico de Wriothesley liderou uma expedição a Roma a fim de reestabelecer o catolicismo no país perigosamente. 

Consta que uma primeira versão de “Romeu e Julieta” se apresentou na festa do segundo casamento do Visconde de Montagu (ou Montéquio?), quando ele se uniu a Magdalena Dacre (1538-1608). A festa aconteceu em 15 de julho de 1558, quatro meses antes do início do reinado de Elizabeth I (e quatro anos antes do nascimento de Shakespeare). Essa lembrança, na família de Wriothesley, era um fato marcante. 

Essa versão imemorial de “Romeu e Julieta” teria sido escrita pelo célebre dramaturgo George Gascoigne (1535-1577) com base em uma novela do italiano Matteo Bandello (1485-1561), que havia sido publicada em 1554. Bandello teria se baseado em Xenofonte de Éfeso (séc. II e III a. C.), Ovídio (43 a.C–17 d. C.), Dante Alighieri (1265-1321), Masuccio Salernitano (1410-1475) e em Luigi da Porto (1485-1529) para criar a história. Além da versão de Gascoigne, é possível que Shakespeare conhecesse a novela de Bandello por uma tradução dela para o francês, escrita por Pierre Boaistuau (1517-1566) e que se chamava “Histórias trágicas”, de 1559; ou por uma edição inglesa chamada “A trágica história de Romeu e Julieta”, publicada em 1562 e assinada por Arthur Brooke (? – 1563). (Vale lembrar que “A megera domada” foi inspirada em “The supposes”, de 1566, escrita por Gascoigne.) 

Muitos teóricos dessa perspectiva comentam que a versão shakespeareana de “Romeu e Julieta” é uma homenagem do bardo ao seu amigo Wriothesley, mas não apenas como uma referência ao seu avô. Há mais história envolvida. 

Com a morte de seu pai, o 2º conde de Southampton (1545-1581), Wriothesley passou a ser bastante favorecido na corte elisabetana por William Cecil, o Barão Burghley (1520-1598), um dos homens mais poderosos da Inglaterra no período. No entanto, por volta de 1591, o relacionamento entre Burghley e Wriothesley degringolou. O velho Burghley, muito próximo da Rainha, havia acertado o casamento entre Wriothesley com sua neta Elizabeth de Vere (1575-1627), também parenta do 7º conde de Oxford. O dote de 5 mil libras já havia sido pago, mas o jovem Wriothesley estava apaixonado por outra mulher e recusou a pretendente.

Prima do 2º conde de Essex, Elizabeth Vernon (1572-1655) era uma dama de honra de Elisabeth I. Essex também era amigo de Wriothesley e de Shakespeare e apoiava a união contra o acordo entre Burghley e Oxford. O casamento aconteceu em 30 de agosto de 1598, 26 dias após a morte do Barão Burghley, quando Vernon já estava grávida. Elizabeth I, em favor do falecido Burghley e de Oxford, mandou o jovem casal católico para a prisão de Fleet. Lá provavelmente nasceu a Lady Penélope Wriothesley, no mês de novembro. Ao ganhar a liberdade, Wriothesley e Essex participaram de uma rebelião contra a já idosa rainha em favor de seu tio Jaime VI da Escócia, esse que viria a se tornar, em 1603, Jaime I, novo rei da Inglaterra. Shakespeare acompanhou toda essa aventura. 

“Romeu e Julieta”, nessa leitura, está coberto de referências ao relacionamento entre Wriothesley e Vernon. Na história, o jovem Romeu da casa dos Montéquio (uma referência ao avô de Wriothesley) se apaixona por Julieta Capuleto, mas as duas famílias são históricas rivais na cidade medieval de Verona, na Itália. Frei Lourenço, confessor de ambos, planejando colaborar com a paz na cidade, os casa em segredo. Logo depois da cerimônia, porém, Romeu se envolve em uma briga e mata Teobaldo, primo de Julieta. (Elizabeth de Vere, que foi rejeitada por Wriothesley, nasceu no Castelo Theobalds, palácio do século XV que, no reinado de Elizabeth I, passou a ser de Burghley.) Por isso, ele é banido, partindo para Mântua. 

