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segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O idiota (Lituânia)

Foto: divulgação

A diferença significa


A diferença essencial entre um conto e um romance é o tamanho. E o tamanho, que pertence à forma, encontra uma justificativa no conteúdo. É preciso que o leitor se demore com os personagens, com a história. Há romances pesados em que a narrativa é ligeira e Harry Potter (J. K. Rowling) e O código Da Vinci (Dan Brown) são casos que todos conhecem. Não é disso que estamos falando: nesses dois exemplos, há uma quantidade grande de acontecimentos e ações que, encadeadas, levam a um ponto de desfecho. Aqui, o assunto é um outro tipo de romance. Um em que os acontecimentos são alargados, as descrições são detalhadas, o ritmo é pausado. No século XVIII e XIX, quando esse gênero ganhou corpo e importância até então não vista, os romances preenchiam as tardes de uma burguesia crescente que ainda não tinha rádio e televisão com que se ocupar. É o nascente da classe média atual, nem pobres, nem ricos, mas que sabiam ler e tocar piano, e se cansavam com a literatura clássica e neoclássica, bem como com a música medieval e barroca. Nascem o romantismo e, depois, o realismo, gênero último de que Dostoievski é considerado um dos pais.

A diferença essencial entre Dostoievski e Machado de Assis, cujo Dom Casmurro (quase) todos tiveram que ler na véspera do vestibular, é o tamanho. Com poucas décadas de diferença em seus lançamentos, os dois autores constroem o mesmo tipo de texto, mas o brasileiro não tem o fôlego do russo e, por isso, não consegue construir um texto daquele tamanho. O russo, por sua vez, não consegue, num conto, atingir a profundidade de que o brasileiro é mestre. Entretanto, entre os dois, a proposta é a mesma: construir uma narrativa escrita que reaja contrariamente ao idealismo romântico, que traga luz às escuridões humanas, que trate da hipocrisia burguesa e que responda ao ser humano diante da sua condição social e psicológica. O idiota é um dos romances de Dostoievski em que um jovem epilético retorna a São Petesburgo depois de anos longe em função de sua saúde. Ele busca os pedaços de suas relações familiares e sociais, que se desfizeram com a morte de seus pais e a sua própria ausência, trazendo consigo a extrema bondade e a perfeição moral. É quase uma visita de Peri (O guarani, José de Alencar) a Bentinho (Dom Casmurro, Machado de Assis). Míchkin traz luz à escuridão e, por mais forte que seja o breu, ele se torna penumbra e morre diante da lamparina acesa.

Os bons valores do Príncipe são tidos como maus pelos maus valores dos que ele encontra. Em cena, no palco do 17º Porto Alegre em Cena, o Grupo Meno Fortas, dirigido por Eimuntas Nekrosius, apresenta atualizado para o teatro, a discussão acerca dos valores trazida no século XIX russo. E apresenta bem no que diz respeito a sua forma e ao seu conteúdo.

Vamos à forma: os diálogos são cortados até ficarem a sua essência. Dela surgirão as pontecialidades cênicas: ou atos de fala, que gerarão ações internas ou externas a quem fala e a quem ouve; ou a construção de imagens, que vão dizer a respeito de lugar, de tempo ou de forma. Os figurinos são sóbrios e tendem a desaparecer, o que deixa lugar para livre para outros aspectos como a luz, viva, presente, potente. O cenário é pesado e poluente: há um excesso de berços a encher a cena, em oposição à porta, à mesa e ao piano que são essenciais ao que acontece. Os berços preenchem o espaço de outros aspectos que ficam, assim, prejudicados: o movimento dos atores é um deles.

