sábado, 12 de janeiro de 2013

Bonifácio Bilhões (RJ)

José de Abreu, Márcia Cabrita e Tadeu Mello
parecem estar perdidos em cena
Foto: divulgação 

Sem direção

A questão fundamental de “Bonifácio Bilhões”, em cartaz no Teatro Vanucci, do Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, é que parece que não teve direção. Ernesto Piccolo consta no programa e no material de divulgação da peça, mas não o vemos em cena. Interpretando esse clássico do teatro brasileiro, escrito por João Bethencourt em 1975, José de Abreu, Márcia Cabrita e Tadeu Mello estão nitidamente perdidos no palco, com construções desprovidas de um olhar externo controlador, que dê ritmo para os seus movimentos, para os diálogos, para a encenação como um todo. Cada um dos três tenta, dentro do seu repertório, dar colorido para o seu personagem, mas o todo é uma bagunça sem graça que não dignifica o teatro brasileiro, o autor, a produção, o público carioca. 

Com Lima Duarte (no papel título), Armando Bogus e Hildegard Angel compondo o elenco, a peça estreou no ano de sua escrita e ficou até 1980 em cartaz no Teatro da Praia, em Copacabana, seguindo depois para Alemanha, Áustria, Suíça, Finlândia, Portugal, Holanda e Argentina. De volta ao Brasil, dirigida por Jacqueline Laurence, Bemvindo Siqueira, Jorge Dória, Solange Badim, Jandir Ferrari, Rosane Gofman, Monique Lafond, Roberto Pirillo, Osmar Prado e tantos outros ocuparam os lugares do casal Walter e Alzira Antunes que recebem a visita do vendedor de doces Bonifácio, que vem cobrar-lhes a quantia de dois bilhões de cruzeiros. Em uma nova versão do Pierrô, da Colombina e do Arlequim (personagens da Commedia Dell`Arte), o caso é o seguinte: ao fazer sua aposta na Loteria, Walter prometeu (em tom de brincadeira) dar metade do prêmio para Bonifácio caso ganhasse. Feitos treze pontos, o humilde vendedor vem cobrar sua parte da fortuna. Começa, assim, um vaudeville maravilhoso de fuga e perseguição, sempre com enlaces e desenlaces que fazem girar a roda vertiginosa do texto de Bethencourt, perfeitamente lido a partir do gênero francês de dramaturgia. Infelizmente, a montagem atual passa longe disso tudo. 

José de Abreu (Walter) revitaliza o mau humor dos seus personagens mais célebres, dizendo “porra” centenas de vezes, dando a ver uma construção superficial e, por isso, pobre. Tadeu Mello (Bonifácio) revitaliza a sua ingenuidade nordestina que caracteriza seus personagens desde “A Indomada”, sem trazer nada que aprofunde a construção. O único ganho da produção é Márcia Cabrita que, agregando uma boa pitada de ironia ao texto, consegue um metateatro (quando o teatro fala do teatro) interessante e que faz, na medida do possível, rir. Repleto de tempos mortos, de finais desperdiçados, de linearidades e de apelações, a encenação é ainda prejudicada por um cenário (Clivia Kohen) e um figurino (Lessa de Lacerda) bastante carregados, de uma iluminação (Luciano Xavier) que exibe o painel do fundo em suas dobras e de uma trilha sonora tão aparente quanto incômoda (Rodrigo Penna). 

Carecendo fortemente de uma concepção que articule os elementos e faça deles opções responsáveis por uma estrutura coesa e coerente, “Bonifácio Bilhões” deixa muito a desejar. 

*

Ficha Técnica:


Texto: João Bethencourt
Direção: Ernesto Piccolo
Assistente de direção: Andréa Dantas

Elenco:
José De Abreu
Marcia Cabrita
Tadeu Mello

Direção de Produção: Marcelo Faria
Produção Executiva: Renata Costa Pereira
Assistente de Produção: Lis Maia
Luz: Luciano Xavier
Trilha sonora: Rodrigo Penna
Cenário: Clivia Kohen
Figurino: Lessa de Lacerda
Direção de Vídeo: Candé Faria
Operador de luz: Luciano Xavier
Operador de som: Mauricio Quinze Dias
Cenotécnico: Mario Pereira
Contrarregra: Augusto Cesar de Miranda “Cezinha”
Camareira: Ivani Dutra
Assessoria de imprensa: Angela Falcão Comunicação
Fotografia: Nana Moraes
Programação visual: Studio C
Realização: Faria e Vasconcelos Produções Artísticas

