quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Doppelgänger – O mito do duplo (RJ)

André Mattos e Ricardo Kosovski em cena
Foto: divulgação

Comédia refinadíssima

O ótimo “Doppelgänger – O mito do duplo”, com texto e direção de Domingos de Oliveira, é a nova versão do espetáculo produzido pela primeira vez em 1992. Agora com Priscilla Rozenbaum, Ricardo Kosovski e André Mattos nos personagens antes interpretados por Glória Menezes, Tarcísio Meira e Ednei Giovenazzi, a comédia está em cartaz no Teatro Sergio Porto, no Humaitá, zona sul do Rio de Janeiro. Com altas doses de excelente humor, a peça ratifica o talento do mais importante dramaturgo brasileiro vivo e em plena atividade.

“Doppelgänger” é uma palavra em alemão que quer dizer o duplo de alguém. Trata-se de um mito multicultural segundo o qual existe outra versão de nós mesmos andando por aí. Para os bretões e fenícios, é um tipo de fantasma. A lenda egípcia “A princesa grega” narra como o aparecimento de uma outra Helena resolveu a Guerra de Troia. Há uma lenda inglesa segundo a qual o duplo de Sir George Tryon voltou para sua casa em Londres após o naufrágio do navio Victória em 1893. O tema também aparece em vários filmes de ficção de científica: “Doppelgänger” (1969) dirigido por Robert Parrish, “The stranger” (1973) por Lee Katzin, “Doppelgänger” (1993) por Avi Nesher, “Another Earth” (2011) por Mike Cahill, entre outras obras de toda sorte de manifestação artístico-cultural. O tema segue sendo rico e interessante: como seria encontrar-se com um duplo?

Na história da peça, Julio Matos (Ricardo Kosovski) e Julia Vieira (Priscilla Rozenbaum) são um casal de atores famosos no teatro e na televisão há muitos anos. Na medida do possível, apesar de uma bissexualidade latente nele, o casamento vai bem até que, numa sessão de terapia, Julio revela ao seu analista, o doutor Marco Aurélio (André Mattos), que está sendo perseguido por alguém que desconhece. A partir disso, a plateia não consegue saber se quem está em cena é Julio ou seu duplo.

Trata-se uma comédia refinadíssima. No texto escrito e dirigido por Domingos de Oliveira, o clima de deboche do cinema noir justifica as frases longas, os diálogos compridos, as digressões intermináveis. As cenas de “Doppelgänger - O mito do duplo” remetem aos planos internos, escuros e cheios de frases com duplo sentido, sangue, pólvora e fumaça de cigarro que caracterizaram o cinema dos anos 30 a 50, mas em um tom farsesco que é muito inteligente. Quase toda a história se passa no mal iluminado consultório do sorumbático Marco Aurélio, que ama Julia em segredo, cheio de culpa e de ódio de seu paciente Julio. Como uma boa femme fatale, Julia aparece loira, atraída sexualmente pelo sexo mais violento, suscetível aos aplausos e voraz com seus diamantes, invadindo a sala do psiquiatra em busca do marido desaparecido. Nas sequências de ação, a crítica ao show business, à hipocrisia social, ao casamento de aparências surge, dando corpo e vida para a trama contada em pouco mais de sessenta minutos em fluxo exuberante.

Os excelentes trabalhos de interpretação marcam a contribuição do teatro ao texto de Domingos de Oliveira. André Mattos deixa ver um psiquiatra tímido, preocupado, mas muito emotivo, que é o morador do lugar onde a história acontece e por isso, de certa forma, o anfitrião do público. Priscilla Rozenbaum é uma Júlia positivamente indecisa entre o sexo, o amor e o trabalho, a fama, o talento e o dinheiro. Seus movimentos ratificam as falas que giram de um valor ao outro, escapando das definições e movimentando a narrativa. Ricardo Kosovski apresenta um Julio ardiloso, com ironia possível, loucamente curioso pela outra versão de si. Na sua interpretação, são vistas mudanças rápidas e pontuais de tom, multiplicidade de intenções e variedade de formas.

