sexta-feira, 8 de abril de 2016

Orpheus (SP)

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Foto: divulgação


Vera Lafer

A rápida e bela passagem de “Orpheus” pelo Rio de Janeiro

“Orpheus” é o mais novo espetáculo da paulistana Studio3 Cia. de Dança. Coreografada por Anselmo Zolla e dirigida por José Possi Neto, a produção fez única apresentação na última terça-feira, 29 de março, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Através da dança contemporânea, o grupo adaptou o mito de Orfeu e de Eurídice, utilizando composições musicais do alemão Christoph Glück (1714-1787) e dos brasileiros Tom Jobim (1927-1994) e Felipe Venâncio. Os bailarinos Alexandre Nascimento, Jefferson Damasceno, Beth Risoleu, Vera Lafer e a atriz convidada Marilena Ansaldi, de 81 anos, se destacam no elenco constituído por vinte integrantes. São exuberantes ainda o cenário da Casa Goia e os figurinos de Fábio Namatame. A peça, que já cumpriu duas temporadas em São Paulo, vai se apresentar no Teatro des Champs Elysées em Paris.

O mito grego e sua célebre primeira versão brasileira
As mais antigas citações do mito grego de Orfeu e Eurídice que temos hoje são as narrações em “Geórgicas”, de Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.), e em “Metamorfoses”, de Ovídio (43 a.C. – 18 d.C.). Nesses textos latinos, a história é descrita com algumas diferenças, mas com uma base comum. A morte trágica de Eurídice, assassinada por Aristeu, no dia do seu casamento com Orfeu, trouxe ao noivo uma grande tristeza. Por amor, ele vai ao Hades tentar resgatá-la do Reino dos Mortos. Lá, com a música de sua lira, encanta a todos, inclusive a Rainha Perséfone, que concorda em permitir que Eurídice retorne ao Olimpo, mas impõe uma condição: no trajeto de volta, Orfeu não poderá vê-la. Fatalmente, ao levantar-se de um tropeço, os olhos dos dois se cruzam e a amada volta definitivamente para o Hades. Por sete anos, Orfeu chora e, em sua dor, não olha para nenhuma outra mulher. Inconformadas, as bacantes esquartejam o herói e, na morte enfim, ele volta a se encontrar com a esposa, vivendo com ela para sempre.

Em 1954, Vinícius de Moraes escreveu a peça “O Orfeu da Conceição” que, dois anos depois, estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro com músicas de Tom Jobim. Nessa versão, Orfeu e Eurídice são moradores de uma favela carioca. Ela é assassinada na véspera de seu casamento e, desesperado, ele desce para um baile de carnaval na cidade onde se encontra com os reis momos. A alegria da festa o perturba e, ao voltar, ele se encontra com a Dama Negra, antes de ser morto pelas prostitutas rejeitadas. Em 1959, “Orfeu do Carnaval”, a versão cinematográfica da peça, ganhou vários prêmios pelo mundo, incluindo o Globo de Ouro e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

Espetáculo brilhante!
“Orpheus” se utiliza dos movimentos mais sutis às coreografias mais arrojadas para exibir sua pesquisa no universo mitológico. Com sucesso, o espetáculo inclui a reflexão de que o amor ainda existe e tem força mesmo nesses tempos árduos em que vivemos. Ao longo das cenas, o sentimento vai ganhando expressões cada vez mais fortes e sua abordagem substitui a importância da narrativa. Em outras palavras, não se precisa conhecer a história de Orfeu e de Eurídice para se vivenciar essa experiência estética. As coreografias de Anselmo Zolla e a direção teatral de José Possi Neto são bastante meritosas nesse sentido.

Os bailarinos Alexandre Nascimento e Jefferson Damasceno protagonizam um belíssimo duo, revelando talvez que amor e masculinidade não são oposições. Marilena Ansaldi, contribuindo com poesia, formas delicadas e expressões marcantes, dá vida a Orpheu apaixonadamente em busca de sua amada. Vera Lafer e Beth Risoleu trazem duas visões sobre Eurídice, ambas expressas em traços pontuais e limpos de enorme beleza. Todo o elenco colabora para quadros ricos em detalhes e que, bem articulados, participam com detalhes na construção do sentido de toda a obra.