Nekrosius é um homem de teatro e, assim como o homem de literatura usa e abusa das palavras e da gramática, ele constrói o seu texto através dos signos teatrais. E a diferença essencial entre um signo verbal e um signo teatral é a arbitrariedade do primeiro. A palavra bola não se parece com uma bola. A foto de uma bola ou o seu desenho, ou dois atores simulando um jogo de bola sem bola, faz ver uma bola ou algo que se pareça com uma. A distância existente entre o signo verbal e o seu referente (que também é outro signo e nunca o objeto real no mundo) faz com que as possibilidades de interpretação sejam mais reduzidas, o que é um paradoxo. Em outras palavras, justamente porque o som da palavra bola e as quatro letras (b-o-l-a) são distantes da bola é que quando a dizemos ou a escrevemos, a imagem de uma bola venha antes. Depois dela, poderão vir um garoto gordo chamado Bola, o planeta Terra e sentidos outros. Mas o primeiro que surge é bola. O signo teatral, icônico e indicial, por ser próximo do referente, sugere mais facilmente outros sentidos. Vou dar um exemplo: há uma cena em que uma personagem vai até outra e, penteando seu cabelo, com a ajuda de outra, enfaixa a cabeça da primeira e desenrola, junto aos fios, linhas brancas que vão sendo cortadas. Linhas brancas sendo desenroladas na cabeça de uma mulher de cabelos lisos não têm relação direta com linhas brancas sendo desenroladas na cabeça de uma mulher de cabelos lisos, o que seria o sentido primeiro. O espectador vai logo para sentidos outros. E quais são eles? Para mim, vi a moça envelhecer, amadurecer, ficar com os cabelos brancos. Para outra pessoa, as linhas brancas e a faixa eram o véu e a grinalda de um casamento. Para outra pessoa ainda, a loucura, a insanidade da moça estava sendo representada ali. E, se pesquisarmos, vamos descobrir ainda mais leituras diferentes. Nisso consiste um uso contemporâneo dos signos teatrais: a exploração rica das potencialidades semânticas de cada elemento cênico. No exemplo citado, nenhuma das leituras é desqualificada e todas acrescentam. O idiota, na versão teatral a que assistimos, é um prato cheio para dezenas de leituras como a que apresentei a partir de um só detalhe. E as quase seis horas de sua duração têm relação direta com o tempo necessário (e previsto) para a convivência com os personagens e sua percepção.

Quanto ao conteúdo, quero relatar uma situação. No palco, acontecia a discussão sobre valores. Na plateia, também. Atrás de mim, o celular de uma senhora tocou tirando completamente a minha atenção e a de todos. Antes do constrangimento ser superado, novamente, o celular da mesma senhora tocou momentos depois. Perguntei-lhe se ela não sabia desligar o seu aparelho telefônico (porque acredito na bondade humana e sei que nem todos estão familiarizados com seus próprios celulares). Em seguida, um saco de plástico foi aberto para servir a sua dona, a mesma senhora, algumas balas. No intervalo, irritado, disse a quem estava ao meu lado que as pessoas só iam aprender a desligar o celular quando a lei fosse cumprida e as multas previstas para isso fossem aplicadas. Resultado: entre a senhora e suas, também barulhentas, amigas, virei piada pelo resto da noite. Noite essa que, para vergonha dos gaúchos, foi recheada de telefones tocando, portas batendo, tosses e pacotes de bala sendo abertos. A hipocrisia burguesa do século XIX ainda existe e o conteúdo de Dostoievski, tratado no século XXI por Nekrosius ainda é atual e necessário.

E a produção, como um todo, foi muito bem-vinda!

* Texto escrito em setembro de 2010 por ocasião do 17º Porto Alegre em Cena.

domingo, 23 de outubro de 2011

O Idiota (Lituânia)

Foto: divulgação

Nekrosius

Talvez tenha havido um tempo em que o bem fazia bem e o mal fazia mal. Em que homens casavam com mulheres e só com ela tinham filhos. Em que o preço das coisas não mudava, em que as cartas chegavam e os antivírus eram confiáveis. Talvez tenha existido uma época em que virgindade era sinal de virtude, em que os padres não tinham sexo, em que as crianças eram puras e os comunistas eram maus. Esse, no entanto, não é o tempo do Porto Alegre em Cena. Nós vivemos a difícil tarefa da adversidade, da prazerosa situação de não saber ao certo com o quê lidamos, nem por quanto tempo lidaremos, com a certeza dialética de que o bem pode também fazer o mal. E, às vezes, ao mesmo tempo.

A bondade do Príncipe Míchkin, protagonista de “O Idiota”, por exemplo, destrói os seres humanos a sua volta, sejam ele bons ou maus. Ela faz aquele que se julga bom duvidar de sua própria bondade. E aquele que é mal desconfiar de si mesmo. Une, num só eixo de dúvida, um rol de personagens e constrói uma história sobre um pântano caudaloso e frio, cortante e, ao mesmo tempo, volúvel como o gelo. A bondade sufoca.

