quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O homem que tinha memória (RJ)

Edison Mego em belíssimo trabalho
de interpretação
Foto: Renato Mangolin

O homem a lembrar-se de que é homem

            “O homem que tinha memória” é uma oportunidade de rever um homem sozinho em cena contando uma história. A situação, para quem gosta de teatro, é uma das mais belas, pois assistir a uma boa história sendo narrada com recursos não mais simples do que o próprio corpo do ator é um momento que lembra o homem do quão homem (e apenas homem) ele é. Aqui três contos do suíço Peter Bichsel foram adaptados pelos atores com supervisão cênica de Isaac Bernat em um espetáculo sem grandes cenários e figurinos, mas com bastante beleza. Em cena, Cadu Cinelli, Edison Mego e Warley Goulart produzem um terno momento de reflexão e de emoção, cheio de graça e singeleza. A peça está em cartaz no Teatro Poeirinha, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro, e vale a pena ser vista sobretudo por quem gosta de poesia.
            O interesse estético da produção pode ser desperto por sobre as nuances que a direção fez ver nos jeitos diferentes de contar, permitindo refletir sobre o lugar de quem conta em relação ao sobre quem é contado. Encontrado esses lugares, as justificativas para a avaliação positiva que essa produção há de ganhar vêm à tona com mais facilidade. A primeira história, a do ator peruano Edison Mego, é diferente das demais, porque nela a relação entre o personagem rapsodo (aquele que narra a história) e o personagem protagonista é mais estreita. Um se transforma no outro mais visivelmente e o gesto cria níveis de interpretação da história mais profundos. A cena, que dá título para a peça, narra a vida de um homem que tinha excelente memória desde garoto. Já adulto, ele parava em uma estação de trem, observando os passageiros e admirando as tolices que eles praticavam ao viajar. Para ele, só viaja quem não tem boa memória, porque, se se lembra de como o outro lugar é, então, não é preciso novamente até lá. O elemento fantástico da situação é um poema às lembranças que habitam em nós e ele é expresso pelo ator em grande potência, excelente dosagem de expressões, ótimos usos do tempo.
            Nas duas outras histórias, contadas por Warley Goulart e por Cadu Cinelli, temos uma divisão mais clara entre quem conta a história e sobre quem ela é. Na segunda, temos um homem que resolveu mudar o nome das coisas e, tão acostumado com o novo vocabulário, acabou ficando sem poder se comunicar com o resto do mundo (que, por sua vez, desconhecia a nova língua que só ele falava). Na última, o protagonista quer testar a teoria de que a Terra é redonda e, para isso, planeja uma viagem em linha reta pelo globo. Tanto em uma como em outra, os atores se utilizam de vários elementos visuais que são positivos na criação de um espaço mais lúdico (e infantil) de narração.
            “O homem que tinha memória” se estabelece a partir de um clima íntimo em que o público é convidado a partilhar suas primeiras lembranças. O gesto aponta para a primeira história, mas também para as demais, pois, se a memória é tema do conto inicial, a comunicação é do segundo e a realização dos sonhos do terceiro. Ou seja, nos três momentos, temos o homem diante de seus guardados a olhar para o externo de si. Os figurinos e os elementos cênicos dOs Tapetes Contadores de Histórias ganham destaque, assim como o desenho de luz de Aurélio de Simoni, pela delicadeza nos detalhes de sua viabilização. Parabéns!
  
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Ficha Técnica

Autor: Peter Bichsel
Adaptação, concepção cênica e interpretação: Cadu Cinelli, Edison Mego e Warley Goulart
Supervisão: Isaac Bernat
Cenários e figurinos: Os Tapetes Contadores de Histórias
Luz: Aurélio de Simoni
Programação Visual: Thiago Motta
Produção Executiva: Rilson Baco
Direção de Produção: Caleidoscópio Cultural

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Orgulhosa demais, frágil demais (RJ)

Samara Felippo e Rita Elmôr em cena
Foto: divulgação

Simples e potente

"Orgulhosa demais, frágil demais" é uma peça simples, mas nem um pouco superficial e esse é o seu maior ganho. Depois de ter cantado "Habanera", de Carmen, Maria Callas vai até o camarim de Marilyn Monroe, que acabou de cantar "Parabéns a você" para o presidente Kennedy. De um lado uma ópera, de outro uma das canções mais populares do mundo. Em contraste, a diva erudita e a estrela. Ambas se encontrarão com o que é mais comum nas duas: a mulher por trás das celebridades. A partir do livro homônimo escrito pelo italiano Alfredo Signorini, o texto de Fernando Duarte organiza um diálogo que expõe, ao mesmo tempo, as distâncias e as proximidades entre as duas, ressaltando a beleza do universo feminino em sua complexidade. Dirigido por Sandra Pêra, o espetáculo conta com Samara Felippo e com Rita Elmôr nos papéis de Marilyn e de Callas em interpretações sensíveis, sutis e tocantes. Em cartaz no teatro do Centro Cultural dos Correios, no centro do Rio de Janeiro, uma ótima peça a ser vista.

