segunda-feira, 30 de junho de 2014

Crazy For You (RJ)

Claudia Raia e Jarbas Homem de Mello protagonizam o musical de 1992
Foto: divulgação

Jarbas Homem de Mello

“Crazy for you” é, antes de qualquer outra coisa, uma homenagem ao teatro musical. Na história escrita por Ken Ludwig a partir de “Girl Crazy” (1930), Bobby Child (Jarbas Homem de Mello) é um dançarino de sapateado sem sucesso nos testes com o grande produtor de teatro Bela Zangler (Marcos Tumura) em Nova Iorque nos anos 30. Por isso, sua mãe o força a assumir suas responsabilidades no banco familiar e o envia a cobrar uma hipoteca em Nevada, no interior dos Estados Unidos. Lá, Polly Baker (Claudia Raia) está prestes a perder o teatro onde sua mãe brilhava no que agora só restam velhas lembranças e dívidas não pagas. Para conquistar Polly, Bobby se apresenta como Zangler e se dispõe a construir um espetáculo que possa salvar o teatro da hipoteca (que ele mesmo veio cobrar). Com músicas dos irmãos George e Ira Gershwin, o musical estreou no início dos anos 90 na Broadway e em Londres, recebendo agora montagem brasileira com versão assinada por Miguel Falabella e direção por José Possi Neto. Infelizmente, a temporada carioca encerrou no último sábado, no Vivo Rio, mas há de lotar plateias em outras capitais brasileiras.

A primeira homenagem que “Crazy For You” faz ao teatro é que o personagem Bela Zangler é uma versão honrosa do realizador americano Florenz Ziegfield (1869-1932), um dos grandes responsáveis pelo teatro musical americano moderno. Sua figura célebre é chave para entender os gloriosos anos 20 dos Estados Unidos e as confluências do teatro burlesco, de vaudeville, de opereta e as stravaganzas que resultaram em “Show Boat”, em 1927, o primeiro musical nesse formato que hoje conhecemos. A quebra da bolsa de Nova Iorque, em 1929, foi um golpe fatal para muitos produtores e sem dúvida agravou seus problemas de saúde. “Crazy For You” tem músicas compostas por George Gershwin (1898-1937) e com letras de Ira Gershwin (1896-1983), irmãos donos de uma carreira que inclui grandes trabalhos, como o musical “Porgy and Bessy” (1935). “Someone to watch over me” (do musical “Oh, Kay!”), “I got rhythm” (de “Girl Crazy”) e “They can`t take that away from me” (de “Shall we dance”) são canções standards do repertório americano que o público mundial conhece e gosta.

A segunda homenagem é o formato. Construir um musical a partir de sucessos já anteriormente compostos foi o primeiro formato do gênero, depois substituído por trilha sonoras totalmente originais em histórias bastante melodramáticas, apelo mais realista e crítica social, jazz e street dance, ópera rock, até as grandes produções tecnológicas que vemos hoje. Escrito em 1992, “Crazy For You” parece ter sido escrito nos anos 30. Depois de quase 2 mil apresentações e muito prêmios importantes, o espetáculo provou que esse tipo de narrativa ainda tem o seu público. No Brasil, não poderia ser diferente (principalmente porque é bem feito!).

Na montagem atual, Miguel Falabella não se ocupa em verter para o Brasil o que foi originalmente composto positivamente. A crítica que muitos fazem de que esse tipo de teatro é uma importação americana é tola. É sim uma importação americana e não há mal algum nisso, como também não há nos espetáculos baseados na alemã Pina Bausch, nos ballets clássicos, nas tragédias gregas, no drama e na comédia inglesa, etc. A versão de Falabella desempenha a difícil tarefa de traduzir as canções para a língua vernácula dentro do melhor possível. A história é tão bem contada de modo geral que as melodias se sobressaem positivamente ao lado dos números de dança.