As Paparutas (RJ)

"As Paparutas" tem texto de Lázaro Ramos
Foto: divulgação

Pertinente no tema, excelente enquanto obra


            O espetáculo infantil “As Paparutas” está de parabéns porque consegue ser claramente uma peça didática sem ser chata. Escrita por Lázaro Ramos, sua importância está no fato de tratar do assunto do diálogo entre as diferenças e do bullying de forma honesta e acessível a partir de uma história bem escrita e bem contada. Com direção de Luiz Antônio Pilar, o jogo é ágil, a conversa com o público (de todas as idades) acontece graciosamente, as interpretações são bastante boas e a articulação entre os signos visuais oferece ótimos resultados. Em cartaz no Oi Futuro de Ipanema, Rio de Janeiro, eis aí um programa legal pra toda a família. 

A história se organiza em dois universos distintos e paralelos. Em um, o garoto Jovi (Samuel de Assis) cria histórias no tempo que tem livre entre a escola e a coleta de lenha na floresta. Sua mãe (Priscilla Marinho) é professora e, com uma educação rígida, estimula o filho a valorizar suas ideias, seus talentos e correr atrás de seus sonhos. A história das Paparutas é uma das criações de Jovi, da qual ele faz parte. Num lugar e numa época, a Associação das Paparutas recebe uma carta da poderosa Dona Papona (Marinho). No texto, consta que uma jovem aprendiz irá, em breve, se juntar ao grupo. Selma (Maria Gal) é uma menina muito especial, porque ela é uma das últimas remanescentes de Fernófolus e, por isso, tem o poder de se tornar a próxima Paparuta Chefe. A novidade causa constrangimentos. No reinado há 30 anos, a atual Paparuta Chefe (Renata Celidonio) tem um plano de permanecer no poder. Com a ajuda de uma flauta mágica, ela poderá fazer com que todos sejam iguais a ela. Ocorre que a flauta se perdeu e é preciso encontrá-la antes que Selma descubra sobre o seu próprio passado e tome o poder. 

É difícil identificar destaques no elenco tão bem afinado. Priscilla Marinho está forte, clara, precisa na interpretação de suas personagens. Renata Celidônio, no mesmo sentido, oferece uma bela e potente voz que aumenta os valores positivos da obra. Cristiane Amorim e Livia Guerra (Paparutas auxiliares) também têm boas participações em papéis menores, mas não menos importantes. Munir Kanaan (uma espécie de papagaio) vence o desafio de dar vida a um personagem sem precisão, mas com muito carisma. Por fim, Samuel de Assis, o protagonista sustenta o ritmo de forma vibrante, disponibiliza grande simpatia e conta a história de um jeito encantador. O grupo tem direção firme e comprometida de Luiz Antônio Pilar, que não deixa a encenação por trás do bom texto de Lázaro Ramos. A movimentação (Juliana Nogueira) permite uma narrativa ascendente que caminha para o fim positivamente.

Sai-se do teatro bastante satisfeito com o visual colorido de Ronald Teixeira (cenário e figurino), Rosa Bandeira (visagismo) e Valmyr Ferreira (iluminação), principalmente pela coerência na união entre tantas texturas, formas e cores diferentes. O ponto alto, no entanto, é a direção musical de Alexandre Elias, cujas canções embalam a narrativa de forma inteligente e viva, também unindo desde cantigas, a rap e outros gêneros musicais. 

Pela sua amplitude, o assunto do bullying não se esgotará facilmente como outros tantos. Dia após dia, é preciso que se volte a um de seus aspectos com elegância, sobriedade, consistência e, sobretudo, o desejo de que suas consequências desapareçam. Parabéns à Maria Gal pela idealização e coordenação geral do projeto. 

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Ficha Técnica

Texto – Lázaro Ramos
Direção - Luiz Antonio Pilar
Idealização e Coordenação Geral – Maria Gal

Elenco - Cristiane Amorim, Maria Gal, Munir Kanaan, Livia Guerra, Priscilla Marinho, Renata Celidonio, Samuel de Assis.

