quarta-feira, 4 de maio de 2016

França Antártica (RJ)

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Foto: divulgação

Dalmo Cordeiro, Amora Pêra, Leonardo Miranda, Mariana Mac Niven e Alberto Magalhães

Superficial

O espetáculo “França Antártica” terminou sua primeira temporada no Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, no último dia 1º de maio. Trata-se de uma comédia idealizada pelos Irmãos Brothers Band, com dramaturgia de Alberto Magalhães e de Cláudio Mendes e direção do segundo. Seu tema versa sobre a França Antártica, projeto francês de colonização do Brasil no século XVI. Não foi boa. A enorme preocupação da montagem em constituir quadros cheios de estética teatral faz a peça se distanciar do foco. Lúdico demais, tudo fica muito superficial, bobo, sem substância. O único trabalho de interpretação relevante é o de Amora Pêra em alguns momentos. Além dela, Marianna Mac Niven, Leonardo Miranda, Dalmo Cordeiro e Alberto Magalhães estão em cena apresentando certa habilidade com instrumentos musicais, mas nada além disso. Foi um programa dispensável na grade teatral carioca.

A França Antártica
A França Antártica foi uma passagem na nossa história muito mais séria do que o espetáculo revela. A história começa em 1550 por ocasião de uma “Festa Brasileira” realizada em Rouen, na Normandia, em homenagem ao rei francês Henrique II. O evento era uma organização dos investidores locais a fim de chamar a atenção do Delfim para a potencialidade comercial do Brasil. Desde o início do século, a França requisitava sua participação no Tratado de Tordesilhas por meio de visitas regulares ao Novo Mundo, de batalhas com os portugueses e espanhóis e de assaltos aos navios mercantes. Na época, 60kg de pau brasil custavam seis ducados, o equivalente hoje a 13 mil reais. Com o mesmo valor, se comprava um papagaio brasileiro que falasse francês, por exemplo. O rei ficou maravilhado com o que viu: exemplares da fauna e da flora brasileira, encenações teatrais, apresentação de mapas e o encontro com índios tupinambás. Assim, o vice-almirante Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1571) foi chamado para entrar na história.

Villegagnon era pessoa de confiança da monarquia francesa. Desde os tempos de Francisco I, ele atuava como oficial e diplomata em nome da França em missões contra os inimigos. A condecoração de Vice-Almirante, por exemplo, veio pelo sequestro da pequena rainha escocesa (católica) Mary Stuart, que depois se casou com o Rei Francisco II, filho de Henrique II, antes de voltar para Escócia e acabar morrendo na prisão da inglesa (anglicana) Elizabeth I. Em 1554, ele veio ao Brasil (a Cabo Frio) pela primeira vez e confirmou ao Delfim a urgência da exploração francesa no Novo Mundo. Dois anos antes, o governador geral do Brasil, o português Tomé de Souza, já havia tratado sobre o Rio de Janeiro com a coroa portuguesa. No entanto, Portugal conseguia manter muito modestamente Salvador e a recém fundada São Paulo de maneira que, em se tratando de Lisboa, o Brasil não oferecia aparentes dificuldades à suposta dominação França.

A grande questão do projeto França Antártica, porém, não era nem economia, nem cultura, mas religião. Essa era a bandeira principal das inúmeras batalhas que se travavam por lá desde o fim da Idade Média. Unida inicialmente pela expulsão dos muçulmanos, a Europa Católica Romana se dividiu. Houve a Reforma Protestante em 1517 na Alemanha, a Inglaterra rompeu com o Vaticano em 1534 e, na Suíça, aconteceu, em 1536, a publicação do livro “Instituição da Religião Cristã”, de João Calvino. Em 1545, Portugal e Espanha se uniram à Itália na defesa da Contrarreforma. No Leste Europeu, tinha os Otomanos. No norte da África, os muçulmanos e, por toda a parte, judeus, ciganos e pagãos que secretamente ainda desafiavam a Inquisição, mantendo suas práticas religiosas. Foi, nesse contexto, que Villegagnon chegou ao Brasil e se encontrou com índios: nus, sem práticas religiosas claras e (alguns) antropófagos.

