domingo, 29 de abril de 2012

Rebeldes: sobre A Raiva (RJ)


Foto: Paula Kossatz

Méritos e Desméritos

                “Rebeldes – sobre A Raiva” é o novo espetáculo dirigido por Rodrigo Nogueira. A partir do texto dramático escrito em 1997 pela israelense de Edna Mazya (1949), a produção surge com doze atores no elenco e conta a história de Mikaela, uma apresentadora de televisão que, depois de assistir ao enterro de um amigo, resolve visitar com o filho os túmulos de seus familiares. Diante do túmulo da mãe, ela encontra um senhor já de idade avançada que conheceu os seus pais, encontro esse que vira chave para que várias lembranças do passado de ambos venham à tona. Na verdade, Mikaela está diante daquele que foi o amante de sua mãe por vinte anos. Dividindo a narrativa em três planos temporais, a saber 1945, 1967 e 1997, o espectador conhece os diferentes personagens participantes da história, evoluindo na profundidade do conflito que parte de questões da ordem dos personagens até chegar às questões da ordem da relação entre eles. As memórias que surgem a partir da conversa deixam ver os diferentes pontos de vista sobre os mesmos fatos que cada um deles têm. Visto por Mikaela, um beijo entre Martha (a mãe) e Shaul (o amante) faz com que, entre mãe e filha, haja um afastamento definitivo. Trinta anos depois, é hora de conhecer as circunstâncias em que esse beijo aconteceu. Em “The Rebels”, Mazyo aproxima Martha e Mikaela, mãe e filha, ambas com fortes posicionamentos políticos que se misturam aos conflitos de suas vidas afetivas, deixando ver a força dos relacionamentos de sangue, a volta às origens. A dupla de diretores da versão teatral, Rodrigo Nogueira e Fabrício Belsoff, faz força em apagar a proximidade entre as duas personagens protagonistas, privilegiando negativamente as questões superficiais do texto: os posicionamentos políticos adversos, as situações históricas nos diferentes momentos da história, a raiva como um elemento comum no universo de cada figura. O que é apenas ponto de partida em Mazyo, em “Rebeldes – sobre A Raiva” é ponto de chegada. Quem perde é o público que tem, diante de si, um espetáculo cansativo, lento, de difícil fruição apesar de alguns trabalhos de interpretação bastante interessantes.
                O fato do posicionamento político em relação à guerra ser apenas marca da construção do personagem e não ser o vetor fundamental que faz girar a narrativa se comprova no personagem Yali, filho de Mikaela, que odeia a Inglaterra simplesmente porque lá nasceram as Spice Girls. No mesmo sentido, Alma, irmã de Mikaela, não tem qualquer relação com a política, sofrendo um acidente por conta da embriaguez e não em um conflito internacional. A opção da direção em privilegiar a guerra tem conseqüências fundamentais no ritmo da narrativa: as cenas cujos diálogos não foram escritos dentro desse tema ficam sem sentido, pesadas, como se estivessem deslocadas, enquanto que as cenas de ação, e só há duas (o assassinato do Tenente Williams e o embarque para a África do Sul), correm vertiginosas. O vibrante jogo de palavras nas conversas entre Mikaela e Yali, entre Martha e o Tenente Williams ou entre Martha, Alma e Yoel (o marido) se equilibram com as soluções clichês das curvas da narrativa (a forma como Martha saiu da vida de Shaul e o convite final de Mikaela para Shaul).
                Paulo Verlings (o jovem marido Yoel) e Joana Lerner (a jovem cunhada Alma) brilham no elenco que também traz os bons trabalhos de Johnny Massaro (Yali) e de Marcela Muniz (Alma). Verlings e Lerner trazem vida à narrativa, apresentando força, agilidade, graça, presença cênica, com carisma, focos bem dirigidos, pausas bem distribuídas e entonações complexas. Por outro lado, João Velho (Tenente Williams) apresenta uma interpretação afrouxada, baseada unicamente no sotaque que só lembra o britânico nas frases ditas em inglês, e Rogério Fróes (Shaul) uma voz cujo volume é negativamente baixo demais, fazendo o ritmo de suas cenas quase parar também pela dicção não cuidadosa e um corpo quase sem expressão. Tão positivos quanto são os figurinos de Angèle Fróes, porque leves e adequados, discretos e pontuais, é negativa a concepção do cenário de Hilton Barredo. Os 12 túmulos brancos no chão de grama verde formam um belo quadro de abertura para a peça, mas que se constitui um grande problema para o resto da narrativa cênica, uma vez que as trocas acontecem de forma expressiva demais em função do peso (físico e visual) que cada objeto parece ter. Infelizmente, complementado ainda por projeções em vídeo, o resultado visual que as mudanças resultam acaba por não compensar em grandes momentos estéticos da obra.
                No limite invisível entre o que é texto original (Mazyo), o que é texto adaptado (Nogueira) e o que é direção (Nogueira/Belsoff), fica difícil saber de quem são os méritos e os desméritos da produção em cartaz no Teatro Arena Sesc Copacabana. O importante é saber que, em igual peso, há os dois.