Jarbas Homem de Mello está brilhante como Bobby Child. O intérprete canta bem, dança bem e tem carisma. A forma como o jogo é estabelecido por ele com a plateia faz com que se torça em favor dele na conquista e no sucesso do seu personagem. As intenções são inteligentes e claras, há ironia, sagacidade e força na construção do personagem. Claudia Raia, a grande estrela da produção, consegue também ótimos resultados, empregando sua experiência, sua técnica e disposição na viabilização da caipira Polly. Apesar de uma voz um tanto quanto anasalada no canto, produzindo um resultado nada bom nesse quesito, o trabalho em cena confirma a carreira brilhantemente construída. Marcos Tumura, Carla Vasquez, Rodrigo Negrini e Liane Maya completam os destaques positivos em um elenco todo composto por bons trabalhos principalmente em termos de interpretação.

Na direção de José Possi Neto, deve-se fazer destaque para a cena de espelho entre Tumura e Mello, mas também para a excelente articulação das cenas em que os números musicais entram com o mínimo de marcas possíveis. Os belíssimos cenários de Duda Arruk e figurinos de Fabio Namatame ratificam o compromisso do espetáculo em encher os olhos, entreter e emocionar como fizeram e fazem os bons expoentes do gênero através das décadas e dos lugares por onde essas grandes produções se dão a ver. 

Sem desmérito para nenhum elemento e com muitos elogios à obra no todo e em cada uma de suas muitas partes, “Crazy For You” encanta sobretudo pela generosidade de Claudia Raia em favor do talento e da técnica de Jarbas Homem de Mello, mas também do majestoso elenco que há em volta de si em mais essa produção. Grandes estrelas, afinal, não se fazem sozinhas. Aplausos!

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Ficha Técnica:
Texto: Ken Ludwig
Músicas: George Gershwin
Letras: Ira Gershwin
Versão Brasileira: Miguel Falabella
Direção: José Possi Neto
Direção Musical e Vocal: Marconi Araújo
Coreografias Originais: Susan Stroman
Supervisor de Coreografia: Jeff Whiting
Direção de Coreografia: Angelique Ilo
Produtores Associados: Claudia Raia e Sandro Chaim
Produção Geral: Sandro Chaim
Elenco: Claudia Raia, Jarbas Homem de Mello, Marcos Tumura, Liane Maya, Rodrigo Miallaret, Hellen de Castro, Rodrigo Negrini, Alessandra Peixoto, Andrezza Meddeiros, Carla Vazquez, Daniel Cabral, Eduardo Martinz, Elcio Bonazzi, Jefferson Ferreira, João Sá, Mariana Barros, Mariana Gallindo, Mariana Matavelli, Marilice Cosenza, Mateus Ribeiro, Matheus Paiva, Nina Sato, Patrick Amstalden, Paulo Benevides, Raquel Quarterone e Paulo Santos.
Cenografia: Duda Arruk
Figurino: Fabio Namatame
Design de Luz: Wagner Freire
Design de Som: Tocko Michelazzo
Visagismo: Feliciano San Roman e Henique Mello
Supervisora de Sapateado: Chris Matallo
Diretora Residente: Glaucia da Fonseca
Realização: Ministério da Cultura, Coarte Raia Produções e Chaim XYZ Produções

Samba Futebol Clube (RJ)

A peça tem ótimo texto e direção de Gustavo Gasparani
Foto: divulgação

Excelente programa

O único jeito de nos relacionarmos com a arte é vasculhando em nós mesmos uma ponte de acesso a ela. E sempre há uma. “Samba Futebol Clube” conta através da música o amor do brasileiro pelo futebol, principalmente o carioca. Sem que haja uma narrativa, o espetáculo, com roteiro, direção e com produção de Gustavo Gasparani, disserta sobre esse esporte em suas várias possibilidades: como chegou ao Brasil, o nascimento e a divisão de clubes, a rivalidade nas torcidas, o brilho dos craques, os casos pitorescos da vida pessoal dos jogadores, seus entrevistadores e suas participações na mídia, a relação familiar em função dos times, os campeonatos mundiais, etc. Em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil, a produção tem belíssima composição de elenco, talvez sei aqui um dos melhores conjuntos de atores e cantores a que a programação de teatro do Rio de Janeiro teve acesso nos últimos anos. O público ovaciona justificadamente.

Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Pedro Lima e Rodrigo Lima, com coreografia assinada por Renato Vieira e com direção musical de Nando Duarte, exibem excelente carisma, alta qualidade técnica vocal e afinação, preciosismo no uso dos instrumentos musicais ao vivo nas cenas e ótimas interpretações. O ritmo da dramaturgia e da direção de Gustavo Gasparani, assistido por Erika Riba, se apresenta em exímia fluência de forma que o espetáculo é orgânico, vivo e alegre. A articulação entre as cenas tem suas marcas corretamente apagadas, os temas evoluem sem barrigas, há equilíbrio, harmonia em toda parte. No elenco, nas coreografias e nas músicas, há boas doses de quase tudo para todos os gostos. De fato, um espetáculo para todas as idades e preferências musicais e esportivas.

Como se não bastassem as boas atuações tanto no que diz respeito ao texto quanto à intepretação das canções, “Samba Futebol Clube” tem ainda belo apelo visual. Os figurinos de Marcelo Olinto auxiliam no ritmo, na evolução dos quadros e na complexidade dos pontos de vista sobre o tema. Junta-se isso o desenho de luz de Paulo César de Medeiros igualmente potente.

Os excertos de textos de José Lins do Rego, Paulo Mendes Campos, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues, Carlos Drummond de Andrade e de Ferreira Gullar e os arranjos das canções desde Pixinguinha a Nelson do Cavaquinho, passando por Moraes Moreira, Jorge Ben Jor, Gonzaguinha, João Bosco e por Aldir Blanc e chegando ao Rappa e ao Skank fazem dessa montagem um programa  a ser visto principalmente em época de Copa do Mundo no Brasil. "Samba Futebol Clube", que tem recebido tantos e justos elogios, faz vir à tona o amor ao futebol e a todo o seu universo presente no DNA do brasileiro.

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Ficha Técnica
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Patrocínio: EDF Norte Fluminense, Eletrobras e Banco do Brasil
Roteiro, direção e produção: Gustavo Gasparani.
Elenco: Alan Rocha, Cristiano Gualda, Daniel Carneiro, Gabriel Manita, Jonas Hammar, Luiz Nicolau, Pedro Lima e Rodrigo Lima
Direção musical: Nando Duarte
Direção de movimento/coreografias: Renato Vieira
Cenografia: Marcelo Lipiani
Figurino: Marcelo Olinto
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Cenografia digital - Thiago Satuffer/Studio prime
Pesquisa de textos: Joao Pimentel
Pesquisa musical: Alfredo Del-Penho
Conteúdo audiovisual: Studio Prime
Assistente de direção: Erika Riba
Preparação vocal: Maurício Detoni
Projeto gráfico: Mary Paz Guillén
Visagismo: Beto Carramanhos
Produção: Coisas Nossas Produções Artísticas e Sábios Projetos

Cock - Briga de galo (RJ)

No centro, Debora Lamm em mais um excelente trabalho
Foto: divulgação

O bom jogo de poder

“Cock – Briga de galo” é sobre poder. Sobre o quanto você (acha que) pode modificar a vida de alguém, sobre os prêmios em caso dessa vitória ou sobre as consequências resultantes dessa derrota. Na superfície narrativa, John (Felipe Lima) conhece W (Debora Lamm) depois de estar casado há sete anos com M (Márcio Machado) e nunca na vida ter tido relações heterossexuais. O acontecimento divide sua cabeça e é aí que começa a “partida”. Idealizado por Felipe Lima, a primeira montagem desse texto do britânico Mike Bartlett (mesmo autor do brilhante “Contrações") no Brasil vem com boa direção de Inez Viana e está em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Destaque para o brilhante trabalho de interpretação de Debora Lamm.

Interessada mais no jogo strindberguiano de poder do que propriamente em se identificar com o protagonista, a plateia espera pelo fim enquanto há motivos para dúvidas. No texto de Bartlett, M e W são como dois lados de uma mesma moeda (Favor notar que W é M ao contrário.), pois somente a justa equanimidade entre os dois personagens pode dar força para história em que John precisa escolher se abrirá mão do relacionamento de sete anos com M para ficar com a gentil W. Nesse sentindo, M oferecerá os sete anos de convivência e o quanto ele sabe sobre John para vencer a disputa. W, por sua vez, trará o carinho, o afeto, a docilidade a seu favor. O sarcasmo de M será a gentileza de W. A estabilidade financeira de M e os poucos ganhos mensais de W estarão de um lado enquanto a insegurança de M e a determinação de W estarão de outro e assim por diante. Bartlett reforça que John precisa escolher um dos dois, ratificando seu interesse pelo jogo em desfavor da construção de uma retrato de uma realidade. Na direção de Inez Viana, essa relação é sugerida, mas não acontece de todo infelizmente.