Relativamente isolados na Ilha Serigipe (ou das Palmeiras), atual Ilha de Villegagnon, hoje colada no Aeroporto Santos Dumont, os franceses viveram aqui entre 1555 e 1560. Eles construíram um forte, estabeleceram boas relações com os índios Tamoios, mas nada além disso. Em meio a disputas internas, muitas delas por causa de questões religiosas das quais os europeus não se viam livres mesmo aqui, a França Antártica sucumbiu. Em 1560, liderada pelo Governador Mem de Sá, uma enorme frota portuguesa destruiu o forte de Villegagnon. Cinco anos depois, um tratado de paz entre portugueses e índios foi firmado e, em março de 1565, o Rio de Janeiro foi fundado por Estácio de Sá. Em 1567, os últimos franceses foram expulsos.

Dramaturgia superficial
A dramaturgia de “França Antártica” cobre essencialmente o período entre 1555 e 1560, utilizando interessantes relatos da época, reflexões contemporâneas e algumas músicas de lá e de cá. Não faz, porém, qualquer reflexão. No início da peça, a hipótese de que, por pouco, o Brasil não teve ascendência francesa não sofre qualquer revisão ao longo da encenação. Em primeiro lugar, o Portugal que chegou aqui em 1500 e a Espanha que mais andou através de nossos rios ao longo do século XVI eram grandes e poderosas nações intercontinentais das quais todos tinham medo.

Em segundo lugar, se com Napoleão a França teve militarmente algum destaque no início do século XIX, na época de Villegagnon, era uma nação dizimada por suas próximas questões internas. A França Antártica não foi, ainda por cima, um projeto social, mas se restringiu à construção de um forte militar. Por fim, não havia contexto possível para a viabilização da utopia da liberdade de culto cristão aqui, lembrando ainda de que Villegagnon não era menos colonizador que os portugueses e espanhois.

Em seu desenvolvimento, o texto de “França Antártica”, assinado por Alberto Magalhães e Cláudio Mendes, colore algumas passagens, mas se exime de oferecer algo mais relevante ao contexto de aniversário de 450 anos do Rio de Janeiro.

Problemas na encenação
A encenação dirigida por Cláudio Mendes se esforça em promover quadros estéticos interessantes, mas tem responsabilidade nos desméritos do espetáculo. Amora Pêra, Marianna Mac Niven, Leonardo Miranda, Dalmo Cordeiro e Alberto Magalhães interpretam figuras neutras que assumem diferentes personagens em cada novo quadro. Logo no início, a peça deixa de ser sobre a França Antártica e passa a ser sobre como os muitos elementos cenográficos (além de figurinos e adereços) vão se envolver com a dramaturgia. De um modo geral, as ações repetem o texto: a encenação ilustra o que está sendo dito redundantemente. O ritmo, assim, se alonga cansativamente.

No âmbito das interpretações, o resultado é ainda mais problemático. Não estão visíveis trabalhos de voz e de corpo e, como o texto não se aprofunda, as atuações ganham maior responsabilidade. No elenco, se vê habilidade no uso de instrumentos musicais, mas pouco além de boas intenções e algum carisma. A única exceção positiva é Amora Pêra em cujas participações se reconhecem ações mais claras, expressões mais pontuais e possíveis níveis semânticos melhor sugeridos.

Uma pena!
“França Antártica” tem cenários e figurinos de Carlos Alberto Nunes, iluminação de Aurélio de Simoni e direção musical de Marcelo Caldi sem destaques relevantes O jogo entre canções contemporâneas com referências ao idioma francês e tupi colabora negativamente com a superficialidade da obra, mas, dentro da proposta, o resultado é bem apresentado.

Talvez melhor recebida no universo do teatro para crianças ou do teatro de rua, dois gêneros específicos e igualmente respeitáveis, a produção surgiu prejudicada pelos desafios que ela mesma não enfrentou. Uma pena!

*

FICHA TÉCNICA
Idealização: Irmãos Brothers Band
Dramaturgia: Alberto Magalhães e Claudio Mendes
Direção: Claudio Mendes
Argumento e Pesquisa: Alberto Magalhães
Elenco / Personagens:
Amora Pêra / Tupinambá, Índia Guerreira, Ministro Du Pont, Português
Mariana Mac Niven / Tupinambá, João Cointa, Evangélico, Artesão, Francês
Alberto Magalhães / Tupinambá, Villegagnon, Índio Velho, Intérprete, Português
Dalmo Cordeiro / Tupinambá, Villegagnon, Emissário de Genebra, Ministro Cartier, Francês
Leonardo Miranda / Tupinambá, Villegagnon, Ministro Richier, Manobreiro, Juiz
Direção Musical: Marcelo Caldi
Cenário e Figurinos: Carlos Alberto Nunes
Iluminação: Aurélio de Simoni
Fotos: Claudia Ribeiro
Programação Visual: Gio Vaz
Direção de Produção: Pagu Produções Culturais – Equipe: Carolina Bellardi e Juliana Soares.
Assistente de Direção Musical: Roberto Kauffmann
Assistência Cenário e Figurinos: Arlete Rua
Patrocínio: Banco do Brasil
Projeto: Dalmo Cordeiro
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

