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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Andança – Beth Carvalho, o musical (RJ)

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Foto: divulgação 


Jamilly Mariano, Eduarda Fadini e Stephanie Serrat

Musical celebra os 50 anos de carreira de Beth Carvalho

“Andança – Beth Carvalho, o musical” é o espetáculo que celebra os 50 anos de carreira da Madrinha do Samba. Com texto de Rômulo Rodrigues e com direção de Ernesto Piccolo, no elenco de 23 atores e de dez músicos, há destaques para Eduarda Fadini, que interpreta a protagonista na sua fase mais madura, e para Ana Berttines, que dá vida à fã Isaura. Maurício Baduh e Lenita Lopez, nos papéis de pais da homenageada, também fazem boa participação. Há ainda ótimos figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal e cenário de Clívia Cohen. Com mais pontos positivos de que seus pares, esse musical biográfico está em cartaz no Teatro Maison de France até o dia 20 de dezembro.

Dramaturgia supérflua
Muitas vezes apontada como um defeito na dramaturgia de musicais biográficos, a cronologia é um problema em “Andança” também. Por começar na infância de Beth Carvalho e ir até o momento atual, o modo excessivamente linear da narrativa a torna óbvia e o ritmo problemático. No entanto, a superficialidade é o pior do texto de Rômulo Rodrigues. Pelo modo como a vida da personagem protagonista está retratada, tudo parece ter sido muito fácil para ela: talento bem desenvolvido com incentivo dos pais desde a infância, mudança para a zona sul do Rio onde ficou mais próxima do advento da bossa nova, convites cada vez melhores para oportunidades sempre mais importantes, sucesso fluído, sempre ascendente e vigoroso sem qualquer conflito relevante.

Nas poucas cenas em que algum problema é sutilmente mencionado, esse mesmo aparece logo em seguida plenamente resolvido de maneira que toda a dramaturgia é claramente mera desculpa para a entrada das 59 canções que fazem parte do repertório. 2500 de história da teoria da narrativa já nos dizem que o valor de um herói se mede a partir de uma equação entre o tamanho de seu desafio e o número de suas habilidades em vencê-las. Sem contar bem uma história, a dramaturgia de “Andança” não consegue se desvincular do que o público já sabe sobre a vida da cantora e, por isso, fica absoluta e negativamente supérflua no espetáculo que a homenageia.

O título “Andança” se deve à canção homônima composta por Paulo Tapajós, Danilo Caymmi e por Edmundo Souto e que participou do 3º Festival Internacional da Canção, promovido pela TV Globo, em setembro de 1968. Na ocasião, ela foi defendida pelos Golden Boys (que cantavam a maior parte do solo) e por Beth Carvalho, até então desconhecida do grande público. Trata-se de uma das canções mais bonitas do repertório da música popular brasileira, mas, naquele momento, ficou em terceiro lugar, perdendo para a favorita "Pra não dizer que não falei de flores”, que ficou em segundo, e para “Sabiá”, que venceu na opinião dos jurados. É também o título de seu primeiro LP, lançado pela Odeon em 1969, que a consagrou como uma das maiores cantoras do país de então e até a atualidade.

Eduarda Fadini e Ana Bertines brilham vigorosamente
Há poucos destaques no elenco numeroso. Quase sem similaridades na caracterização que auxiliem a identificar os vários personagens meramente ilustrativos – aqueles que só servem para ilustrar a época sem função com o desenvolver da história -, é o texto que fica com a maior responsabilidade de indicar quem faz o quê. Mesmo assim, é possível encontrar mérito nas brevíssimas participações de Rebeca Jamir (Maria Bethânia), Wal Azzolini (Clementina de Jesus) e de André Muato (Milton Nascimento). Lenita Lopez e Maurício Baduh, que interpretam os pais, fazem ótimas colaborações no primeiro ato, elevando os valores do espetáculo. Prejudicadas pela dramaturgia, que lhes confere um linear enquadramento de boa moça feliz e sorridente, Jamilly Mariano (Beth criança) e Stephanie Serrat (Beth na juventude) pairam inexpressivas. A forte presença cênica e sobretudo a potente voz que enfim faz jus à personagem-título conduzem Eduarda Fadini (Beth na maturidade) ao maior destaque de toda a produção.