Em Verona, os Capuleto decidem pelo casamento de Julieta com o nobre Conde Páris, sem saber que ela já estava casada. Frei Lourenço, para resolver a situação, sugere que, na véspera do casamento, a jovem beba uma poção que lhe dará aparência de morta por 48 horas. E manda um mensageiro a Mântua para explicar tudo a Romeu. Uma peste impede que a verdade chegue ao jovem Montéquio que, desesperado com a notícia da morte de Julieta, compra um veneno e volta para visitar o túmulo de Julieta. Lá ele se mata e, quando Julieta acorda, ao ver o corpo do marido, apunhala-se, morrendo também. 

A enorme beleza dos versos de Shakespeare fez dessa história uma das mais famosas na cultura ocidental. Mesmo quem já a conhece muito bem se encanta com sua força. As referências históricas que essa perspectiva trazida aqui oferece, porém, podem deixar tudo ainda mais interessante. Vale lembrar, nesse sentido, de que a Lady Penélope Wriothesley (1598-1667), a primeira filha de Wriothesley e de Vernon, se casou com o 2º Barão Spencer (1591-1636), antigo antepassado da Lady Diana Spencer (1961-1997), a princesa de Gales. Ou seja, por que não pensar que o atual Príncipe William e seus herdeiros são descendentes diretos dos reais Romeu e Julieta? 

A cuidadosa versão de Guilherme Leme Garcia 
A versão dirigida por Guilherme Leme Garcia conserva a beleza poética do clássico shakespereano. Diferente de “Hamlet”, cuja mania de cortar precisa ser abolida, “Romeu e Julieta”, como outras peças do bardo, teria seu ritmo muito prejudicado sem adaptações para o palco. No original, cada fala dos protagonistas é longuíssima, capaz de deleitar o leitor pelo enorme lirismo, mas de também cansar o público de teatro mais ávido por ação. 

Em “Romeu e Julieta”, toda a narrativa acontece, essencialmente, em 3 três dias, sendo que a última cena tem lugar em torno de quarenta e oito horas depois do terceiro. Em termos do ótimo ritmo da encenação, há um acumular de ações nos primeiros três dias e um arrastar sutil nos últimos dois. Shakespeare faz o trem correr para deixá-lo cair do despenhadeiro muito lentamente, tornando a dor da queda ainda mais atroz. E Guilherme Leme Garcia compreendeu esse jogo muito bem. Há uma pulsação intensa nos personagens na primeira parte que sede lugar para um horror em suas faces no segundo turno. Não há invenção da roda, mas a celebração da beleza com toda a sua galhardia. 

As coreografias de Toni Rodrigues e os jogos de esgrima de Renato Rocha ocupam lugares discretos, mas significativos nessa montagem. Apesar da presença das músicas, “Romeu e Julieta” não se torna um musical a la Broadway, o que pasteurizaria demais sua profundidade trágica. Tudo parece servir para compor o quadro, preencher a paisagem desenhada por Shakespeare, sem qualquer esforço tolo em tomar-lhe o lugar. E nisso tudo é muito valoroso, distinto e positivo. 

Marcam presença os figurinos de João Pimenta com visagismo de Fernando Torquatto. A montagem mostra-se distante das versões cinematográfias de George Cukor e de Franco Zeffirelli, mas também também longe da de Baz Lhurmann. A referência mais possível é o universo semântico de Marisa Monte de modo que se pode dizer que é no guarda-roupa em que a trilha sonora se encontra com a poesia. 

Nas letras das canções de Marisa Monte, o amor é uma força que sobrevive ao tempo e o tempo, por sua vez, é um ambiente maior que o lugar. A afetividade na escolha das cores (branco, doutorado, cinza) aproxima a peça da lembrança, da memória, do passado. “Romeu e Julieta”, de Pimenta, mas também de Apollo Nove, é uma fotografia antiga e apagada cuja imagem ainda vibra em nosso peito, atual e forte. O desenho de som de Carlos Esteves e a direção vocal de Jules Vandystadt devem ter seus méritos reconhecidos considerada a enorme dificuldade imposta pela sonoridade de Marisa Monte. O tom da cantora e sua afinação passam por lugares bastante específicos, muito particulares, que são bastante difíceis de reproduzir (ou de reconstruir) em beleza similar. O desafio foi vencido felizmente! 

Daniela Thomas, como de costume, participa pouco, mas eficientemente através de criações cenográficas inteligentes e que se casam muito bem com o desenho de luz, esse assinado aqui por Monique Gardenberg e por Adriana Ortiz. O palco está bem preenchido, quadros muito bonitos se dão a ver na oposição entre a luz morta da fronte e a escuridão do fundo. Em tudo, se vê uma concepção bem amarrada que traz a história, a memória, o sentimento para ferir, curar e ensinar. Guilherme Leme Garcia teve colaboração artística, nesse espetáculo, de Vera Holtz. 