Além das figuras célebres na história do mundo ocidental, as personagens de Callas e de Monroe podem ser mais. A diva pode ser lida como a pessoa que, por ter estudado mundo, se distanciou da arte popular, da beleza do mais simples. Por outro lado, a estrela pode ser vista como aquela pessoa que quer determinadas coisas pra si, mas faz outras, gerando justamente o contrário dos objetivos. Esses dois posicionamentos, ambos possibilitados pelo texto, pela direção e pelas interpretações, aproximam a cena de quem lhe assiste em potência e em qualidade, elevando os valores estéticos da obra. A imponência de Callas, vestindo um Dior vermelho e expressando sua crítica na sutileza do seu olhar e de suas pausas, se mostra cambaleante diante da superioridade de Moroe, apertada em um vestido costurado nela própria, alheia ao que possam pensar sobre ela e sobre seus atos. As duas estão no topo, mas os motivos e os meios através dos quais elas chegaram lá foram diferentes e contemplar essas nuances permite ao espectador sair do teatro com boas reflexões.

Longe dos estereótipos, Elmôr e Felippo parecem ter construído suas personagens a partir de suas essências. O gesto também aproxima a peça do público, que não estará vendo duas caricaturas, mas dois seres acessíveis na intimidade do camarim. Dividindo o mesmo espaço por um par de horas, as duas atrizes conservam em seus trabalhos de interpretação o direito da assistência de ter acesso ao universo particular de cada uma das personagens, gesto que só pode acontecer pelo excelente uso dos movimentos que a direção de Pêra propôs.

O ritmo é positivamente potente, promovendo o "desarmar" de Callas e o "emburacamento emocional" de Marilyn, que morreu dois meses depois, provavelmente vítima de overdose. Nesse sentido, vê-se as duas mulheres encontrando consigo próprias enquanto vêem-se refletidas uma na outra e, na caixa cênica, um universo do qual todos nós fazemos parte e que entra em ebulição, fica mais complexo e, assim, muito mais natural.

O cenário e o figurino de Desirée Bastos são excelentes porque reforçam o realismo, gênero do qual fazem parte o texto e a encenação. Todos os demais elementos, a trilha sonora de Paula Leal, a luz de Renato Machado e o visagismo de Luiz Bellini, fazem a estrutura "Orgulhosa demais, frágil demais", dirigida por Pêra e assistida por Radha Barcelos, se movimentar com fluidez pelo tempo que a narrativa percorre.

O encontro imaginado por Signorini não aconteceu naquela famosa noite do dia 19 de maio de 1962, no Madison Square Garden, em Nova Iorque. É excelente pensar e ver que ele segue acontecendo mesmo assim. Aplausos.

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Ficha ténica:
Autor: Fernando Duarte
Elenco:
Callas – Rita Elmor
Marylin – Samara Felippo
Direção: Sandra Pêra
Cenário / Figurino: Desirée Bastos
Iluminação: Renato Machado
Design Gráfico: Jaqueline Sampin
Administração /Assistente de produção: Antonio Camões
Produção executiva: Luis Fernando Bruno e Valério Lima
Direção de produção: Beta Leporage
Realização: Voleio Produções
Mídias Sociais: Agência Chermont br

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Baseado na rua de trás (RJ)

Thiago Ristow, Nara Parolini, Mateus Tiburi e Carolina Ferman
em cena
Foto: divulgação

Muitos problemas de articulação

Apesar dos excelentes trabalhos de interpretação de Nara Parolini e de Carolina Ferman (ambas parte do elenco da peça “Sarau das Putas”), “Baseado na rua de trás” não atinge um bom resultado. A partir de texto de Mateus Tiburi, que também atua no espetáculo, e com direção de Gustavo Damasceno, a peça estabelece uma estrutura que não se ratifica e nem se auto-articula, parecendo várias peças dentro de uma só, no caso, negativamente. Tendo estado em cartaz na Sede das Companhias, a produção serve como objeto de boa reflexão e pouco além.

