sábado, 3 de setembro de 2016

Paradinha cerebral (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação


Cassiano Fernandez e Mirna Rubim

Uma bela lição de vida!

“Paradinha cerebral” é o belo espetáculo protagonizado por Mirna Rubim e por Cassiano Fernandez que está em cartaz no Teatro 2 do Shopping Fashion Mall, em São Conrado, na zona sul do Rio de Janeiro. Ela interpreta Madalena, uma apresentadora de programa de televisão que, um dia, é surpreendida pela produção com um entrevistado misterioso. Trata-se de Cacá, um jovem amante de óperas que vive em uma cadeira de rodas como consequência de uma paralisia cerebral. O encontro entre eles poderá modificar a vida da anfitriã bem como dos (tele)espectadores. Com texto e direção de Iuri Saraiva, a peça cumpre temporada até 15 de setembro.

Problemas na dramaturgia não diminuem os méritos sociais
A produção é cheia de boas intenções, mas, em termos de dramaturgia, vai mal. Há dois personagens: Madá (Mirna Rubim) e Cacá (Cassiano Fernandez), mas nenhum deles é explorado pelo texto para além de uma pobre superfície. Através de uma rápida menção, sabe-se que ela se sente frustrada por não ter se tornado uma cantora lírica. Por causa disso, a produção de seu programa ao vivo na TV resolve quebrar o paradigma e trazer-lhe um entrevistado surpresa. Cacá não fez dos limites motores decorrentes de uma paralisia cerebral barreiras capazes de impedi-lo de estudar canto. A partir do encontro entre eles, espera-se que Madá reflita sobre o que a fez desistir do seu sonho e retorne à busca por sua realização.

O problema é que a peça investe demais no retrato de Cacá e negativamente pouco explora a relação entre ele e sua anfitriã. Nesse sentido, Madá, através de quem o público acessa a narrativa, fica como uma escada dispensável na dramaturgia que não é mais obsoleta por conta da defesa dos seus números musicais. “Paradinha cerebral” termina sem que tenha, de fato, havido uma mudança na situação inicial, o que justificaria, em termos estéticos, a dramaturgia.

A pobreza do texto, porém, não tira o mérito do compromisso social da produção. Tudo leva a crer que, se há distância entre Madá e Mirna Rubim, ela inexiste entre Cacá e Cassiano Fernandez. Personagem e ator são alunos de canto, os dois moram em Botafogo, ambos têm menos de trinta anos, trabalham fora, gostam de ópera e andam em cadeira de rodas. Os longos monólogos em que o entrevistado (que, fora da narrativa, é de fato aluno de Rubim) fala de si e do modo como vê o mundo e as pessoas é inspirador. Nesse clima de “peça de autoajuda”, o espetáculo parece realizar suas melhores intenções, atingindo seu objetivo e, por isso, merecedor dos aplausos.

Diálogos interessantes entre Mirna Rubim e Cassiano Fernandez
A direção de Iuri Saraiva, que assina a dramaturgia notoriamente baseada em fatos reais, tem méritos no modo como organiza a narrativa cênica em blocos. Conversas sobre a biografia da diva Maria Callas (1923 -1977), o universo particular (ficcional ou não) do entrevistado, números de canto, inserções de vídeo (belas colaborações de Daniel Gonçalves) e um tom mais reflexivo são momentos que se alternam ao longo do espetáculo de maneira equilibrada. O ritmo, centrado em Cassiano Fernandez, mas abrilhantado por Mirna Rubim, é bastante positivo ao longo da encenação, o que garante o sucesso da obra como um todo.

Mirna Rubim, uma das estrelas do teatro musical brasileiro, apresenta excelente trabalho. A postura absolutamente ereta, expressões controladas, balanço no corpo e na voz e sobretudo a excelência no modo como toca o piano e canta árias difíceis e belas atribuem à encenação de “Paradinha cerebral” enormes valores. Cassiano Fernandez tem excelente dicção, é carismático e equilibra na voz suas dificuldades em se movimentar. O diálogo entre ele e sua parceira é ágil, rico e interessante, sendo esse o melhor aspecto de toda a peça.

Com pontuais participações do cenário e figurino de João de Freitas Henriques e da iluminação de Rafael Andrade, “Paradinha cerebral”, produzido por Lara Pozzobon, dá uma lição de vida! Aplausos!