segunda-feira, 2 de maio de 2016

A tropa (RJ)

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Foto: divulgação

Otávio Augusto

Excelente espetáculo provoca reflexão essencial

O excelente “A tropa” terminou sua primeira temporada no último domingo, dia 1º de maio. Ele esteve em cartaz no Teatro III do Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, mas deve voltar à programação teatral em breve. Escrito por Gustavo Pinheiro, o texto foi o vencedor da etapa carioca da 7ª edição do Concurso de Dramaturgia Seleção Brasil em Cena. Dirigida por César Augusto, a peça teve Alexandre Menezes, Edu Fernandes, Rafael Morpanini e Daniel Marano no elenco ao lado de Otávio Augusto, todos em excelentes trabalhos. Na narrativa, o encontro de quatro irmãos no leito hospitalar onde o velho pai se aproxima da morte é oportunidade para o Brasil refletir sobre sua história recente. Eis uma audiência obrigatória não só para o público interessado em um bom espetáculo teatral, mas para todos aqueles que reconhecem a importância da análise da conjuntura política do nosso país nos últimos cinquenta anos.

Dramaturgia brilhante!
“A tropa” está longe de ser uma peça sobre dramas familiares e/ou conflitos de gerações. A dramaturgia faz do encontro entre o pai convalescente e os quatro filhos de idades diferentes uma arena onde pontos de vista diversos sobre a história do nosso país se chocam. De um lado, ruge o velho Coronel (Otávio Augusto), defendendo um mundo já considerado retrógrado por boa parcela da população. Nele, deve-se respeito incondicional (e cego) aos superiores, o poder representativo também detém a liberdade para reprimir, as diferenças sociais são consideradas uma marca da humanidade, uma espécie de sinal divino que é aceito e deve ser mantido. De outro, reagem gradativamente os mais jovens: a transformação no comportamento religioso, a luta pela igualdade de raças, gêneros e de orientações sexuais, as novas constituições de família, a democratização da informação e outras estruturas hierárquicas, institucionais e de redes sociais.

No texto de Gustavo Pinheiro, os segredos vão sendo regularmente revelados: os irmãos mais velhos sabem de coisas que os mais novos desconhecem, há quem saiba detalhes do passado dos pais, há o desabafar de frustrações por parte de todos em relação aos demais. Tudo isso é metáfora para a realidade que hoje vivemos no nosso país. O grito de “Golpe!” da presidente Dilma Roussef, reagindo contra o resultado do votação da Câmara dos Deputados em favor da abertura de processo de impeachment, liga 2016 a 1964 imediatamente. Por parte da população, a tomada de partido diante dessa realidade exige que o passado e o presente se encontrem. Nesse duelo, pontos de vista diferentes se chocam e eles quase não tem a ver com idade. Tratam-se de concepções de mundo diferentes.

O melhor da dramaturgia de “A tropa” é o modo como se pesam os dois lados opostos. Há doenças físicas, psicológicas e morais por todos os lados. Há também corrupção, ingenuidade e conjunturas problemáticas. Em outra direção, em momentos diversos, a defesa de cada aspecto acontece de modo inteligente, bem construído e capaz de criar ambiente equilibrado para o embate. Ao final, o espectador será capaz de reconhecer a posição da peça, mas sobretudo terá meios de identificar as estruturas argumentativas mais sutis que levaram à conclusão. No meio do caminho, terá conhecido personagens cheios de complexidade e que bem podem ser comparados a pessoas do mundo além da narrativa ficcional. Tendo se destacado entre os 265 textos que participaram do concurso, “A tropa” é brilhante!

