quinta-feira, 21 de abril de 2016

Cinderella (SP)

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Crítica publicada pela primeira vez em: http://teatroemcena.com.br/home/critica-cinderella-teatro-alfa-sp/?platform=hootsuite

Foto: divulgação

Bianca Tadini

Musical encantador!

"Cinderella" é a versão brasileira do musical da Broadway escrito por Douglas Carter Beane a partir do conto do francês Charles Perrault (1628-1703). Com músicas de Richard Rodgers e letras de Oscar Hammerstein II, a mesma dupla de autores de "A noviça rebelde", a narrativa dessa produção remete àquela produzida pela emissora americana CBS. Veiculado ao vivo na noite de 31 de março de 1957, o espetáculo protagonizado por Julie Andrews foi assistido por 107 milhões de pessoas ao mesmo tempo. Quase sessenta anos depois, esse recorde de audiência da televisão dos Estados Unidos foi poucas vezes batido. Assinado por Charles Möeller e por Claudio Botelho, a produção da Fabula Entretenimento é protagonizada pelos ótimos Bianca Tadini e por Bruno Narchi ao lado das excelentes Totia Meireles e Ivanna Domenyco e de grande elenco. Mais uma vez bastante elogiáveis, o visagista Beto Carramanhos, a figurinista Carol Lobato e o cenógrafo Rogério Falcão, que recentemente estiveram em "Kiss Me, Kate! – O beijo da megera", repetem a vibrante parceria agora ao lado de Maneco Quinderé, que assina o belíssimo desenho de luz; e da Mazefx, os magníficos efeitos visuais. A peça está em cartaz desde março no Teatro Alfa, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo.

Uma das maiores audiências da TV americana na história
Autor das versões para teatro musical dos filmes "Xanudu" e "Mudança de Hábito", Douglas Carter Beane fez modificações no roteiro de "Cinderella" de Richard Rodgers e de Oscar Hammerstein II. Suas alterações não foram unanimemente bem aceitas e talvez tenham sido uma das causas para a temporada da Broadway ter durado apenas um ano e oito meses em 770 apresentações. Lançada em março de 2013, a peça foi a primeira versão oficial do show para TV produzido em 1957. Ela recebeu nove indicações ao Tony Awards, mas ganhou apenas a de Melhor Figurino. Caso parecido já havia acontecido antes com outra produção.

No fim de 1955, Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, que já haviam assinado enormes sucessos como "Oklahoma!" (1943) e "The King and I" (1951), amargaram seu maior fracasso: o musical "Pipe Dream". Tratava-se de uma adaptação para palco de dois livros de John Steinbeck, "A rua das ilusões perdidas" e sua continuação "Doce Quinta-Feira". A jovem atriz inglesa Julie Andrews, que tinha chamado a atenção da Broadway na temporada americana de "The Boyfriend", havia sido cogitada para o papel da prostituta Suzi. Ela, no entanto, preferiu a personagem Eliza Doolitle, o papel título em "My fair lady", que estava sendo produzido. Com nove indicações ao Tony e somente a estatueta de Melhor Figurino – como "Cinderella" em 2013 – "Pipe Dream" não viu na premiação uma possibilidade de alavancar o público que não comparecia ao teatro. E saiu de cartaz deixando largas dívidas.

Por isso, em 1956, o convite da CBS para Rodgers e Hammerstein II de adaptarem para TV o conto de Charles Perrault veio financeiramente a calhar. Além disso, "Cinderella" foi a oportunidade para Julie Andrews de, no meio da temporada de "My fair lady", pela primeira vez, aparecer diante das câmeras. E também de trabalhar com aqueles que viriam a ser anos depois os autores de sua Maria von Trapp em "The Sound of Music", eternizada por ela no cinema em 1965.