Direção de Produção – Letícia Tórgo
Produção Executiva – Patrícia Freitas
Assistente de Direção I e PreparaçãoVocal – Marco Bravo
Assistente de Direção II - Marcos Nauer
Direção de Movimento – Juliana Nogueira
Direção Musical - Alexandre Elias
Assistente de Direção Musical I – Marco Bravo
Assistente de Direção Musical II - Carol Futuro
Iluminação – Valmyr Ferreira
Assistente de Iluminação - Poliana Pinheiro
Cenografia e Figurino – Ronald Teixeira
Assistente de Cenografia e Figurino – Markoz Vieira
Confecção dos Cenários - George Bravo e Letícia da Hora
Adereços e Bonecos - Eloy Machado e Liza Machado
Costureira - Odília Lucia de Almeida
Visagismo - Rosa Bandeira
Programação Visual - Fabio Viana
Web Design - Agência ID Publicidade e Propaganda
Fotografia - Alline Ourique
Assessoria de Imprensa - Kassu Produções
Operador de Luz – Hugo Leonardo
Operador de Som - Marcelo Moacir
Camareira - Genilda Freitas
Consultoria de Marketing – BFV Marketing Cultural
Gestão de Projeto - Maria Gal, Paulo Mattos e Sérgio Allisson
Captação de Recursos – Realiza! Produtora Cultural e Unideias
Produtora Associada – da Gaveta Produções
Realização – Realiza! Produtora Cultural e Boa Nova Produções Artísticas

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Indicados ao Prêmio APTR 2012

Relação dos indicados para o 7o Prêmio APTR de Teatro:

Melhor Autor:
Carla Faour - Obsessão
Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche - As Mimosas da Praça Tiradentes
Pedro Brício - Breu
Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes - A Marca da Água

Melhor Direção:
Bruce Gomlevsky - O Homem Travesseiro
João Fonseca - Dorotéia
Márcio Abreu - Esta Criança
Monique Gardenberg e Michele Matalon - O Desaparecimento do Elefante

Melhor Cenografia:
Breu - Aurora dos Campos, Maria Silvia Siqueira Campos e Miwa Yanagizawa
Esta Criança - Fernando Marés
O Desaparecimento do Elefante - Daniela Thomas
Quase Normal - Edward Monteiro

Melhor Figurino:
Gonzagão - A lenda – Kika Lopes
O Deparecimento do Elefante – Claudia Kopke
Dorotéia – Thanara Schönardie
Valsa n. 6 - Teka Fichiski

Melhor Iluminação:
Breu – Tomás Ribas
Esta Criança – Nadja Naira
O Homem Travesseiro – Luiz Paulo Nenem e Thiago Mantovani
A Marca da Água, A Primeira Vista, Édipo Rei e O Outro Van Gogh - Maneco Quinderé

Ator em papel protagonista:
Bruce Gomlevski – O Homem Travesseiro
Fernando Eiras – O Outro Van Gogh
Gregório Duvivier – Uma noite na lua
Marcos Caruso – Em nome do jogo

Atriz em papel protagonista:
Débora Lamm – Os Mamutes
Drica Moraes – A primeira vista
Renata Sorrah – Esta Criança
Vanessa Gerbeli – Quase Normal

Ator em papel coadjuvante:
Gilberto Gawronski – Dorotéia
Kiko Mascarenhas – Desaparecimento do Elefante
Ricardo Blat – O Homem Travesseiro
Tonico Pereira – A Volta ao Lar e O Homem Travesseiro

Atriz em papel coadjuvante:
Ana Baird – Obsessão
Fernanda de Freitas – O Desaparecimento do Elefante
Marjorie Estiano – O Desaparecimento do Elefante
Simone Spoladore – Depois da Queda

Categoria Especial:
Complexo Duplo
Editora Cobogó -
Marcela Altberg
Tempo Festival

Melhor Espetáculo:
Esta Criança
O Desaparecimento do Elefante
O Homem Travesseiro
Quase Normal

Melhor Música:
Era uma vez... Grimm – Tim Rescala
Gonzagão - A lenda – Alexandre Elias
Nada será como antes – Délia Fischer
Valsa n.6 – Tomás Gonzaga

Jurados:
Barbara Heliodora, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Macksen Luiz, Mauro Ferreira, Tania Brandão, Rafael Teixeira, Rodrigo Monteiro e a produtora Norma Thiré.