Os figurinos de Ronald Teixeira e de Eloy Machado ajudam a ambientar a história no mormaço de um suspense que é ricamente criticado. O veludo grosso do vestido e as botas de Julia, a gabardine do Marco Aurélio, o chapéu, o colete e o paletó xadrez de Julio fazem uma apologia ao mundo regrado a que pertencem esses personagens. É por causa desse mundo que eles aparecem submersos em meio às emoções, autores de atos absurdos para eles e que são cômicos para o público. A iluminação de Fernanda e de Tiago Mantovani resulta em um dos melhores trabalhos do ano nesse item vistos no Rio de Janeiro. Além de quadros de grande beleza, os recortes de luz e de sombra preenchendo os espaços vazados ajudam a construir a estrutura espaço-temporal em que a história se conta.

Entre tantos méritos, “Doppelgänger” confirma a máxima de que um bom resultado em artes não é mérito de uma só pessoa, mas de uma equipe de elementos bem envolvidos a partir de um conceito sólido e que se abre para o olhar do público com sinceridade. Quando uma equipe se iguala a Domingos de Oliveira, é sorte de quem assiste.
 

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FICHA TÉCNICA:
Autoria e direção: Domingos Oliveira
Elenco: Priscilla Rozenbaum, André Mattos e Ricardo Kosovski
Cenografia: Ronald Teixeira
Figurinos: Ronald Teixeira e Eloy Machado
Luz: Fernanda Mantovani e Tiago Mantovani
Produção: Renata Paschoal e Tatiana Trinxet
Assessoria de Imprensa: Leila Meirelles

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Elza e Fred (RJ)

Foto: divulgação

A responsabilidade e o mérito de Suely Franco

A peça “Elza e Fred” é uma má adaptação do filme homônimo, apesar das boas participações de Suely Franco e de Mayara Magri e  do bom roteiro original. Em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, a produção dirigida por Elias Andreato exagera no melodrama de forma negativa, agradando apenas por dois entre vários motivos que fizeram a obra cinematográfica primeira tão famosa: o carisma da atriz principal e o texto. O que se vê no palco é uma versão chapada, linear, superficial, com exagero nos tons lavanda e com trabalhos comprometedores no cenário, no figurino, na iluminação e na trilha sonora, além das interpretações infelizmente. Ao justificar essas afirmações, o texto abaixo se propõe a oferecer algumas reflexões.

Lançado em 2005, o filme hispano-argentino “Elsa y Fred” teve roteiro de Lily Ann Martin, Marcela Guerty e de Marcos Carnevale, com direção do último. Sabe-se de uma versão teatral mexicana (2010) e se espera pela estreia nos cinemas do Brasil da produção americana estrelada por Shirley MacLaine e por Christopher Plummer (o Capitão von Trapp, de “A noviça rebelde”), essa dirigida por Michael Radford. No original, Manuel Alexandre e China Zorrilla interpretam os idosos Elsa e Alfredo, vizinhos de porta, mas com personalidades muito diferentes que se conhecem e se apaixonam quando já próximos dos 80 anos. Elsa ensina para Fred que a alegria de viver nunca deve ser perdida e recebe em troca a realização de um grande sonho alimentado desde sua juventude. No Brasil, Suely Franco e Umberto Magnani interpretam o casal de protagonistas. 

Trata-se de uma comédia dramática como tantas outras produzidas pelo cinema principalmente desde o início dos anos 90, que parte da experiência do autor Marcos Carnevale na televisão argentina, mas que tem marcas que conferem à estrutura dramática uma certa profundidade. O personagem Elsa é um todo colorido, alegre e mágico, mas que, como todo bom clown, tem dentro de si uma lágrima. Enquanto avisa que sai com as amigas, Elsa, na verdade, faz consultas médicas, o que deixa o espectador ver uma decisão particular dela de guardar de si e para si uma parte de sua vida que não é tão boa. Além disso, a imagem de Syvia Rank (Anita Ekberg) entrando na Fontana de Trevi, no filme italiano “La Dolce Vita”, de Federico Fellini, é um referencial para a a audiência de viver a vida intensamente, de rebeldia e, para Elsa, de sonhos não realizados. No entanto, e isso é bastante relevante, não é em Elsa que está a principal curva dramática da história, mas em Alfredo. Ao conhecer a nova vizinha, esse recente viúvo irá ver a sua própria vida, julgar o modo como tem agido e, então, poderá dar um passo em favor de si mesmo. “Elsa y Fred”, assim, não é um filme sobre velhice, nem sobre respeito aos idosos, mas sobre a importância de não se acomodar em qualquer das idades. Infelizmente, a montagem em cartaz Shopping da Gávea mostra apenas uma história de amor que é bela porque acontece já numa época inusitada da vida, o que é muito pouco.

