segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Um natal para dois (RJ)

Gottsha (Eva) e Tadeu Aguiar (Téo) em cena
Foto: divulgação

Sem pretensões, um bom espetáculo

“Um natal para dois” cumpre o que promete e, por isso, é bom. Escrita por Arthur Xexéo e dirigida por Jacqueline Laurence, a peça é uma comédia romântica musical com canções clássicas do repertório natalino. Nada além – e isso não faz desse espetáculo nem um pouco menor. Em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, o público se diverte, cantando com os atores as músicas mais conhecidas e sai descobrindo novas canções. Bom divertimento.

Téo e Eva (Tadeu Aguiar e Gottsha) se conheceram em um dia de natal e viveram juntos durante dez anos. Numa outra noite de natal, Téo deixou uma carta para Eva, terminando a relação, condenando a ex-namorada a odiar a data para sempre. Ele é produtor musical e ela uma cantora famosa. Cinco anos após o fim, encontram-se pela primeira vez para ensaiar um espetáculo sobre natal, contrato esse que ela só assinou porque não sabia que ele seria o diretor. Os ensaios, então, são recheados de lembranças do passado, a parte boa e a parte ruim, da história vivida entre os dois, entrecortadas por canções que farão parte do show que ambos constroem, além de suas opiniões sobre essas músicas. Como qualquer comédia romântica, o final está decretado: todos nós sabemos que os dois ficarão juntos no final. O ponto positivo está visto no carisma da dupla de intérpretes. Graças a ele, vemos despertada a torcida na audiência, esse também um mérito da direção, para que os dois reatem no final. Esse é o desafio, aqui vencido, de toda a comédia romântica que quer ser boa.

Tudo é simples em “Um natal para dois”. Não há uma grande história, o cenário da Estamos Aqui é realista e com detalhes bem postos, os figurinos de Paulo Zyngier – LIX valorizam os personagens e seus intérpretes, a iluminação de Anderson Schinaider acompanha bem os quadros da narrativa e a direção musical de Liliane Secco situa as canções em um lugar que é qualificado sem parecer histriônico, o que nos convida a cantar junto. Em se tratando de natal, uma festa familiar, o gesto de “não dar trabalho para o público” é positivo. Nesse espetáculo, tudo está ao alcance do espectador sem entraves, sem complexidade, envolto em uma doce superficialidade.

De todos, o ponto mais positivo de “Um natal para dois” é o repertório. Quem for assistir esperando ouvir canções célebres dos corais religiosos, irá ouvir apenas “Adeste Fideles” ser tocada na troca de cenas. Uma vez que, na narrativa, temos dois artistas discutindo uma relação de dez anos findada há cinco, cair nos óbvios hinos natalinos seria fatal. Ao contrário, há um excelente investimento nas composições laicas, que agradam a todos independente do credo. “Tão bom que foi o natal”, de Chico Buarque, é um ótimo exemplo.

Sem pretensões, eis aí um espetáculo que agrada ao grande público. Parabéns!

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Ficha técnica:

Um musical de Artur Xexéo
Com Gottsha e Tadeu Aguiar
Direção: Jacqueline Laurence
Direção musical: Liliane Secco
Assistência de direção: Flávia Rinaldi
Músicos: Liliane Secco (teclado), Carlos Henrique (bateria) e Tássio Ramos (baixo).
Som: Fernando Fortes
Luz: Anderson Schinaider
Vídeos: Paulo Severo
Cenário: Estamos Aqui
Design gráfico: Cláudia Xavier
Assessoria de imprensa: Meise Halabi
Coordenação de produção: Norma Thiré
Produção: Eduardo Bakr e Tadeu Aguiar – Estamos Aqui Produções Artísticas

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Fluxorama (RJ)

A excelente Rita Clemente em cena
Foto: Ana Alexandrino

Um espetáculo refinadíssimo

Entre vários significados possíveis, “Fluxorama” pode ser uma peça que fala sobre o esforço que o homem pode fazer em permanecer vivo, existente, pulsante. Com texto de Jô Bilac, o espetáculo reúne três monólogos, cada um deles dirigido pelo ator de uma das cenas. Rita Clemente interpreta “Amanda”, dirigida por Inez Viana. Vinícius Arneiro interpreta “Luiz Guilherme”, dirigido por Rita Clemente. Inez Viana interpreta “Valquíria”, dirigida por Vinícius Arneiro. Em um deles, uma pessoa vai se descobrindo, aos poucos, sem os sentidos. Primeiro, a audição, depois o paladar, o olfato até chegar à visão. Noutro, em meio às ferragens do carro em que se acidentou, uma pessoa vai tentando equilibrar-se em busca da própria consciência para seguir vivo o máximo de tempo possível. Noutro ainda, no absurdo das pressões sociais, uma pessoa corre, desviando o pensamento do cansaço e focando no objetivo para resistir à tentação de parar e desistir. Com muita sutileza, e preciosa delicadeza, o espetáculo fala, na ordem do texto e da encenação, em um tom bastante elegante, assegurando o lugar da profundidade das questões sem parecer nenhum um pouco pedante. Está em cartaz no Teatro do OiFlamengo, zona sul do Rio de Janeiro.