Márcio Machado, movimentando a cabeça de um lado para o outro em forma de “não” em quase todas as frases quase repete o seu personagem de “Maravilhoso” (texto de Diogo Liberado, direção também de Inez Viana), apenas sugerindo uma certa sensibilidade e humana insegurança que deve haver por trás de suas opiniões manifestadamente fortes e afiadas. Não há nada sedutor em M que evidencie chances de John, interpretado por Felipe Lima, continuar com ele. Com a voz em um grave lugar seguro, Felipe Lima, cuja beleza não é negada, corretamente sustenta o personagem-chave em um limbo de sensações. É fácil chegar até o seu John, mas positivamente é difícil alcança-lo. Suas opiniões mornas adequadamente são aquilo que há de irritar os dois personagens antagonistas, o que justifica um trabalho positivo de Lima. No entanto, os melhores momentos da peça estão quando chega W, de Debora Lamm, e, depois, F, de Hélio Ribeiro.

Nas primeiras cenas, Debora Lamm dá a ver sua W como uma espécie de Macabéa (“A hora da estrela”, Clarice Lispector), um misto sem forma e sem vida que representa um oásis confortável para John depois do bélico M. É muito ternamente que a docilidade da personagem vai ganhando caráter enfrentativo e sobretudo complexidade com o passar das cenas. Porque constrói uma figura carinhosa sem ser boba, não de todo altruísta, mas também interessada no próprio bem estar, Lamm eleva a complexidade de W e a distancia de M. A dúvida sobre quem John deve escolher quase desaparece. Felizmente, a entrada de F (“Father” talvez) , pai de M, volta a equilibrar o jogo e bem prepara o fim. A participação de Hélio Ribeiro é especialíssima: o personagem do pai que vem defender o filho e ajuda-lo a reconquistar o namorado já seria tocante por si só não fosse a forma graciosa com que Ribeiro se movimenta pelo espaço, gesticula e diz o texto.

De um modo geral, isto é, para além das contribuições de cada personagem, o jogo construído por Inez Viana, assistida por Luiz Antonio Fortes, a partir do texto de Bartlett, é vibrante. Postos em arena, os personagens estão rodeados pelo público nos quatro lados. Não há cenários, nem adereços, os figurinos não mudam e tudo acontece somente no texto e na contra-cenação, o que exibe um teatro vigoroso excelentemente meritoso. As cenas de nudez e de sexo são momentos de rara beleza que evidenciam uma inteligência estética, visual, cênica de Inez Viana que é bastante elogiável. Como um todo, “Cock – Briga de galo”, que tem ótima paleta de cores e de formas nos figurinos de Júlia Marini, e bons momentos na iluminação de Renato Machado e na trilha sonora original de João Callado, agrada e elogia o público firmemente.

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Ficha Técnica
TEXTO - Mike Bartlett
TRADUÇÃO - Eduardo Muniz e Ricardo Ventura
DIREÇÃO - Inez Viana
ELENCO - Felipe Lima, Debora Lamm, Márcio Machado e Helio Ribeiro
IDENTIDADE VISUAL – Gabriel Medeiros
FIGURINO - Julia Marini
LUZ - Renato Machado
TRILHA SONORA - João Callado
DIREÇÃO DE MOVIMENTO - Dani Amorim
ASS. DE DIREÇÃO - Luiz Antonio Fortes
PRODUÇÃO EXECUTIVA – Miguel Mendes
GERENCIAMENTO DO PROJETO – Gabriela Mendonça
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO – Paula Salles
GESTÃO E PRODUÇÃO – PRIMEIRA PÁGINA PRODUÇÕES CULTURAIS
IDEALIZAÇÃO – FELIPE LIMA
REALIZAÇÃO – SEVENX PRODUÇÕES ARTÍSTICAS