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segunda-feira, 21 de março de 2016

Dorotéia (RJ)

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Foto: Carol Beiriz


Alexia Deschamps, Rosamaria Murtinho, Jacqueline Farias e Letícia Spiller
Rosamaria Murtinho completa 60 anos de carreira no melhor espetáculo da temporada carioca

No Rio de Janeiro, a melhor programação teatral de 2016 começa com “Dorotéia”, espetáculo dirigido por Jorge Farjalla a partir de texto de Nelson Rodrigues com Rosamaria Murtinho e Letícia Spiller no elenco. A ótima montagem melhora vários problemas dessa obra do nosso grande dramaturgo, oferecendo uma versão maneirista que, embora não resolva de todo seus problemas de ritmo, faz pontual contribuição. Assim como as protagonistas, as atrizes Anna Machado, Dida Camero, Jacqueline Farias e Alexia Deschamps também apresentam excelentes interpretações na produção em que cenário, luz, figurino e direção musical concorrem positivamente com os destaques. Em cartaz até 3 de abril no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, eis aqui uma agenda obrigatória nesse início de outono carioca!

Duas forças nessa narrativa de Nelson Rodrigues
Escrita em 1949 por Nelson Rodrigues (1912-1980), a peça é, para o crítico Sábato Magaldi, a última do grupo dos textos míticos em que também estão “Álbum de família”, “Anjo negro” e “Senhora dos afogados”. A história começa quando a personagem Doroteia (Letícia Spiller), cujo filho recentemente faleceu, aparece na casa de Dona Flávia (Rosamaria Murtinho), Maura (Alexia Deschamps) e de Carmelita (Jacqueline Farias). Ela diz ser prima delas e estar decidida a mudar de vida. Ocorre que as mulheres da família são marcadas por dois sinais hereditários: seus olhos não enxergam os homens e todas, desde a bisavó, sentiram náuseas após a primeira relação sexual em suas noites de núpcias.

De maneira catalisadora, duas forças paralelas estruturam a narrativa. A primeira delas é a dúvida sobre a real ascendência da Doroteia que chega - valendo lembrar que, na família, há outra de mesmo nome. A segunda força diz respeito ao destino de Das Dores, filha de Dona Flávia, cuja noite de núpcias acontece ao longo do espetáculo. A expectativa de que a noiva sinta as náuseas como suas parentas determina a força argumentativa de sua mãe, que é líder da casa.

Sob vários aspectos, esse quadro rodrigueano é uma resposta crítica à complexa cultura brasileira, essa cuja transformação dos anos de 1950 para cá talvez tenha sido menor do que se pensa. O catolicismo retrógrado (que hoje é um evangelismo emburrecedor) e um tropicalismo americanizado eram duas faces de uma só moeda que, ainda que opostas, estavam unidas. No texto, o empenho de Flávia, Maura e de Carmelita em se afastar do prazer se vê pela sagração da feiura, pela valorização da vigilância contínua e pelo isolamento social. Em exata contrapartida, esses três posicionamentos conduzem para a exaltação dos próprios egos em um comportamento definitivamente nada santo.

Inspiração maneirista da direção de Jorge Farjalla
A direção de Jorge Farjalla, assistido por Diogo Pasquim e por Raphaela Tafuri, rejuvenesce o aspecto mítico já considerado relevante no texto desde sua estreia em 1950. No modo como essa encenação acontece, no formato de arena, as palavras de Nelson Rodrigues e as vozes das atrizes ecoam. Dessa maneira, a terra onde essas figuras habitam é meio do caminho entre céu e inferno, e o homem lugar de conflito entre sua salvação e sua perdição. Em resumo, esse é o contexto cultural em que o renascimento deu lugar ao barroco na Europa entre séculos XVI e XVII. É visível a inspiração do diretor nessas estéticas e bastante eficaz seu resultado.

O palco emerge no centro da visão do público. Na disposição de palco adotada, a plateia vê a si mesma na borda, chegando à cena após passar por uma zona de indefinição. No belíssimo cenário de José Dias, grandes árvores estão postas nesses lugares e, de dentro delas, saem os músicos que, não sendo público, também não são atores. Essa imagem sustenta a tese de que Flávia, Maura e Carmelita estão abrigadas das tentações mundanas, embora distantes do céu. Nesse ambiente, o lirismo de Nelson Rodrigues nesse texto ecoa através de microfones que espalham as vozes das atrizes, os sons dos instrumentos musicais e outros registros sonoros participantes.

Farjalla, porém, não consegue dar conta dos problemas de ritmo do texto original. Redundantes, os diálogos são longos demais. A conversa final entre Doroteia e Flávia parece interminável, o que impede a chegada mais fluente do aplauso. É uma pena!

