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domingo, 13 de dezembro de 2015

Eu, o Romeu e a Julieta (RJ)

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Foto: divulgação

Gabriel Pardal

A vitalidade das interrogações contemporâneas

A montagem atual de “Eu, o Romeu e a Julieta” não tem nada a ver com a anterior de mesmo título e com o mesmo diretor. E é muito melhor. Se lá havia um desejo de partir para outro tipo de contexto narrativo que não se realizava de fato, aqui a coragem parece ter vencido. Produzido pela Companhia da angústia das pessoas, a montagem tem direção de Emanuel Aragão e, além dele, estão no elenco Antonio Pedro Coutinho, Gabriel Pardal, Liliane Rovaris, Marina Provenzzano, Renato Linhares e Rossini Vianna Jr. Sem quase qualquer ligação com a tragédia shakespeariana, o espetáculo é algo novo que oferece à pauta do teatro carioca mais uma experiência do que propriamente algo para apenas se assistir. Para quem está preparado para um espetáculo cuja duração é indeterminada, a peça fica em cartaz no Teatro Poeira até 30 de dezembro, às terças e quartas-feiras. Vale a pena conferir.

As marcas de liberdade no discurso cênico do espetáculo
Quando o público entra no teatro, os atores estão no palco, observando os movimentos da plateia. Desde o início, o clima é de não divisão entre palco e quem assiste (o que não quer dizer que quem entra será chamado a tomar parte no espetáculo que está para começar). O tom que se constrói, através dessa estética, é de cordialidade, de identificação, de celebração coletiva. Começam aí os valores e também a única questão negativa dessa versão de “Eu, o Romeu e a Julieta”.

De posse da palavra e do comando de todas as situações a que se assiste, os atores apresentam uma série de quadros todos eles repletos de marcas de liberdade. Alguns deles: Emanuel Aragão, esticando a mão, pergunta o que é preciso fazer para que o público sinta sua mão como se fosse sua. Renato Linhares lê alguns textos, entre eles o de uma família que discute o papel dos biscoitos recheados na alimentação. E narra uma história sobre o funeral de sua (?) avó. Linhares, Marina Provenzzano e Gabriel Pardal começam uma dança-luta que atravessa o tempo e o espaço. Pardal intercala os quadros com leituras de “cartas de suicídio” e Liliane Rovaris apresenta falas de grandes autores-mestres da história do teatro. Emanuel e Rossini têm entre si uma conversa sobre o amor. Durante toda a sessão, Antonio Pedro Coutinho preenche o palco com copos e taças cheias de água.

Em todos esses quadros, é bastante fácil de perceber que, embora eles estejam minimamente previstos, acontecem dentro de um sistema de regras que foge à marcação do teatro tradicional. Em termos de estética, são várias as consequências. Para começar, o momento (que é vivido por atores e por público ao mesmo tempo) fica cheio de atualidade, isto é, se destina a pontuar a importância do aqui e do agora que está acontecendo seja de um lado seja do outro da cena. Considerando que os personagens Romeu e Julieta se conheceram, se apaixonaram, se casaram e morreram em um espaço de cinco dias, o tempo é um dos aspectos da temática da tragédia shakespeariana que essa montagem recupera.

O lugar da palavra é outra questão relevante. Respondendo à pergunta feita por Aragão na abertura da peça, basta que se diga “esta mão é de vocês” para que o corpo do ator possa ser do público, pois isso faz parte do contrato entre palco e plateia realizado (e confirmado) há quase três milênios. Shakespeare, um dos maiores autores do barroco inglês, celebrou a importância da palavra em vários momentos, sobretudo na célebre cena do balcão na segunda cena do ato II.

Os copos que, ao longo de toda a peça, preenchem o palco remetem imediatamente à discussão sobre o risco físico de que o teórico mineiro André Carreira tão bem tratou. Quando o ator se coloca em situação arriscada fisicamente diante do público, o aspecto humano da audiência invade a relação que ele tem com a peça de forma avassaladora. Deslizando por entre taças de vidro com habilidade, os atores mantêm presa a atenção da plateia que reconhece o perigo e teme por quem está em cena. Vida e morte, como se sabe, são temas que dividem o lugar com o amor em “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare.