Ana Berttines

O sucesso de Ana Berttines na interpretação da fã Isaura evoca alguns aspectos bastante interessantes. Até a personagem aparecer, quase no fim do primeiro ato, toda a narrativa surge no palco pautada naquilo que já se sabe sobre Beth Carvalho. Com graça, humor e carisma, Isaura chega para contextualizar a história, aproximando o espetáculo do seu público. A partir de então, deixa-se de apenas contemplar a biografia de Beth Carvalho e passa-se a torcer para que a fã e a cantora se encontrem. O afeto que essa relação recupera é imediatamente identificável. Sob o âmbito da dramaturgia, que deu espaço para o surgimento desse personagem, mas principalmente da direção e da interpretação, através dos quais o público tem acesso a ela, trata-se de um dos melhores aspectos desse musical.

"Andança" se destaca entre os musicais biográficos
O cenário de Clivia Cohen, com poucos mas pontuais elementos, dá conta de tudo o que o espetáculo precisa para acontecer no palco em franca exuberância. O figurino de Ney Madeira e de Dani Vidal age no mesmo sentido, caracterizando a época e fazendo boas alusões aos personagens. O visagismo, em que os penteados carecem de maior cuidado, perde a oportunidade de ser melhor. O espetáculo tem excelente desenho de luz de Djalma Amaral. A direção musical de Rildo Hora, com arranjos vocais de Pedro Lima, conferem ao todo resultado exuberante que elogia as composições originais. As coreografias de Sueli Guerra são boas, mas sem destaque.

A direção de Ernesto Piccolo, com assistência de Marcio Vieira, esbarra na lentidão do roteiro, que deixa o espetáculo longo. O excesso de triangulação, em que se valorizam demais as cenas jogadas para a plateia e com pouco jogo interno, também não ajuda o ritmo. Entre as muitas produções dentro do mesmo formato musical biográfico, “Andança – Beth Carvalho, o musical”, no entanto, é um dos que apresenta melhor resultado.


