quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Lampião e Lancelote (RJ)

Foto: divulgação
Marcos Damigo e Fabio Lago

 Belíssimo!


                “Lampião e Lancelote” é um dos melhores espetáculos brasileiros de 2013, com vários prêmios, incluindo o troféu Bibi Ferreira de Melhor Musical Brasileiro. Escrito a partir do premiadíssimo livro homônimo de Fernando Vilela, a peça dirigida por Debora Dubois narra o fictício encontro entre o lendário cavaleiro Lancelote, da Europa Medieval, e o cangaceiro Lampião do sertão nordestino. Qual dos dois é mais valente? O Narrador, interpretado por Cássio Scapin, conduz a história adaptada por Braulio Tavares e protagonizada por Fabio Lago e por Marcos Damigo. Zeca Baleiro assina a trilha original e a direção musical dessa excelente produção que fez uma pequena temporada no mês de agosto no teatro do shopping Fashion Mall, mas merece maiores.

                A composição dos diálogos em verso espalha a musicalidade por todos os cantos dessa aventura cheia de significados. Parte das lendas medievais da Europa, o cavaleiro Lancelote (Damigo) precisava encontrar um inimigo que fosse tão bravo quanto ele. Foi a feiticeira Morgana (Vanessa Prieto) que, por amor ao herói, deu vida a essa possibilidade fantástica. Assim, um representante da Távola Redonda do Rei Arthur se vê diante do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, vulgo Lampião (Lago), e do seu bando composto por Maria Bonita (Luciana Carnieli). Líder de vários rebeldes do sertão nordestino, Lampião é acusado de vários crimes, mas também celebrado como alguém que ajudou para diminuir as injustiças sofridas pelos mais pobres de sua região. A civilidade da corte de Camelot versus a simplicidade e a dureza da caatinga são as bases que movimentam a história pela oposição dos elementos e pela equivalência das forças. Quem será o vencedor? Do livro de Vilela, à adaptação de Tavares, passando pela direção de Dubois e pela trilha sonora de Baleiro, chegando às interpretações e às demais contribuições estéticas da equipe envolvida, a produção se apresenta em potência imagética, cênica e musical, de altíssimo nível.

                O cenário de Duda Arruk aproveita várias possibilidades do palco, oferecendo cenas nos diversos níveis: os ao fundo e os mais próximos do público. Há cenas que surgem do chão e elementos dispostos no alto, entradas que estabelecem quadros diferentes bem articulados pela direção e bastante belos também. O figurino de Marcio Vinicius é rico em detalhes, variando nos tons prata e cobre para sustentar a oposição entre Lancelote e Lampião, mas também oferecendo novas possibilidades para o olhar nas cenas individuais. Nesse sentido, o ritmo não fica apenas sob responsabilidade, e mérito, das canções originais, mas positivamente surge como conceito da ótima direção e da iluminação de Debora Dubois.

                Não bastasse o sucesso de todos os elementos, a interpretação dos atores é excelente no conjunto e nas partes. Marcos Damigo dá a ver um Lancelote másculo, mas não menos ingênuo e gracioso, emprestando ao personagem a pele e os olhos claros. Fabio Lago viabiliza um Lampião decidido e vigoroso com a aspereza e a bravura do homem do sertão. Cássio Scapin dá vida para as cenas em que a história se apresenta, se narra e se finaliza com agilidade, envolvendo o público, oferecendo à figura o seu carisma conhecido pelos seus trabalhos na TV. A cena do diálogo entre os dois personagens-título emociona também pela forma como todos os personagens se envolvem, ocupando bem seus lugares na construção da história.

                A temporada de “Lampião e Lancelote” foi mais curta que os aplausos recebidos. Eis aqui uma produção a que se deve assistir.


*

FICHA TÉCNICA
Livre adaptação de Braulio Tavares do livro “Lampião & Lancelote”, de Fernando Vilela
Direção e Concepção: Debora Dubois
Música Original e Direção Musical: Zeca Baleiro
Assistente de Direção: Márcio Macena

Elenco - Personagem
 Cássio Scapin - Narrador
Fabio Lago - Lampião
Marcos Damigo - Lancelote
Luciana Carnieli – Maria Bonita
Vanessa Prieto - Morgana
Ale Pessôa – Stand In Lancelote e Bando de Lampião