O modo inteligente e sensível com que a Companhia da angústia das pessoas opera com os vários sentidos de seu espetáculo (alguns deles foram sugeridos aqui) não lhes tira, porém, o lugar de comandante das ações. Em outras palavras, a participação do público, mesmo que apenas silenciosa em empregar sua atenção nos quadros propostos, é importante, mas ainda assim não é ela quem determina a hora da sessão começar nem terminar. Apenas os atores fazem isso (a menos que o público se levante e vá embora). Cento e quarenta minutos de espetáculo exigem muita habilidade em manter o elo sem maior fragilidade. E o contrato fica prejudicado na percepção dos méritos. Esse é o único ponto negativo de “Eu, o Romeu e a Julieta”.

A habilidade da produção em disfarçar reflexão teórica profunda
Há que se valorizar o modo como os intérpretes viabilizam o espetáculo como um todo e como ele se apresenta (ou se constrói) com a audiência. O desenho de luz e a trilha sonora, no seu todo dentro do tempo e do espaço da encenação, criam um quadro onde aparentemente se é prazeroso de estar. “Eu, o Romeu e a Julieta”, na sua ingenuidade que disfarça bem uma reflexão teórica profunda e privilegiada, remete à alegria da juventude que não entende a dureza dos conflitos entre Capuletos e Montéquios embora saiba que eles existam. Dá vontade de estar lá.

Desapegado do contorno da narrativa tradicional, mas sem desfazer-se dela, o pós-dramático é uma resposta da contemporaneidade às interrogações do hoje. Vale à pena manter os ouvidos abertos e o coração puro. Avante! 

*

Ficha Técnica

De e com:
Antonio Pedro Coutinho
Emanuel Aragão
Gabriel Pardal
Liliane Rovaris
Marina Provenzzano
Renato Linhares
Rossini Vianna Jr.

Arte:
Felipe Braga

Produção:
Gabriel Bortolini

Realização: da angústia das pessoas

terça-feira, 11 de março de 2014

Eu, o Romeu e a Julieta (RJ)

Adriano Garib e Marina Provenzzano
Foto: divulgação

A sutileza versus o hermetismo


“Eu, o Romeu e a Julieta” faz tantas voltas para chegar onde quer chegar que, quando chega, o lugar acaba frustrando as expectativas de quem foi. O grande lugar de complexidade da história está nas barreiras construídas pelo personagem Pedro em volta de si mesmo e que o impedem a realizar seu grande sonho. O conflito é interno: quanto mais Pedro quer fazer algo, menos ele consegue fazer e o mérito maior desse espetáculo da Cia das Inutilezas está em trabalhar essa sutileza. Não há narrativa que não trate do homem, mas poucas histórias conseguem tematizar lugares tão sensíveis o que temos aqui. Pena que o espetáculo que esteve em cartaz no Mezanino do Teatro Sesc Copacabana tenha, como Pedro, construído tantos “muros” sobre si próprio.

Há vinte e cinco anos, Pedro quer interpretar Romeu no clássico “Romeu e Julieta”, de Shakespeare. Também há vinte e cinco anos, nasceu Ana, uma atriz de publicidade que, agora, se candidata à vaga de Julieta na mais última tentativa de Pedro de realizar o seu sonho. Interpretado por Adriano Garib, Pedro articula muitas palavras por segundo, movimenta-se em um ritmo regular de tensão e distensão e tem uma respiração ofegante, tudo isso marcando o seu nervosismo em estar, sendo ele um homem de meia idade, diante de uma jovem e bonita atriz iniciante. Os ensaios para a produção não evoluem, pois Pedro (o produtor, o diretor e ator protagonista) não consegue se aproximar de Ana e o efeito é tanto cômico quanto trágico, isto é, ao mesmo tempo, vemos a insegurança e a determinação (duas características opostas) de um homem diante do seu ofício. Profundo conhecedor da obra de Shakespeare, ele não quer que absolutamente nenhum detalhe passe despercebido e, quanto mais se vê próximo da realização do seu grande intento, mais treme.

