terça-feira, 9 de abril de 2013

O homem com a flor na boca (SP)

Cacá Carvalho reencena monólogo que estreeou em 1993
Foto: Lenise Pinheiro

Trilogia Pirandello - primeira parte: A excelência do teatro

É possível que uma das causas do sucesso de “O homem com a flor na boca”, interpretado por Cacá Carvalho, seja a forma articulada como o texto e o conteúdo estão dispostos diante dos sentidos do espectador. Todo o espetáculo é sobre a valorização da vida e o diálogo (aqui transformado em monólogo) parece misturar os conceitos de vida e de homem, tamanha é a forma como eles estão envolvidos. Na medida em que vemos o homem, vemos a vida que há nele. Desperdiçar o homem é, também, desperdiçar a própria vida. Não há meio homem (os centauros são seres mitológicos), nem tampouco meia vida. Ou se é homem ou não se é. Ou se está vivo, ou não se está. Um paciente terminal de câncer está tão vivo quanto um esportista, esse último passível de morrer de desastre aéreo. (“Pterodáctilos”, de Nick Siler, fala disso de uma forma muito clara) A direção de Roberto Bacci para o texto de Luigi Pirandello (1867-1936), sobretudo auxiliada pela cenografia de Márcio Medina, propõe um espaço em que o homem desfruta de olhar privilegiado para o outro homem, construindo e participando de um ecossistema que é vivo e principalmente vibrante no trabalho de Carvalho. Primeira parte da Trilogia Pirandello, a peça está em cartaz no Mezanino do Sesc Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. 

O homem interpretado por Carvalho é intenso e guarda em si o medo de desperdiçar cada minuto de si próprio. Os versos são repetidos, as palavras ganham tamanhos maiores do que normalmente elas têm, as entonações são exploradas de jeito a ganharem cores fortes e a sairem como que em ondas. Coisas fúteis como um homem a embrulhar empacotes adquirem uma importância maior que a própria esposa sempre a espreita-lo. Nesse universo, a produção chama a atenção para o que estamos fazendo com a nossa própria vida. Nossos olhos estão bem abertos? 

Com tema barroco, em que as contradições morte e vida, dentro e fora, saúde e doença, solidão e convívio evoluem, a peça está marcada pela simplicidade aparente e pela complexidade interna. Carvalho está simploriamente vestido, o cenário é o próprio público, não há gelatinas no desenho de luz e nem tampouco trilha sonora. Todo o ferramental, riquissimamente usado, está no homem diante de outros homens interpretando um terceiro. Daí vem, em conceito, a ideia de encontro, de ritual, de celebração que a dramaturgia de Stefano Geraci cria a partir do realismo de Pirandello. O texto original, encenado pela primeira vez em 1922, seria hoje, em mãos carentes de habilidade, um pobre melodrama de autoajuda. Aqui o que poderia ser chamado de câncer torna-se uma flor. 

"O homem com a flor na boca" estreou em 1993. Fazem parte, junto com ele, da Trilogia, os espetáculos “A poltrona escura” e “umnenhumcemmil”, todos eles com a mesma ficha técnica. A idealização, não há dúvidas, honra o público carioca e merece ser aplaudida! 

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FICHA TÉCNICA - Trilogia Pirandello

COM: Cacá Carvalho

Direção: Roberto Bacci
Dramaturgia: Stefano Geraci
Cenário e figurino: Márcio Medina
Iluminação: Fábio Retti
Fotos : Lenise Pinheiro
Produção: Fondazione Pontedera Teatro
Realização: CASA LABORATÓRIO PARA AS ARTES DO TEATRO, FONDAZIONE PONTEDERA TEATRO/Italia
Gestão e Produção Executiva: Núcleo Corpo Rastreado
Assessoria de Imprensa no RJ: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Produção no RJ: 3! Ideias e Soluções Culturais
Técnico de Luz: Yuri Cumer
Tradução: Cacá Carvalho
Arte grafica trilogia: orbi designer

Sarau das putas (RJ)

Rita Fischer apresenta trabalho brilhante!
Foto: Ramon Moreira

Peça sobre prostitutas apresenta conjunto de ótimos trabalhos de interpretação

“Sarau das Putas” é um belo espetáculo em cartaz no Teatro Poeira. Com uma maquinaria dramática simples, a produção apresenta uma galeria despretensiosa, mas potente, de algumas das diversas faces do que chamamos por “prostitutas”. Partindo de um tema e o explorando com riqueza e profundidade, a peça acaba por homenagear o ser humano em sua capacidade de ser tão diferente, tão rico, tão original, apesar de sua incapacidade de viver sozinho, afastado de outros seres, a princípio, “iguais” a ele. “Sarau das Putas”, além do mérito enquanto conteúdo, oferece positivamente ao teatro carioca a possibilidade de conhecer um conjunto de novas atrizes que surgem ou estão surgindo em uma nova geração cheia de muito talento, boa formação e já com alguma experiência. Dividido em monólogos, a opção permite ao público crítico observar um a um o resultado do trabalho de cada intérprete enquanto se deleita com a história contada por cada personagem. Eis aí mais um acerto com a assinatura do diretor Ivan Sugahara. 