Rosamaria Murtinho em magnífica interpretação
Os trabalhos de interpretação são ótimos no conjunto e em cada parte. Chave para a interpretação de "Dorotéia", Das Dores é a única personagem que não sente culpa após a relação sexual. No texto de Nelson Rodrigues, ela não nasceu, isto é, saiu morta do ventre de Dona Flávia e cresceu sem consciência de seu próprio falecimento. A atriz Anna Machado, ao interpretá-la nessa montagem, exibe feminilidade em um misto de menina e de mulher que expõe o quadro rodrigueano de modo excelente. A forte presença cênica da vigorosa Dida Camero rejuvenesce a narrativa em suas rápidas, mas excelentes participações como Dona Assunta, sogra de Das Dores. Jacqueline Farias (Carmelita) e Alexia Deschamps (Maura) aprofundam o lugar discursivo protagonizado pela antagonista Dona Flávia com exuberância.

Letícia Spiller, no papel título, apresenta aqui talvez sua melhor interpretação no teatro sobretudo considerados os desafios. Há, no entanto, a perda de parte do protagonismo nessa re-hierarquização dos signos que estruturam a narrativa. Potencializados de modo diverso, nessa nova versão, as forças secundárias concorrem com a primeira mais fortemente, o que traz elogios à montagem, mas também aumenta as dificuldades de quem interpreta Doroteia (e seus méritos). Prova desse mérito da intérprete é a qualidade das cenas entre Spiller e Rosamaria Murtinho, que interpreta Dona Flávia. Comemorando sessenta anos de carreira, essa última brilha em cena em todos os aspectos. Sua voz é alta e clara, sua movimentação é segura, o balanço das intenções é vivo, o jogo que se estabelece com todas as personagens é interessante. Base sobre a qual toda a narrativa da personagem Doroteia se apoia, a de Murtinho tem aqui magnífica interpretação.

Imperdível!
Os figurinos de Lulu Real (com maquiagem e visagismo de Anderson Calixto), a direção de arte e cenografia de cenário de José Dias e o desenho de luz de Patrícia Ferraz compõem o quadro estético com possibilidades significativas riquíssimas. A referência mística alarga a qualidade da obra com ainda nobre contribuição da potente direção musical de João Paulo Mendonça com trilha original dele, de Leila Pinheiro e de Fernando Gajo. Essenciais, o conjunto de Homens Jarros é composto pelos músicos Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil.

É possível que essa seja a melhor encenação de “Dorotéia” dentre as poucas versões oficiais do texto. Imperdível.

*

Ficha Técnica
Texto: Dorotéia
Autor: Nelson Rodrigues
Diretor: Jorge Farjalla
Assistente direção: Diogo Pasquim
Elenco: Rosamaria Murtinho, Letícia Spiller, Alexia Deschamps, Dida Camero, Anna Machado e Jaqueline Farias
Homens jarro (músicos): Fernando Gajo, Pablo Vares, André Américo, Du Machado, Daniel Veiga Martins e Rafael Kalil
Cenografia: Zé Dias
Figurino: Lulu Areal
Desenho de luz: Patrícia Ferraz
Direção Musical: JP Mendonça
Direção de produção: Bruna Petit
Produção executiva: Sandra Valverde
Produção operacional: Lu Klein

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Dorotéia (RJ)


Foto: divulgação

Aplausos para Gawronski e não muito além dele.