Ícaro Silva
Ótimas atuações!
Tanto Romeu como Julieta são personagens pouco interessantes para o trabalho de ator porque bastante limitados pelo texto que os têm como protagonistas. Dar-lhes vida é praticamente cumprir um roteiro de ações já cristalizadas que é atravessado pelas inúmeras montagens anteriores e por toda a expectativa natural que se criou em seus entornos. Bárbara Sut, com belíssima voz, e Thiago Machado vencem o desafio de manterem-se comportados dentro desse roteiro e de apenas servirem-se do carisma natural ao qual a plateia há de agradecer se se cumprir o combinado. Nem um, nem outro intérprete, nos personagens protagonistas, parece estar interessado em brilhar mais que Shakespeare e, por isso, ambos são iluminados pelo texto de modo muito elogiável. É gostoso, mesmo sabendo de toda a história de trás para a frente, torcer por eles, emocionar-se com eles, deixar-se tocar através deles. 

Há, no entanto, outros personagens mais generosos. E esses aqui têm ótimas chances. Stella Maria Rodrigues e Ícaro Silva trazem uma Ama e um Mercuccio deliciosos: afiados, libidinosos, corajosos, sensíveis, leais. Em excelentes interpretações, essas duas figuras brilham no todo da montagem com máxima potência graças ao empenho de seus realizadores talentosos. Outros dois trabalhos destacáveis são os de Claudio Galvan, que brilha no final do primeiro ato, e o de Kakau Gomes, respectivamente Frei Lourenço e Sra. Capuleto. Eles protagonizam belos números musicais com suas lindas vozes, mas também outras cenas com grande força e presença cênica. Bruno Narchi, Marcello Escorel e Kadu Veiga trazem Benvólio, Sr. Capuleto e Príncipe de modo ajustado e adequado sem grandes destaques. 

Os dez anos da Aventura Entretenimento
“Romeu + Julieta – Ao som de Marisa Monte” é a vigésima quinta produção da Aventura Entretenimento em seus dez anos de existência. É muito bonito vê-la encontrar sua vocação: a de produzir espetáculos de qualidade com profissionais competentes e em realizações dignas de seus currículos. Todos temos que comemorar essa data festiva! Esse espetáculo é ótimo! 

*

Ficha Técnica

Concepção e Direção: Guilherme Leme Garcia

Adaptação e roteiro musical: Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche

Colaboração Artística: Vera Holtz

Direção Musical: Apollo Nove

Direção vocal: Jules Vandystadt

Coreografia: Toni Rodrigues

Lutas: Renato Rocha

Cenário: Daniela Thomas

Figurino: João Pimenta

Visagismo: Fernando Torquatto

Desenho de luz: Monique Gardenberg e Adriana Ortiz

Desenho de Som: Carlos Esteves

Desenho gráfico: Victor Hugo

Produção de Elenco: Marcela Altberg

Elenco: Bárbara Sut (Julieta), Thiago Machado (Romeu), Ícaro Silva (Mercuccio), Stella Maria Rodrigues (Ama), Claudio Galvan (Frei), Marcello Escorel (Sr. Capuleto), Kacau Gomes (Sra. Capuleto), Bruno Narchi (Benvoglio), Pedro Caetano (Teobaldo) Diego Luri, Kadu Veiga, Max Grácio, Neusa Romano, Franco Kuster, Gabriel Vicente, Laura Carolinah, Luci Salutes, Saulo Segreto, Thiago Lemmos, Vitor Moresco, Gabi Porto, Santiago Villalba, Daniel Haidar e Natália Glanz.

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Hoje é dia de rock (PR)

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Foto: Vítor Dias
Elenco em cena


Excelente remontagem de clássico do teatro brasileiro

A belíssima montagem do Teatro de Comédia do Paraná para o célebre espetáculo “Hoje é dia de rock” merece ser aplaudida muitas vezes em todos os estados brasileiros. Eis um clássico revisitado de maneira sublime com direção de Gabriel Villela. A peça traz a doçura do saudosismo, a poética da dor e a afetividade da vida na qual se misturam realidade e fantasia. O elenco é formado por Arthur Faustino, Cesar Mathew, Evandro Santiago, Flávia Inirene, Helena Tezza, Kauê Persona, Luana Godin, Matheus Gonzáles, Nathan Milléo Gualda, Paulo Marques e Pedro Inoue. Vale citar, nessa introdução, o nome de todos porque compõem um destacável conjunto de excelentes vozes, além de algumas excelentes interpretações. O texto de José Vicente, que marcou o teatro brasileiro no início dos anos 70, ressurge com força e coragem nessa produção que estreou em novembro de 2017 na capital paranaense, passou por São Paulo e esteve, durante o mês de março, no Teatro Ipanema no Rio de Janeiro. No último dia 28 de março, ela passou pelo 26º Festival de Curitiba. 

