sexta-feira, 6 de maio de 2016

O como e o porquê (RJ)

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Foto: Fabiano Cafure

Suzana Faini e Alice Steinbruck

Suzana Faini faz 50 anos de carreira em espetáculo imperdível!

“O como e o porquê” abrilhantou a programação carioca durante o mês de abril no Teatro Sesc Ginástico, no centro do Rio de Janeiro. A peça, escrita pela roteirista americana Susan Treem, é dirigida por Paulo de Moraes em belíssimo trabalho. No elenco, em ótimas atuações, Alice Steinbruck e Suzana Faini, que comemora, em 2016, cinquenta anos de carreira. Na história, uma renomada cientista recebe a visita de sua filha biológica quando descobre que essa está seguindo seus passos na vida profissional. Questões intelectuais e laços afetivos se alternam nesse excelente espetáculo cuja segunda temporada começa no próximo dia 13 de maio no Teatro Fashion Mall, na Barra da Tijuca. Imperdível!

Um texto inteligente e emocionante!
“O como e o porquê” (“The how and the why”) foi escrito em 2011 por Susan Treem, dramaturga mais conhecida por seus trabalhos como roteirista da TV americana, entre os quais, dois episódios de “House of cards”, do Netflix. A inspiração para o texto surgiu durante a leitura de “Mulher: uma geografia íntima”, de Natalie Angier, recentemente publicado no Brasil pela editora Rocco. A peça tem ainda relação com a teoria de Kristen Hawkes, antropóloga da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, sobre a importância das avós na criação dos filhos. Produzida duas vezes nos Estados Unidos, nenhuma delas apresentada na Broadway, a peça ganha sua primeira versão na América Latina com a montagem da Diga Sim Produções que aqui se analisa. 

A narrativa é densa como complexo é seu tema. A primeira das duas cenas da peça se passa no gabinete da Dra. Zelda Mildred Kahn (Suzana Faini), pesquisadora famosa por uma teoria acerca da menopausa sobre a qual tem se dedicado nos últimos trinta anos. Ela recebe a visita da jovem Rachel Hardeman (Alice Steinbruck), sua filha biológica com quem aparentemente não teve quase qualquer contato até então. É o laço de sangue entre elas, revelado muito discretamente, que justifica a manutenção do encontro entre alguém célebre e uma iniciante, apesar desse começar com as iniciais grosserias da segunda. Então, Zelda descobre que Rachel está seguindo seus passos na vida acadêmica. Recém doutora, ela elaborou uma tese sobre a menstruação, defendendo que essa é uma ação natural de defesa do organismo feminino contra os elementos patogênicos do espermatozoide. Seu artigo, no entanto, foi reprovado por um comitê científico do qual Zelda faz parte. Em busca de explicações, a filha viaja até a cidade da mãe, que desconhecia qualquer detalhe entre Hardeman e o referido estudo e sua avaliação. 

Com a habilidade, a narrativa se estrutura a partir de uma complexa teia de relações. De um lado, uma pesquisa sobre menstruação. De outro, uma sobre menopausa. Aqui, uma bióloga com longa e célebre carreira. Lá, uma outra dando seus primeiros nobres passos na pesquisa científica. Uma filha abandonada pela mãe, uma teoria sobre as avós. A maternidade, o sangue, os laços. Pouco a pouco, o texto vai abandonando o palavrório científico e deixando ver duas mulheres com medo da solidão talvez, mas certamente envolvidas nos laços que inegavelmente as une. Um texto inteligente, emocionante, delicado e forte!

50 anos de carreira de Suzana Faini
A direção de Paulo de Moraes, que de modo brilhante recentemente assinou “Inútil a chuva”, mais uma vez estrutura espaço ideal para acontecerem a grande dramaturgia e a excelente interpretação. Nos pequenos detalhes, a conversa da primeira, mas sobretudo da segunda cena, que tem lugar em um bar, são as marcas de aprofundamento das questões da narrativa. É partir deles que o jogo vira, se transforma e que o ritmo se mantém positivamente em ascensão. Assinado por ele, o cenário é composto por várias cadeiras diferentes. As atrizes mudam de lugar ao longo da peça como uma forma do espetáculo oferecer ao público a oportunidade de suas impressões e reflexões também assentarem. O espetáculo flui!

