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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Emilinha & Marlene (RJ)

Foto: divulgação

História de parte da nossa música

                “Emilinha & Marlene – As rainhas do rádio” é uma comédia musical cuja elementar importância está no resgate da história de duas das maiores cantoras brasileiras da história: Emilinha Borba e Marlene. Em três horas de duração, a plateia tem o privilégio de acompanhar a narrativa da vida dessas duas grandes artistas enquanto conhece (ou reconhece) um olhar por sobre a história da música nacional em boa parte do século XX. Em cena, Stella Maria Rodrigues (substituindo Vanessa Gerbelli, como Emilinha) e Solange Badim (como Marlene) dão vida às cantoras e, através delas, propiciam a construção de um universo significativo que é rico porque potente: a fama, o dinheiro, a arte de cantar, começando na era de ouro do rádio e terminando nos anos contemporâneos. Com vários méritos, a produção tem Direção Geral de Antônio de Bonis e Direção Musical de Marcelo Alonso Neves, ambos trabalhos elogiáveis em vários aspectos.
                Duas irmãs, Bia (Angela Rebello) e Gegê (Andrea Dantas), guardam velhas roupas e fotografias em malas de viagem, despedindo-se da velha casa de sua mãe, recém falecida, no cenário funcional e qualificado de Sérgio Marimba, que localiza a orquestra acima, aproximando as cantoras e o elenco do público. Cada uma das irmãs é fã de uma das cantoras-título e isso é causa de uma briga que começou na época de suas adolescências e prossegue até hoje. Essas personagens, que conhecem a fundo as vidas de Emilinha e de Marlene, são o fio condutor da história que começa em 1949. As interpretações de Rebello e Dantas são delicadas, atendendo à função que executam no roteiro de forma adequada e positiva. Elas dão força ao hábito saudável de ter ídolos artísticos e são representantes de fãs que, além da narrativa, tanto Emilinha como Marlene acumularam e mantém nos diversos cantos do país ao longo das últimas sete décadas. Cristiano Gualda, Luiz Nicolau e Ettore Zuim se alternam nos muitos personagens masculinos, enquanto Cilene Guedes e Mona Vilardo,  que também assina a Preparação Vocal do elenco, nos personagens femininos, compondo o elenco de apoio. Apesar de haver um surpreendente destaque positivo para a interpretação de Bibi Ferreira por Guedes,  não há problemas na apresentação desses personagens, cujas construções são positivamente surperficiais, atendendo à ordem das ilustrações e, por isso, contribuindo por proporcionar rápidas e efetivas identificações, dando velocidade ao desenvolvimento da história. Se há um aspecto negativo nesse quesito, é o sotaque gaúcho, esse mais caricato do que realmente ilustrativo.
                Solange Badin e Stella Maria Rodrigues cantam de forma a valorizar as músicas, suas interpretações propiciam situações cômicas e dramáticas que divertem e emocionam o público dando vida não apenas à Marlene e à Emilinha, mas à Victoria Bonaiutti De Martino (1922) e à Emília Savana da Silva Borba (1921-2005), no âmbito de suas emoções, suas relações familiares e seus sonhos. O único problema da produção que elas protagonizam é o desenho da dramaturgia, essa assinada por Thereza Falcão e Júlio Fischer.
                Esquecendo Emilinha e Marlene que, de fato, existiram e existem além da narrativa, e focando nossa atenção pelas figuras representadas na produção cênica, o texto se concentra na equanimidade existente entre as duas cantoras. Para não haver desequilíbrio, as intenções, então, agem no sentido de fazer com que ambas as personagens tenham o mesmo peso, de forma que, durante todo o tempo da apresentação, uma suceda a outra e o final seja um empate cujo vencedor maior é o público do teatro e da música brasileira. Infelizmente, não é isso que acontece e, como dito no parágrafo acima, as marcas disso são facilmente encontradas na dramaturgia uma vez que Badim e Rodrigues cantam e interpretam igualmente muito bem, os figurinos de Rosa Magalhães são destacáveis positivamente como um dos maiores valores estéticos do espetáculo em seu conjunto e o repertório escolhido por Neves, tão valorosamente interpretado pelos músicos, é acertadíssimo porque é, em cada um de seus números, representante de uma época que não pode ser esquecida em nenhum dos seus diferenciais. Onde, no roteiro, está o desnível?
                Emilinha e Marlene, as personagens, só são realmente opostas no contexto da Rádio Nacional, parte que dramaturgicamente é compreendida apenas no primeiro ato do espetáculo. Emilinha era a favorita do público quando apareceu Marlene. Uma delas ganha o concurso de Rainha do Rádio em um ano e a outra virá a vencer o mesmo prêmio algum tempo depois. Antes disso, informação que consta no vídeo promocional e no programa, mas não está, infelizmente em cena, uma foi eleita como a favorita da Marinha e a outra da Aeronáutica, apimentando a disputa. Nesse contexto, há a vibrante dúvida que impulsiona a narrativa para frente (e para o ápice, movimento tão caro ao gênero comédia musical): quem é a maior? Emilinha ou Marlene? Ao invés da exploração máxima desse contexto, os roteiristas optaram por ir adiante na biografia das artistas. Mas, embora o duelo permaneça no imaginário dos fãs, além desse contexto, na prática, ele não mais acontece. Marlene segue se reinventando, vai a Paris e canta com Edith Piaf, grava Bossa Nova, é censurada pela Ditadura Militar e chega aos anos 80 como uma das maiores cantores brasileiras daquela atualidade e não só da história. Emilinha, a personagem, grava Boleros, opta por uma vida mais familiar, sofre de uma doença nas cordas vocais, permanece anos sem gravar e termina sua vida vendendo, ela própria, CDs numa banca de praça. Numa entrevista reproduzida no espetáculo, mas também que aconteceu fora da narrativa, as duas discutem de igual para igual. O tema da conversa é o passado na Rádio Nacional. Ambas sabem que, nos anos que se seguiram, a carreira de Marlene é superior à de Emilinha. Além disso, o segundo ato que, por tudo isso, parece caminhar muito mais devagar do que o primeiro, é descendente, uma vez que ditadura militar, doença, velhice e pobreza são temas que pesam, puxam os sentimentos para baixo e conduzem a um negativo anti-ápice. A frustração aumenta com a não interpretação de “Cantoras do Rádio”, não gravada pelas cantoras existentes além da narrativa, mas afirmativamente parte do seu universo icônico.
                Assim como “Sassaricando”, “Emilinha & Marlene” é um espetáculo que, pelo conjunto dos seus valores estéticos, em especial, aqueles que dizem respeito à reprodução de um olhar por sobre a história da música brasileira, merece ser assistido pelo público de todas as capitais do país. O belíssimo trabalho da orquestra, o carisma, a técnica e o talento expressos nas vozes de Solange Badim (já elogiada em “Oui Oui – a França é aqui”) e de Stella Maria Rodrigues e os figurinos já destacados de Rosa Magalhães são elementos que, porque arregimentados eficientemente por Bonis e por Neves, valorizam e fazem valorizar a fortuna artística que, enquanto povo, nós temos e as novas gerações precisam conhecer.

