quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Boca molhada de paixão calada (RJ)

Foto: divulgação

A boa dramaturgia de Leilah Assunção

A boa comédia “Boca molhada de paixão calada”, com texto de Leilah Assunção, estreou na Sala Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim, zona sul do Rio de Janeiro. Dirigida por Márcio Veira, a peça é a nova produção da Cia. Escaramucha, com Ana Berttines e Rômulo Rodrigues no elenco. A produção marca o aniversário de 70 anos da dramaturga paulista comemorados em 2013. Produzido pela primeira vez há vinte anos tem o mérito de bem unir, em sua complexa dramaturgia, um panorama histórico do Brasil no período da ditadura ao lado da exposição de conflitos de casal. O resultado é muito interessante.

Antônio e Camila são ex-marido e ex-mulher que combinaram de se encontrar em um apartamento para ver como anda o interesse sexual de um em relação ao outro. As tentativas de fazer sexo são interrompidas por lances de memória que levam os dois a passarem a limpo o casamento. O que poderia ser uma comédia banal se torna um roteiro riquíssimo de informações sobre os anos da ditadura do Brasil. O casal viveu ativamente esse período. Foram manifestantes de esquerda, se exilaram, viveram as drogas, a liberdade sexual, o feminismo. E tudo isso com o bom humor que marca o brasileiro mediano, aquele que fala mal da corrupção, mas também estaciona em lugar errado. Daí o sucesso da dramaturgia. Na plateia, o espectador sabe que suas referências estão sendo requisitadas, mas também deve reconhecer está sendo entretido. É um jogo divertido e complexo.

O trabalho de direção de Márcio Vieira traz dois desafios aos intérpretes, revelando seus bons trabalhos. Ao longo da encenação, Ana Berttines e Rômulo Rodrigues conseguem não deixar o ritmo cair apesar de “Boca fechada” partir de uma discussão e se manter assim com raros momentos de exceção. Além disso, os movimentos cênicos se resumem a um vira e mexe sem fim e sem propósitos claros das peças do cenário de Daniele Geammal. No quesito, a peça não tem bom resultado. Destacam-se o carisma dos dois atores, mas principalmente as quebras de intenções e as pausas de Berttines, garantindo ótimos momentos.

O cenário e o figurino de Geammal não são bons. Embora a trama se passe em um apartamento, a peça acontece em um lugar indefinido: sem janelas, com fotos estranhamente penduradas e com uma cortina de fundo que é sempre um cenário e nunca um signo para algo representativo. Um sofá-cama dividido em partes a la Polenguinho, com madeira pesada forrada de veludo molhado azul, encarrega o elenco de carregar suas fatias de um lado para outro sem possibilitar bons quadros estéticos. O vestido azul de malha tem um tom que se repete no sofá e que varia muito pouco da camisa masculina em um todo azul cansativo e pobre. Djalma Amaral, Zéza Julio e Daniel Cunha apresentam o desenho de luz, a trilha sonora e o visagismo sem relevância.

“Boca molhada de paixão calada” vale a pena ser visto porque, além dos bons trabalhos de interpretação, é a produção inédita de um texto de nossas mais importantes dramaturgas do teatro brasileiro contemporâneo. Além disso, com humor e criatividade a peça se insere plenamente na programação cultural que reflete os 50 anos de um dos períodos mis negros de nossa história, o Golpe Militar.

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FICHA TÉCNICA
Texto: Leilah Assunção
Direção e idealização: Márcio Vieira
Elenco: Ana Berttines e Rômulo Rodrigues
Iluminação: Djalma Amaral
Cenário e Figurino: Danielle Geamal
Direção Musical: Zéza Júlio
Visagismo: Daniel Cunha
Fotografia: Fernanda Sabença
Produção executiva : Cristiane Pimenta / KC Produções
Produção e realização: PRAMA COMUNICAÇÃO (Ana Berttines e Rômulo Rodrigues)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Casa da Morte (RJ)