Mme Marcelle La Pompe recebe clientes em seu estabelecimento no início do século XX em Paris. O lugar é uma espécie de templo dedicado aos prazeres sensoriais, todos eles vistos como parte humana que deve ser valorizada apesar dos esforços racionais da sociedade moralista. Dados os boas-vindas, a noite, que é atemporal, começa. O jogo permite pensar que as “meninas” se mostram para o público no intervalo de seus atendimentos ou que sua apresentação é, afinal de contas, justamente parte desse atendimento. O interlocutor, nesse sentido, vai mudando. Podemos ser o cliente, a família do cliente, a esposa dele, pessoas interessadas em conhecer os serviços da casa, ou simplesmente ausentes. Em cada quadro, o universo particular de cada personagem se desvela (são-lhes tirados os véus). 

Ivan Sugahara, além da direção de atores, tem dois grandes méritos. O primeiro, ao lado de Renata Mizhari e de Victor Barbarisi, é o de conduzir uma ótima dramaturgia cênica, apesar do problema que ela lhe interpôs. São treze atrizes. A partir da apresentação da segunda, a linguagem da peça (e linguagem teatral só existe enquanto consequência teórica do seu uso específico) já está dada: serão treze quadros dramáticos e todos eles terminarão com uma canção interpretada pela personagem. Ou seja, pode-se ir contando, ao longo da fruição, o número de cenas que faltam para a peça terminar, o que seria fatalmente cansativo e, por isso, nesse caso, acaba por ser exortar o valor da direção enquanto responsável pelo drible desse desafio. 

O público sente que o espetáculo vai crescendo, conforme a disposição que cada atriz oferece a sua personagem. Começando por Tatyane Meyer, que parece estar menos à vontade em seu trabalho em relação às demais, e terminando com Carolina Ferman, exuberante em sua interpretação, o desenvolvimento da história no palco contempla positivamente todos os trabalhos, de Meyer a Ferman, sem exceção. O caminho é ascendente, mas com intervalos. Ou seja, não é possível concluir dessa avaliação que as atrizes do segundo ato são melhores que a do primeiro, embora, sim, a segunda parte manifeste um ritmo mais solto e, por isso, mais leve. A afirmação é de que, no centro da dramaturgia, há excelentes trabalhos e, para citar dois, vale destacar os momentos de Nara Parolini e, sobretudo, de Rita Fischer, essa última protagonista de um dos trechos mais marcantes do espetáculo. Em outras palavras, embora identifique-se o avanço retilíneo, é possível identificar mudanças de ritmo nessa “corrida para o fim”, que, sem dúvida, é um grande valor. 

O outro mérito de “Sarau das Putas” é a forma como estão articuladas as sequências. Ao terminar uma cena, pequenos acontecimentos indicam a entrada de personagens que não irão, afinal, ter a sua vez naquele momento. Nas palavras de Aristóteles, tem-se aí as célebres peripécias, recurso milenar usado para enganar o público e tirar surpresas de onde tudo, até então, parecia ser plenamente previsível. 

O único senão de “Sarau das Putas” é o final do primeiro ato. Nessa cena, há um equívoco conceitual no silogismo da peça. Sim, todas as prostitutas são mulheres. Não, nem todas as mulheres são prostitutas. Por isso, na boca de uma das personagens, o discurso que cita casos de abuso sexual ou de espancamento de mulheres (não prostitutas) não encontra lugar e, por isso, se perde, sendo uma barriga não bem-vinda à história. (Felizmente, está no fim do primeiro ato e não no fim da peça, o que seria aterrador.) 

Fazer apologia ao sexo é uma atitude que encontra eco nos palcos do mundo desde “Hair”. Ao debruçar-se sobre as profissionais do sexo, o grupo não as destaca, mas as coloca em igualdade com os outros profissionais. O gesto, além de esteticamente bem feito, é politicamente meritoso. Parabéns! 

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Ficha Técnica
Direção: Ivan Sugahara
Dramaturgia: Ivan Sugahara, Renata Mizrahi e Vitor Barbarisi
Assistência de Direção: Diego de Angeli e Vitor Barbarisi
Direção de Movimento: Paula Maracajá
Preparação Vocal: Ricardo Góes
Cenografia: Diego Molina
Figurino: Tarsila Takahashi
Iluminação: Ana Luzia M. de Simoni
Trilha Sonora: Ivan Sugahara e Vitor Barbarisi
Programação Visual e Fotografia: Thiago Ristow
Produção: Alan Isidio, Amanda Lima e Maria Alice Silvério Lima

Elenco:
Carol Garcia | Carolina Ferman | Gisela de Castro | Juliana Terra | Laila Garin | Laura Limp | Lívia Paiva | Nara Parolini | Nathália Mello | Renata Guida | Rita Fischer | Rose Lima | Tatyane Meyer

Morada dos ossos (RJ)

Paulo de Oliveira Vieira protagoniza peça baseada
em fatos reais sobre caso de abandono
Foto: divulgação

