terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Gente (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: Aline Macedo

Patrick dos Santos e Bianca Barbosa

28 atores em ótimo espetáculo produzido entre moradores do Complexo da Maré

"Gente" é o espetáculo realizado a partir do "Projeto Entre Lugares: Terras onde pisei, histórias que contei" , realizado pela G. I. Produções Culturais com moradores do Complexo da Maré no Rio de Janeiro. Durante o ano inteiro, desde 2012, jovens entre 12 e 18 anos participam de diversas oficinas e a produção é um meio de dar sentido à parte do que foi aprendido no processo. A peça foi apresentada na própria comunidade, mas também na Biblioteca Parque Estadual e no Teatro do Parque das Ruínas, em Santa Teresa, zona central do Rio de Janeiro. Sua dramaturgia foi criada a partir de histórias reais colhidas pelos oficinandos entre os moradores, seus vizinhos e familiares. 28 atores estão no elenco e apresentam um bom trabalho que emociona e diverte. A programação teatral carioca, nesse fim de 2015, tem nessa montagem motivos para se orgulhar.

Dramaturgia surge de histórias reais da Comunidade do Complexo da Maré
São cinco histórias colhidas entre os moradores da Comunidade da Maré. A peça começa com a narrativa da mullher mal tratada pelo marido que vem para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Sua voz é descoberta por um cantor e uma carreira começa ao lado de um novo romance e uma nova oportunidade. O envolvimento do filho, já adolescente, com o crime traz à protagonista muitas tristezas no entanto. Depois, conhece-se a senhora acumuladora que, apesar da bondade, incomoda os vizinhos por causa do mal cheiro que vem de sua casa. Ela é maltrada pelos próprios filhos e sua situação acaba fazendo com que a opinião dos outros sobre ela se modifique. Eles então a ajudam a melhorar de vida. Há ainda o menino explorado pela mãe que exige que ele saia pela feira pedindo comida de graça. Também a professora de espanhol que, motivada por um espírito evangélico, resolve levar sua aluna transexual para participar de um culto. Ambas sentem forte preconceito das pessoas na igreja, o que lhes entristece. Na sala de aula, a violência no entorno da escola traz outros acontecimentos tristes ao seu pensamento, mas que  não lhes impedem de continuar acreditando em um mundo melhor. A peça termina com uma divertida história de amor de um casal que se une por procuração, resolvendo o problema da distância entre eles.

As esquetes mais longas são entrecortadas por entremezes em que pequenos monólogos oferecem um contexto que oxigena a fruição do espetáculo como um todo. Na encenação, todos os atores estão sentados ao redor da cena, assistindo com o público às histórias apresentadas. O drama, gênero que melhor lê a narrativa, não limita o aspecto cômico, mas informa sobre as bases que parecem ter guiado Renata Tavares, que assina a dramaturgia, na viabilização da obra. O bem e o mal estão bem claros e essa apresentação nítida ajuda o ritmo, bem como a leitura das referências. "Gente" é um espetáculo que tem como tema a riqueza humana da sociedade em meio a qual o espetáculo foi criado. E atende aos objetivos com méritos a serem aplaudidos.

Elenco numeroso apresenta bom trabalho
A direção de Renata Tavares e de Tiago Ribeiro tem o mérito de atravessar a pouca experiência dos intérpretes no palco profissional e apresentar um espetáculo que em nada perde para seus pares na programação de teatro carioca. Ao longo de mais de cento e vinte minutos, a narrativa cruza o tempo e o espaço com opções criativas e dispostas à fruição com vibrante desenvolvimento. Os jovens atores apresentam, de um modo geral, boa noção de movimentos, conhecimento de suas habilidades vocais e corporais e ótimas expressões nas ações e nas reações. O espetáculo, atentendo aos objetivos, diverte, emociona e promove essencial reflexão. Patrick Santos, Bianca Barbosa, Vanessa Azevedo, Leona Kali e Taiane Gomes se destacam no elenco pelo modo delicado e profundo com que se expressam na apresentação dos seus personagens em seus quadros. O elenco também é composto por Amanda Maria, Ana Karolina, Anderson Alexandre, Andressa Vargas, Angela Pereira, Arlison Campos, Bianca Mollinari, Edson Martins, Fernanda Pontes, Hyan Victor, Jhenefer Braz, Larissa Castro, Lucas Borges, Matheus Frazão, Nzage Dias, Pedro Nascimento, Rafael Lima, Roger Neri, Thiago Santos, Thiago Souza, Vanusa Azevedo, Victória Mel e Yury Jesus em trabalhos qualificados.