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FICHA TÉCNICA


Texto: Rômulo Rodrigues

Direção: Ernesto Piccolo

Direção Musical e Arranjo Instrumental: Rildo Hora

Preparação Vocal e Arranjo Vocal: Pedro Lima

Elenco - Personagens

Stephanie Serrat - Beth Carvalho jovem

Eduarda Fadini - Beth Carvalho madura

Jamilly Mariano - Beth Carvalho criança

Ana Berttines - Isaura

Lenita Lopez - Nair, mãe de Beth

Mauricio Baduh - João, pai de Beth / Chacrinha

Andre Muato - Nelson Cavaquinho / Milton Nascimento / Arlindo Cruz

Paulo Ney - Martinho da Vila e outros

Rodrigo Drade - Flavio Cavalcanti e outros

Andre Luiz Rangel - Edson Cegonha e outros

Barbara Mendes – Vânia, irmã de Beth / Marlene e outros

Rebeca Jamir - Maria Bethania / Nora Ney e outros

Renata Tavares - Carmelia Alvez / Porta Bandeira e outros

Flavio Mariano - Jamelão e outros

Wal Azzolini - Clementina de Jesus e outros

Tathiana Loyola - Aracy de Almeida e outros

Cesar Soares - Tibério Gaspar e outros

Douglas Vergueiro - Zeca Pagodinho e outros

Késia Estacio - Prof. Julieta / enfermeira e outros

Leo França - Cartola / Silvio Caldas / Danilo Caymmi e outros

Leonan Moraes - Rildo Hora / Mestre Sala e outros

Tomaz Miranda - Paulo Rocco / Edmundo Souto e outros

Lu Vieira - Emilinha Borba e outros


Músicos

Dirceu Leite - sopros

Marcio Eduardo Melo - teclados

Jamil Joanes - baixo

Helbe Machado - bateria

Alessandro Cardoso - cavaquinho

Rafael Prates - violão

Mestre Chuvisco- percussão

Waltis Zacarias - percussão

China Show - percussão

Ninil- Sopros


Direção de Movimento e Coreografias: Sueli Guerra

Som Design: Marcelo MDM

Cenografia: Clivia Cohen

Figurinos: Ney Madeira e Dani Vidal - Espetacular Produções & Artes

Iluminação: Djalma Amaral

Diretor Assistente: Marcio Vieira

Direção de Produção: Ana Berttines e Rômulo Rodrigues

Patrocínio: Ministério da Cultura – Governo Federal, Governo do Rio de Janeiro, Secretaria de Estado de Cultura e Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro, Correios e Petrobras

Realização: PRAMA COMUNICAÇÃO

Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Chacrinha, o musical (RJ)

Foto: divulgação

Stepan Nercessian interpreta o Velho Guerreiro


A volta de Chacrinha


“Chacrinha, o musical” vence o desafio somente porque aposta no certo. Com texto de Pedro Bial e de Rodrigo Nogueira, direção musical e arranjos de Delia Fischer e com direção geral de Andrucha Waddington, a nova grande produção da Aventura Entretenimento oferece ao público o esperado: a alegria caótica do “Cassino do Chacrinha”. A justaposição de sucessos da música popular, a boa imitação de Stepan Nercessian para o Velho Guerreiro, o cenário e o figurino colorido e as coreografias das 14 “Chacretes” garantem o divertimento do público que há de continuar lotando o Teatro João Caetano, no centro do Rio, até março de 2015. É um sucesso que deve ser visto e aplaudido sem preconceitos, mas que, sem dúvida, pode gerar reflexão.

Se o teatro carioca ainda não entendeu, já deveria ter entendido que o mal das dramaturgias de musicais biográficos é menos dos dramaturgos contratados e mais das autorizações das biografias. Em todos os espetáculos desse tipo, os descendentes parecem ter barrado qualquer crítica mais profunda ou suposição mais criativa acerca da vida dos homenageados. Ou seja, a falta de um conflito realmente consistente que embase a luta de forças opostas superficializa as narrativas na medida em que enche de responsabilidade o simples desenrolar linear dos fatos das vidas públicas dos homenageados. Quase não se falam em drogas nas peças sobre Elis Regina e sobre Cássia Eller. Tim Maia é vítima do alcoolismo e Cazuza da AIDS. Não há sexo nos musicais sobre Agnaldo Rayol, Clara Nunes, Emilinha e Marlene, Marlene Dietrich e sobre Clementina de Jesus e assim por diante. Em comum, todos esses roteiros são uma colagem de músicas célebres do personagem título que embalam a narração de suas vidas, começando pela infância até chegar à fase adulta, terminando com a coroação de suas carreiras. Resta aos dramaturgos, nesse formato, pouca ou nenhuma liberdade infelizmente. Quem perde é o público que, embora tenha honradamente aplaudido a vida do artista, saiu do teatro com quase nada além de entretenimento. “Chacrinha, o musical” não foge à regra.