A cenografia da Casa Goia e os figurinos de Fábio Namatame oferecem aos bailarinos-intérpretes renovadas chances de brilhar em grandes trabalhos. No desenvolver da narrativa, o palco vai se transformando em oportunidades cada vez mais belas de se fruir o espetáculo. Sem privilégio nem à plástica, nem ao cênico, tampouco à sonoridade, “Orpheus” envolve bem todos os signos em um discurso coeso e coerente bem estruturado. A direção musical de Felipe Venâncio e a iluminação de Zolla, Possi Neto e de Joyce Drummond conseguem igualmente ótimos resultados.

Por uma temporada no Rio
“Orpheus”, de Anselmo Zolla e de José Possi Neto com o Studio3 Cia. de Dança, é um belo espetáculo. Oxalá depois da França haja oportunidades mais longas do público carioca aplaudi-lo.

*

FICHA TÉCNICA
Com a Studio3 Cia. de Dança e a bailarina Vera Lafer
Artista convidada: Marilena Ansaldi
Ideia e Direção coreográfica: Anselmo Zolla
Direção teatral: José Possi Neto
Coreografia: Anselmo Zolla e elenco de Intérpretes criadores
Roteiro: José Possi Neto
Direção musical: Felipe Venâncio
Músicas: Christoph Gluck, Tom Jobim e Felipe Venâncio
Participação em voz: Zizi Possi e Tiganá Santana
Letras: Vinicius de Moraes
Cenografia : Casa Goia
Imagens: Karina Machado
Desenho de luz: José Possi Neto, Anselmo Zolla e Joyce Drummond
Figurinos: Fabio Namatame
Vídeo/ cenário: Estúdio Preto e Branco
Trechos do poema Paulicéia Desvairada de Mario de Andrade
Relações Públicas/ Convidados: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Assessoria de Imprensa: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho

Wicked (SP)

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Essa crítica foi originalmente publicada aqui: http://teatroemcena.com.br/home/critica-wicked-teatro-renault-sp/

Foto: Marcos Mesquita


Myra Ruiz e Fabi Bang

Um dos maiores e melhores espetáculos do ano

O musical “Wicked” é um dos grandes momentos de 2016 nas artes cênicas do Brasil. Fenômeno na Broadway desde 2003, assistido por milhões de pessoas em todo o mundo, o espetáculo tem sua primeira versão em solo brasileiro com músicas cantadas em português e por elenco nacional protagonizado pelas gloriosas Myra Ruiz e Fabi Bang. O compositor Stephen Schwartz, autor dos célebres “Godspell” e “Pippin” e ganhador de três Oscar e de quatro Grammy, é quem assina a trilha sonora original. A peça é baseada em livro de Gregory Maguire sobre o universo anterior dos personagens do clássico “O Mágico de Oz”. Assinada pela Time for Fun, a produção brasileira, que custou bem investidos dezesseis milhões de reais, aproxima o público daqui da original. Com eletricidade suficiente para abastecer doze casas, 170 diferentes tipos de couro no figurino, oitenta toneladas de cenário e 34 atores em cena (mais equipe técnica), é um dos maiores espetáculos do ano no Brasil e certamente um dos melhores. Em cartaz desde março no Teatro Renault, na Bela Vista, em São Paulo, a peça pode ser vista lá até 31 de julho. Espera-se que venha também ao Rio de Janeiro e país a fora.