O cenário de Flávio Vidaurre e o figurino de Rosa Ebee colaboram para o espetáculo porque, sem entraves e com potência, dão conta do essencial para a apresentação dos personagens e dos contextos narrativos em que eles aparecem. A iluminação de João Gioia, sobretudo considerando a realidade da produção e do tipo de palco para o qual ela foi criada, tem méritos em destacar o elenco como um todo e favorecer as reflexões que o espetáculo promove desde antes da narrativa.

O "Projeto Entre Lugares: Terras onde pisei, histórias que contei" 
"Gente" renova, no teatro, o compromisso da arte em celebrar o homem em sua riqueza, em sua complexidade, na natural enorme possibilidade de expressões. Além disso, ele nos lembra de que talento e técnica são características que aparecem e se desenvolvem em qualquer contexto, ainda que esse seja um tão difícil como se sabe ser o do Complexo da Maré. O "Projeto Entre Lugares: Terras onde pisei, histórias que contei" merece os parabéns, mas mais do que isso a atenção, o valor e novas e mais longas temporadas. Muitos aplausos! Feliz 2016!


*

Ficha técnica:
Coordenação geral: Vanessa Greff
Coordenação artística: Flávio Vidaurre
Autora: Renata Tavares
Direção de cena: Renata Tavares e Tiago Ribeiro
Figurino: Rosa Ebee
Cenário: Flávio Vidaurre
Iluminação: João Gioia
Registro fotográfico: Aline Macedo
Projeção e Imagens: Mutante Produções
Operador de som: Alexandre Mero

Elenco:
Amanda Maria, Ana Karolina, Anderson Alexandre, Andressa Vargas, Angela Pereira, Arlison Campos, Bianca Barbosa, Bianca Mollinari, Edson Martins, Fernanda Pontes, Hyan Victor, Jhenefer Braz, Larissa Castro, Leona Kali, Lucas Borges, Matheus Frazão, Nzage Dias, Patrick Santos, Pedro Nascimento, Rafael Lima, Roger Neri, Taiane Gomes, Thiago Santos, Thiago Souza, Vanessa Azevedo, Vanusa Azevedo, Victória Mel e Yury Jesus.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Mamãe (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: Bárbara Lopes


Álamo Facó


Monólogo tocante é cheio de méritos


"Mamãe" é o monólogo em que Álamo Facó, a partir do processo investigativo por ele chamado de "A síntese do relevante", apresenta algumas reflexões estéticas surgidas do fato real do falecimento de sua mãe. Em 2010, a arquiteta Marpe Facó Soares Drummond foi diagnosticada com um tumor no cérebro e faleceu cem dias depois, deixando três filhos - o ator Álamo entre eles. O espetáculo, com muita sensibilidade, torna um fato particular um motivo para celebrar a vida de um modo geral. Poético, tocante e sensível, a peça esteve em temporada durante o mês de dezembro na Sala Multiuso do Espaço SESC Copacabana e seguirá em cartaz no Teatro Sérgio Porto a partir de 9 de janeiro de 2016.

Excelente uso das marcas de performance 
Na dramaturgia dessa performance, o ator Álamo Facó modificou o nome real da personagem de Marpe para Marta. Os três filhos aparecem na narrativa como se fossem apenas um, chamado Lázaro. Outros aspectos também ganharam, na ficção, novos contornos. O mais relevante, enquanto discurso estético, é o modo como, em primeiro lugar, todos os elementos aparecem embasados em um conjunto bem articulado de marcas. Elas são capazes de criar suatentação para cada novo gesto acontecido em cena, amparando um excelente desenvolver das ações. Depois, com méritos, Facó sustenta uma poderosa névoa entre o que aconteceu fora e dentro da ficção, servindo-se do conceito de performance para fisgar a atenção do público. A dificuldade em saber o que é personagem e o que é vida "real" faz toda a diferença no modo positivo como a audiência se envolve com o espetáculo.