Muitos méritos na direção de César Augusto
A direção de César Augusto garante os méritos da dramaturgia. A opção pelo palco em galeria, em que o público fica dos dois lados do espaço cênico, vendo a peça, mas também as reações da audiência do outro lado, pontua dois aspectos essenciais na montagem. O primeiro diz respeito ao imediatismo da obra, pois tudo o que está sendo dito em cena tem relação com o mundo além da peça, fora do teatro. O segundo oferece o aspecto humano para adiante do maniqueísmo, da simplória divisão de esquerda e de direita, mocinhos e vilões. Nos rostos da plateia, pairam as concordâncias e as discordâncias com o que está sendo dito, as transformações de suas opiniões, as reações frouxas e contidas, o envolvimento. Um segundo espetáculo acontece em paralelo ali e, por esse também, a direção é meritosamente responsável.
Elenco

Além disso, assistido por Raquel André, César Augusto apresenta um ótimo trabalho no conjunto de elenco. Otávio Augusto (Coronel) se destaca, mas Alexandre Menezes (o dentista Humberto), Rafael Morpanini (o jornalista Ernesto) e Daniel Marano (o caçula João Baptista) aproveitam bastante bem suas oportunidades. Os tempos são bem usados e as inflexões refletem a alternância de energias. Pouco a pouco, eles avançam da cordialidade à guerra, passando pela ironia, pelo desabafo, pela luta e também pela amizade. Edu Fernandes (o executivo Artur), pouco expressivo, mantém-se em construção inóspita, quase nada envolvido e modestamente envolvente.

Sucesso no figurino de Ticiana Passos
Os vinte e cinco anos do período da ditadura militar no Brasil ainda se refletem em nossa sociedade (infelizmente). Na peça, os filhos do Coronel rementem aos ditadores: Humberto de Alencar Castelo Branco, Artur da Costa e Silva, Ernesto Geisel e João Baptista Figueiredo. Ou seja, o hoje e o ontem ainda não tiveram sua filiação rompida. Em “A tropa”, essa relação se vê principalmente no cenário e no figurino.

No cenário de Bia Junqueira e no figurino de Ticiana Passos, os tons de verde evoluem também nas texturas quase invariavelmente. A concepção bem amarrada dá liga para o todo, criando ambiente e panorama férteis para a encenação. Das meias brancas de Humberto ao casaco de João Baptista, todos os detalhes parecem ter sido elaborado com vistas ao sucesso do espetáculo positivamente. São positivas as colaborações da luz de Adriana Ortiz e da trilha sonora de Rodrigo Marçal e do diretor.

“A tropa”, cujo título remete ao projeto de futuro que o passado planejou, nos questiona sobre o amanhã que hoje estamos decidindo. Ou melhor, estamos? Por hora, torcendo parra que a montagem ganhe nova temporada, vale a pena ver e aplaudir.

*

FICHA TÉCNICA – A TROPA
Texto: Gustavo Pinheiro
Direção: Cesar Augusto
Assistente de direção: Raquel André
Elenco: Otávio Augusto (Pai), Alexandre Menezes (Humberto), Daniel Marano (João Batista), Edu Fernandes (Artur) e Rafael Morpanini (Ernesto)
Produção local: João Eizô
Preparação corporal: Raquel André
Preparação vocal: Breno Motta
Cenografia: Bia Junqueira
Iluminação: Adriana Ortiz
Vídeo-registro: Diogo Fujimura
Figurinos: Ticiana Passos
Trilha Sonora: Cesar Augusto e Rodrigo Marçal
Fotos: Elisa Mendes
Escolas de Teatro Participantes: CAL-Casa das Artes de Laranjeiras, UNIRIO, Nós do Morro, Universidade Candido Mendes, Escola de Teatro Martins Penna

domingo, 1 de maio de 2016

Don Quichotte (SP)

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Foto: divulgação

Don Quichotte

Uma noite memorável no Theatro Municipal do Rio de Janeiro
A ópera “Don Quichotte”, do francês Jules Massenet, foi uma coprodução do Theatro São Pedro de São Paulo e do Theatro Municipal do Rio de Janeiro que se apresentou na segunda quinzena de abril na Cinelândia. Tratou-se de uma bela oportunidade para a celebração dos 400 anos de falecimento do espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616). Com suas duas partes publicadas em 1605 e em 1615, o romance “Dom Quixote de La Mancha” - que foi ponto de partida para o libreto dessa composição - é tido como um dos mais relevantes da história da literatura mundial. Com concepção e direção cênica de Jorge Takla, esse espetáculo exuberante teve belíssima direção musical e regência de Luiz Fernando Malheiro com majestosos figurinos de Fábio Namatame. O elogiável cenário de Nicolas Boni se inspirou nas gravuras do desenhista francês Gustave Doré (1832-1883) que ilustram a edição de 1863. O baixo americano Gregory Reinhart interpretou o papel título, a mezzo-soprano brasiliense Luisa Francesconi a personagem Dulcineia e o barítono carioca Eduardo Amir o Sancho Pança. Os três apresentaram desempenho excelente. Em cena, 59 pessoas entre solistas, coro e bailarinos além dos músicos da orquestra sinfônica fluminense fizeram da noite um evento memorável!