Alice Steinbruck (Rachel) perde algumas boas oportunidades de variar o modo como sua personagem fala, preferindo uma linha regular e um tanto monótona. Sobram-lhe gritos e faltam-lhe delicadezas que poderiam conferir, através da ironia, algum colorido maior para sua atuação. Vale a pena elogiar, no entanto, o modo como essa atriz investe no nervosismo, na sensibilidade aflorada e na determinação da jovem pesquisadora que, com audácia, investe contra sua interlocutora.

Suzana Faini, recém elogiadíssima em “Silêncio!” e em “Família Lyons”,  está mais uma vez em trabalho brilhante! Cada palavra é contextualizada em um todo de sensações que dá profundidade ao discurso de modo excelente. Há emoção, equilíbrio, foco. Há clareza em todos os seus momentos. Eis aqui outra bela atuação de sua carreira que começou em 1966 também no palco do Teatro Ginástico. Na ocasião, ela apareceu em um pequeno papel na peça “Oh, que delícia de guerra”, o segundo espetáculo do grupo paulista Teatro de Esquina, dirigido por Ademar Guerra. A montagem, que unia teatro e dança, era uma adaptação de “Oh, what a lovely war”, de Charles Chilton, a partir de improvisações inspiradas no Theatre Workshop dirigido pela inglesa Joan Littlewood. Irina Grecco, Stênio Garcia, Paulo Goulart e Cacilda Lanuza, entre outros, estavam com ela.

Para ser aplaudido em pé!
“O como e o porquê”, com figurinos de Desirée Bastos, tem nobres participações da iluminação de Maneco Quinderé e da trilha sonora original de Bianca Gismonti, agregando méritos ao todo de maneira bela, potente e inteligente. Eis um espetáculo que merece ser visto e aplaudido em pé!

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Ficha técnica:
Texto: Sarah Treem
Tradução: Alice Steinbruck
Direção e Cenografia: Paulo de Moraes
Elenco: Suzana Faini e Alice Steinbruck
lluminação: Manéco Quinderé
Trilha sonora original: Bianca Gismonti
Figurinos: Desirée Bastos
Fotos e Desenho Gráfico Fabiano Cafure
Coach Alice Steinbruck: Zé Wendel Soares
Coach Suzana Faini: Rogério Freitas
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias
Marketing Cultural: Gheu Tibério
Assistente de Marketing Cultural: Andréa Tonia
Produção Executiva: Carin Louro
Direção de Produção: Sandro Rabello

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Se eu fosse Iracema (RJ)

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Foto: divulgação

Adassa Martins

Adassa Martins brilha em belíssimo monólogo

O excelente “Se eu fosse Iracema” é o primeiro espetáculo do Coletivo 1COMUM que terminou sua primeira temporada no último dia 1º de maio no Sesc Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro. O monólogo interpretado brilhantemente por Adassa Martins foi escrito por Fernando Marques e dirigido por Fernando Nicolau. O texto articula discursos de toda ordem sobre a questão indígena, revelando aspectos diferentes sobre o tema, mas sempre convocando o público a uma reflexão. Eis um espetáculo que deve ser visto e aplaudido pelo mérito da proposta e por seus altíssimos resultados estéticos. A produção reestreia no próximo dia 14 de maio, no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Humaitá, na zona sul da capital carioca.

Excelente dramaturgia
A dramaturgia une depoimentos dos índios, discursos e relatos deles, narrativas adaptadas do cinema e da literatura, entrevistas de políticos e a Constituição Federal de 1988. Ela evolui de um contexto a outro, sempre aprofundando a questão positivamente. Sozinha em cena, Adassa Martins dá corpo e voz para esses materiais, se alternando na interpretação de índios e de brancos através da história brasileira nos últimos quinhentos anos. O trabalho confirma o seu enorme talento e sua técnica apurada, mas tem o nobilíssimo mérito de apontar para a importância da causa indígena.