O barroco de Gabriel Villela e a saudade de Pedro Fogueteiro
Lançado em 12 de outubro de 1971, com direção de Rubens Corrêa (1931-1996), “Hoje é dia de rock” foi a peça mais importante escrita pelo José Vicente (1945-2007), pela qual ele ganhou o Prêmio Molière de Melhor Autor. A montagem, que ficou em cartaz até 1973, fez história no Teatro Ipanema, esse aberto há cinquenta anos (em 1968) por Corrêa e por Ivan de Albuquerque (1932-2001). 17 atores faziam parte do primeiro elenco, entre eles, a Ivone Hoffmann, que tinha feito o musical “Hair”, em 1969-1970, e ainda hoje está bem viva e atuante em nossos palcos. Houve várias outras remontagens. Entre elas, a de 1976, em Porto Alegre, dirigida por Dilmar Messias e com Lourdes Eloy entre outros atores no elenco; e a de 1980, dirigida por Carlos Wilson, com Andréa Beltrão, Ernesto Piccolo e Ticiana Studart entre outros. 

No texto, Pedro Fogueteiro é um compositor musical que trabalha em cima da criação de uma clave de cinco notas com a qual poderá escrever a canção que imagina. Ele é casado com Adélia e, com a esposa, tem cinco filhos: Quincas, Rosário, Davi, Valente e Isabel. A família mora no interior de Minas Gerais, em uma cidade chamada Ventania. Esse, na verdade, é o antigo nome de Alpinópolis, cidade natal de José Vicente, autor do texto. A situação de miséria em que a família se encontra faz com que ela precise emigrar. “Hoje é dia de rock” começa com a partida para Fronteira, cidade que fica na divisa com o Estado de São Paulo. 

Em Fronteira, os filhos de Pedro Fogueteiro se desenvolvem com destinos diversos. Um está casado com uma descendente de ciganos, outro parte para o seminário, outro se estabelece como artista e outro se casa com um morador local. A família tira sua renda de um bar, talvez a única diversão da pequena cidade. O mais importante dessa dramaturgia de José Vicente não são seus contornos narrativos, suas reviravoltas, seus conflitos, mas, sim, o extremo lirismo através do qual a saudade se torna tema. É uma peça sobre pertença, sendo lugar não exatamente um ponto no espaço, mas um registro abstrato, um laço que dá sentido à existência, colaborando com uma noção de origem. Ser de um determinado lugar não é propriamente ter nascido nesse lugar, mas conservar dentro de si, para sempre, uma memória afetiva de onde se partiu. 

O diretor mineiro Gabriel Villela é conhecido por sua estética barroca imposta por ele a todos os muitos espetáculos que dirige. Seja Shakespeare, seja Arrabal, seja Schiller, Beckett, Heiner Miller ou Nelson Rodrigues, tudo sai com a mesma cara: a face de Gabriel Villela. Se nem sempre o encontro é frutífero, aqui o foi felizmente. O colorido exuberante formado por elementos de múltiplas texturas, origens, formas, estampas nos figurinos; as canções religiosas e o repertório popular; os arranjos polifônicos; a quase inexistência de cenário e a maquiagem clownesca oferecem à paisagem um tom melancólico que é muito próprio da cultura ibérica que herdamos. Trata-se um Portugal que sonha com a volta de um Rei Dom Sebastião e de uma Espanha que se pune por ter abrigado em si, durante tanto tempo, judeus e muçulmanos. Enfim, de um povo que viveu a maior glória da Idade Moderna e que, chorando ao acreditar que perdeu tudo por castigo divino, sente saudades. Eis o barroco, está aí o receio que a família de Pedro Fogueteiro guarda dentro de si ao dar as costas para sua Ventania. 