Os ensaios para a versão original de "Cinderella" duraram seis semanas no fim do inverno de 1957. 56 atores aparecem em cena, 33 músicos participam da orquestra, 80 técnicos estavam envolvidos com a gravação, mais de cem figurinos foram usados. Enquanto as quatro enormes câmeras gravavam uma cena, em outra parte do estúdio, preparava-se a próxima. As roupas eram trocadas de um quadro a outro em um esforço imenso para esconder cabos, refletores, equipe. Ao vivo para todo os Estados Unidos, em emissões em preto e branco e a cores, o show foi visto, ao mesmo tempo, por sessenta por cento das televisões ligadas. Atualmente, essa é a quarta maior audiência da história da TV americana. A final do campeonato de futebol de 2015 (Super Bowl 50) foi vista por 114,4 milhões de pessoas e está em primeiro lugar. Apenas sete milhões a mais.

As boas colaborações ao roteiro de Douglas Carter Beane
Na adaptação de Beane, o aspecto político concorre com a história fantasiosa. Se, no original da CBS, a beleza de Cinderella dá novo sentido à vida do triste príncipe Christopher, na Broadway, é sua humanidade. Nessa versão, saíram da narrativa o Rei e a Rainha e entrou o Primeiro Ministro. Se lá, o casamento é um modo de espantar o tédio, aqui trata-se de um jogo político bem tramado. No texto de Beane, surge ainda Jean-Michel, um camponês disposto a lutar pelos menos favorecidos no reino e contra a monarquia.

As alterações no roteiro dividiram as opiniões da crítica americana, mas aqui no Brasil elas deverão ser valorizadas. A enorme beleza das canções de Richard Rodgers e de Oscar Hammerstein II talvez não seriam bastante para vencer o açucarado conto de fadas em suas mais de duas horas e meia de espetáculo. As contribuições desse novo texto dão melhor corpo para a história, articulação eficaz com o hoje, mais ritmo à narrativa sem tirar a graça, a beleza e o encantamento. Os méritos estão intactos mesmo que um pouco diferentes.

As versões de Claudio Botelho driblam as desafiadoras letras de Oscar Hammerstein II: imagéticas, metafóricas, metrificadas. "Em meu próprio cantinho" ("In my own little corner"), "Ridículo" ("Impossible"), "Lamento das irmãs" ("Stepsister's lament"), mas principalmente "O baile real" ("The Prince is giving a ball") têm excelentes resultados. Com os mesmos méritos, estão a direção musical e regência de Carlos Bauzys e o desenho de som de Gabriel d'Angelo, mantendo no Brasil a feliz inclusão das canções "Eu, quem sou eu?" (originalmente composta para o musical Me & Juliet"), "A solidão da noite" (para "South Pacific") e "A tua canção" (para "Main street to Broadway").

Efeitos visuais da Mazefx causam impacto excelente
A direção de Charles Möeller foi, sem dúvida, essencial para a qualidade do resultado final dessa produção. O espetáculo tem ritmo, as cenas estão bem articuladas, o aspecto cômico convive bem com o político e com o fantasioso. Além disso, em "Cinderella", o aspecto "enchanted" que o musical herdou da extravaganza está preservado de modo brilhante. Nos últimos anos, o reinado de Möeller ao lado de Botelho no mercado dos musicais tem se confirmado produção após produção a partir de méritos como os que facilmente se veem aqui. Eis um motivo para o Brasil (e eles próprios) de se orgulhar(em).

Nas interpretações, Tiago Barbosa (o arauto Lorde Pinkleton), Carlos Capeletti (o Ministro Sebastian) e Bruno Sigrist (o camponês Jean-Michel) aproveitam bastante bem as oportunidades e alçam seus personagens para lugares de célebre destaque positivamente. Ivanna Domenyco (Fada Madrinha) e Giulia Nadruz (Gabrielle), com mais possibilidades, apresentam construções de enorme valor, enchendo a assistência com seus carismas e ótimas atuações. Totia Meirelles (Madrasta) domina as cenas com sua força, motivando a história a andar para frente. Bruno Narchi e Bianca Tadini, o Príncipe Topher e a CinderElla, sustentam bem a história que gira em torno de seus personagens.