O fenômeno mundial “Wicked”
A história de “Wicked” começa um pouco depois da narrativa de “O mágico de Oz” ter iniciado. No célebre filme de 1939, baseado na obra do americano L. Frank Braum (1856-1919), um terrível tornado devasta o Kansas no dia em que a garota Dorothy (Judy Garland) voltou para a casa de seus tios após ter fugido para salvar o seu cão Totó. Enquanto todos se abrigaram em um lugar protegido, ela não teve a mesma sorte e acabou sendo atingida por um pedaço de janela. Talvez inconsciente, ela vê o chalé onde mora ser arrastado do solo pelos ares na tempestade. A casa, ao cair no chão, atinge a Bruxa Má do Leste, matando-a. Dessa forma, Dorothy, sem querer, “salva” o povo de Munchkin do seu terrível jugo, mas também desperta a ira da Bruxa Má do Oeste, que jura vingança. Glinda, a Bruxa Boa do Norte, aparece e diz que só quem poderá ajudá-la a voltar para casa é o Mágico de Oz, que mora na Cidade das Esmeraldas, no fim da estrada de tijolos amarelos. Calçando os sapatos de rubi que eram da bruxa falecida, Dorothy parte em sua aventura de volta ao lar, fazendo amigos e também inimigos. No original em inglês, “Bruxa Má” é “Wicked Witch”, daí o nome do musical cuja montagem brasileira aqui se analisa.

“Wicked” é a estreia da roteirista Winnie Holzman na Broadway e também seu único trabalho relevante até o momento. Trata-se da adaptação para comédia-musical da novela infanto-juvenil “Wicked: the life and times of the Wicked Witch of the West”, lançada em 1995. Escrita por Gregory Maguire, é a primeira de uma série formada por mais três outras obras. É uma brilhante proposta do universo anterior das personagens Bruxa Boa do Norte, Bruxa Má do Leste e principalmente da Bruxa Má do Oeste aqui chamadas respectivamente de Nessarose, Glinda e Elphaba.

A montagem original estreou em Nova Iorque em outubro de 2003. Ela perdeu o Tony Award de Melhor Musical para “Avenida Q”, mas recebeu o troféu de Melhor Cenário, Figurino e Atriz (Idina Menzel), além de outras cinco indicações. Cumpriu 5.124 apresentações, se tornando a 10ª produção com temporada mais longa da história da Broadway, acima de “Rent” e abaixo de “A Bela e a Fera”. A primeira montagem de Londres ainda está em cartaz e atualmente se sustenta no 17º lugar do ranking similar. Uma versão cinematográfica, produzida pela Universal com direção de Stephen Daldry, está a caminho.

A potência dessa dramaturgia musical
A narrativa de “Wicked” começa quando Glinda (Fabi Bang) revela que conheceu Elphaba (Myra Ruiz) nos tempos da faculdade. As recordações dela, porém, se confundem com fatos que nem ela mesmo sabe. Dessa maneira, o público, lá pelas tantas, passa a ter acesso a informações privilegiadas sobre os personagens como um todo. Sem dúvidas, isso define uma relação muito especial entre palco e plateia que contribui com o sucesso desse musical. Em outras palavras, quem assiste e quem vive a história têm pontos de vista diferentes sobre tudo o que acontece. Se Elphaba é uma bruxa má para a maior parte dos personagens, para o público talvez não seja.

Elphaba, primeira filha do Governador de Munchkin, nasceu verde. Por causa disso, sua inteligência e dom especial para a bruxaria não a tornaram mais respeitada por sua família. O primeiro encontro dela com Glinda se dá quando as duas são recepcionadas na faculdade. Elphaba chega como acompanhante de Nessarose (Giovanna Moreira), sua irmã mais nova, que não pode andar e, por isso, vive em uma cadeira de rodas. Glinda, chamada de Galinda nessa parte da história, é loira, linda e bem vestida e, por tudo isso, muito popular. Sem querer, Elphaba impressiona a professora Madame Morrible (Adriana Quadros), que lhe concede uma vaga em seu concorrido seminário (“O Mágico e Eu”). Assim, de um lado, a estranha e inteligente Elphaba se opõe à popular e burra Galinda, mas o destino as aproxima em uma amizade tão imprevisível quanto inevitável.