A antiga montagem de Rubens Corrêa, com cenário de Klauss Vianna em galeria (um corredor ladeado pelo público sentado nos dois lados do palco), era completamente adversa. Naquela produção, o tom político-social tinha mais importância em um período duro da ditadura brasileira, em uma época de luta pelo respeito às mulheres, pelo fim da segregação racial, pelas liberdades sexuais e religiosas. Diferente do que se pode pensar,  porém, esse “Hoje é dia de rock” não se alienou, mas aparentemente assumiu um compromisso maior com a missão de iluminar certas partes da alma humana. Sai-se do teatro com o coração apertado, cheio de saudades da família, dos amigos e da infância, e disposto a se tornar uma pessoa que saiba valorizar melhor o momento presente antes que ele vire passado. Ninguém há de dizer que esse é um objetivo menos nobre.

Belíssima direção musical de Marco França
Todo o jogo cênico proposto pela direção de Gabriel Villela, assistido por Ivan Andrade, é, como sempre, um magnífico trabalho de construção de memória. É através dela que o espetáculo estabelece, com o público, seus próprios códigos e também os desenvolve. É sobre essa relação que o palco e a audiência conversam intimamente, combinando suas regras, estabelecendo suas quebras, restabelecendo seus acordos. A atenção se mantém presa, o ritmo bem ajustado ao tempo necessário para a construção da poética. Os elementos cenográficos e o figurino, ambos assinados também por Villela, casam o sagrado e o profano mais uma vez, oferecendo a essa produção uma certa pureza divina coexistente com a humanidade pecaminosa de personagens comuns. Isso tudo é muito enternecedor e vale citar a luz de Wagner Corrêa como outro elemento colaborativo nesse mérito. 
Os filhos

A direção musical, os arranjos e a preparação vocal são assinados por Marco França. O resultado reconstitui um certo “teatro ritualístico”, expressão que o crítico Yan Michalski usou para tratar do espetáculo de 1971. O analista correlacionava o espetáculo de Rubens Corrêa com a obra de Zé Celso Martinez Corrêa, alertando para a força da afetividade na versão carioca do gênero. É possível que positivamente o mesmo se possa dizer dessa montagem, com outras canções – tanto modernas quanto antigas -, mas igualmente cheias de carinho. Milton Nascimento brilha com seis canções em repertório que tem também Beatles, Elvis e Heitor Villa-Lobos, parte de acordo com o texto, parte inserções originais. 

Rodrigo Ferrarini e Rosana Stavis brilham
Quanto às atuações, vale destacar a qualidade da voz de todos os atores, mas, em especial a de Arthur Faustino (Seu Guilherme) e a de Rosana Stavis (Adélia). Ambos são responsáveis por momentos belíssimos do espetáculo. Matheus González (Davi), Cesar Mathew (Valente), Pedro Inoue (Quincas) merecem tanto destaque quanto Flávia Imirene (Neusinha), Helena Tezza (Isabel) e Nathan Gualda (Rosário). Eles aproveitam com técnica e sabedoria as melhores oportunidades disponíveis, acentuando suas participações sem desfocar o todo, mas engraçá-lo. Sem dúvida, Rodrigo Ferrarini (Pedro) e Rosana Stavis (Adélia) são os dois pontos mais altos do todo por apresentarem contribuições sensíveis e potentes, cheias de dor e de carisma que aumentam as qualidades dos personagens já anteriormente escritos. 

Um afago na alma
“Hoje é dia de rock” , como escreveu Gilberto Bartholo, é um “afago no coração”. Que muitas plateias recebam esse carinho tão bonito. 

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Ficha técnica:
Texto | JOSÉ VICENTE
Direção, Cenografia e Figurinos | GABRIEL VILLELA

Elenco | Rosana Stavis, Arthur Faustino, Cesar Mathew, Evandro Santiago, Flávia Imirene, Helena Tezza, Kauê Persona, Luana Godin, Matheus Gonzáles, Nathan Milléo Gualda, Paulo Henrique dos Santos, Pedro Inoue, Rodrigo Ferrarini

Diretor Assistente | IVAN ANDRADE
Direção Musical, Arranjos e Preparação Vocal | MARCO FRANÇA
Aderecista e Assistente de Figurinos | JOSÉ ROSA
Iluminação | WAGNER CORRÊA
Fotografia Vitor Dias
Projeto Gráfico | JOSÉ VITOR CIT
Arranjo de Trenzinho Caipira/Desenredo | Ernani Maletta
Produção | Áldice Lopes, Daniel Militão e Diego Bertazzo