Músicos: Ana Rodrigues e Bruno Menegatti
Cenário: Duda Arruk
Figurinos: Márcio Vinicius
Pesquisa e Arte Gráfica: Fernando Vilela
Iluminação: Debora Dubois
Fotografia: João Caldas
Preparação vocal: Tarita de Souza
Preparação corporal e coreografias: Roberto Alencar
Vídeo: Filmes Para Bailar
Direção Musical: Zeca Baleiro
Produção Musical: Fernando Nunes
Administração: Vanessa Campanari
Assistente de Produção: Nicole Marangoni e Vanessa Campanari
Produtores Associados: Debora Dubois, Edinho Rodrigues, Elza Costa, Vanessa Prieto
Direção de Produção: Brancalyone Produções Artísticas (Edinho Rodrigues e Elza Costa)
Realização: Brancalyone Produções
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

sábado, 6 de setembro de 2014

Dona Saudade (RJ)

Jaderson Fialho e Ivone Hoffman em cena
Foto: divulgação

Ivone Hoffman

“Dona Saudade”, dirigido por Camila Amado, é o espetáculo que tem Ivone Hoffman no papel título. O texto de Bernardo Florim conta a história de Luisa, filha de Saudade, cujo túmulo à beira-mar é procurado por seu filho adolescente Vicente. Com uma dramaturgia dividida em quadros, a peça, apesar do título, não celebra o passado, mas aponta para a necessidade de viver o presente em sua plenitude. Ao lado da interpretação de Hoffman, o cenário de Doris Rollemberg e a iluminação de Luiz Paulo Nenen são os pontos altos da produção que cumpriu temporada no Teatro 3 do CCBB.

A casa abandonada em frente ao mar se manteve esquecida há muitos anos. No passado, Saudade (Hoffman) e Luisa (Brigida Menegatti) moravam ali, a mãe assistindo à filha descobrir a juventude. Agora essas histórias motivam Carlos (Jaderson Fialho) a escrever sobre como ele próprio conheceu o amor com Luisa. Enquanto isso, do lado de fora da casa, Vicente (Fábio Cardoso) e Maria Isabel (Isabella Dionísio) procuram o lugar onde dizem ter sido enterrada a mãe dele enquanto ensaiam seus primeiros contatos sexuais. A dramaturgia de “Dona Saudade”, assim, estrutura um retrato recortado do desabrochar da vida sem fazer crítica, mas também sem se apresentar ingenuamente. O texto de Bernardo Florim tem o mérito de bem narrar, mas também de deixar que o público faça a sua leitura da narrativa.

Um dos aspectos mais positivos, a direção de Camila Amado, assistida por Anderson Aragón, conduziu com excelência o trabalho da personagem título. As voltas ao passado (Luisa) e os diálogos com o presente (Carlos) não manifestam alguma diferença na forma como Saudade se expressa. Ela parece sempre ter sido a mesma pessoa, alguém que foi também jovem, que sofre pela perda da filha, que tem recordações tristes e que se sente sozinha, mas cuja alegria parece não desaparecer. Dessa forma, Saudade funciona como uma base de abordagem por sobre os outros personagens, todos eles em bons trabalhos de interpretação. O ritmo, que permanece inalterado, posiciona um certo tipo de moldura que oferece a obra sem fechá-la. O resultado é positivo.

O cenário de Doris Rolemberg, dispondo o público em meia arena, coloca a narrativa em um lugar oxigenado, amplo, livre que contribui muito para a história que se passa em uma casa em frente ao mar. Não vemos a contrução, mas os blocos de diferentes tamanhos justapostos apontam simbolicamente para ela, para suas madeiras, para o seu abandono. Os vídeos (Gultavo Gelmini) são projetados em quadrados brancos próximos uns dos outros, mas não situados em mesmo nível, de forma que o todo da tela também não é plano. A iluminação de Luiz Paulo Nenén banha os personagens e, ao lado do cenário e dos vídeos, mas também junto do figurino em cortes simples e sem estampas de Luciana Cardoso e da trilha sonora simbolista de Marcelo Alonso Neves, parecem sustentar as cenas em planos acima do chão.

“Dona Saudade” faz da lembrança algo mais do que positivo, mas algo vital, que é parte da existência humana e que é ponto crucial de sua identidade. Com estrutura nada pretensiosa e cheia de méritos, a peça merece novas temporadas e aplausos. 

*

Ficha técnica:
Texto de Bernardo Florim
Com Ivone Hoffman, Jaderson Fialho, Brigida Menegatti, Fábio Cardoso e Isabella Dionísio
Direção: Camila Amado

Meu Deus (SP)

Dan Stulbach e Irene Ravache em cena
Foto: divulgação

Boa comédia

Estreou no Rio de Janeiro, “Meu Deus”, espetáculo dirigido por Elias Andreato com Irene Ravache e Dan Stulbach no elenco. A partir de texto da dramaturga israelense Anat Gov (1953-2012), a peça é ótima, mas não excelente. Em vários pontos, percebe-se que há um direcionamento interessante para as ações, mas que essas se rendem ao superficial ao invés de investir na complexidade infelizmente. Depois de quatro meses lotando plateias em São Paulo, o esplêndido sucesso se repete no Rio de Janeiro com vivas à Irene Ravache. Ela merece.