Com coreografias assinadas por Alonso Barros, visagismo por Beto Carramanhos, figurinos por Carol Lobato e cenário por Rogério Falcão, "Cinderella" brilha nos elementos estéticos: visuais, sonoros, cênicos. O conjunto de interpretações do elenco principal e daqueles que compõem o coro fazem ótima dupla com a evolução de cores, formas e de texturas e com as sonoridades que se contemplam através da dança e do canto. Porém, os efeitos visuais da Mazefx, ao lado da iluminação de Maneco Quinderé, alargando o palco e fazendo com que as cenas invadam a plateia, são o maior destaque do todo, causando sublime impressão. Aplausos!

O peso da responsabilidade
Richard Rodgers, Oscar Hammestein II, Julie Andrews no passado assim como hoje Totia Meirelles, Maneco Quinderé, Alonso Barros, Rogério Falcão, Beto Carranhos, Carol Lobato - além de Claudio Botelho e Charles Möeller - têm cada vez maior responsabilidade na medida em que suas produções vão colhendo sucesso merecido. Ainda bem que a força deles em sustentar tal pressão sobe também. Quem ganha com essa bela produção de Renata Borges e de Raphaela Carvalho, da Fabula Entretenimento, é o público brasileiro. Parabéns!

*

Ficha técnica:
Músicas de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II
Texto: Douglas Carter Beane
Versão brasileira: Claudio Botelho
Direção: Charles Möeller
Direção musical: Carlos Bauzys
Figurinos: Carol Lobato
Visagismo: Beto Carramanhos
Luz: Maneco Quinderé
Efeitos visuais: Mazefx
Desenho de som: Gabriel d'Angelo
Cenários: Rogério Falcão
Coreografia: Alonso Barros
Coordenação Artística: Tina Salles
Gerente de Produção: Rômulo Sales
Realização e Direção Executiva: Renata Borges
Produção Executiva: Raphaela Carvalho
Realização: Fabula Entretenimento

Elenco:
Bianca Tadini (Cinderella)
Bruno Narchi (príncipe)
Totia Meireles(Madame, a Madrasta)
Ivanna Domenyco (Marie, a fada madrinha)
Bruno Sigrist (Jean-Michel)
Raquel Antunes (Charlotte)
Giulia Nadruz (Gabrielle)
Tiago Barbosa (Lorde Pinkleton)
Carlos Capeletti (Sebastian)

Laura Visconti (aldeã, convidada do baile)
Letícia Mamede (aldeã, convidada do baile)
Lia Canineu (aldeã, convidada do baile)
Luana Bichiqui (aldeã, convidada do baile)
Naomy Schölling (aldeã, convidada do baile
Talitha Pereira (aldeã, convidada do baile)
Maria Netto (aldeã, convidada do baile)
Diego Luri (cavaleiro, aldeão, tabelião)
Fábio Saltini (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Fernando Palazza (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Marcelo Vasquez (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Nick Vila Maior (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Philipe Azevedo (cavaleiro, aldeão, convidado do baile)
Thati Abra (swing)
Willian Sancar (swing)

O musical conta ainda com os bailarinos Aline Campos, Luana Villaça, Mariana Amaral, Otávio Portela, Patrícia Castagna, Pedro Antunes, Ricardo Mesquita eThiago Garça.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Myrna sou eu (SP)

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Foto: João Caldas

Nilton Bicudo

Nilton Bicudo em ótimo trabalho de interpretação

"Myrna sou eu – Consultório sentimental de Nelson Rodrigues" é a mais nova incursão do diretor Elias Andreato no universo desse heterônimo rodriguiano. O personagem, que recentemente foi vivido por Luciana Borghi, agora chega ao Rio de Janeiro em espetáculo muito melhor. Com Nilton Bicudo em ótima atuação, o monólogo estreou em junho de 2013 em São Paulo e está aqui em cartaz, desde 6 de abril, no Teatro Poeira, em Botafogo. É a adaptação da coluna "Myrna Escreve" publicada no jornal carioca Diário da Noite entre março e outubro de 1949 reunida no livro "Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo", da Companhia das Letras. Um ótimo momento da programação teatral carioca na temporada.