*

Ficha técnica:
Texto e Direção: Iuri Saraiva.
Elenco: Cassiano Fernandez e Mirna Rubim
Videografia: Daniel Gonçalves
Cenário e Figurino: João de Freitas Henriques
Iluminação: Rafael Andrade
Concepção e Produção: Lara Pozzobon
Patrocínio: Secretaria Municipal de Cultura, Fomento Cidade Olímpica





Cidade correria (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação


Igor da Silva, Marcelo Magano,Vanessa Rocha,Hugo Bernardo, Daniela Joyce, Lívia Laso,
Karla Suarez e Thiago Rosa
Um espetáculo arrebatador!

Uma das produções teatrais mais elogiadas do primeiro semestre carioca, o excelente “Cidade correria” fez, no último final de semana, duas apresentações no Galpão Gamboa. A peça é dirigida com destacável brilhantismo por Adriana Schneider e por Lucas Oradvschi e tem, no elenco, os bons trabalhos de Daniela Joyce, Karla Suarez, Patrick Sonata e de Thiago Rosa ao lado dos ótimos Igor da Silva, Hugo Bernardo, Jardila Baptista, Lívia Laso e Vanessa Rocha e do excelente Marcelo Magano. Juntos eles compõem o Coletivo Bonobando, que assina a montagem. No espetáculo, uma visão de mundo alternativa à geralmente eleita ganha pauta, pouco a pouco, pelos méritos estéticos. Sobermamente capaz de incluir seu olhar, ele abre espaço para a reflexão e faz dela sua linda bandeira de luta. Eis um trabalho magnífico que merece vida longa e muita atenção!

Magnífico trabalho de direção de Adriana Schneider e de Lucas Oradovschi
“Cidade correria” tem dois méritos enormes: um ligado à estética e outro relativo à sua produção. Quanto ao primeiro, deve-se dizer que a direção de Adriana Schneider e de Lucas Oradovschi é um dos trabalhos mais importantes do ano na programação teatral carioca. Dispondo de poucos elementos e assinando a manipulação deles por um conjunto de intérpretes inexperientes no fazer teatral profissional, a dupla oferece quadros cada vez mais belos ao longo da encenação. Toda cena, além de se articular com a anterior e com a próxima, surge pelo aprofundar de si própria em um jogo que não só se amplia, mas também fica mais complexo.

Em outras palavras, a cena dois vence o desafio de se opor à cena um, pois são quadros diferentes e com personagens e conflitos próprios. Mas, também, ela acontece no palco por meio de inúmeros convites à própria ressignificação, tirando o espectador parcialmente da zona de conforto e exigindo, assim, que ele se esforce em reconhecer o que está vendo enquanto vê. Durante a sessão, a plateia percebe que cada momento é uma estrutura que é parte de um todo maior, mas que é também, em si, um todo cheio de pequenas partes. Esse processo tão difícil e tão valoroso, cuja direção Schneider e Oradovschi assinam, permite pensar que o conjunto de valores da periferia é regido por regras alternativas às que regem o conjunto da zona central. E que centro e periferia nada mais são, por isso, que pontos de vista.

O segundo grande mérito da produção é o modo como seu resultado estético dialoga com as informações acerca de sua viabilização. “Cidade correria” estreou no fim de outubro de 2015, na Arena Carioca Dicró (gerida pelo Observatório das Favelas), na Penha, onde foi gestado durante dois anos de residência artística realizada lá pelo Grupo Teatro da Laje, da Vila Cruzeiro. O trabalho desse grupo, que tem vibrante atuação em diversas comunidades do município há quatorze anos, e a colaboração de diversos artistas e pensadores ofereceram terreno artisticamente fértil para o florescer do Coletivo Bonobando – Bando de Artistas Anônimos, que assina a montagem teatral que aqui se analisa. Ana Achcar, Cátia Costa, Fabianna de Mello e Sousa, Luiz André Alvim, Mariana Mordente, Ricardo Cotrim, Thiago Florencio e Veríssimo Júnior são alguns nomes fortes dentre os participantes do processo.

O espetáculo fez apresentações em vários lugares da cidade incluindo, entre junho e julho, uma célebre temporada no Teatro Sérgio Porto, na zona sul. Ele não surge isolado, mas sempre, desde sua estreia, se apresentou envolvido a mostras e a discussões relativas à inclusão social. Esse diálogo é proposto não por uma conversa em que a periferia se torna centro, mas pela criação de um contexto estético e reflexivo em que centro e periferia são apenas paradigmas. Trata-se, pois, de uma produção que não só investe e colhe possibilidades artísticas em diversas zonas da cidade, mas está plenamente disposta a pautar uma sociedade que pode ser transformada a partir de um debate aberto sobre seus territórios culturais. Em tudo, um projeto valoroso!