O primeiro problema de “Eu, o Romeu e a Julieta” é que a história é contada a partir de um personagem Menino, interpretado pelo ator Antônio Rabello Medeiros, que tem 12 anos. Os pais desse Menino se separaram recentemente. O pai dormiu por um tempo no sofá e depois foi embora de casa. O Menino sente saudades dele e narra para o público uma das coisas de que ele mais sente falta do pai: de vê-lo, ao contar histórias, arrancar as últimas páginas dos livros para que os finais fossem inventados pelos leitores e não apenas aceitos tais quais foram escritos. Com isso, a dramaturgia literária e cênica assinada por Emanuel Aragão informa a respeito da importância de terminar histórias, fazendo uma ponte da situação familiar do Menino com a história que esse Menino começa a contar para o público, a de Pedro. Pedro e Ana, assim, não existem no mundo do Menino, mas apenas em sua imaginação, de forma que temos uma história dentro da história e a relação entre as duas vai se tornando cada vez mais infelizmente óbvia, como o Pai do Menino, Pedro também não terminou a sua história. 

Outra questão relevante em termos negativos é o ritmo da narrativa. A primeira coisa que acontece em cena, a chegada de Ana na sala de ensaios, se dá aos 60 minutos de espetáculo. Esse alargamento exagerado do tempo tem um motivo claro: construir a tensão que marcará o personagem Pedro, como já se disse. No entanto, porque temos duas histórias e ainda teremos uma terceira, essa tensão toda que é criada acaba sendo um elemento que se torna obsoleto e, portanto, nem tão útil assim. Tendo apenas assistido à história durante dois terços do tempo, o Menino e a diretora assistente da peça “Eu, o Romeu e Julieta”, Liliane Rovaris, interferirão propriamente na cena no final da narrativa. Ou seja, mais para o final da apresentação, esse espetáculo da Cia. Inutilezas, que ainda não encerrou nenhuma da histórias que começou, proporá uma terceira infelizmente.

Na direção de Emanuel Aragão, há um jogo de câmeras que relaciona o que acontece no lado de fora do teatro com a cena a que estamos assistindo dentro da sala. Enquanto vemos Pedro tenso, à espera de Ana na sala de ensaios do cenário de Antônio Pedro Coutinho, vemos Ana, através do vídeo, fazer o seu trajeto da rua até a porta de entrada da sala. O efeito se repete algumas vezes ao longo da peça e, no final, temos uma forte aproximação das ruas de Copacabana com a peça a que estamos assistindo, essa, por sua vez, já uma história dentro de uma outra história. Quando se notam que as cenas exibidas ao público são mais um virtuosismo da operação (no sentido de apertar o botão play na hora certa) do que propriamente da captação - o que fica claro quando assistimos aos personagens na rua e, em seguida, os vemos sair da coxia -, sabemos que o elemento narrativo usado aqui é um hermetismo interessante do ponto de vista da forma, mas praticamente vazio na ordem do conteúdo. É apenas uma terceira ponta dessa estrutura que, até então e ao final, se mostrará cambaleante.

Assim, ainda que a carga dramática bastante bem pontuada pelas excelentes interpretações de Adriano Garib (Pedro) e de Marina Provenzzano (Ana) sejam teatral e narrativamente relavantes, o espetáculo como um todo parece mais querer exibir o bom uso de técnicas de dramaturgia ( uma história, dentro de uma história, dentro de uma história) e de uso de elementos cinematográficos do que propriamente tratar de um tema e enfrenta-lo com uma boa narrativa. Com mais de duas horas de duração, “Eu, o Romeu e a Julieta”, além de ótimos trabalhos de interpretação, e de um uso bastante interessante dos elementos cênicos (lousas, luzes fosforescentes, objetos de ensaio teatral, etc) traz uma investigação estética que é, de fato, batente rica. Pode não resultar em um trabalho realmente sólido, mas, sem dúvida, com belas paisagens. 

*

Ficha técnica

A partir da obra de William Shakespeare
Texto e direção: Emanuel Aragão
Diretora assistente: Liliane Rovaris
Elenco: Adriano Garib, Antonio Rabello e Marina Provenzzano
Iluminação: Isadora Petrauskas
Cenário: Antonio Pedro Coutinho
Figurino: Liliane Rovaris
Trilha sonora: Alex Tolkmitt
Fotografia: Felipe Lima
Realização: Cia. das Inutilezas