A dramaturgia e a direção de Elias Andreato
"Myrna sou eu" é baseado na coluna que anonimamente Nelson Rodrigues (1912-1980) manteve no jornal Diário da Noite. Nessa, o escritor, travestindo-se de uma consultora sentimental, respondia a cartas reais e ficcionais sobre problemas amorosos. Quase nada se sabia sobre quem era Myrna, identidade que se manteve misteriosa também como proposta de marketing. Em mais uma oportunidade dos leitores conferirem esse enorme talento para a escrita, os textos celebram o amor como marca indelével da natureza feminina. Além disso, revelam um conjunto de valores e de situações de toda a ordem que retratam parte do Brasil no fim dos anos de 1940.

Muito mais limpo e ágil que a abordagem anterior, essa nova adaptação de Elias Andreato para a coluna de Myrna agora está positivamente focada nas respostas que a personagem dá às cartas que recebe. Esse é um mérito da dramaturgia. No entanto, se esse espetáculo ainda demora um pouco a engrenar, é porque leva um certo tempo para a plateia entender seu lugar na conversa entre a peça e o público. Eis um desafio da direção que é vencido pelo ator Nilton Bicudo.

Em primeiro lugar, a Myrna da proposta original escreve a pessoas que não vê. Mas, em "Myrna sou eu", enquanto a personagem fala com ouvintes que não vê, também se dirige claramente ao público presente no teatro que vê. Percebe-se que o espetáculo assume esse duplo interlocutor da conversa na medida em que Myrna inclui os espectadores no movimento de olhares, na disposição das intenções das falas, nas reações fleumáticas e na postura sempre virada para a frente. A peça, nesse sentido, parte de um lugar indefinido: ela acontece no interior de um estúdio de rádio que hora se parece um programa de auditório, ora não. E essa indecisão causa um estranhamento que emperra a narrativa no início, resolvendo-se com o tempo.

Em segundo lugar, e aqui um aspecto positivo da direção de Andreato, diferente dos leitores do jornal Diário da Noite, o público da peça "Myrna sou eu" vê quem responde às cartas, vê Myrna. Essa alternativa dramatúrgica modifica radicalmente o contexto da conversação, mas é uma opção plenamente bem resolvida. Substitui-se o mistério do fato jornalístico, sem se excluir o enigma, mas ainda acrescentando-se a graça. O enorme mérito da interpretação de Nilton Bicudo, vencendo os desafios da primeira instância, oferece graça o suficiente para fruir-se "Myrna sou eu" com positiva fluência da metade da peça em diante.

Nilton Bicudo em ótima interpretação
Nilton Bicudo está em ótimo trabalho de interpretação. As palavras de Nelson Rodrigues parecem saborosas em sua boca, as imagens do texto são bem apresentadas, as narrativas têm movimentos no todo e em cada parte. Em todo o monólogo, vê-se o universo particular das cartas que a personagem Myrna comenta, mas mais do que isso suas respostas dão a ver uma parte de si própria. Esse jogo, bem construído pelo ator e pela direção de Andreato assistido por André Acioli, vai envolvendo a audiência pouco a pouco com méritos que dizem respeito ao ritmo e sobretudo à hierarquização dos sentidos.

O cenário do diretor e o figurino de Fabio Namatame, com visagismo de Allex Antonio e de Emi Sato, acrescentam positivamente valores ao quadro visual. De um lado, a época está em relativamente bem definida: a história se passa na primeira metade do século XX. De outro, o cenário, embora em conflito inicial com a encenação, conforme apontado anteriormente, dá a ver um lugar que é misto entre estúdio de uma rádio e escritório de trabalho. São boas as participações da iluminação assim como da trilha sonora, cuja parte original foi composta por Jonatan Harold.

Vale a pena!
Talvez os valores morais que contextualizavam a coluna de Myrna no jornal tenham mudado para a maioria do público. Nesse sentido, para essas pessoas, a contribuição de Nelson Rodrigues através dessa abordagem tão bem feita, vale como ponto de referência para a avaliação dos dias contemporâneos. De qualquer modo, trata-se de um dos pontos mais altos de nossa literatura e um ótimo momento no teatro carioca. Vale a pena ver "Myrna sou eu".