Excelente conjunto de atuações
O conjunto das atuações é bastante positivo. Os dez atores parecem entrosados, encorajados e felizes em cena, apresentando de modo forte mas ao mesmo tempo delicado seu olhar sobre o mundo. Não se trata de um grito, mas uma palavra que é dita de maneira clara. Não é uma imposição, mas uma sugestão. Não se revelam carências e dificuldades, mas outros tipos de riquezas e de possibilidades. Tudo isso faz com que, pelo sucesso das interpretações, o espetáculo fique envolvente e apaixonante.

Igor da Silva abre a peça, rasgando o silêncio de modo valoroso sobretudo pelas dificuldades de uma cena de introdução. Daniela Joyce encerra, vencendo desafio similar ao propor um ápice que justifique o todo. No centro, Hugo Bernardo, apresentando um passinho, e Vanessa Rocha, em uma belíssima cena de cunho mais lúdico mas não menos cortante, garantem a força de todo o trabalho. Lívia Laso e Jardila Baptista, mas principalmente Marcelo Magano apresentam excelente trabalho corporal com gestos limpos, intenções claras, movimentação equilibrada. Todo o conjunto, cuja direção de movimento é assinada por Cátia Costa e por Mariana Mordente, merece parabéns.

A direção de arte de Fabiana Mimura, a iluminação de Nina Balbi e a direção musical e trilha sonora de Ricardo Cotrim também têm destaque pelo modo como se articulam com o trabalho dos atores e com a dramaturgia. A explosão de registros no guarda-roupa, o jeito rico com que poucos elementos integram o palco e a plateia, a alternância na maneira como a luz organiza o que deve ser visto e o conjunto dos sons e dos ritmos que participam da proposta são detalhes intimamente ligados entre si nessa peça. O exercício que aqui tão bem explora essa parafernália semântica surge como metáfora, mas também como cláusulas de um acordo: é conteúdo, mas é também o pedido para que não se deixe a reflexão para depois.

“Cidade correria”, inspirado em imagens, filmes, livros, situações e em histórias do cotidiano da periferia carioca, parece ver o mundo como uma esteira cheia de personalidades, colaborações, questões adversas. É como se não fosse possível dizer, a partir do espetáculo, que o mundo é desorganizado, porque, para isso, precisar-se-ia considerar organização um paradigma. Por outro lado, também não é absurdo só porque nem sempre se é possível encontrar lógica, causa e efeito. É talvez uma complexa correria em constante transformação, essa que pode ser percebida por quem tiver olhos atentos, coração aberto e mente disposta. Aplausos efusivos!

*

Ficha técnica:

Com: Daniela Joyce, Hugo Bernardo, Igor da Silva, Jardila Baptista, Karla Suarez, Livia Laso, Marcelo Magano, Patrick Sonata, Thiago Rosa, Vanessa Rocha
Dramaturgia: Criação Coletiva
Direção: Adriana Schneider e Lucas Oradovschi
Metodologia de dramaturgia: Adriana Schneider
Direção de movimento: Cátia Costa e Mariana Mordente
Direção musical e trilha original: Ricardo Cotrim
Funk "Xô sai pra lá": Marcelo Magano e Ricardo Cotrim
Direção de arte: Fabiana Mimura
Iluminação: Nina Balbi
Preparação corporal: Cátia Costa
Treinamento de máscaras balinesas: Lucas Oradovschi
Preparação vocal: Verônica Machado
Assistência de arte: Filipe Duarte
Direção de produção: Karla Suarez
Produção executiva: Marcelo de Brito
Assistência de produção: Lívia Laso e Thiago Rosa
Comunicação: Karla Suarez e Marcelo Magano
Assessoria de imprensa: Gabriel Murga
Artes: Washigton Santana
Cobertura Fotográfica: Maira Barillo, Davi Andres
Formação de plateia: Thamyra Thâmara de Araújo


Textos da pesquisa: “O bebê de tarlatana rosa”, de João do Rio; “A última chuva do prisioneiro”, de Mia Couto; “O duelo entre a criança que diz sim e a cidade que diz não”, de Thiago Rosa; “Banzeiro”, de Ricardo Cotrim; “Cidade Correria 1”, de Thiago Florencio; “Cidade Correria 2”, de Daniel Guimarães.