Os dois atos da peça de Pedro Bial e de Rodrigo Nogueira são unidos pelo encontro entre o personagem real e uma aparição, mas as justificativas desses encontros não estão claras. Na primeira parte, o jovem Abelardo Barbosa, interpretado por Léo Bahia, sofre a influência de uma figura lendária representante da literatura popular de cordel, interpretada por Stepan Nercessian. É ela quem inspira Abelardo a seguir seus passos em direção à fama, mantendo intocável o destino de comunicador das massas. No segundo ato, o encontro se dá entre Chacrinha (Nercessian) e o fantasma da sua juventude (Bahia), lembrando o Velho Guerreiro de suas origens, sem deixar que ele perca o compromisso com a audiência. Assim, refletindo sobre a dramaturgia do espetáculo como um todo, de um lado, se o destino de Abelardo Barbosa estava traçado, o sucesso não é mérito seu. De outro, se a ansiedade causava em Chacrinha tanto mal à sua saúde, então o fantasma da juventude não era anjo, mas algoz. Ou seja, a dramaturgia primeiro enfraquece o personagem, pois se pauta pelo determinismo. Depois, não esclarece os efeitos do excesso de autocrítica que possivelmente levaram o personagem ao falecimento. Sem elos realmente consistentes que situem o protagonista nas cenas das quais faz parte, esse Chacrinha boia molemente em contextos em que tudo menos ele é importante.

Andrucha Waddington, que estreia na função de diretor teatral, articula com relativa fluidez os cenários grandiosos de Gringo Cardia, os figurinos vibrantes de Claudia Kopke, o medley festivo de Delia Fischer - composto por mais de 60 canções do repertório regional e pop - e as coreografias pungentes de Alonso Barros de forma a engolirem a dramaturgia cambaleante, oferecendo 150 minutos de uma explosão de alegria. “Chacrinha, o musical” representa bem o conceito caótico que aproximava sensualidade, graça e arte popular em uma fórmula que deu certo por mais de 30 anos sob a liderança do insubstituível Velho Guerreiro na televisão. O espetáculo é divertido, porque revive o palhaço Chacrinha, personagem ainda querido pelos brasileiros, e seu amor ao povo de todas as idades, faixas sociais e origens do Brasil.

Fora a habilidade bastante meritosa de Stepan Nercessian em imitar Chacrinha em detalhes mínimos, principalmente na viabilização das rimas e do tom carismático bem específico do Velho Guerreiro de falar, não há destaques no elenco composto também por Léo Bahia (Abelardo Barbosa), Saulo Rodrigues (Boni), Érika Riba (Florinda), Paula Sandroni (Mãe), Milton Filho, Mariana Gallindo, Chris Penna, Luiza Lapa, por Renan Matos entre outros. No geral, o resultado é positivo porque sem desníveis. Com vitalidade, o elenco representa bem os muitos personagens que vêm simbolizar um conjunto de épocas da cultura popular nacional no rádio e na TV, cumprindo bem o que parecem ter sido as intenções da produção quanto ao espetáculo.

“Chacrinha, o musical” tem ainda o mérito de fazer reviver várias épocas da música brasileira e um tempo em que, embora o regime militar restringisse os direitos ou ainda que o próprio costume social fosse restrito, parece que havia mais liberdade nas formas de expressão. Como as outras homenagens, essa é bem-vinda.

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Ficha técnica
Texto – Pedro Bial e Rodrigo Nogueira
Direção – Andrucha Waddington
Direção de movimento – Alonso Barros
Direção Musical e Arranjos – Delia Fischer
Direção de arte e cenografia: Gringo Cardia
Figurino – Claudia Kopke
Design de som – Carlos Esteves
Desenho de luz – Paulo César Medeiros
Casting – Marcela Altberg

Elenco – Stepan Nercessian, Leo Bahia, Stephanie Serrat, Erika Riba, Mariana Gallindo, Saulo Rodrigues, Mateus Ribeiro, Livia Dabarian, Luíza Lapa, Leilane Teles, Paula Sandroni, Paulo de Melo, Chris Penna, Laura Carolinah, Milton Filho, Diego Campagnolli, Renan Mattos, Gabriel Leone, Tadeu Freitas, Patrick Amstalden, Pedro Henrique Lopes e Beto Vandesteen.

Realização – Aventura Entretenimento