Jules Massenet e seu excelente “Don Quichotte”
Além da versão de Jules Massenet (1842-1912), escrita em 1909, há outras oito óperas baseadas no romance de Miguel de Cervantes. Essa, em especial, toma como principal inspiração o drama heroico “Le Chevalier de la longue figure”, do francês Jacques Le Lorrain (1856-1904), publicado em 1906. Composta em cinco atos, a ópera estreou em Mônaco em 19 de fevereiro de 1910, sendo a 31a entre as 34 óperas de Massenet. (Ele é também o autor de “Manon”, aquela que fez a cantora lírica brasileira Bidu Sayão (1902-1999), em 1937, ficar conhecida internacionalmente.) Em 1926, houve uma montagem brasileira de “Don Quichotte” que se apresentou em 6 de agosto no Theatro Municipal do Rio de Janeiro e cinco dias depois no Municipal de São Paulo.

Assim como as canções, a dramaturgia é belíssima e muito adequada ao momento de hoje: a ocasião dos 400 anos da morte de Cervantes. Isto porque a ópera “Don Quichotte”, apesar das diferenças com o romance, tem muito do espírito barroco. No fim do século XVI, as literatura de cavalaria estava fora de moda e as narrativas pastorais ganhavam a península ibérica contra-reformista. Entre outras coisas, por “pastoral”, se entende uma história em que o campo abriga (e é metáfora para) os grandes valores humanos. Em outras palavras, é onde o homem consegue ser mais efetivamente “imagem e semelhança de Deus”. “O Ameto” (1341), de Boccaccio, e “Arcádia” (1489), de Sannazaro, retomando a literatura grega e romana, faziam muito sucesso. Elas são prováveis inspirações para Cervantes escrever seu “La Galateia”, em 1585, romance que deu contorno completamente novo para o gênero pastoril. (Quase três séculos depois, Charles Baudelaire vai continuar o caminho começado por Cervantes.)

“La Galateia” e “Dom Quixote de La Mancha” são o início e o fim da carreira literária de Miguel de Cervantes (1547-1616). No meio disso, os reinados de Felipe II e de Felipe III, em que a arte – literatura, teatro, pintura, música – deram ao período o nome de Século de Ouro Espanhol, enfrentavam a problemática situação financeira do vastíssimo reino de Espanha. Os homens da península haviam morrido nas guerras, o dinheiro que partia das colônias afundava no oceano ou era surrupiado por uma nobreza corrupta, a fome a doença conviviam com o mágico (e falso) mundo onde o “sol nunca se punha” e a honra e a fé dignificavam a humanidade. O cavaleiro Dom Quixote é metáfora para todo esse quadro de contradição, de instabilidade e sobretudo de complexidade.

Belíssima narrativa
Na obra de Massenet, o Cavaleiro da Longa Figura é amado e repudiado pelo povo. Sua coragem e sua honra são ridicularizadas em alguns momentos, mas respeitadas em outros. O interior do personagem, em duelo com o que dele se vê, faz emanar naqueles com quem ele convive o que há de pior e também o que há de melhor. A cidade, onde as festas e a corrupção têm lugar, fica em oposição ao campo, onde ladrões são purificados. Tal qual na comédia “As you like it” (1603), de William Shakespeare (que morreu exatamente um dia depois de Cervantes), mas com muito mais potência, a vida é uma ilusão, o mundo é um teatro e nos dois há donzelas cortesãs e ferozes moinhos de vento.