A protagonista Ana (palavra que pode ser lida igualmente da esquerda para direita e vice-versa) é uma psicóloga de meia-idade que mora com o filho adolescente com necessidades psicológicas especiais. Ela não acredita na existência de deus, mas, como qualquer pessoa, reza para a chuva vir molhar as plantas e alimenta a esperança de que um dia seu filho consiga falar. A peça se passa em um dia comum, quando Ana (Irene Ravache) recebe uma ligação estranha de uma pessoa não identificada insistindo para marcar uma consulta em caráter de emergência. Na sessão, ela (ou melhor, ele) revela ser Deus e desse encontro entre a terapeuta e o “Todo Poderoso” resulta toda a narrativa do espetáculo. O que faz Deus precisar ir a uma analista? O que Ana dirá ao seu paciente extraordinário? O que cada um de nós diria? O que cada um de nós ouviria? Não há dúvidas de que Anat Gov parte de um lugar dramático riquíssimo que suscita interesse, possibilita reflexões e gera emoção. A discussão a partir de trechos bíblicos, como o dilúvio e as chagas de Jó, aproximam a personagem terapeuta do público que também pode se interrogar sobre os fatos sagrados. O mais brilhante é que, separadamente, os dois personagens farão suas curvas dramáticas, pois o encontro representado na peça modificará ambos. O final tem, entre vários méritos, o de ser tocante.

No que diz respeito à encenação, porém, o resultado não é tão excelente. Dan Stulbach não constrói o mesmo personagem Deus com quem Ana (Ravache) fala. É como se fossem duas peças diferentes, duas concepções opostas. Irene Ravache deixa para a situação a responsabilidade da comédia, exibindo excelente resultado ao transformar o texto em diálogos críveis apesar da hipótese fantástica. Stulbach investe no caminho oposto. O tom de voz arrastado tenta dar a ver um pastor senhorial, uma figura caricata em que as crueldades apontadas por Ana são meros atos infantis. O olhar parado e as pausas longas deixam o texto continuar parecendo texto no palco infelizmente. Pedro Carvalho interpreta Paulo, o filho de Ana, vencendo o desafio de viabilizar com sensibilidade e discrição um personagem cuja única função é humanizar o de Ravache e o de Stulbach. A Andreato, assistido por Andréa Bassitt, cabe o mérito de ter apagado a maioria das marcas da direção, oferecendo um espetáculo que parece se contar sozinho, o que é positivo para o gênero comédia-dramática.

Todos os demais elementos se apresentam de forma positiva. Antônio Ferreira Júnior e Fause Haten apresentam cenário e figurino com discrição e toques sensíveis de elegância. A sala de Ana atende bem ao realismo, sem ser opulenta, mas com momentos de extremo bom gosto, com positivo destaque para os desenhos de Paulo na parede. A saia azul com linhas vermelhas horizontais da terapeuta dá a ela a casualidade da ambiência “casa” com a formalidade de uma sessão profissional que a elegância traz na medida certa. A iluminação e a trilha sonora (Wagner Freire e Jonatan Harold) envolvem a história com boas participações porque sutis.

Sem realmente emocionar, tampouco gargalhar, “Meu Deus” perde a oportunidade de ser uma das melhores produções da temporada. Seu sucesso, no entanto, ratifica os muitos valores que essa peça felizmente apresenta, os quais valem a pena ser conferidos. Viva Irene Ravache!

*

Ficha Técnica:
Texto: Anat Gov
Adaptação: Jorge Schussheim
Tradução: Eloísa Canton
Versão: Célia Regina Forte
Direção: Elias Andreato

Elenco:
Irene Ravache – Ana
Dan Stulbach – Deus
Pedro Carvalho – Paulo

Cenário: Antonio Junior
Figurino: Fause Haten
Iluminação: Wagner Freire
Trilha Sonora: Jonatan Harold
Assessoria de imprensa RJ: Barata Comunicação
Assessoria de Imprensa SP: Daniela Bustos e Beth Gallo - Morente Forte Comunicações
Programação Visual: Vicka Suarez
Fotos: João Caldas
Assistente de Direção: Andréa Bassitt
Assistente de Iluminação: Alessandra Marques
Assistente de Figurino: Gabriela Marumoto
Assistente de Fotografia: Andréia Machado
Assessoria Contábil: Marina Morente
Assistente de Produção: Celso Dornellas e Thaís Peres
Administração: Magali Morente
Produção Executiva: Kátia Placiano
Coordenação de Projetos: Egberto Simões
Produtoras: Selma Morente e Célia Forte
Realização: Morente Forte Produções Teatrais