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Ficha técnica:

Texto: Thereza Falcão e Júlio Fischer
Direção Geral: Antônio de Bonis
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Cenografia: Sergio Marimba
Figurino: Rosa Magalhães
Iluminação: Jorginho de Carvalho
Projeto de Sonorização: Andrea Zeni
Visagismo: Uirandê Holanda
Pesquisa: Eva Joory e Rodrigo Faour
Projeto Gráfico: Guilherme Leite Ribeiro
Direção de Produção: Isabel Themudo e Estela Albani
Produção Executiva, Captação de Apoios e Administração: Tiago Morenno
Assistente de Produção: Thiago Paschoa
Gerente de Projeto: Rodrigo Gerstner
Assessoria de Imprensa: João Pontes e Stella Stephany
Assistente de Direção: Lenita Lopez
Assistente de Direção Musical e Preparação Vocal: Mona Vilardo
Assistente de Sonorização: Everton Rocha
Assistentes de Cenografia: Débora Mazloum e Glicia Gomes
Produção Cenográfica: Cláudia Torres
Cenotécnica: Hélice Produções
Assistente de Iluminação: Daniel Galvan
Assistente de Figurino: Mauro Leite
Estagiária de Figurino: Bekia Motta
Assistente Visagismo: Daniel Martins
Fotografias: Estela Albani
Técnica de Som: Joyce Santiago
Microfonista: Jamile Regina
Operador de Luz: Rodrigo Bezerra de Mello
Diretor de Palco: Paulo Bandeira
Contra-regra: João Paulo Damata
Maquinista: Ronaldo Garcia