Pelo que tem feito no teatro ultimamente, Suely Franco é a atriz certa para o personagem certo. A atriz tem o mérito de dizer as falas avidamente, de sustentar as cenas em excelente ritmo tanto para o drama como para a comédia, em movimentar-se com graça, em cantar lindamente e de ser a cada ano mais bonita e elegante em cena. Mas não é justo que toda a responsabilidade do mérito de um espetáculo caia sobre ela. Sob direção de Elias Andreato, o elenco numeroso de “Elza e Fred”, composto por Umberto Magnani (Fred), Mayara Magri (filha de Fred), Eduardo Estrela (genro de Fred), Antônio Haddad (neto de Fred), David Leroy (médico de Fred), Fernando Petelinkar (filho mais velho de Elza), Luciano Schwab (filho mais novo de Elza) e por Igor Dib (médico de Elza), meramente diz o texto e executa as marcas sem registros de uma contracena, com exceção de Magri e de Schwab em alguns momentos. Magnani não apresenta a considerável oposição de seu personagem em relação ao de Suely de forma a pontuar a sua modificação cena após cena até o final. Aparentemente, ele realizará o sonho de Elza, mas, após o fim, voltará a ser o que era antes, o que reduz drasticamente não só o tamanho de seu personagem, mas também o de Elza e da obra como um todo. 

Os elementos estéticos da ordem da direção de arte são responsáveis pelos piores momentos de “Elza e Fred”. No cenário de Fábio Namatame, o sofá de baixa qualidade é o mesmo nos dois apartamentos, esses expressos com paredes lisas e poucos detalhes, o que revela quase nenhum investimento. O quadro de Anita Ekberg, tão caro à personagem Elza, aparece em uma imagem 10x15cm, obrigando o público a lembrar-se tanto do filme de Carnevale como do de Fellini negativamente. Os figurinos também de Namatame, ratificando a luz e a ambientação, repetem-se em uma paleta de cores lavanda, que pouco varia entre o azul e o vermelho em uma multiplicidade cansativa de cor-de-rosa, roxo e de lilás. O excesso de contraluzes no desenho de Wagner Freire ajuda a prender a encenação em um padrão unicamente frontal que é muito raso. A trilha sonora, inteiramente executada ao vivo no teclado por Jonatan Harold, é composta essencialmente por uma melodia simples que faz a peça parecer um adocicado “power point de autoajuda”, desses que se viralizam nas redes sociais à exaustão. 

É preciso dizer, antes de findar a análise, que o espetáculo ainda pode emocionar principalmente o público de idade mais avançada que, pelos motivos óbvios, há de se identificar mais rapidamente com os personagens protagonistas. É uma pena, pois, contribuísse o teatro para essa história tanto fez o cinema para o filme, a peça atingiria a todos. 

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FICHA TÉCNICA:
Texto e adaptação: Marcos Carnevale, Marcela Guerty e Lily Ann Martin
Tradução: Rodrigo Paz
Direção: Elias Andreato

Elenco:
Suely Franco (Elza)
Umberto Magnani (Fred)
Mayara Magri - atriz convidada (Cuca)
Eduardo Estrela (Paco)
Fernando Petelinkar (Gabriel)
Luciano Schwab (Alexandre)
Antonio Haddad (Davi)
Igor Dib (médico / garçon)
David Leroy (João)

Cenários e Figurinos: Fábio Namatame
Iluminação: Wagner Freire
Trilha Sonora Original: Jonatan Harald
Produção: Coprodução Brainstorming e Charge Produções

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

220 volts (RJ)

Foto: divulgação
Paulo Gustavo no quadro "A famosa"


Um espetáculo!

“220 volts”, o novo espetáculo do excelente comediante Paulo Gustavo, tem um único problema: a dramaturgia. O espetáculo, que é dirigido por ele e por Fil Braz, é a versão para teatro do programa de televisão exibido pelo canal Multishow com muito sucesso desde 2011. Composto essencialmente por quadros de stand-up comedy já bem conhecidos do público, a peça, em cartaz no teatro OiCasa Grande, é recheada de bons números de dança coreografados por Dudu Pacheco. A produção é assinada por Sandro Chaim e já agrada, mas poderia agradar mais se os melhores quadros estivessem no final e não no início. Uma curva decrescente é um perigo mesmo para uma peça cheia de bons momentos como essa.

