quarta-feira, 28 de maio de 2014

Palavra de mulher (RJ)

Tania Alves, Lucinha Lins e Virgínia Rosa
Foto: João Caldas

Mais uma ótima homenagem aos 70 anos de Chico Buarque

“Palavra de mulher” é uma dissertação musical sobre a mulher a partir de canções de Chico Buarque. O resultado é bastante meritoso. A ausência de história que caracteriza uma narrativa é compensada pela beleza da forma como as músicas são interpretadas por Virgínia Rosa, Tania Alves e por Lucinha Lins, todas elas, pessoalmente, ligadas de alguma forma ao trabalho do compositor. Com texto e direção de Fernando Cardoso, o espetáculo ajuda a celebrar os 70 anos de Chico, sendo mais uma excelente em cartaz no Teatro Maison de France no centro do Rio.

As 26 canções de Chico Buarque escolhidas e ordenadas para participarem de “Palavra de mulher” versam sobre facetas diferentes da mulher que bem podem ser lidas por qualquer ser humano indiferente do gênero. Nesse sentido, o espetáculo, ainda que situe a dramaturgia no universo feminino da antessala de um cabaret, atinge o aspecto íntimo que todos conhecem porque todos o têm. O cenário não é um quarto onde essas mulheres recebem homens, mas um lugar onde elas se encontram consigo próprias antes ou depois dos encontros com o mundo lá fora. Porque todos temos muitos dentro de nós, o fato dessas figuras sem nome pairarem como elementos argumentativos dessa dissertação se apresenta como uma interessante qualidade da produção frente à dramaturgia comum, essa que é geralmente através de personagens e de tramas. Ponto para Fernando Cardoso!

Em determinado momento, Tania Alves e Lucinha Lins contam para o público algo especial sobre suas histórias particulares com a obra de Chico Buarque. O feito é excelente esteticamente por vários motivos. Ao falar em primeira pessoa com a plateia, as intérpretes avançam com coragem a barreira entre o palco e a plateia, em negá-la, tampouco sem apagá-la, mas fazendo essa (boa) relação coexistir bravamente. Em nenhum momento, afinal, pensa-se que alguma das três atrizes é prostituta, apesar desse momento confessional e apesar do cenário e do figurino. Depois, ao assumir-se como um espetáculo que celebra o repertório musical de Chico, a peça “deixa tudo em pratos limpos”, resolvendo sua existência na compreensão do público que foi, no fim das contas, antes de tudo, foi justamente ouvir essas canções tão conhecidas e amadas. De um modo geral, o clima se torna por  isso leve, mas não superficial. “Palavra de mulher” é divertido e emocionante sem felizmente ser tolo.

É vibrante o trabalho de Virgínia Rosa ao lado de Tania Alves e de Lucinha Lins, colocando-se de forma discreta, mas pontual. O trio é equilibrado: há a extrema qualidade vocal de Rosa, a sensualidade de Alves e o carisma de Lins, sem que nenhum aspecto inexista em alguma das três positivamente.

A direção musical de Ogair Júnior, os figurinos de Claudio Tovar e a iluminação de Wagner Freire conversam bem com a direção de movimento de Alex Neoral, fazendo com que o tempo passe com delicadeza e elegância. A produção é simples, mas com visível complexidade principalmente pelo intento. O alcance dos objetivos expressa menos a sua nobreza e mais o mérito dos realizadores.

Chico Barque nunca é demais principalmente quando é bem interpretado como é o caso aqui. Ao lado de “O grande circo místico” e de “Todos os musicais de Chico Barque em 90 minutos”, “Palavra de mulher” é uma das ótimas opções para homenagear um dos nossos maiores artistas.

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FICHA TÉCNICA
Concepção, roteiro e direção geral - Fernando Cardoso
Direção musical - Ogair Júnior
Elenco: Lucinha Lins, Tania Alves e Virginia Rosa
Músicos: João Cristal (piano e acordeão), Robertinho Carvalho (contrabaixo) e Ramon Montagner (bateria e percussão)
Iluminação - Wagner Freire
Figurinos – Claudio Tovar e elenco
Direção de movimento: Alex Neoral
Cenografia - Fernando Cardoso
Direção de produção - Fernando Cardoso e Roberto Monteiro
Assessoria de Imprensa – JSPontes Comunicação– João Pontes e Stella Stephany

Philippine (RJ)

O espetáculo tem direção de João Marcelo Pallottino
Foto: Clayton Leite

Belíssima homenagem à Pina Bausch


“Philippine – uma peça para Pina Bausch” é um dos espetáculos mais interessantes no roteiro cultural de dança no Rio de Janeiro. Ao homenagear a coreógrafa alemã, falecida em 2009, a Hospedaria Cia de Teatro fala menos da pessoa de Pina Bausch e muito mais sobre a sua contribuição para a história da arte felizmente. Com um trabalho delicado e bastante nobre, o espetáculo tem direção de João Marcelo Pallottino e esteve em cartaz na Sala Multiuso do Espaço Sesc Copacabana durante o mês de maio.