*

Ficha Técnica:
Texto: Nelson Rodrigues
Adaptação, Roteiro e Direção: Elias Andreato
Diretor Assistente: André Acioli
Interpretação: Nilton Bicudo
Trilha Sonora Composta: Jonatan Harold
Figurino: Fabio Namatame
Visagismo: Allex Antonio
Cenografia: Elias Andreato
Fotos: João Caldas
Projeto Gráfico: Vicka Suarez
Produção: Solo Entretenimento
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação

quinta-feira, 14 de abril de 2016

33 Variações (RJ)

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Foto: Airton Silva


Nathalia Timberg e Tadeu Aguiar

Nathalia Timberg em excelente espetáculo
O excelente “33 Variações” está saindo de cartaz no próximo domingo, dia 17 de abril. A peça inaugurou o belo e confortável Teatro Nathalia Timberg, no Centro Comercial Freeway Center, na Barra da Tijuca, com ela própria no elenco como protagonista. Escrito em 2007 pelo venezuelano Moyses Kaufman, o texto fez muito sucesso na Broadway quando trouxe de volta aos palcos a atriz Jane Fonda, afastada deles por quase quarenta e cinco anos. Ele narra a história da musicóloga Katherine Brandt que, enfrentando uma doença terminal, parte corajosa para a Alemanha. Lá ela quer descobrir a origem do interesse de Ludwig van Beethoven (1770-1827) em uma composição de Anton Diabelli (1781-1858) que ela considera medíocre. Em cena, ao lado de Natalia Timberg, está o dono da casa e diretor do espetáculo Wolf Maya. E também Tadeu Aguiar, Lu Grimaldi, Flavia Pucci, Gil Coelho, Gustavo Engracia e mais quatorze atores. A participação do pianista Silas Barbosa é outro grande momento do trabalho, bem como o majestoso cenário de J.C. Serroni. Eis uma produção sensível, delicada e grandiosa que vale a pena ser vista!

Uma dramaturgia emocionante
O texto de Moyses Kaufman é brilhante. O empenho de Katherine Brandt (Nathalia Timberg) em descobrir o que levou Ludwig van Beethoven (Wolf Maya), entre 1819 e 1823, a paralisar a composição de sua Missa Solene para se dedicar às variações da valsa de Anton Diabelli (Tadeu Aguiar) é apenas uma parte da dramaturgia. Há ainda a relação da protagonista com sua filha Clara Brandt (Flavia Pucci) e dessa com o enfermeiro Mike Clark (Gil Coelho). E a de Beethoven com Diabelli mediada por Anton Schindler (1795-1864) (Gustavo Engracia), secretário do primeiro. No entanto, não é nelas que está a história principal de “33 Variações”.

A peça é sobre a importância de exercer um olhar sobre as coisas e sobre as pessoas que seja menos centrado em nós mesmos. Forçada física e intelectualmente a esse desafio, Katherine Brandt redescobre o mundo. E nos emociona! Personagens reais e fictícios em uma trama cuja pesquisa histórica e urdimento são pontualmente bem marcados são convite para o homem refletir sobre si próprio e seu entorno. Um trabalho emocionante!

Escrito em 2007, a montagem de 2009 da Broadway recebeu quatro indicações ao Tony Award e mais o troféu de Melhor Cenário. Jane Fonda interpretava a protagonista.

Um dos melhores trabalhos de direção de 2016
A direção de Wolf Maya é firme, madura, delicada, respeitosa e corajosa. “33 Variações” atravessa o tempo tão lenta quanto preocupada em construir beleza. São duas horas e quarenta minutos de espetáculo, uma trajetória longa e difícil a que raros diretores se aventuram e mais raros ainda são aqueles que conseguem ótimo resultado como aqui é o caso. O texto bem dito por todos os atores em excelente conjunto de atuações e os elementos estéticos bem articulados no panorama geral garantem a atenção cena após cena. Injustamente acusada de se aproveitar de Kaufman para exibir a potencialidade do seu teatro recém inaugurado, a direção, na verdade, parece ter percebido que, sem cadeiras que ascendem do porão, grandes cenários que entram e saem, e sem cenas que usam cada canto do espaço cênico, seria difícil alimentar bem o interesse contemporâneo por uma peça inteiramente ilustrada por composições eruditas para piano.
Wolf Maya