Os seis personagens da noite, em termos de conteúdo, são muito parecidos. Respostas rápidas e definitivas, ausência de perguntas e grande quantidade de afirmações, pontos de vista críticos, sarcásticos e mordazes sobre o mundo, tom de voz afiado e arrogante são as matérias primas fortemente presentes em todas as figuras da peça com poucas variações. “A famosa” é uma celebridade do mundo pop que esnoba aqueles que não são tão famosos quanto ela. “A feia”, a única figura que se autocritica, conversa com o público sobre as mulheres bonitas, revelando ser essa a saída para quem é desprovido de beleza. No quadro que tem dramaturgia mais apurada de “220 volts”, a socialite racista e homofóbica “Senhora dos Absurdos”, um dos personagens mais populares de Paulo Gustavo, reclama com o público do aumento de homossexuais, negros e de pobres nas redondezas de seu prédio no Leblon, envolvendo-se em um conflito com a polícia. “Maria Alice”, a apresentadora de programa culinário na televisão, conversa sobre comportamento com os telespectadores, ensina a cozinhar e vende produtos. “A vagaba” termina com um namorado ciumento em uma balada e “Ivonete” está em um bar, esperando o resultado do concurso que escolherá a nova passista de sua escola de samba. Em todas as cenas, o diálogo tem o mérito de ser rápido, direto, cheio de voltas surpreendentes, referências do mundo atual e de imagens bastante críticas. Porém, ao abrir com a personagem “A famosa”, Paulo Gustavo mostra, já no início, o figurino mais brilhante, projeta os melhores vídeos em led, deixa ver o ponto mais alto das coreografias viabilizadas pelo corpo de baile. Além de engraçada (como também serão as demais), essa primeira cena enche os olhos e alimenta as expectativas do público que foi recepcionado por dois DJs (Giulio Rizzo e Jesus Luz) e por um prólogo bastante bem apresentado por Marcus Majella. O nível da qualidade visual dos primeiros minutos não se elevará, mas, no máximo, poderá se manter nos quadros a seguir. Infelizmente, a peça começa melhor do que termina.

Não há dúvidas de que “220 volts” é um grande espetáculo. Em cena, é visível que houve um investimento forte em todos os aspectos com exceção da dramaturgia. Os figurinos de Fause Haten (o mesmo de “O mágico de Oz” e de “Alô, Dolly”) expressam as caraterísticas dos personagens em cortes finos a partir de tecidos vistosos em peças de grande beleza que aumentam os valores visuais da produção sem abandonar o aspecto cômico. O cenário de Abel Gomes preenche o grandioso palco do OiCasa Grande com riqueza de detalhes na variação de um quadro para o outro. A iluminação de Maneco Quinderé e as coreografias de Dudu Pacheco, ao lado da trilha sonora de Zé Ricardo, são responsáveis pela proximidade que “220 volts” estabelece com o musical do gênero americano, principalmente na cena de abertura. Bruno Diaz, Cauan Vieira, Castro Himero, Flávio Rocha, Mario Beckman além de Pacheco integram o grupo de bailarinos responsáveis pelos momentos de stravaganza que entretêm o público sobretudo na troca de quadros. Marcus Majella em destaque, mas também Gil Coelho e Christian Monassa atuam ao lado de Paulo Gustavo, contribuindo para a viabilização das narrativas.

Paulo Gustavo é um artista de grande carisma na televisão, no cinema e também no teatro, cuja redenção está vista no quadro de abertura da peça “220 volts”. Seu diálogo com a plateia, nesse espetáculo, é extremamente ágil, de forma que o ritmo não cai facilmente, mantendo-se em um fluxo que é essencial para a comédia. Na exuberância da articulação dos elementos dessa produção, há vários motivos para o aplauso sincero ao espetáculo, mas também ao seu protagonista. Ele merece. 

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FICHA TÉCNICA
PAULO GUSTAVO em “220 VOLTS
PARTICIPAÇÃO ESPECIAL: MARCUS MAJELLA
COM: GIL COELHO E CHRISTIAN MONASSA
DIREÇÃO E TEXTO: PAULO GUSTAVO E FIL BRAZ
CENÁRIO: ABEL GOMES
FIGURINO: FAUSE HATEN
DESIGNER LUZ: MANECO QUINDERÉ
TRILHA SONORA: ZÉ RICARDO
PRODUÇÃO GERAL: SANDRO CHAIM
PATROCINIO: MILLS
REALIZAÇÃO: SUPERCOMBINADO PRODUÇÕES E CHAIM PRODUÇÕES