*

Ficha técnica:
Texto: Edna Mazya / Adaptação e Direção: Rodrigo Nogueira / Co-Direção: Fabrício Belsoff / Elenco: Rogério Fróes, Bruno Gradim, Marina Vianna, Laila Zaid, Marcella Muniz, Joana Lerner,Paloma Riani, Keruse Bongiolo, Johnny Massaro, João Velho, Antonio Karnewale, Paulo Verlings /Cenário e Vídeo-projeção: Hilton Berredo / Figurino: Angèle Fróes / Iluminação: Paulo César Medeiros / Direção Musical: Rodrigo Marçal (Cabelo) / Preparação Corporal: Marcia Rubin /Pesquisa e Edição de Imagens: Juliano Gomes / Design Gráfico: Dávila Pontes / Produção: Lúdico Produções / Realização: SESC Rio / Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

[des]Conhecidos (RJ)


Foto: João Julio Mello

Elementos estéticos pouco explorados

                “[des]Conhecidos” é uma comédia dramática escrita e dirigida por Igor Angelkorte que tem como mote narrativo um blind date. Duas pessoas que não se conhecem marcam um encontro via internet em um bar. Lá chegando não se reconhecem, mas, devido à superlotação, acabam por dividir a mesma mesa, o que talvez seja um deus ex machina. O diálogo rápido em lugar público é substituído pela relação sexual no apartamento de um dos dois, iniciando aí uma relação entre eles que segue sem compromissos. A presença/ausência de compromissos firmados é o conflito, o ponto de partida para a discussão que a obra propõe: a necessidade deles nas relações contemporâneas. Angelkorte também assina a produção, cujo ponto mais relevante seja o fato de, aos sábados e domingos, os personagens serem um homem e uma mulher heterossexuais e, nas segundas-feiras, serem dois homens, um homo e um bissexual. Em ambas as situações, o diálogo e as ações permanecem exatamente os mesmos, de forma que a obra, assim, permita pensar a respeito da natureza dos relacionamentos nas diferentes orientações sexuais.
                Com personagens bem definidos e uma estrutura dramática organizada dentro da linha clássica de causa e efeito (primeiro encontro causa primeira transa que causa relacionamento que causa discussão de relacionamento), “[des]Conhecidos” sofre o fato de ser decrescente: ri-se na situação de abertura, excita-se no desenvolvimento e, quando o conflito enfim aparece, anseia-se por sair. O anti-ápice acontece negativamente em meio a uma reflexão sobre as leis que transpassam as relações contemporâneas, de jeito que a narrativa funciona, nesse ponto da história, como um argumento para uma tese. No processo de fruição, sai-se da catarse inicial e passa-se à dissertação, virando o jogo, substituindo as bases do equilíbrio, “ficando chato”.
                Igor Angelkorte e Samuel Toledo apresentam marcas de uma interpretação que aproxima a narrativa do real existente além dela, o que é bastante positivo por promover uma rápida identificação. Como já foi dito, o diálogo flui de um jeito leve e vibrante, mesmo quando o tema é pesado. Vale dizer, no entanto, que a leveza que faz bem aqui faz mal em outros elementos que estruturam a obra cênica. Cenário, figurino, trilha sonora e iluminação são itens que parecem ter sido pouco ou não considerados pela concepção de “[des]Conhecidos”. O fato de vestirem roupas bastante realistas é positivo, mas sente-se a falta de uma concepção que justifique a opção pelos tecidos, pelas estampas, pelas texturas. Encontrar o sofá visível desde a cena inicial também prejudica a fruição do momento inicial. Embora haja músicos prontos para a execução ao vivo da trilha sonora, quase não há músicas assim como é meramente funcional o desenho de luz. Com elementos estéticos pouco explorados além do texto, a Cia. Probástica apresenta um espetáculo um discurso interessante com boas interpretações, mas não muito além disso.