Como os concretistas e neoconcretistas, o trabalho de Pina Bausch reage ao figuratismo com uma acusação séria. Para artistas como ela, a arte tem função de existir antes de fazer existir o artista. Assim, antes de fazer ver o artista (ou tornar uma pessoa comum em artista), a arte faz ver a si própria, fechando a sua existência no fato puro e simples da sua existência. João Marcelo Pallottino, em “Philippine”(o título faz referência ao nome de Pina Bausch), interessa-se em impor a forma, independente do conteúdo, cortando o tempo com uma lâmina afiada que rasga o sentido e, por isso, se liberta dele. A peça reproduz menos o trabalho de quem homenageia, brotando a partir dele muito mais. Em um mundo em que muitas coisas simplesmente não fazem sentido, os fatos que acontecem precisam ter seu acontecimento valorizado. Excelente contribuição essa da Hospedaria Cia de Teatro.

Dividido em quatro partes, a primeira e a última são melhores, porque apresentam um resultado mais coeso e menos mecânico. Na abertura, uma televisão, situada no centro do palco, exibe um vídeo em que objetos caem das alturas em uma imagem preto e branca, denunciando a coragem dos realizadores de “Philippine” em não se importar com a hierarquia dos sentidos e em deixar a fruição sem ordem aparente. Formalmente, o texto se abre em regime colaborativo com o conteúdo: o espatifamento de uma cadeira é primeiro o fim do sentido "cadeira" e depois o fim do objeto em si. Investir no claro e no escuro, preferir o preto e o branco em uma imagem aparentemente bidimensional são opções que proporcionam um jogo com o espectador de forma a fazê-lo a refletir sobre as diferenças entre a arte e o teatro-dança (ou a dança-teatro). Diferente de todas as artes, a arte cênica, por ser irreprodutível, é uma celebração do momento único que nunca se repete. “Philippine”, como a obra de Pina Bausch, trata bem desse lugar abismal entre o momento e o próximo segundo.

Ana Amélia Vieira, Evandro Manchini, Flávio Pardal, Leandro Fernandes, Ricardo Grings e Symone Strobel se dividem em intérpretes-dançarinos que contribuem tornando objetos em objetos cênicos com suas presenças. O resultado é uma equação equilibrada de formas, cores e de sentidos que conduz a um jogo de sensações tão vital quanto a vida da qual a peça é metáfora.

Mais uma vez o trabalho de sonorização de Daniel Belquer faz a diferença na construção de um excelente projeto. Em “Philippine”, a imagem e o som têm importância tão grande quanto as interpretações como já foi dito, mas o resultado só é equilibradamente positivo porque, assim como as atuações, cada detalhe do som, incluindo a qualidade da recepção, foi pensado e bem realizado. Nisso, há que se elogiar igualmente a iluminação de Ricardo Grings e de Gleydson Lopes, a cenografia de Leo Bungarten (Folguedo Produções) e a trilha sonora da Caeso.

O melhor de “Philippine” é o fato de que não é necessário conhecer Pina Bausch para gostar da peça ou mesmo bem fruí-la. Dentro do ideário da homenageada, a obra existe independente de todo mundo em sua volta, sendo ela própria um mundo paralelo. Parabéns.

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Ficha técnica:
Direção: João Marcelo Pallottino
Criação e Concepção : Hospedaria Cia de Teatro
Elenco: Ana Amélia Vieira, Evandro Manchini, Flávio Pardal, Leandro Fernandes, Ricardo Grings, Symone Strobel
Cenografia : Leo Bungarten/ Folguedo Produções
Iluminação: Ricardo Grings e Gleydson Lopes
Figurino: Paulo Barbosa
Projeto Gráfico: Leandro Fernandes
Fotografia: Clayton Leite
Trilha Sonora: Caeso
Edição de vídeo: Evandro Manchini
Consultoria e Projeto Sonoro: Daniel Belquer
Técnico de Som/ Design : Caeso
Operador de Luz: Gleydson Lopes
Operador de Som: Val Elias
Direção de Montagem/ Palco: Flávio Pardal
Assessoria de imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Direção de Produção: Isabel Themudo
Realização: Hospedaria Cia de Teatro

sábado, 17 de maio de 2014

Pesadelo (RJ)

Maria Assunção em cena
Foto: divulgação

Ótimo espetáculo da Cia. Sala Escura

“Pesadelo” é o melhor espetáculo assinado pela Cia. Sala Escura de Teatro e por Iuri Kruschewsky. Os diálogos são tão ágeis quanto as cenas e sua evolução. As músicas entram como um elemento que contribui e não apenas redunda, a escassez dos objetos é declaradamente um efeito simbólico, as interpretações são bastante pontuais e positivas no conjunto e nas partes. Em cartaz no Centro Cultural Municipal Sergio Porto, no Humaitá, a peça encerra a Trilogia dos Sonhos, também composta pelos espetáculos “É culpa da vida que sonhei ou dos sonhos que vivi” e “Memória inventada no sonho de alguém”.