A história começa quando um homem, o senhor H (Thiago Ristow), vai ao médico (Mateus Tiburi) e esse lhe pergunta se ele fuma. Começa aí um prolongado diálogo em que o paciente se sente obrigado a dizer que, sim, que é fumante para, então, ouvir do doutor que ele precisa parar de fumar. A situação cômica inaugura, com essa cena inicial, o tom absurdo, mas não o desenvolve nas cenas seguintes. Antes de partir para elas, segue a descrição de outro problema (também de interesse para a reflexão): o paciente reclama ao médico que, sendo novo na cidade, não é bem tratado, pois ninguém fala com ele. O motivo é claro para o médico e sua enfermeira – o paciente não está vestido com a cor do dia. A enfermeira sai e volta trazendo uma camisa branca, que o paciente veste enquanto ouve que cada dia da semana tem uma cor e as pessoas na cidade só falam com quem está vestindo a cor do dia. Médico e enfermeira informam ao paciente que aquela cor é a cor de domingo, o dia seguinte: roxo. No momento em que paciente vê a camisa branca como o público a vê, público e personagem se identificam entre si e um código é criado. O público vai passar a ver a peça a partir dos olhos desse personagem e não dos outros, que verão uma camisa branca e acreditarão ser ela roxa. Com a saída do médico do consultório, paciente e enfermeira marcam um encontro para a 00h01, quando, então, poderão falar com ele, visto que ele estará usando a cor do dia. Na cena seguinte, que acontece em um bar, o público espera para ver todos da cidade, vestindo branco enquanto acreditam estarem vestindo roxo. Só que não é isso que acontece. Na sequência, ninguém veste nem branco, nem roxo e, mesmo assim, todos falam com o paciente. Além disso, a cena no bar é noir da trilha sonora aos personagens, dos diálogos fatais ao cenário. Referência ao cinema norte-americano dos anos 40, o noir é um gênero diferente do absurdo.

No bar, H (Ristow) reencontra a enfermeira (agora interpretada por Carolina Ferman) e seu marido (Tiburi) e os dois se beijam depois de uma cena em que H precisa escolher entre a enfermeira e outra mulher (Parolini). A cena seguinte se passa na casa de H, agora chamado Hugo, e de sua mulher Amélie, a ex-enfermeira. O diálogo é um drama tenso, em que a esposa confessa ao marido o seu tédio, as suas frustrações e, nisso, põe pra fora uma alta dose de perversidade para com a pequena filha do casal (Parolini). Ou seja, depois do absurdo e depois do noir, um terceiro tom aparece. E, nas cenas seguintes, novas mudanças, novos personagens, novos códigos. Assim, o processo cênico-dramatúrgico é gratuitamente de constante desconforto, pois, em linhas gerais, mantêm-se os nomes dos personagens, mas todo o resto é modificado e a história acaba por não ser nem bem contada por seus diálogos, tampouco pela estrutura teatral da narrativa.

Ristow e Tiburi apresentam trabalhos baseados na realização de tipos os quais não conseguem se localizar nessa história sempre mutante. Ferman e Parolini têm os méritos de conseguirem, apesar de todos os entraves, exibirem interpretações cheias de nuances, carregadas de possibilidades, integridade entre as expressões faciais e corporais, excelente uso do espaço, da voz e dos tempos. Mais uma vez, há grande prazer em assistir ao trabalho dessas duas atrizes.

Quanto aos demais elementos, a trilha sonora varia da coleta de filmes e músicas do repertório popular norte-americano, sendo todas elas bastante negativamente operadas. O figurino, assim como a peça de um modo geral, varia do realismo próprio do absurdo da cena inicial para o glamour da cena no bar. Na terceira cena, há o estereotipado vestido da filha do casal (Parolini), com um vestido rodado da mãe (Ferman) e uma composição realista de H (Ristow) de de forma que temos anos 50 e contemporaneidade ao mesmo tempo. O cenário é modesto, mas ele, de fato, não é o mais importante nem na narração, nem nos problemas de narração.

Diferente de quem escreve literatura, o escritor teatral tem, como palavras, os signos tornados teatrais. Dos movimentos às entradas de saída dos elementos, dos tons de voz dos atores, ao que dizem, ao como olham e ao como estabelecem as pausas, passando pelas músicas, pelos figurinos, pelo cenário e pelo encadeamento de sequências, esses são os advérbios, os artigos, os substantivos e os verbos do encenador. Infelizmente, esse discurso chamado “Baseado na rua de trás” tem problemas graves e, por isso, não consegue dizer a que veio.