foto: divulgação
Bom teatro em espetáculo ruim
“Atéque a sogra nos separe” é uma comédia romântica dessas muitas que se vê na
televisão todos os dias, atendendo a um mercado próprio, movimentando a
economia, preenchendo os espaços. Tem o seu valor e, como uma obra de arte,
merece respeito e admiração. Escrita, dirigida e interpretada por Anderson
Oliveira, tem como seu principal ponto positivo a despretensão e pouco deve ser
cobrado de quem promete pouco. Uma comédia romântica é um gênero como qualquer
outro a guisa dos gostos pessoais de cada um. Quem não gosta do gênero não vá
ver uma peça dele. Aqui gosta-se de teatro seja em qual atualização for.
Estamos
dentro do realismo, mais especificamente, fruindo uma de suas muitas variações.
Os acordos com o real além da narrativa precisam ser bem amarrados, a peça
precisa garantir altíssimos graus de verossimilhanças para que as quebras
desses acordos sejam manifestadamente opções estéticas relevantes ao
desenvolver da história. A coerência interna é importante, porque é ela quem
pode garantir o ritmo rápido que a dramaturgia necessita. Acreditando no
visual, o espectador vai prestar a atenção na história. (Não é à toa que José
de Alencar gastou quinze páginas descrevendo o rio Paquequer antes de
apresentar Peri. Não é por nada que as emissoras de TV investem pesado em
cidades cenográficas, direção de arte perfeita e alta tecnologia em qualidade
de imagem.) Nesse contexto, o cenário de Luciano Heiras é o pior de todos os
equívocos de “Até que a sogra nos separe”. Composto de três mini palcos, a
ambientação não garante, em um só centímetro, a adequada relação com o real
além da peça. Quando as cortinas se abrem e se vêem painéis grandiosos em
madeira bruta, sem pintura, com pregos aparecendo, canos de metal à mostra e
samambaias de plástico, encontram-se muito mais motivos para ir embora do que
para ficar e assistir à história que será contada ali. No closet, há duas ou
três peças de roupas. Na sala, um fundo vermelho de gosto duvidoso e uma mesa
auxiliar com uma tolha igualmente vermelha. Na sala de jantar, um fundo laranja,
mesa e cadeiras em madeira pesada. Os três ambientes estão separados entre si,
a trinta centímetros do chão, de forma que os atores pulam de um estrado a
outro, usando ainda a parte externa sem qualquer relação com a história. Nesse
contexto visual complicado, fica difícil analisar com eficiência os figurinos,
porque sua paleta de cores e variedade de texturas se misturam negativamente
com a ambientação de forma infeliz. O mesmo se diz da iluminação.
Vencendo
o desafio de atravessar o grandioso cenário, é possível identificar a história
escrita em parceria com Maria Clara Horta e os personagens. Um casal, Carlos
Alberto e Bia, encontra-se em crise na iminência da separação. Inicia um
flashback, partindo do primeiro encontro no corredor da faculdade (o velho e
batido clichê: os dois se esbarram, livros caem.) quando se descobre que ela
estuda teatro e ele biologia (Outra falha da direção de arte, Carlos Alberto
está com um livro de teatro nas mãos e não faz menção alguma sobre isso. Em
outro momento, ele tira o significado de uma palavra em português de um dicionário
de inglês) e são, dentro do contexto, opostos que se atraem - ela fuma, bebe, não
come carboidratos, é artista. Ele usa óculos, não tem vícios e é filho de uma
dona de restaurante italiano. A história avança evidenciando as diferenças
entre os dois que não o impedem de seguir adiante no relacionamento no melhor
jeito “Eduardo e Mônica” de ser. Desafio após desafio, os dois seguem juntos e
a dramaturgia, valorosa nesse aspecto, enche a escalada de momentos fortes: o
vestido do casamento escolhido pela mãe de Carlos Alberto e a visita de
Maurício, o irmão de Bia, são algumas passagens interessantes. Então, quarenta
minutos após a peça ter começado, entra Gioconda, a mãe do marido, a sogra da
esposa. A pergunta é: será que eles vão vencer mais esse problema? Com
situações bem marcadas, um texto fácil e diálogos superficiais, a dramaturgia
atende ao gênero e satisfaz quem acertadamente não esperou por conversas
requintadas, frases com segundas intenções e piadas ácidas. O humor de “Até que
a sogra nos separe” é rasteiro e isso, deus nos livre do preconceito, não é
ruim: palavrões, escracho e malandragem sempre fizeram rir e devem ter
respeitado o seu lugar na arte popular. O final é bastante interessante,
providenciando à narrativa um novo desafio ainda maior, o que é positivo.
A
direção oferece um olhar equilibrado por sobre a construção dos personagens. Gioconda
(Anderson Oliveira, a sogra), Maurício e Juan (André Sobral, respectivamente, o
cunhado e o namorado) partiram de estereótipos e conseguem o riso do público
com facilidade, estando em Oliveira os melhores momentos da peça pela sua
presença vibrante. (Eles são as “quebras” dos acordos com o real de que se
falou acima.) Já os protagonistas Bia (Fernanda Zau) e Carlos Alberto (Daniel Müller)
são mais próximos do real além da narrativa, com mais marcas de profundidade e,
por isso, os responsáveis pela dramaticidade. De um modo geral, todas as
interpretações estão adequadas, agregando aspectos positivos à obra.
A
ideia mais sublime de teatro é a de que A interpreta B diante de C. Se o teatro
aqui não aparece na sua melhor possibilidade, o grande culpado é um elemento
visual, o que faz pensar sobre a distância entre o conceito de teatro e o
conceito de espetáculo. “Até que a sogra nos separe” pode não ser um grande
espetáculo, mas, sem dúvida, oferece um teatro que pode e deve ser aplaudido.
*
Ficha técnica:
Texto: Anderson Oliveira e Maria
Clara Horta
Direção: Anderson Oliveira
Elenco: Anderson Oliveira, Fernanda
Zau, Daniel Müller, André Sobral
Cenário: Luciano Heiras
Gerente de Produção e Designer: Domingos
Santana
Ass. de Produção: Fabrício Neri e
Ronize Carrilho
Diretor de Produção: Leandro
Barbalho
Assessoria de Imprensa: Fábio
Amaral - Minas de Idéias
Operador de Som: Marcos Ribas
Operador de Luz: Anderson
Schinaider
Produção e Realização: BKL
PRODUÇÕES E R&A PRODUÇÕES