No que diz respeito à encenação, "Mamãe" se utiliza com potência de vários elementos para apresentar o espetáculo de modo mais profundo. Dirigido por Facó e por César Augusto, o ritmo propõe e mantém um clima confortável que talvez seja capaz de atingir o público mais diretamente no trato com um tema tão difícil quanto a morte da própria mãe. Longe de ser um dramalhão pesado e superficial, o monólogo traz o acontecimento ainda terrível, mas com certa naturalidade que o deixa profundo.

O cenário de Bia Junqueira, articulando cadeiras de policarbonato, fumaça e luzes vermelhas, azuis e brancas sustenta o contexto de representação, envolvendo o espectador que passa a colaborar mais efetivamente com os acordos da narrativa. Em outras palavras, o público não apenas vê a peça, mas participa ativamente dela transformando o quadro geral disposto no palco na sala do hospital e nos demais ambientes onde a história se dá. Ao optar pelo não realismo, Junqueira convoca a plateia para, através dessa postura mais ativa, sentir-se parte de um contexto que irá emocioná-la, atribuindo-lhe sentido.

A trilha sonora de Álamo Facó e de Rodrigo Marçal, o figurino de Ticiana Passos e a luz de Felipe Lourenço mantêm lugares escuros e não vestidos onde se é possível respirar além de referências mais populares que ratificam a fluência dos acordos, a oxigenação da obra e o ritmo alternado e vivo. Todos os elementos estão envolvidos em um conceito bem amarrado que movimenta a estrutura do espetáculo com força.

Monólogo sobre o valor da vida
É bonito ver como "Mamãe" deixa de ser sobre o falecimento de Marpe Facó e passa a ser sobre o valor da vida, cuja importância contraditoriamente fica nítida na possibilidade da morte. Um fato particular, privado, individual se torna, através da arte celebrativa que é o teatro, onde seres humanos desconhecidos se encontram, algo universal. Não há dúvidas de que esse resultado aponta para os méritos dos realizadores e também daqueles que participaram da realização no momento da peça. Fica a certeza de que esse é um ótimo espetáculo. Parabéns!

*

Ficha Técnica:

Texto e atuação: Álamo Facó
Direção: Álamo Facó e Cesar Augusto
Direção de produção: Carlos Grun
Direção de movimento/ co-direção: Luciana Brites
Direção Musical: Rodrigo Marçal
Cenário: Bia Junqueira
Luz: Felipe Lourenço
Trilha Sonora: Álamo Facó e Rodrigo Marçal
Direção Musical do Performer: Lan Lanh
Figurino: Ticiana Passos
Preparação Vocal: Sonia Dumont
Fotos: Julio Andrade e Miguel Pinheiro
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Projeto gráfico: Mary Paz
Produção e Realização: Bem Legal Produções e Álamo Facó
Parceria: Sábios Projetos
Colaboração Artística: Dandara Guerra, Fernando Eiras, Remo Trajano, Julio Andrade, Tamara Barreto, Lidoka Martuscelli, Andrucha Waddington, Lully Villar, Marina Viana, Victor Garcia Peralta, Cristina Flores e Renato Linhares

Raia 30 - O musical (SP)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: divulgação

No alto, Cláudia Raia


Bonito espetáculo marca os 30 anos de carreira de Cláudia Raia

"Raia 30 - O musical" é o espetáculo que celebra os 30 anos de carreira de Cláudia Raia. Em 1983, ela participou da montagem brasileira do célebre "A Chorus Line" e, no ano seguinte, esteve no elenco do programa de humor "Viva o Gordo!", seu primeiro trabalho na televisão. Com dramaturgia de Miguel Falabella e com direção de José Possi Neto, o musical cumpre temporada até o fim de janeiro no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon. Apesar das sensibilidades no texto, é uma oportunidade interessante de se reencontrar com uma das nossas maiores estrelas em sua merecida auto-homenagem.