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Papai está na Atlântida (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação


Daniel Archangelo e Ricardo Gonçalves
Espetáculo comovente sobre infância e imigração

A comovente e divertida “Papai está na Atlântida”, do mexicano Javier Malpica, é uma ótima produção dirigida por Guilherme Delgado. Escrito em 2006, o texto da peça narra a história de dois irmãos que, ainda pequenos, são enviados a morar com a vó no interior, porque sua mãe faleceu e o pai deles foi ganhar a vida no exterior. A história é o modo como encontram um no outro a proteção contra o mundo que eles vão descobrindo sozinhos. Brilhantemente interpretados por Daniel Archangelo e por Ricardo Gonçalves, eis um belo espetáculo em cartaz no Teatro Eva Herz, na Cinelândia, até o dia 17 de setembro.

Lindo texto de Javier Malpica
Os dois personagens, cujas ações se constituem na narrativa da história de “Papai está na Atlântida”, são dois garotos aparentemente menores de dez anos. Daniel Archangelo interpreta o maior e Ricardo Gonçalves seu irmão mais jovem. Com a morte da mãe e a viagem do pai, eles são enviados a morar com a avó, que mora longe da cidade. A reconstituição dos laços familiares e o estabelecimento de um ritmo de vida que o campo exige em oposição a onde eles moravam são questões que mudam radicalmente o mundo que eles têm diante de si. Seu crescimento se torna uma aventura cheia de novos sabores, alguns muito amargos.

Em um jogo envolvente de ações que a dramaturgia e a direção apresentam, a narrativa é deliciosa. Os conflitos que surgem entre eles ou deles com os outros personagens vão alimentando um isolamento cada vez maior. O desfecho aterrador dói mais ainda porque acontece depois de diálogos interessantes e inteligentes e situações cuja doçura não deixa de antecipar uma realidade em que a infância está longe de ser uma fase tão poética quanto parece.

A direção de Guilherme Delgado apresenta a história por meio da atuação dos atores em jogo entre si e com dois bancos sem encosto sob o desenho de luz. Nada mais! Por isso, cada novo quadro surge do desafio de se reinventar, o que, além de exibir a vastidão de seu repertório como encenador, também impõe a cena outros meios de se envolver com o público para além dos méritos de Malpica.

A peça não é melhor, no entanto, pela perda de ritmo que o espetáculo sofre nos momentos finais. Lá pelas tantas, não se sabe mais aonde a história está indo de modo que a força se esvai e a fruição cansa. O mérito da cena final é prejudicado parcialmente pelo sutil arrastamento das cenas logo antes dela.

Daniel Archangelo Ricardo Gonçalves em excelentes interpretações
Daniel Archangelo, mas principalmente Ricardo Gonçalves apresentam excelentes trabalhos de interpretação. Seus guris são complexos: nem adultos abobalhados, nem crianças sem linguagem própria. Há humor, malvadeza, medo e coragem em um todo expresso a partir de movimentação repleta de diferentes níveis. O tempo deixa marcas sensíveis nos personagens que crescem ao longo da narrativa. Através deles e dos jogos que acontecem entre eles, ou que se veem com sua participação, a ação vai tomando corpo. Eis trabalhos de interpretação destacáveis que enaltecem os valores do espetáculo e o tornam uma ótima programação.

“Papai está na Atlântida” tem ainda boa colaboração do figurino de Ricardo Rocha e cenário dele e de Daniel Archangelo, mas é, na iluminação de Luiz Paulo Barreto, que seus melhores valores estão apoiados. Cada novo quadro surge a partir de um desenho que, promovendo diálogo entre os personagens e a escuridão, dá a ver quadros de enorme beleza cuja força poética contextualiza a comicidade e permite antever a ideologia.

A palavra Atlântida do título vem de um mal-entendido. Um dos personagens acredita que seu pai está na cidade perdida quando, na verdade, cruzou a fronteira do México para trabalhar nos Estados Unidos. Por trás, assim, de uma comédia sobre meninos que viram homens, está uma reflexão sobre o direito ao sonho e a luta por sua realização além de questões relativas à infância, família, imigração e à sociedade. Realizada pela Tentáculos Espetáculos, uma excelente pedida na grade de programação carioca. A ver e a aplaudir!

*

Ficha Técnica:
Autor: Javier Malpica
Direção: Guilherme Delgado
Elenco: Daniel Archangelo e Ricardo Gonçalves
Cenografia: Guilherme Delgado e Ricardo Rocha
Figurino: Ricardo Rocha
Iluminação: Luiz Paulo Barreto
Realização: Tentáculos Espetáculos
Comunicação: Aline PeresArt
Designer: not.a.pipe
Fotos: Luiz Luz