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quarta-feira, 3 de julho de 2013

Um-Fausto (RJ)

Evandro Manchini em "Um-Fausto"
Foto: Felipe O`Neill

Com vocês, Daniel Belquer e Evandro Manchini!

“Um-Fausto”. O segundo semestre do Rio de Janeiro começa com a estreia de um espetáculo muito, muito, muito interessante. Partindo da versão de Fausto, de Fernando Pessoa (“Fausto: uma tragédia subjetiva”), que, por sua vez, é análoga a quinhentos anos de adaptações na literatura, no teatro, na música, nas artes visuais, eis aqui um ponto de vista que merece a atenção do público carioca desse início de século XXI. Dividido em três partes, é possível identificar que todas as forças que fazem com que uma das partes iniciais seja boa também fazem com que a outra seja não tanto, deixando para o final o glorioso sentido capaz de dar harmonia, coerência e coesão para a odisseia que Daniel Belquer assina e em que Evandro Manchini atua. Com vocês, uma dupla que há de dar o que falar, e pensar, e sentir. 

Primeira parte: Belquer aumenta a potência de todos os elementos tradicionalmente coadjuvantes no teatro, deixando-os em mesmo nível que o texto. Assim, as palavras ditas por Manchini co-protagonizam uma cena em que o som é fundamental, as projeções são essenciais, a movimentação é importante, a articulação entre as cenas é indispensável, tudo isso ao lado das falas e do como elas são ditas. Pouco a pouco, o convite à desatenção vai ficando mais claro, uma vez, em cada laço da estrutura, nota-se diversão no lugar de concentração. Têm-se aí o teatro pós-dramático, empurrando para o espectador a função máxima e quase única de dar sentido para o que é visto a partir da eleição arbitrária e particular dos usos dos elementos que mais lhes chamam à percepção. Em paralelo a isso, no texto, há um personagem clamando pelo não-pensamento e implorando por mais sensação. Ele quer parar de dar sentido, estancar a leitura do mundo e das coisas que lhe acontecem, voltar para o prazer kaspariano (Peter Handke) de quem, já adulto, vê o mundo como se o visse pela primeira vez. Essa primeira parte termina na cena em que esse personagem pede a outro um filtro que lhe permita olhar o mundo com outros e novos olhos. 

Segunda parte: Belquer e Manchini impõem a sua participação como dramaturgos de um espetáculo dramático em oposição ao ato anterior. Os personagens são agora bem definidos, há nomes, há vozes, há corporalidades que os diferenciam. A analogia (um tanto quanto superficial) da não-razão ao uso das drogas se torna óbvia e o desconflito inicial vira um conflito, isto é, aquele que queria parar de pensar, agora, está imerso em sentimentos. Da cena da cachaça em diante, a curva (no pós-dramático não há curvas, mas aqui estamos na parte dramática da peça) se torna ascendente, levando a narrativa para um ápice. E ele chega quando o personagem se apresenta já como um fiapo de ser humano, uma espécie de Gollum a vagar pelo mundo depois de completamente corrompido e destruído por si próprio e seus vícios. Essa odisseia do herói contemporâneo está começando a chegar ao fim.

Final: os segundos finais de “Um-Fasto” são apresentados de forma bastante sutil, mas não menos fortes. Primeiramente não hierarquizados e, depois, organizados de forma convergente, eles voltam agora, mas já sem força, enfraquecidos, porém, mais uma vez, lado a lado e sem diferentes graus de importância uns com os outros. Então, o que era branco vira cinza e a luz, como tudo, morre lentamente. Eis o fim.

À guisa de avaliação, há que se dar destaque, nessa montagem, ao bom uso do som, das projeções e da luz. Tanto um como todos, ambos fortificam o convite à percepção sensorial da peça, evitando a razão em um primeiro momento. Depois, fortalecem as diferenças entre os personagens e clarificam as situações em que esses se encontram. Ao final, voltam a ser protagonistas, sobretudo compartilhando com o ator a tarefa de fazê-lo apagar-se, enfraquecido estando o seu personagem. A trilha sonora age no mesmo sentido, oferecendo momentos diferentes, esses que dão margem para o respiro e para a confusão, impondo, mais adiante, significação quando essa é necessária dentro da concepção do diretor. Em se tratando de um monólogo, o ritmo se sustenta bem ao longo dos oitenta minutos na fruição de estreia, o que é mérito de toda a equipe. 

Evandro Machini faz bom uso do corpo e dos tempos na viabilização do discurso oral e proxêmico (movimento pelo espaço). No que diz respeito à voz, ele tem como auxílio a tecnologia eletrônica, essa um elemento usado aqui positivamente como símbolo de desejo do homem contemporâneo. Quanto ao olho, carece-lhe, sobretudo na segunda parte, mais envolvimento no projeto de construção dos personagens. Seus gestos são precisos, sua afinação é excelente, sua presença é carismática. 

Em espetáculo desse tipo, nenhum traço deve ser desperdiçado do olhar do público sob pena da interpretação variar a ponto de ausentar-se. Em tese, essa ordem se manifesta em forma e em conteúdo: nada na vida, afinal, deve ser desperdiçado. 

*

Ficha técnica:
Direção e concepção: Daniel Belquer
Atuação: Evandro Manchini
Dramaturgia: Daniel Belquer e Evandro Manchini
Cenografia: Doris Rollemberg
Iluminação e Retrovisão: João Marcelo Pallottino e Ricardo Grings
Música Original e Programação Sonora: Carlos Eduardo Soares
Direção de Produção: Sonja Gradel
Figurino: Cássio Brasil
Visagismo: Maurício Mello
Direção de movimento: Lavinia Bizzotto
Direção de sonografia: João Augusto Mannis
Colaboração de Programação (som, luz, vídeo, interação): Claudio Cabral
Assessoria Tecnológica: Jaime Rodrigues
Arte Gráfica: Diogo Monteiro
Programação interativa e Computação gráfica: Marlus Araújo e Daniel Belquer
Atriz em vídeo: Gabriela Fregoneis
Cenotécnico: Custódio Vieira
Fotos: Felipe O`Neill
Canções compostas por Daniel Belquer