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sábado, 12 de abril de 2014

Uma vida boa (RJ)

Julianne Trevisol, Daniel Chagas e Amanda Vides Veras em cena
Foto: divulgação

Excelentes interpretações em excelente adaptação

“Uma vida boa” tem belíssimas interpretações em uma preciosa tradução para o teatro do que já foi um livro (“All she wanted”, de 1993) e um filme (“Boys don`t cry”, de 1999) muito conhecidos. Na adaptação para teatro de Rafael Primot, B (Amanda Vides Veras) é um homem que nasceu em um corpo de mulher, mas, tentando viver suas relações heterossexuais, se apaixona por uma menina que, como a maioria, nasceu em corpo de menina. B e L (Julianne Trevisol) se conheceram através de um amigo em comum, J (Daniel Chagas), que, também como a maioria, nasceu em corpo de homem. Desde aí, percebe-se que o mais importante dessa narrativa é justamente refletir sobre a relação do ser humano consigo próprio e, depois, dele com a sociedade. A peça é uma bela história contada no Teatro do Oi Futuro Flamengo e que vale a pena ser vista.

Um conflito nasce a partir do encontro de forças opostas. Individualmente, os três personagens, B, L e J, vivem conflitos internos. J combate o tédio da vida na cidade pequena, L sabe que sua voz não é valorizada nos pequenos shows locais que faz e B finge estar acostumado em abandonar relacionamentos quando se descobre que, na verdade, ele é uma mulher. Porque bastante bem estruturados em uma narrativa não linear que dá tempo para o público fruir o ambiente de cada uma das três figuras, os conflitos individuais darão profundidade para a trama central de “Uma vida boa”. A questão é: depois de todos saberem que B é mulher, ele será feliz com L enfim? Na arena, estão os preconceitos da cidade pequena, a complexidade de um tema como a transexualidade e, por fim, o crime. Primot respeita o final da história como nos originais e positivamente tenta equilibrar os personagens dentro do que lhe é possível, mas seu maior mérito é desviar a atenção do espectador do que é sentido fechado (as resoluções da trama) e privilegiar a discussão, valorizando o que fica em aberto, isto é, considerando o amor entre B e L, tudo aquilo que poderia ter sido, não fosse o que foi.

“Uma vida boa” é um espetáculo romântico no que diz respeito ao seu gênero cênico narrativo. A história contada no livro, no filme e agora na peça tem várias inverossimilhanças (que aliás é justamente o que lhe situa no real além da narrativa) e boas doses de ideal e superficialidades. São os elementos formais que dizem mais sobre os personagens do que eles propriamente. Dos três, apenas L tem uma atitude surpreendente, de forma que os demais fazem o que deles é esperado. Nesse sentido, a peça se estrutura a partir de um ritmo que precisa ser fluente, pois ela é contada a partir de fatos e não de retórica. Em todos os momentos em que a direção de Diogo Liberano valoriza o teatro mais que a narrativa, o ritmo cai. Quando, por exemplo, um personagem grita várias vezes o nome de outro de formas diferentes, é como se Liberano lembrasse o espectador de que ao que ele está assistindo é apenas teatro. Os dois melhores momentos da peça são quando quase nada acontece: um monólogo de B e a cena final de B e de L. Nesses momentos, a direção, que está obviamente sempre presente, parece querer desaparecer e, assim, fazer brilhar a história positivamente. O quadro geral é meritoso.

Daniel Chagas e Julianne Trevisol têm personagens que lhes exigem pouco, mas, dadas as devidas proporções, oferecem resultado final tão bom quanto o trabalho de Amanda Vides Veras, essa com mais desafios a vencer. Vera expõe o ser humano em primeiro lugar, ao lado de Primot e de Liberano, no jeito como olha, no modo como os ombros estão postos e, principalmente, no jeito como o quadril equilibra toda a figura cênica de B que é a protagonista nesse espetáculo. O trabalho é brilhante.

O tema da transexualidade, diferente da hetero e da homossexualidade, é uma questão primeira de identidade. Enquanto o homossexual se vê diferente dos demais, o transexual se vê diferente de si próprio. Se o individualismo que a contemporaneidade tem trazido, com cada vez mais um número maior de pessoas solitárias e enfurnadas nos seus próprios apartamentos, trouxer algo de bom, que seja então para apaziguar o embate interno do homem consigo mesmo. Que “Uma vida boa” tenha muito sucesso! Viva Pablo Sanábio!

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Ficha técnica
TEXTO___RAFAEL PRIMOT
DIREÇÃO___DIOGO LIBERANO
COLABORAÇÃO ___LÉO MOREIRA

ELENCO:
AMANDA VIDES VERAS, JULIANNE TREVISOL E DANIEL CHAGAS

TRILHA SONORA ORIGINAL___DIOGO AHMED PEREIRA
ILUMINAÇÃO___DANIELA SANCHEZ
FIGURINOS___BRUNO PERLATTO
CENÁRIO___BRUNELLA PROVVIDENTE
DIREÇÃO DE MOVIMENTO ___JOÃO PEDRO
PATROCÍNIO ___ OI E SECRETARIA DE ESTADO DE CULTURA, ATRAVÉS DA LEI ESTADUAL DE INCENTIVO À CULTURA
APOIO CULTURAL ___ OI FUTURO
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO___ANA LÉLIS E PAULA ROLLO
PRODUÇÃO EXECUTIVA ___ BRUNO MARIOZZ
PRODUTORES ASSOCIADOS___PABLO SANÁBIO, AMANDA VIDES VERAS E ANA LÉLIS
IDEALIZAÇÃO___PABLO SANÁBIO