De um modo extremamente tocante, a dramaturgia percorre marcas que desvendam, enfrentam e aprofundam a complexidade dos personagens. A falta de inteligência de Galinda (da canção “Popular”) vai se tornando ingenuidade ao longo da peça para então ser símbolo de pureza. É esse último valor que talvez garanta a ela o acesso àquilo que ninguém mais vê. A incapacidade de andar de Nessarose vai se mostrando inabilidade em avançar, o que não tem nada a ver com uma deficiência física mas vai além. Toda a imagem negativa que Elphaba, querendo ou não, constrói para si, pouco a pouco, abandona a simplória discussão sobre vitimização e culpabilidade em busca de reflexões sobre se desprender do passado, do destino e se tornar sujeito da própria história. “Desafiar a gravidade”, a canção-tema de todo o espetáculo, fala sobre isso: desprender-se das condições naturais e do passado, libertar-se e voar.

Outros personagens importantes participam da narrativa. O bonitão e cobiçado Fiyero (André Loddi alternando com Jonatas Faro) surge (“É só dançar”) reforçando as diferenças entre Elphaba e Galinda, mas também unindo as duas no que ambas sentem por ele. Doutor Dillamond (César Mello) traz à narrativa a importância do estudo como aquilo que, além do sangue e das posses, é capaz de fazer alguém crescer. Em especial, esse personagem inclui na peça a crítica ao modo como o saber está desprivilegiado hoje em dia. Boq (Bruno Fraga) traz o valor de se dedicar ao outro e o Mágico de Oz (Sérgio Rufino) sugere o autoritarismo que advém da insegurança. Dorothy, que não aparece, talvez represente as velhas crenças que permanecerão válidas enquanto não forem substituídas por outras.

O segundo ato, ainda em termos de dramaturgia, não é tão bom quanto o primeiro, pois nele o espectador sorve menos a narrativa de “Wicked” e mais o modo como essa peça se relaciona com “O Mágico de Oz”. Na primeira parte, Glinda e Elphaba já são adultas e socialmente já assumem as responsabilidades por seus atos. Depois, conhecem-se as origens de Homem de Lata, Espantalho e de Leão e também como Nessarose se tornou a Bruxa Má do Leste. Os méritos da abertura se conservam no final. “Tudo mudou”, uma das canções mais lindas de Stephen Schwartz, surge dando sentido para a narrativa. Ela reposiciona o espectador, que está diante do final já conhecido, que já tem, nesse momento, novos pontos de vista para fruí-lo de modo diferente. O final, um segredo mantido entre quem assiste à história e alguns de seus personagens, coroa a relação entre essas partes.

Excelente montagem brasileira
A versão brasileira de “Wicked”, produzida pela Time For Fun, está nos mesmos padrões das montagens internacionais. O cenário de Eugene Lee brilha aos olhos dos brasileiros como aos do mundo, produzindo o êxtase de que narrativas desse tipo dependem e merecem. O mesmo quanto ao figurino de Susan Hilferty (com visagismo de Tom Watson e de Joe Delude II) e à luz de Kenneth Posner. As cenas do baile e da Cidade das Esmeraldas, além da abertura, fim do primeiro ato e encerramento garantem, sob todos os aspectos, a extravaganza de que a comédia musical americana necessita desde os tempos de Florenz Ziegfield no início do século XX. A trilha sonora de Stephen Oremus, William David Bron, James Lynn Abbott, Alex Lacamoire e de Adam Souza confere sensibilidade e pujança capazes de tocar o público e embalar as emoções. As coreografias de Wayne Cilento e de Corinne McFadden Herrera agem no mesmo sentido positivamente. Em resumo, a direção de Joe Mantello, Lisa Leguillou e de Rachel Ripani, dos aspectos visuais aos cênicos, permite à audiência acessar os méritos da montagem original tantas vezes elogiada sob os termos dos seus mais altos padrões.

A tradução das canções, feita por Mariana Elisabetsky e por Victor Mühlethaler, se mostra preocupada em não fazer do português um problema diante da agilidade da língua inglesa. Com habilidade, eles não reduzem os sentidos, nem modificam seus lugares semânticos, mas investem nas possibilidades que nosso idioma oferece com coragem. O resultado chega com fluência equilibrada, com a força esperada e com a beleza coerente com o todo. A dupla, ainda em início de carreira nessa função, promete dividir o mercado com aqueles já célebres nele, no que o público brasileiro há de ganhar. A direção musical aqui foi assinada por Vânia Pajares.