A não opção pode ser uma má opção

O texto de “Morada dos Ossos” expressa um grupo bem intencionado, mas perdido no ato de narrar cenicamente. Como um todo, o espetáculo, a nova produção da Companhia EnsinoemCena, é uma estrutura frágil e cambaleante, porque sem bases sólidas, com fachada estranha e com teto frágil. A partir da obra original do dramaturgo carioca Francis Ivanovich (também autor de “A história do homem que ouve Mozart e da moça do lado que escuta o homem”), o grupo conta a história da portuguesa Augusta Duarte Marinho (1915-2002?), cujo esqueleto foi encontrado no chão da cozinha de seu apartamento, quando o local foi vendido em leilão nove anos depois das contas deixarem de ser pagas. O fato, acontecido em fevereiro em 2011 e que repercutiu na mídia internacional, ecoou pelo mundo como um símbolo do abandono. Durante quase uma década, o corpo da senhora de 88 anos, de seu cão e de dois pássaros jazeram sem visitas (e sem cheiro) no quarto andar de um prédio de cinco pavimentos em uma cidade de 30 mil habitantes no norte de Portugal. No palco do Solar de Botafogo, no entanto, o espectador não sabe de que forma essa história será/é contada: sobre o prisma documental e pedagógico ou a partir de sua força poética? Na dúvida, a direção coletiva comete o engano de não optar e manter as duas formas. Quem perde é o conteúdo. 

A narração em off inicial expõe o fato de maneira clara: o espectador fica sabendo ao que vai assistir, tanto o contexto como o fim. Nesse sentido, a produção informa que o que vale não é o que vai ser narrado, mas como a história vai ser contada. Então, vê-se um ator (Paulo de Oliveira Vieira), interpretando a senhora Augusta Duarte Marinho, conversando com seu cão a respeito de jogos que eles fazem entre si, sobre seu casamento e seu marido e sobre um filho que mora no Brasil e que, talvez, venha para o próximo natal. (Não há registros de que esse filho realmente tenha existido. Segundo consta, a Sra. Marinho tinha apenas sobrinhos com quem não tinha relações.) Como o espectador já sabe como a história vai terminar, contempla a cena como descrição (e descrição não é narração). Ao lado de Marinho, há um grupo de quatro atrizes (Dai Fiorati, Raphaela Tafuri, Luca Martins e Luli Burdman) que interpretam figuras. A função não é clara: parece que é ressoar, de forma alegórica (como no teatro medieval/carnavalesco/religioso), algumas situações de impacto, amplificando a carga poética do acontecimento: abandono. Apesar do preto que vestem e das feições endurecidas, o movimento contradiz a solidão em que vivia a mulher junto de seus animais de estimação. Agrega-se a isso, a passagem de uma personagem interpretada por Ingrid Soares, em um vestido preto e carregando uma cadeira de rodas fechada. Talvez seja uma representação da morte que ronda a velha senhora e seu cão, mas, pelas expressões da atriz, sabe-se que há um ponto de vista negativo sobre esse fato. Em termos dramatúrgicos, o personagem interpretado por Marcelo Mattos perde a oportunidade de ser um contraponto crítico (a la “Che” no musical “Evita”) ou um apoio narrativo ( se estivesse interpretando o cachorro). Também sem função definida, o personagem parece existir para “explicar” os acontecimentos, ou seja, superficializar a poesia. Por fim, a criação de um conflito, a espera da mãe pelo filho, denuncia um cansaço em simplesmente descrever e uma vontade de narrar. Dessa forma, de uma ponta a outra, “Morada dos Ossos” não se estrutura como um todo pela sua articulação, mas pela simples justaposição de elementos obscuros em uma apresentação que começa e termina. 

É positivo o trabalho de interpretação de Paulo de Oliveira Vieira (Sra. Marinho), mantendo de forma linear e quase atonal as suas falas. A opção expressa plasticamente o desvio do tempo, a tragédia da espera por um dia que talvez nunca chegue. São fortes as figuras de Marcelo Mattos e de Luli Burdman, com frases bem postas e visível energia em cena. É interessante também a força do desenho de iluminação de Cesar Germano. 

O melhor de “Morada dos Ossos” é a direção musical de George da Paixão. Tanto pela escolha da trilha sonora, como pela execução ao vivo das canções como na afinação do grupo de atores-cantores, o resultado é extremamente positivo. Além disso, fica o mérito de ter trazido de volta à pauta o caso acontecido em Sintra há poucos mais de dois anos. De fato, ele não deve ser esquecido. 

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Ficha Técnica
Texto e Direção: Cia Teatral EnsinoemCena

Elenco: Paulo de Oliveira Vieira, Marcelo Mattos, Dai Fiorati, Raphaela Tafuri, Ingrid Soares, Luli Burdman, e Luca Martins.

Direção Musical: George da Paixão.
Cenário: Cia EnsinoemCena
Confecção do cão cênico: Pedro Grapiúna.
Figurinos: Aline Abiad
Iluminação: Cesar Germano.
Programação visual: Thiago Neri.
Produção Executiva: Filippe Neri
Classificação Etária: 16 anos.
Duração: 60 minutos