Em questão, em “Se eu fosse Iracema”, está a perpetuação da linha divisória que parece se manter em nossa cultura atualmente entre nós e os índios. A demarcação de terras, em processo de diminuição constante, precisa também ser uma exclusão social? Assim, de modo às vezes delicado, outras vezes assertivo, a peça providencia a interrogação, promove a reflexão e se esforça meritosamente em abrir os olhos de quem assiste para os níveis desse debate. Um trabalho belíssimo!

Adassa Martins se movimenta de maneira vibrante no âmbito de cada um de seus muitos personagens nesse espetáculo. Em todos eles, os detalhes expressivos dão conta da situação, da dramaturgia e da interpretação das figuras de modo que o espectador apreende a proposta e a frui com fluência. Da ironia da ministra Kátia Abreu à profundidade vocal do pajé, “Se eu fosse Iracema” é uma belíssima oportunidade que a atriz ganha de renovar os elogios que ela merecidamente tem recebido. Dividindo com ela os méritos, a direção de Fernando Nicolau, sobretudo pelo modo como distribui os signos, equilibra a viabilização do ritmo e confere harmonia ao todo.

Luz, cenário e figurino colaboram para os méritos do espetáculo
O desenho de luz de Licurgo Caseira participa ativamente da apresentação dos quadros, abrindo e fechando o espaço de acordo com as intenções da proposta e com a natureza de cada momento. O cenário assinado também por ele age no mesmo sentido positivamente. Em cena, um tronco de árvore cortado por uma lâmina de vidro anuncia a personagem como alguém que fala de dentro, que tem propriedade e que sobretudo está viva apesar das intempéries. É brilhante! O figurino de Luiza Fradin é outro ponto alto. Uma longa saia feita de látex e de borracha é o caule da árvore, é a terra da qual todos nós fazemos parte, é o tom da natureza. Seu peso, sua textura e sua forma colaboram para esse panorama semântico de primeiríssima grandeza. A trilha sonora de João Schmid ajuda a espalhar os níveis da narrativa sem tirar dela a unidade, no que também é excelente.

O único ponto negativo de “Se eu fosse Iracema” diz respeito a um aspecto de fora da obra artística, mas essencialmente participante dela: o ar condicionado. O frio cortante que impera durante a sessão alonga a narrativa, retrai o envolvimento da audiência, agride o público. Esse é um problema comum no teatro carioca que precisa merecer mais atenção das produções. Não deve ser difícil olhar para a plateia e identificar nela a busca por casacos, o estalar de dedos e o enrijecimento corporal. A confortabilidade é, afinal de contas, um aspecto que, de um modo geral, ajuda no sucesso de um espetáculo. E poderia ter sido bem mais presente aqui.

Vida longa à “Se eu fosse Iracema” e às reflexões que essa peça suscita.

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FICHA TÉCNICA
Dramaturgia: Fernando Marques
Direção: Fernando Nicolau
Elenco: Adassa Martins
Iluminação e cenografia: Licurgo Caseira
Figurino e caracterização: Luiza Fradin
Trilha sonora original e desenho de som: João Schmid
Assistência de direção: LuCa Ayres
Direção de arte e projeto gráfico: Fernando Nicolau
Escultura do busto: Bruno Dante
Caracterização: Luiza Fardin
Fotografia: João Julio Mello (Imatra)
Direção de produção e produção executiva: Clarissa Menezes
Realização e produção: 1COMUM
Idealização: Fernando Nicolau e Fernando Marques

Enterro dos ossos (RJ)

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Foto: divulgação

Pierre Baitelli

Jô Bilac perdeu a mão?