Renovando-se através de confortável aparato cênico, a montagem não se despreocupou do que é essencial. Os três núcleos dramáticos de “33 Variações” – Beethoven, Schindler e Diabelli; a responsável pelos diários do compositor, Dra. Gertrude Ladenburguer (Lu Grimaldi) e Katherine Brandt; Clara Brandt e Mike Clark – apresentam cenas cheias potência. Os quadros se dão a ver através de marcas claras, os diálogos têm intenções limpas e tempos bem equilibrados, as articulações são fluentes. O elenco de apoio composto por quatorze atores colabora com a profundidade dos momentos, reforçando com realismo o movimento da narrativa. Wolf Maya apresenta aqui um dos melhores trabalhos de direção de 2016, sem dúvida.

O brilho de Nathalia Timberg
Gil Coelho (Mike Clark) colabora com enorme carisma, Tadeu Aguiar dá força para seu Anton Diabelli sobreviver bem ao que os demais personagens dizem dele, Gustavo Engracia (Anton Schindler) oferece ótimo contraponto para Beethoven. Lu Grimaldi (Dra. Gertrude Ladenburguer) acrescenta nobilíssima profundidade a sua personagem menor e Flavia Pucci tem o mérito de defender sua Clara Brandt contra qualquer facilidade, viabilizando-a com a complexidade adequada ao texto. Wolf Maya vence o desafio Beethoven em sua fase final, regulando loucura e epifania, força e foco.

Nathalia Timberg, prestes a completar 87 anos de vida e 62 anos de carreira no teatro profissional, está em excelente forma. Ela apresenta aqui um trabalho majestoso, agarrando todas as oportunidades para fazer brilhar sua Katherine Brandt com determinação, cuidado e êxito. Sua voz é clara, sua presença é forte, sua interpretação dá a ver as modificações pelas quais passa a longa narrativa de “33 Variações”. Eis aqui uma atuação imperdível!

A peça tem ainda vibrantes colaborações do figurino de Tatiana Rodrigues, do visagismo de Marcelo Dias e da iluminação de Aurélio de Simoni. O jogo entre as épocas nas quais a história acontece ganha crédito no empenho valoroso ao realismo. O cenário de J.C. Serroni, com pompa e circunstância, divide o melhor destaque da encenação com a direção musical de Natalia Trigo em que participa o piano de Silas Barbosa.

“33 Variações” é teatro da melhor qualidade em casa de espetáculos igualmente elogiável. Aplausos!


*

FICHA TECNICA
Texto: Moyses Kaufman
Tradução: Nathalia Timberg
Concepção e direção: Wolf Maya
Elenco: Nathalia Timberg, Wolf Maya, Tadeu Aguiar, Lu Grimaldi, Flávia Pucci, Gil Coelho e Gustavo Engracia
Elenco de apoio: Caio Ruas, Armando Amaral, Duda Ramos, Milene Cauzin, Claudio Pitanga, Rafael Siano, Filipe Goulart, Marcus Quaresma, Valentina Garcia, Talita Feuser, Allan Bergantinne, Victor Losso, Viviane Vieira e Zeca Vaz
Pianista Convidada: Clara Sverner
Pianista: Silas Barbosa
Cenografia: J. C. Serrone
Iluminação: Aurelio De Simoni
Figurinos: Tatiana Rodrigues
Visagismo: Marcelo Dias
Direção musical: Natalia Trigo
Videografismo e projeções: Rico Vilarouca e Renato Vilarouca
Direção de produção: José Luiz Coutinho
Assistente de direção: Hudson Glauber
Fotos: Guga Melgar
Assessoria de imprensa: Minas de Ideias
Produção Executiva: Larissa Benini