*

Ficha técnica
 Elenco: Igor Angelkorte e Samuel Toledo  (ou Chandelly Braz)
Direção e dramaturgia: Igor Angelkorte
Diretores assistentes: Samuel Toledo e Lívia Paiva
Diretora de movimento: Lavinia Bizzotto
Supervisão de direção: Diego de Angeli
Supervisão de texto: Felipe Barenco
Cenografia: Julia Deccache e Laura Shalders
Iluminação: Diego Diener
Figurinos: Luiza Fardin
Designer de Projeto: Fernando Nicolau
Fotos: João Julio Mello
Produção: Igor Angelkorte

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Música para cortar os pulsos (SP)

Foto: Marcelo Stammer


Teatro para cortar a alma           

                “Música para cortar os pulsos” tem como principal mérito prometer bem pouco. Sua encenação se apresenta, desde o primeiro momento, de forma tão simples e carismática que estará errado quem da proposta espera muito. O “pouco” (ênfase nas aspas) que o grupo paulista Empório de Teatro Sortido promete se transforma em muito, fazendo do resultado uma ótima surpresa para quem gosta de um tipo de teatro que, delicado e sutil, mobiliza poucos recursos, mas fala, emociona, faz refletir e consegue contar bem uma boa história.
                Isabela, Ricardo e Felipe são jovens que vivenciam os seus primeiros relacionamentos afetivo-sexuais. Descobrem os compromissos, os acordos, os prazeres. Fazem promessas para si E para os pares, vêem sonhos se desfazerem, traçam metas, se decepcionam e buscam a felicidade. Seus encontros e desencontros são a matéria com qual o público, de todas as idades, se identifica, ainda que os mais jovens tenham a sua disposição mais elementos para fazer a catarse. O trabalho de interpretação de Fábio Lucindo (Felipe), de Victor Mendes (Ricardo) e de Mayara Constantino (Isabela) é bastante positivo dentro do contexto previsto para a peça: um diálogo sem entraves com o espectador, voz e dicção próxima do real além da narrativa, expressões faciais e corporais discretas, movimentação coreografada. Constantino, no entanto, merece positivo destaque por alcançar um excelente resultado na cena em que é entrevistada, em que a atriz dá vida, ao mesmo tempo, a duas personagens, desafio ao qual não foram contrapostos os dois outros atores. De um modo geral, a voz baixa dos três atores é o seu ponto mais positivo: o texto flui de forma confessional, íntima, cordial, como numa conversa/desabafo entre amigos.
                Rafael Gomes assina a dramaturgia literária e também a cênica. Na primeira, cria imagens potentes e diálogos rápidos, fazendo referências bastante ricas ao espetáculo, como a citação de Rosalinda, personagem de Shakespeare, além de letras de músicas conhecidas pelo público, de Roberto Carlos a Beach Boys, passando por Piazolla, Debussy e Massenet. Na segunda, há a visível intenção de promover dez situações belas esteticamente de forma que cada uma se apresente como um argumento ou um ponto de vista diferente da narrativa que une os três personagens.
            O cenário previsto por André Cortez assim como os figurinos de Anne Cerutti são adequados e contributivos. A troca de lugar dos estrados e dos falsos microfones ajuda a dar ritmo à narrativa, embora só se justifique pela elevação dos padrões visuais da peça, não tendo funções dramatúrgicas. Ainda nos aspectos técnicos, a iluminação de Marisa Bentivegna e a trilha sonora, apesar das falhas na operação em uma das sessões, são responsáveis por momentos bastante positivos. Os movimentos de luz dão a pausa necessária à reflexão sobre o visto, enquanto a trilha ilustra o discurso cênico, dele fazendo parte diegeticamente.
                Tratar artisticamente dos relacionamentos modernos é cada vez mais um desafio difícil uma vez que o tema é cada vez mais (e pior) explorado. “Música para cortar os pulsos”, apesar do título pesado, o faz de forma bastante delicada e sutil. Sutil, aliás, é o nome do grupo dirigido Felipe Hirsch, responsável por “Trilhas Sonoras de Amor Perdidas”, espetáculo que, guardadas as devidas proporções, é uma ótima referência para entender esse que, agora, está em cartaz no Teatro Glaucio Gill, no Rio de Janeiro. Fazer a comparação há que ser, primeiro, uma honra para ambas produções, mas por fim, uma grata satisfação para o público brasileiro.

*

Ficha técnica:

Texto e Direção: Rafael Gomes
Assistente de Direção e Preparação de Atores: Thiago Ledier

Elenco:
Fábio Lucindo - Felipe
Mayara Constantino - Isabela
Victor Mendes - Ricardo
Guilherme Gorski (alternante)

Cenografia: André Cortez
Figurino: Anne Cerutti
Iluminação: Marisa Bentivegna
Pperador de luz: Renato Franco
Produção: Euforia Produções/ Ioiô Filmes
Coordenação de Produção: Isabel Sachs
Assistente de Produção: Adriana Sá Moreira
Produção Executiva Viagem Teatral:Maira Cessa
Design gráfico: Camila Sato
Fotos: Fabio Furtado
Um espetáculo: Empório de Teatro Sortido
Realização original: SESC - SP