Fiódor Dostoiévski (1821-1881) ainda não tinha quarenta anos quando publicou “O Idiota”, um dos seus romances mais importantes. No entanto, convivia com epilepsia desde os dezessete, o que o coloca ao lado de nomes como Machado de Assis, Flaubert, Hemingway e Van Gogh. A relação entre a doença e o escritor fez nascer o Príncipe Lev Nikoláevitch Míchkin, protagonista do romance, idiota se entendermos a palavra não como um xingamento, mas como um termo que designa, de forma pejorativa, aquele que sofre de idiotia, aqui relacionada à epilepsia. O escritor, que é tido como o pai do existencialismo e, hoje, é um dos maiores nomes da literatura mundial, tendo escrito também “Crime e Castigo” e “Os Irmãos Karamazov”, entre outros, constrói uma atmosfera em que cada personagem é visto do ponto de vista de sua verticalidade, daí a exploração do universo psicológico de cada ser e sua relação paralela com os demais. Rogójin ama Nastássia que ama Míchkin que ama Aglaia ou ama Nastássia ou, talvez, sobretudo, ama Rogójin.

O Príncipe é bom e sofre as desventuras de sua bondade ao voltar para sua terra natal a fim de receber a herança de sua família já toda falecida. São mais de seiscentas páginas de muito diálogo em que, em cada um, ao leitor é oferecida a concretização máxima da possibilidade de ganchos narrativos. Uma fala puxa a outra e os membros do discurso se prendem mutuamente só menos do que presos estão a si próprios. O livro demorou apenas quatro meses para ser escrito e Dostoiévski se baseou em Dom Quixote, de Cervantes, para criá-lo. E, se prestarmos a atenção nisso, vamos entender a função do príncipe frente aos demais personagens: lutar contra a autodestruição, sendo, ele próprio, uma arma destrutiva.

Eimuntas Nekrósius (Lituânia, 1952), o mais célebre diretor báltico, completa trinta anos de teatro internacional com a atualização do romance russo “O Idiota” para o palco. Eis duas informações importantes: a) O diretor não completa três décadas de dedicação ao teatro, mas aniversaria o conhecimento que o mundo tem a respeito do seu trabalho, premiadíssimo desde “Pirosmani, Pirosmani”, em 1981. b) O romance que completa 150 anos é a primeira aventura de Nekrosius (Honorary Worker or Art of the Lithuanian em 1997) no universo de Dostoiévski.

Nekrosius, que já esteve em outras edições do Porto Alegre em Cena com “Hamlet” (2001), “Otelo” (2006) e “Fausto” (2008), faz parte do grupo de Lev Dodine, Kristian Lupa e Anatolij Vassiliev, menos conhecidos a nível mundial, que trabalham dentro de um regime de permanente experimentação teatral. Seus nomes participam do todo que inclui Peter Brook, Eugenio Barba, Peter Stein, Peter Zadek, Patrice Chéreau, Klaus-Michael Grüber, Ingmar Bergman, Luca Ronconi, Bob Wilson, Georgio Barberio Corsetti, Stéphanne Braunhweig, Richard Jones e Tadeusz Kantor, encenadores que marcam a “contemporaneidade no teatro”. Ou seja, estamos falando em um diretor cujo trabalho traz um imediatismo que, por dialogar tão fortemente com a atualidade das relações, talvez só poderemos refletir de forma consistente sobre ele no futuro. Para o hoje, fica o dever de prestarmos a atenção no que ele tem a dizer e diz.

O teatro da Companhia Meno Fortas (“Fortaleza da Arte”, em português), fundada em 1997, vale destaque entre seus pares por usar meios técnicos simples em detrimento da tecnologia. Não é um teatro com vídeos e luzes, mas um teatro de atores e histórias. Como em Kantor, os dispositivos cênicos escolhidos e a originalidade conceitual está na linguagem expressiva, no gesto minimalista. Por outro lado, sua ascendência em Bob Wilson, está na forma como música e adereços tem sua combinação concebida. É um teatro de metáforas, com fôlego épico e imagens expressionistas. E a capital gaúcha lembra muito fortemente do bloco de gelo derretendo sobre Hamlet sobre quem também pingava, ao mesmo tempo, cera quente de velas.

“O Idiota” teve 115 ensaios em 6 meses de preparação. Tem 5 horas e meia de duração e 3 intervalos. Para o próprio Nekrosius, “o teatro é um antídoto contra a pressa insensata dos nossos tempos”, justificando a longa duração do espetáculo. O ator principal (Daumantas Ciunis) é recém formado pela escola de interpretação, o que é outro ponto interessante dessa produção que tem circulado pelo mundo sendo ovacionada pela crítica especializada. No 16º Porto Alegre em Cena, estará em cartaz no Theatro São Pedro, durante três concorridíssimas sessões.

*Texto escrito em setembro de 2009 por ocasião do 16º Porto Alegre em Cena