Fabi Bang e Myra Ruiz em excelentes atuações
32 atores estão em cena em excelentes trabalhos dentro do mais alto rigor estético que uma produção imensa como essa exige. Em termos de música e de dança, mas, em especial, no que se refere à interpretação, o resultado concorda com o sucesso esperado pelos investidores e pelo público fã de espetáculos assim. É bonito reencontrar Sara Marques, Thuany Parente e Leo Wagner nesse grupo. No elenco principal, César Mello (Doutor Dillamond), Bruno Fraga (Boq) e Giovanna Moreira (Nessarose), com menos oportunidades, exibem colaborações cheias de força nos detalhes, o que renova os méritos do todo. André Loddi (Fiyero) e principalmente Adriana Quadros (Madame Morrible) apresentam os limites mais sólidos por onde a história caminha com responsabilidade e graça. Neles, a sensualidade e o aspecto ardiloso de seus personagens respectivamente se destacam. Sergio Ruffino (Mágico de Oz) perde oportunidades em apresentar com mais profundidade seu papel que foi, na montagem original, defendido por Joel Grey, mesmo ator que eternizou o Mestre de Cerimônias em “Cabaret”.
Myra Ruiz e Fabi Bang

Impossível não pensar no tamanho de suas referências ao analisar o trabalho de Fabi Bang (Glinda) e de Myra Ruiz (Elphaba) na montagem brasileira de “Wicked”. As duas personagens protagonistas foram interpretadas, na Broadway, por Kristin Chenoweth e por Idina Menzel, duas atrizes da mais alta grandeza do teatro musical no mundo. A segunda, uma mezzo-soprano, recebeu o Tony Award por sua atuação como protagonista nessa produção. A primeira, uma colatura-soprano (3 oitavas e um semi-tom, exatamente a mesma cobertura de Maria Callas), para além de sua potência vocal, é uma das melhores atrizes cômicas americanas. Isso expõe o enorme desafio bem como seus méritos ao transpô-lo. Ambas, em excelentes atuações, se sucedem nas atenções do público. Ruiz, com força e sensibilidade, toca pelo aspecto complexo de sua Elphaba. Bang, em uma representação alegre, ágil mas não menos sensível de Glinda, encanta. Em duas frentes colaborativas, o espetáculo tem, nessas duas colaborações, grande justificativa para seus aplausos mais nobres.

Vida longa!
Globalizado desde o fim da II Guerra Mundial, o mundo já não tem mais espaço para reflexões baratas como aquelas que dizem respeito a produções americanas em solo brasileiro. Não se trata de privilégio para o Brasil receber uma equipe criativa estrangeira, liderando brasileiros na viabilização de um musical dos Estados Unidos. Mas há que se saudar com honestidade trabalhos tão bem feitos seja de qual país for. “Wicked” é um dos maiores fenômenos de nosso século dentro de seu gênero e aqui surge capaz de honrar nosso público. A todos os envolvidos, de lá e de que aqui, parabéns e vida longa!

*

Ficha técnica:

Elenco:
Elphaba – Myra Ruiz
Glinda – Fabi Bang
Mágico de Oz – Sérgio Rufino
Madame Morrible – Adriana Quadros
Fiyero – Jonatas Faro e André Loddi
Nessarose – Giovanna Moreira
Boq – Bruno Fraga
Doutor Dillamond/ Cover de Mágico – César Mello
Elphaba Stand by – Talita Real
Ensemble - Hellen de Castro
Ensemble– Júlia Duarte
Ensemble– Roberta Jafet
Ensemble - Sara Marques
Ensemble- Vânia Canto
Ensemble – Carolina Franco
Ensemble – Jess Gardolin
Ensemble – Laura Ávila
Ensemble – Sâmella Nathielle
Swing Crossover – Andreza Meddeiros
Swing – Fernanda Muniz
Swing– Thuany Parente
Ensemble– Diego Montez
Ensemble – Jessé Scarpellini
Ensemble/ Pai -Leo Wagner
Ensemble – Matheus Paiva
Ensemble - Rodrigo Negrini
Ensemble – Fábio Lima
Ensemble – Gabriel Malo
Ensemble – Kauê Ribeiro
Ensemble – Lucas Nunes
Swing – Cauan Vieira
Swing Crossover – Guilherme Pereira
Swing – Sandro Conte