“Enterro dos ossos” é a 23ª peça cujo texto é assinado por Jô Bilac. Tudo indica que, em breve, esse já premiado jovem dramaturgo estará ao lado de Dias Gomes (1922-1999), de João Bethencourt (1924-2006) e de Mario Bortolotto entre outros escritores para teatro cuja obra é numerosa no país. Trata-se porém de um de seus textos menos teatrais: sem narrativas, sem personagens, sem bases mínimas para uma relação dramática. No espetáculo dirigido por Camila Gama e por Sandro Pamponet, veem-se os atores se esforçando muito para oferecer algum sentido para a verborragia filosófica e pouco consistente das falas. Em trabalho elogiável, o elenco é composto por Erom Cordeiro, Hugo Bonemer, Julia Marini, Lidiane Ribeiro e por Pierre Baitelli. O desenho de luz de Renato Machado é o ponto alto da produção que saiu de cartaz, no último dia 1º de maio, no Teatro de Arena do Espaço SESC Copacabana.

Para ser lido, não encenado
A peça se organiza – nem parte de, nem chega a – a partir de um campo semântico vasto e consequentemente pouco claro. Nele estão o choque de dois buracos negros e a possível destruição da Terra, os movimentos de colonização de outros planetas, o fim da vida humana e/ou questões da ordem da sobrevivência, relações entre deus(es) e homens, pecado, ética, valores morais, sociedade... Uma sucessão de monólogos (há apenas um resquício de diálogo) expõe reflexões de Jô Bilac sobre esses temas que nem aprofundam um debate sobre eles, nem estabelecem uma situação onde o espectador é confrontado de alguma maneira. Perdida na busca por reconhecer o que está vendo, a audiência mais esforçada paira em um desconforto gratuito e egoico. A menos dorme na monotonia.

Nesse contexto, há a luta homérica de Camila Gama e de Sandro Pamponet em impregnar o texto de teatralidade a fim de sua encenação fazer algum sentido. É um trabalho bravo! Erom Cordeiro, Hugo Bonemer, Julia Marini, Lidiane Ribeiro e Pierre Baitelli capricham na exploração de modos diversos de dizer o texto, alternando ritmos, tons, expressões faciais e gestuais. Eles visivelmente tentam defender alguma lógica na estrutura dos monólogos, mas infelizmente, como um todo, “Enterro dos ossos” não oferece marcas de teatro do absurdo que lhes ampare nesse intento. Nem de pós-dramático! Trata-se de um texto para ser lido, não encenado - e não há nenhuma vergonha em ser posto ao lado dos diálogos de Platão, dos textos de Sêneca, de “La Celestina” ou de “La Dorotea”, para citar alguns casos célebres.

Renato Machado no esforço em dar a ver belas imagens 
O desenho de luz de Renato Machado colabora na construção de belas imagens que, ao lado da interpretação dos atores, são algum alento. O figurino de Camila Gama e o cenário de Sandro Pamponet também investem positivamente nas qualidades estéticas do visual do espetáculo. São boas tentativas de conexão entre o palco e a plateia que merecem ser valorizados embora o empenho faleça em meio à aridez.

Encantado pelas imagens que a palavra revela, Jô Bilac investe aqui em um modo de escrita que já modestamente apareceu nos seus “Infância, tiros e plumas” e “Fluxograma”. Pouco a pouco, ele se distancia de “Savana Glacial”, “Rebu”, “Matador de Santas”, “Conselho de Classe”, “Cucaracha”, “Beije minha lápide” e outros trabalhos que lhe trouxeram notoriedade. Para quem gosta de teatro e admira uma boa dramaturgia, dá pena! Será que ele está perdendo a mão?

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Ficha técnica

Texto: Jô Bilac
Direção: Camila Gama e Sandro Pamponet
Elenco: Erom Cordeiro, Hugo Bonemer, Julia Marini, Lidiane Ribeiro e Pierre Baitelli
Figurino: Camila Gama
Cenário: Sandro Pamponet
Luz: Renato Machado.
Direção de Produção: Camila Gama
Produção executiva: Bruno Fagotti e Nana Martins
Classificação 12 anos