A história começa quando um homem (Bruno Quaresma) se vê preso dentro do estranho apartamento de Marta (Maria Assunção), cuja cabeça é a única parte do corpo que vemos. A princípio, eles foram colegas de classe quando ainda crianças, mas ele sempre a ignorou. Um espécie de jogo bergmaniano começa entre os dois: por mais que ele tente, parece não haver porta de saída dessa casa onde tudo é escuro. Aos poucos, outros personagens vão ficando mais claros ao espectador que conhece a história a partir do protagonista. Aparecem uma prima e a mãe que faleceram na infância, o cachorro perdido há muitos anos e, por fim, a ex-namorada ainda viva. A agilidade dos diálogos e das cenas constróem a sensação de flashes de memória através dos quais pode-se descobrir os antecedentes dramáticos da situação inicial de “Pesadelo”. Em foco, nem o Homem, nem seus conhecidos, mas momentos relevantes, reais sou não, na relação entre eles. De uma forma sutil e inteligente, a narrativa se descoloca de Marta para os outros personagens para, enfim, chegar ao protagonista. O final é excelente tanto do ponto de vista da dramaturgia literária quanto da cênica.

A qualidade do conjunto de interpretações revela os valores da direção por construir uma estrutura que é firme no delineamento de cada personagem, mas também no todo das coreografias, das trocas de cenas, da viabilização dos quadros. No entanto, o destaque para Bruno Quaresma e para Maria Assunção é inevitável. Marta é apresentada com excelente dicção, ritmo e pausas que são ainda mais elogiáveis considerando o fato de que só vemos a intérprete do pescoço para cima. Por outro lado, o protagonista surge com vibrante agilidade, bela e afinada voz nos números musicais, intenções claras e riqueza de detalhes tanto nas cenas solo quanto nas contracenas.

O espetáculo se apresenta a partir de um quadro estético econômico. São poucos os objetos de cena e isso garante as entradas e as saídas rápidas e a boa evolução da narrativa. A preferência natural pelo preto com poucos detalhes em vermelho, no cenário de Flávio Graff e nos figurinos de Elisa Faulhaber, informa ao espectador que seu lugar é nos diálogos e não nos elementos plásticos. O desenho de luz de João Gioia e de Ana Luzia de Simoni garante fluidez, versatilidade e beleza, ilustrando bem os flashes de memória de que fala o texto na ordem do conteúdo. A trilha sonora interpretada ao vivo pelos músicos Daniel Pimenta, Filipe Oliveira, João Medeiros e Pedro Nêgo tem  números rápidos que comentam as cenas, sugerem novos pontos de vista, mas, como tudo, se esvaem naturalmente, ratificando as marcas de coesão e de coerência da peça como um todo bem articulado.

Iuri Kruschewsky se estabelece como autor e como encenador com “Pesadelo” de forma vigorosa e cheia de méritos. A "Trilogia dos Sonhos" termina nessa produção, tratando da consciência de forma mais efetiva do que os demais espetáculos falaram do devaneio, das memórias e do sonho propriamente dito. Vale ver como os pequenos detalhes do texto dramatúrgico e cênico estão imanentes e podem vir à luz se o espectador quiser assim como os mais essenciais. Aplausos.

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Ficha técnica:
Texto e direção: Iuri Kruschewsky
Elenco: Ana Beatriz Macedo, Ariella Braz, Breno Augusto Guimarães, Bruno Quaresma, Maria Assunção, Marianna Pastori, Nayana Carvalho, Patrícia Elizardo e Rodrigo Turazzi
Músicos em Cena: Daniel Pimenta, Filipe Oliveira, João Medeiros e Pedro Nêgo
Direção de Produção: João Braune – Fomenta Produções
Direção Musical: João Medeiros e Pedro Nêgo
Direção de Movimento: Lavínia Bizzotto
Cenário: Flávio Graff
Figurino: Elisa Faulhaber
Iluminação: João Gioia e Ana Luzia de Simoni
Assistente de Cenário: Bruno Lopes
Assistente de Figurino: Anouk Zee Pelino e Mario Surcan
Produção Executiva: Carolina Goulart e Matheus Marques – Fomenta Produções
Efeitos Especiais: Nurder Efeitos EspeciaisCenotécnicos: Humberto Silva e Humberto Oliveira Jr
Programação Visual: Agência EGX
Assessoria de Imprensa: André Gomes - Smart Mídia Comunicação e Assessoria
Realização: Sala Escura de Teatro