quarta-feira, 30 de março de 2016

Medida por medida (SP)

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Foto: João Caldas


Luisa Thiré e Marco Antônio Pâmio
Ótima montagem de comédia de William Shakespeare

“Medida por medida”, comédia do inglês William Shakespeare (1564-1616), fez parte do projeto “Repertório Shakespeare” em cartaz no Rio de Janeiro entre fevereiro e março de 2016 na Cidade das Artes e no Teatro João Caetano. Ao lado de “Macbeth”, a peça foi dirigida por Ron Daniels e protagonizada por Marcos Suchara, Thiago Lacerda, Luisa Thiré e por Marco Antônio Pâmio. A montagem foi uma ótima oportunidade do público de se reencontrar com o maior dramaturgo do teatro universal.

Comédia sobre a fornicação
A comédia revela o desprendimento de Shakespeare em tratar de temas aparentemente atuais como a fornicação. Na ficcional Viena, uma antiga lei esquecida prevenia a população contra os males do sexo irresponsável. A peça começa quando o Duque Vincentio (Marco Antônio Pâmio) anuncia que fará uma viagem. Na verdade, ele pretende secretamente descobrir os segredos que não vê por estar no poder. Em seu lugar, Ângelo (Thiago Lacerda) assume o comando e resgata o velho regulamento, enchendo as prisões da cidade com cidadãos de vida lasciva. Entre eles, está Cláudio (Rafael Losso) que recentemente engravidou Julieta (Stella de Paula), sem casar-se com ela. Em socorro do prisioneiro, que foi condenado à morte, sua irmã Isabella (Luisa Thiré) é convocada. Ela está prestes a fazer os votos como religiosa quando tudo isso acontece. Quando Isabella se encontra com Ângelo, ele se apaixona por ela e, em troca da vida de Cláudio, exige que a noviça durma com ele.

A solução do conflito da peça revela outros personagens: Lúcio (Marcos Suchara), o melhor amigo de Cláudio; Mariana (Ana Kutner), ex-noiva de Ângelo; o cafetão Pompeu (Lourival Prudêncio) e sua esposa, a Sra. Bem-passada (Giulia Gam); o prisioneiro Barnabé (Felipe Martins); entre outros. Disfarçado de Frei Ludovico, o Duque Vincentio terá o desafio de punir os malfeitores poderosos de sua cidade com a mesma medida que esses punem os mais fracos. Escrita entre 1603 e 1604, a peça estreou no primeiro ano do reinado de Jaime I, que sucedeu Elizabeth I no trono da Inglaterra.

Excelente conjunto de interpretações
Ron Daniels, que já dirigiu, no Brasil, “Rei Lear” (2000) e “Hamlet” (2013), além de outras produções na Inglaterra, mantém nesse espetáculo seu desejo de aproximar a narrativa shakespeariana do público de agora. Faz bem. “Medida por medida”, traduzido por ele e por Marcos Daud, tem linguagem fluente, acessível e que não descaracteriza o texto original. A estética do espetáculo, em um limbo onde se unem referências da Idade Moderna e elementos contemporâneos, agrega agilidade ao modo de contar a história com jovialidade e graça.