Foto: divulgação
Fernanda Maia em excelente trabalho

Femín Cabal e a tortura no período ditatorial

 “Casa da Morte” é o novo espetáculo do grupo Teatro do Pequeno Gesto. A peça, dirigida por Antônio Guedes, é a versão brasileira do texto “Tejas verdes”, escrito em 2003, pelo consagrado dramaturgo espanhol Fermín Cabal, entre outras coisas co-roteirista de “Maus hábitos”, de Pedro Almodóvar. Em cartaz na Sala Multiuso do Espaço Sesc Copacabana, a produção integra a programação dos 50 anos do Golpe Militar de 1964, trazendo a história de uma jovem torturada nos porões da ditadura. Sem dúvida, o tema torna essa peça um roteiro essencial nesse ano de 2014.
Fermín Cabal escreveu o texto para marcar a sua participação nos 40 anos do golpe militar que depôs Salvador Allende da presidência do Chile. “Tejas verdes” é o nome de uma colônia de férias construída no fim dos anos 30 às margens do Rio Maipo, no Chile. Nos anos 50, a propriedade passou a ser administrada pelo exército. Com o advento da ditadura do General Pinochet, foi onde vários dos três mil mortos e desaparecidos do golpe militar daquele país tiveram o seu fim. Na peça de Cabal, conhece-se Colorina (Canarinho, na versão brasileira assinada por Fátima Saadi), uma jovem torturada até a morte em Tejas Verdes. Encontra-se também sua amiga e parceira de cela, sua delatora. Em seguida, a funcionária do cemitério público que a desenterrou e entregou seu corpo para a cremação. Depois, a médica que cuidou de seus documentos oficiais e, por último, a advogada de Pinochet que dá o seu parecer sobre a acusação de tortura naquele período histórico. Na versão do grupo Teatro do Pequeno Gesto, não há o último quadro, bem como qualquer outra marca que aproxime a peça da história do Chile. Antônio Guedes justifica os cortes, dizendo que a intenção foi tornar o texto plenamente relacionável à realidade histórica do Brasil. O resultado é que “Casa da Morte”, enquanto espetáculo, pode ser lido como o retrato da tortura que houve e que ainda há em qualquer país. As marcas identitárias do texto foram apagadas, mas, considerando o nosso período nacional de reflexão, o resultado da dramaturgia é positivo.


A dramaturgia se estrutura em monólogos e Priscila Amorim, Fernanda Maia e Marcos França estão no elenco, apresentando seus personagens em roupas neutras e com peles limpas, dirigindo-se para o público frontalmente sem nenhum outro elemento além da voz. Nessa encenação, toda a dramaturgia está unicamente no texto, sem que o teatro pareça oferecer algo além de poucas variações no tom, nas intenções e nas pausas. Porque “Casa da Morte” fala de tortura, a opção estética aponta positivamente para o peso que o texto tem por si só. No entanto, com isso, a responsabilidade dos atores aumenta muito. Priscila Amorim não consegue tirar sua Canarinho das sombras, usando um falar monocorde, sem expressão, negativamente frio para o texto da protagonista. Marcos França (a Médica) e principalmente Fernanda Maia (a Delatora e a Coveira) conseguem resultados muito melhores dentro da mesma proposta, valorizando o texto e, dentro da proposta de não-encenação, evidenciando alguma boa imagem. No geral, a proposta resulta quase em uma literatura dita sob um refletor, mantendo na peça apenas os grandes méritos do texto de Fermín Cabal.
O cenário é composto por uma instalação sonora assinada por Paula Leal e por Amora Pêra. O balanço de microfones ligados sobre caixas de som geram aquele barulho irritante de microfonia. Enquanto elemento artístico, pode reproduzir o incômodo causado pelo som, além de sugerir o visual de uma lâmpada incandescente balançando no teto, mas que acaba por figurar muito elementarmente mesmo em um quadro estético de não-teatro. Os vídeos de Carlos e de Antônio Azambuja, projetados em pilhas de caixas de papelão, também não atingem bom resultado, porque não se articulam definitivamente com a peça embora lhe façam algumas sugestões.

Durante a última semana, o jornal O Globo publicou uma matéria de Raphael Kapa, revelando que Raul Amaro Nin Ferreira foi torturado até a morte aos 27 anos em agosto de 1971. O Hospital Central do Exército, no Rio de Janeiro, onde aconteceu o crime, foi a versão brasileira de Tejas Verdes, a nossa infeliz Casa da Morte. Nesse sentido, a iniciativa do Teatro do Pequeno Gesto é de suma importância e o seu mais recente espetáculo deve ser visto.
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Ficha técnica:
Texto: Fermín Cabal
Direção: Antonio Guedes
Dramaturgia: Fátima Saadi
Cenografia: Doris Rollemberg
Figurino: Mauro Leite
Vídeo: Carlos Azambuja e Antônio Azambuja
Iluminação: Binho Schaeffer
Instalação sonora: Paula Leal e Amora Pêra
Produção executiva: Damiana Guimarães
Elenco: Fernanda Maia, Marcos França e Priscila Amorim. 