Problemas na dramaturgia não tiram o brilho do espetáculo
Os problemas centrais da dramaturgia de Miguel Falabella se veem na forma como a personagem está mal apresentada, mas principalmente como o desenvolver da narrativa se dá de modo superficial. O espetáculo enumera fatos da história profissional de Cláudia Raia, mas eles estão estruturados sem força prejudicialmente. Não há conflito, não há problema e, portanto, é como se não houvesse heroína, nem vencedora. Embora se saiba que as coisas não foram "bem assim", parece que tudo foi muito fácil na vida de Raia no modo como a história está sendo defendida. A dramaturgia, por isso, perde a oportunidade de melhor contribuir para o todo. 

Falando em primeira pessoa, em elogiável ótima relação com o público, Cláudia Raia consegue se servir pouco do contexto narrativo para argumentar em favor do aniversário de sua carreira. Felizmente, em performance exuberante, ela consegue sucesso ao se apoiar em seu carisma marcante. Ao longo da apresentação, o público sente a forma como ela se relaciona com os seus pares no elenco, em especial, o ator Marcos Tumura, seu parceiro durante tantos anos. O feito gera uma energia positiva que é contagiante e dribla os problemas que o texto ruim oferece.

A direção de José Possi Neto, em que colaboram as vibrantes coreografias de Tania Nardini, une quadros que remetem aos vários trechos da carreira de Cláudia Raia. Aparecem menções aos musicais "A Chorus Line" (1983), "Sweet Charity" (2006) e "Cabaret" (2011), mas também à trilogia "Não fuja da Raia" (1991), "Nas Raias da loucura" (1993) e "Caia na Raia" (1996). Ainda sobre o envolvimento da atriz/cantora/bailarina com o palco, há quadros que recuperam suas participações em espetáculos de ballet e de teatro de revista realizados antes de 1983.

As personagens Tancinha, da telenovela "Cambalacho" (1986); e Tonhão, do programa humorístico "TV Pirata" (1988-1992), que Raia interpretou com muito sucesso, também surgem. Todos esses momentos aguçam a memória afetiva do público, mas nenhum deles aparece como um argumento em favor do crescimento da personagem. Apesar do aparecimento não-cronológico dos quadros, o ritmo de "Raia 30 - O musical" permanece linear em função disso.

Vibrante direção de arte de Gringo Cardia
O visual visto pela direção de arte de Gringo Cardia, que se inspira no estilo da decoradora americana Dorothy Draper, é um dos pontos altos da produção. Célebre nos anos 20, o exagero de Draper encontrou eco no glamour da passagem dos anos 70 para 80 no Brasil que vivia o (falso) crescimento econômico (da ditadura militar). Esse clima estético contextualiza a maior parte dos fatos narrados em "Raia 30 - O musical", conferindo exuberância para a produção. Os figurinos de Fábio Namatame e a luz de Drika Matheus confirmam o mapa conceitual do todo, permitindo que o espetáculo exiba uma estrutura positivamente sólida e com méritos.

A direção musical de Marconi Araújo apresenta com unidade standards do repertório de Cláudia Raia, que sua voz grave defende ao lado do coro. No entanto, entre todos os aspectos, o mais positivo elemento de "Raia 30 - O musical" é o modo como a intérprete se relaciona com o público. O diálogo franco, sincero e aberto sinalizam que se trata de uma estrela amada pela audiência. Os méritos acumulados nos anos de carreira certamente são as bases para essa notória mútua admiração. Que venham outros aniversários a comemorar!

*

Ficha técnica:
Texto: Miguel Falabella
Direção: José Possi Neto
Direção Musical e Vocal: Marconi Araújo
Coreografia: Tania Nardini
Produção Geral: Sandro Chaim
Direção De Arte, Cenografia e Design da Identidade Visual: Gringo Cardia
Figurino: Fabio Namatame
Design De Luz : Drika Matheus
Design De Som: Tocko Michelazzo
Visagismo: Dicko Lorenzo, Henrique Mello, Robin Garcia
Elenco: Claudia Raia, Marcos Tumura, Alberto Goya, Alessandra Dimitriou, Carol Costa, Daniel Cabral, Estela Beraldi, Elton Towersey, Luana Zenun, Mariana Barros, Marilice Cosenza, Matheus Paiva, Rodrigo Negrini e Ygor Zago.
Produtores Associados: Claudia Raia e Sandro Chaim