                A produção “Dorotéia”, em cartaz no Teatro Poeira, é um encontro raro de dois momentos ruins em duas carreiras sólidas, pois, de um lado, temos um texto mal escrito pelo excelente Nelson Rodrigues e, de outro, temos uma direção relapsa assinada pelo também excelente João Fonseca. Deve ser visto por ser um clássico da dramaturgia brasileira, por ser um momento especial na carreira do ator Gilberto Gawronski, porque consolida a atividade de Nello Marrese como um dos melhores cenógrafos do teatro brasileiro e porque a minha opinião deve ser discutida. Mas vá lá o espectador sabendo de que se trata um texto e de um espetáculo redundantes, coberto de tempos negativamente mortos, com uma terrível trilha sonora e com interpretações bastante fracas.
                Escrito em 1949, o texto foi encenado no ano seguinte com direção de Ziembinski, tendo Eleonor Bruno no papel principal. Ficou apenas duas semanas em cartaz, porque, segundo explicou a produção, o público não entendeu a peça. Hoje, o público entende, mas, mesmo assim, há muito para não se gostar. Do texto à produção, segue a análise.
                O texto, que assusta estudiosos incapazes de “encaixá-lo” junto às outras obras do maior dramaturgo brasileiro (trata-se da quarta e última peça do grupo das “míticas”, ao lado de “Álbum de Família”, “Anjo Negro” e “Senhora dos Afogados”), é mal escrito. Chamado de “Farsa Irresponsável”, os diálogos encadeados, talvez, funcionam enquanto literatura pela força do seu caráter lírico de engendrar, através das imagens, situações que podem ser lidas a partir de conceitos da psicanálise. Estão ali os diversos papéis da mulher, a importância da estética, a valorização da moral como elemento de inibição da essência do homem, a alteridade como parte constituinte da identidade, etc. O tom farsesco remete à máscara usada em cena, seja como objeto ou como caracterização facial ou da ordem da maquiagem, sem dúvida, uma metáfora para tratar da sociedade e de suas relações. Enfim, eis aqui um exemplo das tentativas bem-vindas de Nelson Rodrigues de escrever um teatro que fosse mais do que uma história bem contada, mas um ponto de partida para a discussão sobre a formação da personalidade humana. No palco, as questões são outras. O texto, pré-texto para a encenação teatral, tem um ritmo lento, situações mal construídas e personagens fracos.
                A personagem Dorotéia chega a casa de suas primas viúvas (Flávia, Carmelita e Maura) a fim de se purificar do pecado. As parentes repudiam a beleza e os prazeres, tidos como responsáveis por uma vida cheia de desvios. São feias, descansam no chão duro, exortam as dores e as doenças. Na noite de núpcias de cada uma delas, uma terrível náusea surgiu como prova de que o sexo não é bem vindo. A sensação, que marca as mulheres da família, acompanha outra peculiaridade: nenhuma mulher enxerga os homens. Casam-se com eles, deitam-se com eles, mas não os vêem. Dorotéia é diferente: ela não sentiu a náusea e vê os homens. Daí inicia a história que não tem um conflito único, mas pequenas encruzilhadas rápidas e discretamente resolvidas em meio a uma verborragia dissertativa sobre o tema, fazendo pouco além de informar o público sobre o que está-se vendo. Dorotéia será aceita na casa das primas? Das Dores (filha de Flávia) terá as náuseas na sua noite de núpcias? Dorotéia ficará feia? Em Dorotéia e em Flávia, assim, se encontra todo o espetáculo. Carmelita e Maura são ecos de Flávia e funcionam apenas junto dela como elemento mais visual e sonoro do que propriamente dramático. Das Dores é um motivo a mais para um conflito. D. Assunta da Abadia, sogra de Das Dores, é não mais que um evento. O texto, assim, não tem a força necessária ao drama, apesar da força das palavras com as quais foram compostos os seus diálogos e construídas as suas passagens.
                João Fonseca, talvez influenciado pela questão psicanalítica do texto, acerta quando constrói uma encenação expressionista. O expectador, afinal, não vê a peça como um leitor, mas a partir dos olhos da tríade Flávia-Maura-Carmelita (vemos com maus olhos Dorotéia e não vemos o noivo de Das Dores, filho de D. Abadia). Daí, também, o disforme proposto pelo inteligente figurino de Thanara Schönardie e pelo brilho ofuscante do cenário de Nello Marrese, ambos elementos que, congraçados, confundem a visão, distorcendo o sentido. O relapso da direção está em não fazer evoluir o ritmo que segue constante do início ao fim, deixando a narrativa ainda mais dissertativa, como um tedioso discurso de argumentação em prol da tese inicial: “Mulher tem que ser séria. A mulher que goza, é bonita e feliz não presta e tem que ser destruída. Do contrário, elas mandam no mundo!”* Não há curvas que valorizem os pequenos conflitos e apontem para um fim. E, além do mais, há interpretações bastante fracas e uma péssima escolha de trilha sonora. Como valor positivo, é possível identificar, na primeira parte do espetáculo, um ótimo jogo na movimentação das primas e de seus leques.
                Gilberto Gawronski (D. Flávia) brilha absoluto na excelência de seu trabalho de interpretação. Com uma dicção mais do que perfeita, intenções cortantes e olhares tão algozes como vitimados, o ator é o responsável pelos poucos momentos de vibração desse “Dorotéia”. Ao seu lado, na primeira parte da peça, Paulo Verlings (Maura) e, na segunda parte da peça, Keli Freitas (Das Dores) igualmente oferecem bons resultados resguardadas as poucas oportunidades que o texto lhes permitem aparecer. Por outro lado, Alexandre Pinheiro (Carmelita) e Marcus Majella estão tão fracos como suas figuras foram escritas: apagados e não mais do que negativamente histriônicos. Alinne Moraes, apesar de apresentar uma potência vocal muito aquém do necessário, traz pertinentes intenções e, a contento, cumpre a sua parte com adequação.
                A escolha de músicas pop, em inglês, que versam sobre a beleza e o feminino é redundante, pobre e, por isso, infeliz. Elas não funcionam como argumentação para a dissertação proposta, não trazem nada de novo para a descrição da situação prevista na narrativa e não oferecem nenhum avanço para o ritmo da encenação. Nelson Rodrigues e João Fonseca poderiam ter passado sem essa. Os fãs de Gawroski não. Aplausos para ele.

*
Ficha técnica:
Texto: Nelson Rodrigues
Direção: João Fonseca
Elenco:
Alinne Moraes (Dorotéia)
Gilberto Gawronski (D. Flávia)
Alexandre Pinheiro (Carmelita)
Keli Freitas (Das Dores)
Marcus Majella (D. Assunta da Abadia)
Paulo Verlings (Maura)
Figurinos: Thanara Schönardie
Cenografia: Nello Marrese
Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Realização: Artcênicas Ideias e Soluções Artísticas

* João Fonseca. Trecho retirado do programa do espetáculo.