Da vida das marionetes (RJ)

Milena Toscano, Luiz Furlanetto e Pedro Osório em cena
Foto: Fábio Maranhão

Um dos melhores espetáculos em cartaz. E o mais elegante.
“Da vida das marionetes” é um melhores espetáculos em cartaz na programação teatral carioca nesse excelente mês de agosto que conta com mais de quinze excelentes produções disponíveis para ver. Com texto adaptado a partir do telefilme homônimo do sueco Ingmar Bergman (1918-2007), a peça se apresenta com trabalhos de interpretação cujo nível de excelência é altíssimo. Com direção de Guilherme Leme e codireção de Miwa Yanagizawa, a montagem foi idealizada por Pedro Osório e está em cartaz no Espaço Sesc – Mezanino, em Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro. Valeapeníssima ver!

Como no filme lançado em 1980, a história da peça retrata de forma não linear os momentos em redor do assassinato da prostituta Ka (Claudia Mauro) por Peter Egermann (Pedro Osório). De um jeito extremamente franco, Bergman expõe o terrível tédio sentido pelo protagonista, tornando a obra uma crítica terrível à sociedade de consumo retratada por personagens comuns da Alemanha Ocidental. Casado com a estilista Katarina (Milena Toscano), Peter é visto ao lado do seu psiquiatra Jensen (Luiz Furlanetto), que também é o amante de sua esposa. Em, seguida, se conhecem o ponto de vista de Cordélia (Sandra Barsotti), mãe de Peter, e de Tim (Arnaldo Marques), amigo de Katarina. Movimentando-se vagarosa e delicadamente pelo horizonte da trama, a narrativa anda verticalmente pelo interior de cada personagem, estruturando-se em uma complexa rede de dados e de relações diante das quais se pode compreender a situação em que o fato do crime acontece.

Na versão de Leme e de Yanagizawa, os atores dizem o texto sentados, com expressões bastante econômicas. O feito, além de valorizar a dramaturgia, sustenta um certo tipo de tensão que desperta o interesse não apenas sobre o desenrolar dos fatos, mas também sobre a realidade de cada participante dessa situação bergmaniana. O efeito dos primeiros planos que o cinema proporciona ganha excelente adaptação na cena teatral, obrigando o espectador a acomodar seus pontos de vista nos detalhes das interpretações. Todo o elenco, sem exceção, está em excelentes trabalhos, construindo e dando a ver um campo de sentidos bastante rico em cada fala, em cada cena. Os diálogos, dentro do ritmo proposto, são ágeis em sua complexidade, fazendo evoluir imagens que não se repetem, mas se complementam de um jeito vibrante.
Fernando Alexim veste o palco com um carpete negro, cujo único ponto de escape é uma longa e lisa mesa cor de madeira e quatro cadeiras. Ainda na mesma paleta de cores, os figurinos de Ana Roque variam do branco ao champagne, auxiliando na construção do efeito dos primeiros planos. Os recortes, na iluminação de Vitor Emanuel, são positivamente claros, precisos, sem cores. A trilha sonora de Marcelo H. situa o tom da história narrada: um crime factual, mas que também é chave para compreender uma teia de relações na qual estão envolvidos os personagens. De um modo geral, a direção de arte é responsável por confirmar a opinião de Bergman aos filmes em preto e branco. Segundo o diretor e roteirista sueco, a realidade não é colorida.

Em “Da vida das marionetes”, título que surge a partir de “Pinocchio”, de Carlo Goldoni, de um lado temos uma situação e de outro um crime. Ao buscar as pontes que possam relacionar um ao outro, o espectador se torna sujeito da narrativa cênica, essa que, nesse caso, tem um nível altíssimo de elegância e de complexidade. Bravo!


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Ficha Técnica
Autor: Ingmar Bergman
Direção: Guilherme Leme
Codireção: Miwa Yanagizawa

Elenco/Personagem:
Arnaldo Marques - Tim (amigo de Katarina)
Luiz Furlanetto - Jensen (psiquiatra)
Milena Toscano - Katarina (mulher de Peter)
Pedro Osório Pedro Osorio - Peter
Atriz convidada: Sandra Barsotti - Cordélia (mãe de Peter)
Participação Especial: Claudia Mauro - Ka (prostituta)

Cenografia: Fernando Alexim
Figurinos: Ana Roque
Assistente de figurino: Victor Hugo Mattos
Iluminação: Vitor Emanuel
Trilha Sonora: Marcelo H.
Programação Visual: Marcelo H.
Coreografia: Rossela Terranova
Direção de Produção: Sérgio Saboya
Produção Executiva: Maria Albergaria
Assistência de produção e assistência de direção: Edward Boggiss
Assessoria de Imprensa: PAGU COMUNICAÇÃO – Carla de Gonzales