A cenografia de André Cortez, com painel de Alexandre Orion, ao lado dos figurinos de Bia Salgado e da luz de Fábio Retti, potencializam a proximidade entre o contexto da narrativa e aquele em que o espetáculo se apresenta. Relações líquidas e erotismo fazem parte do cotidiano de nossa sociedade conhecida mundialmente por seu carnaval. O todo é bonito, visualmente valoroso e intelectualmente interessante. A trilha sonora original de Gregory Slivar auxilia no estabelecimento e na manutenção do ritmo que os atores mantêm tão bem na direção de Daniels assistido por Gustavo Wabner. O espetáculo tem direção de movimento de Sueli Guerra.

Todos os trabalhos de interpretação do numeroso elenco estão ótimos, o que é outro mérito da direção certamente. Felipe Martins (Barnabé), Ana Kutner (Mariana) e Giulia Gam (Sra. Bem-passada) dão vitalidade a seus personagens menores, revelando a força da encenação mesmo nos detalhes da narrativa. Marcos Suchara (Lucio) e Lourival Prudêncio (Pompeu) se responsabilizam por grandes momentos cômicos do espetáculo, obtendo enormes gargalhadas do público que se diverte com suas excelentes interpretações carismáticas. Thiago Lacerda (Ângelo) vence o desafio do vilão com méritos ao lado de Marco Antônio Pâmio (Duque) e de Luisa Thiré (Isabella), os protagonistas. Eles, em torno do qual toda a estrutura se organiza, apresentam trabalhos coesos, coerentes em que tudo é claro, forte e vital para a viabilização da história. Aplausos!

Público merecia temporada maior
“Medida por medida” ficou em cartaz apenas um mês no Rio de Janeiro. O público merece temporadas mais longas de trabalho tão bom assim.

*

FICHA TÉCNICA
Texto: William Shakespeare
Tradução: Marcos Daud e Ron Daniels
Concepção e Direção: Ron Daniels
Curadoria Artística: Ruy Cortez
Instalação cênica | Painéis: Alexandre Orion
Instalação cênica | Cenografia: André Cortez
Figurinos: Bia Salgado
Desenho de Luz: Fábio Retti
Composição e trilha original: Gregory Slivar
Diretor assistente: Gustavo Wabner
Preparação corporal e direção de movimento: Sueli Guerra
Coordenador de ação: Dirceu Souza
Visagismo: Westerley Dornellas
Preparação vocal: Lui Vizotto
Preparação de luta: Rafael Losso
Cenotécnica: Fernando Brettas | Onozone Studio
Figurinistas assistentes: Alice Salgado e Paulo Barbosa
Indumentária e adereços: Alex Grilli e Ivete Dibo
Costureiras: Francisca Lima Gomes e Marenice Candido de Alcantara
Camareiros: Conceição Telles e Regina Sacramento
Projeto de sonorização: Kako Guirado
Operador de som: Renato Garcia
Operadora de luz: Kuka Batista
Contrarregra: João Pedro Meirelles e Diro Faria
Diretor de palco: Ricardo Bessa
Edição de texto: Valmir Santos
Foto de cena: João Caldas
Foto do processo | Still: Adriano Fagundes
Design Gráfico: 6D
Assessoria de Imprensa: Factoria Comunicação
Relações institucionais: Guilherme Marques e Rafael Steinhause
Administração: Flandia Mattar
Assistente administrativa: Mara Lincoln
Assistência de produção: Claudia Burbulhan, Diego Bittencourt, Marcele Nogueira Produção Executiva: Luísa Barros
Direção de Produção: Érica Teodoro
Produção: CIT-Ecum, TRL e Pentâmetro
Realização:Sesc, CIT-Ecum, TRL e Pentâmetro

Elenco:
Thiago Lacerda: Angelo
Giulia Gam: A Sra. Bem-passada
Marco Antônio Pâmio: Duque
Luisa Thiré: Isabella
Sylvio Zilber: Éscalo
Marcos Suchara: Lucio
Lourival Prudêncio: Pompeu
Felipe Martins: Cotovelo e Barnabé
Ana Kutner: Mariana, Freira
Rafael Losso: Claudio
André Hendges: Superintendente
Fabio Takeo: Frei Thomas, Guarda, Franchão
Stella de Paula: Julieta
Lui Vizotto: Lelé, Guarda, Frei Pedro