A canção “Quand la femme a vingt ans” abre a cena com força, alegria e pujança. Ela mostra a exuberância da cultura espanhola através principalmente de um belíssimo número de da dança flamenca e da beleza da cortesã Dulcineia (Luisa Francesconi). Entram Don Quichotte (Gregory Reinhart) e Sancho Pança (Eduardo Amir) quando se ouve “Quand apparaissent les étoiles”. Um duelo inicia entre seus admiradores, mas é desfeito por Dulcineia que desafia o Cavaleiro a restituir-lhe um colar de pérolas que lhe foi roubado. Ele aceita o desafio e sai. Na cena seguinte, depois de brigar com moinhos de vento, que acredita serem inimigos gigantes, Don Quichotte é atacado por bandidos, mas reza a Deus para que Ele perdoe suas almas (“Seigneur, reçois mon âme, ele n’est pas méchante”). Isso modifica as almas dos ladrões. Eles se arrependem e são abençoados por quem queriam matar. Antes de sair, entregam a Don Quichotte um colar de pérolas, o mesmo que pertencia à Dulcineia.

No quarto ato, Don Quichotte volta à cidade para mostrar que venceu o desafio dado e pedir a mão de Dulcineia. Diante de todos, ela o rejeita. Sozinha com ele, pede-lhe desculpas em “Oui, je sofre votre tristesse, et j’ai vraiment chagrin à vous désemparer”, o beija e mantém a negativa. Desolado, Don Quichotte se retira com Sancho Pança e morre. Depois da belíssima canção “Prends cette île”, o público vai embora condoído por ter visto o bem em um homem e o mal na humanidade.

Luisa Francesconi

A exuberância da montagem dirigida por Jorge Takla
A montagem dirigida por Jorge Takla tem a exuberância que é comum de se encontrar em suas produções. Tudo é bonito, equilibrado e de extremo bom gosto. Há uma concepção estética que se mostra clara em sua potência. O cenário de Nicolas Boni, com as gravuras de Gustave Doré, revelam esse mundo cheio de sucessos e de fracassos, onde as pessoas já não se conhecem, mas seus nomes de família valem mais que suas posses. O campo e a cidade são lugares perigosos, mas a enorme Espanha é um lugar seguro para todos os espanhóis. E feliz em suas contradições religiosas, sociais e artísticas. As coreografias de flamenco de Nuria Castejón exploram esse aspecto positivamente. Há ainda o figurino esplêndido de Fábio Namatame e a luz de Ney Bonfante no todo para corroborar com essa imagem de sonho que Cervantes, Lorrain, Massenet e que Takla exortam no quadro narrativo.

Os solistas Gregory Reinhart (Don Quichotte), Luisa Francesconi (Dulcineia) e Eduardo Amir (Sancho Pança), mas também os personagens nos secundários, Roseane Soares, Marianna Lima, Anibal Mancini e André Rabello estão em excelentes trabalhos. O coro e a orquestra sinfônica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, regidos pelo maestro e diretor musical do espetáculo, Luiz Fernando Malheiro, completam os méritos da enorme produção com delicadeza, técnica e energia. Em tudo, é um belo trabalho.

400 anos
Não se comemoram 400 anos sem Miguel de Cervantes no mundo com “Don Quichotte”, mas se celebra seu descanso na eternidade com espetáculo digno da beleza de sua obra. Viva Cervantes!

*

SERVIÇO
DON QUICHOTTE – Ópera em cinco atos
CORO E ORQUESTRA SINFÔNICA DO THEATRO MUNICIPAL
Coprodução com o Theatro São Pedro (SP)
Música – Jules Massenet
Libreto – Henri Cain, com base na peça "Le Chevalier de La Longue Figure", de Jacques Le Lorrain, inspirada na obra de Miguel de Cervantes
Direção Musical: Luiz Fernando Malheiro
Regência: Luiz Fernando Malheiro e Pedro Messias
Concepção e Direção Cênica – Jorge Takla
Cenografia – Nicolas Boni
Figurino – Fábio Namatame
Desenho de Luz – Ney Bonfante
Coreografia – Nuria Castejón

Solistas:
Gregory Reinhart, baixo – Don Quichotte
Luiza Francesconi, mezzo-soprano – Dulcineia
Eduardo Amir, barítono – Sancho Pança
Roseane Soares, soprano – Pedro
Marianna Lima, soprano – Garcias
Anibal Mancini, tenor – Rodriguez
André Rabello, barítono – Juan
Coro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro
Maestro Titular – Jésus Figueiredo


Patrocínio:
BNDES

Apoio:
CVC Viagens e Turismo
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