A direção de Inez Viana, nesse espetáculo, ratifica o exercício visto nas produções da Cia. Omondé. O espectador de “Fluxorama” não deve perder a oportunidade de refletir, assim, sobre os lugares diferentes, mas colaborativos, criados para contar a história de forma teatral. De um lado, a interpretação e o texto dito por Rita Clemente. De outro, a pressão que um tecido branco-transparente elástico faz sobre a personagem (uma espécie de rede que empurra “Amanda” para baixo). Aparentemente divergentes, os dois lados podem oferecer aos olhos mais atentos pontos de vista diferentes sobre a mesma questão. Para nós, é enxergar através dessa barreira. Para a personagem é manter-se em pé. Unidos, esses desafios dizem algo pertinente ao tema, sem impor sentido, o que é inteligente, elegante e principalmente próprio da contemporaneidade. Rita Clemente, por sua vez, é sabido que divide o lugar das melhores atrizes de teatro do Brasil com Bibi Ferreira, Fernanda Montenegro, Débora Olivieri, Kelzy Ecard, Adriana Seiffert, Dani Barros, Sandra Dani, Georgette Fadel, Adassa Martins e outras, cada uma na sua idade e no seu contexto. Aqui, o uso da voz nas minúcias dos entre-fonemas e na evolução dos tons, o jeito como os signos expressos pelo rosto dão a ver uma imagem potente, complexa, positivamente porque nem sempre coesa e coerente, confirmam sua posição entre as grandes intérpretes aqui em excelente trabalho mais uma vez.

Em “Luiz Guilherme”, o espectador não deve deixar de perceber a importância da respiração como, basicamente, o único movimento realmente significativo a quem está preso, sentindo muita dor nas partes do corpo que ainda sente. A direção de Rita Clemente parece ter transformado os intervalos entre as palavras, e mesmo entre as sílabas delas, em música. O resultado é positivo e melhor contemplado se esquecermos, por um momento, o que realmente cada palavra significa. Estaremos diante de um “bailado”, um dançarino que procura preencher o espaço do salão e o tempo da melodia e, ainda por cima, divertir-se enquanto também procura não errar tanto a coreografia. Essa é também uma forma de fornecer um outro ponto de vista sobre o texto dito por Arneiro, de forma que os sentidos disponíveis, quando unidos, poderão gerar um significado mais complexo ao todo da cena. Normalmente na função de diretor, em “Fluxograma” é possível notar um bom trabalho de interpretação de Arneiro: clareza no texto dito, excelentes jogos de olhar, intenções precisas.

Das três histórias, a terceira é a mais frívola, mas não a menos interessante. O diferencial está no fato de que essa não tem um início e nem um fim marcado, mas é um intervalo. (Uma delas começa num dia quando o personagem sente que perdeu a audição e termina quando perde a visão. Outra começa com o despertar de um acidentado ainda no local do acontecido e termina com a sua morte.) “Valquíria” é um intervalo constante, pois, na direção de Arneiro, não há variação de ritmo na interpretação de Inez Viana que seja nem causadora, nem consequente. Em outras palavras, embora haja a diminuição e o aumento da velocidade, esses não são seguidos por mais diminuição ou aumento ainda maior, mas são apenas variações que dão cor para a narrativa. O resultado estético é a sensação de linearidade geral, isto é, a cena já estava assim antes de lha assistirmos e permanecerá assim depois que formos embora, o que é, principalmente porque é a última cena, um alento e uma mensagem: é preciso continuar. Com excelente ritmo no dizer o texto enquanto corre, subindo e descendo rampas, Viana está em um momento raro do seu trabalho como atriz. Nesse espetáculo, ela é vista em tom realista, sem partituras e com alguma liberdade dentro do quadrado que ela desenha. Mais uma vez, consegue um ótimo resultado. 

“Fluxorama”, com uma ficha técnica que reúne bons trabalhos de iluminaçãoo, cenário, figurino e de trilha sonora, é um trabalho artístico que é valoroso porque é também conceitual. Pode, claro, ser visto como mais uma peça, mas sugere uma excelente reflexão sobre as relações entre o que é feito e a forma como é feito, relação essa aqui expressa de forma sublimemente refinada.

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FICHA TÉCNICA
Texto - Jô Bilac

AMANDA / Atuação - Rita Clemente
Direção - Inez Viana

LUIZ GUILHERME / Atuação - Viniciús Arneiro
Direção - Rita Clemente

VALQUÍRIA / Atuação - Inez Viana
Direção - Viniciús Arneiro

Direção Geral: Rita Clemente, Inez Viana e Viniciús Arneiro
Dramaturgista: Diogo Liberano
Cenografia e Identidade Visual: Estúdio Radiográfico
Trilha Sonora: Tato Taborda
Iluminação: Tomás Ribas
Figurinos: Júlia Marini
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna - Astrolábio Comunicação
Fotografia: Ana Alexandrino
Direção de Produção: Liliana Mont Serrat e Damiana Guimarães
Produção Executiva: Paula Valente
Assistente de Produção: Felipe Marcondes

Deixa que eu te ame (RJ)

Solange Badin e Paulo Giardini (à direita) em ótimos trabalhos
Foto: divulgação

Ruim

Apesar das boas interpretações, “Deixa que eu te ame” é um espetáculo ruim porque não parte nem de um bom texto de Alcione Araújo (1945-2012), nem de uma boa direção de Aderbal Freire-Filho. Quanto ao primeiro, é constrangedor notar que, passados sessenta minutos de peça, ainda estamos diante de duas mulheres superficialmente construídas brigando pelo mesmo homem com diálogos sofríveis. Quanto ao segundo, a insistência em uma concepção que articule a dança, o tango, à cena e a interposição de trechos em que os personagens se dirigem ao público, com o uso do microfone e falando em primeiro pessoa, arrasta ainda mais a narrativa cênica e, embora pareça querer “ajudar” o texto, acaba por prejudica-lo ainda mais. Em cartaz no super ultra congelante Teatro Eva Herz (sugere-se levar cobertores!), a montagem tem como ponto positivo o de sugerir uma reflexão acerca da importância da direção e da dramaturgia na construção de um espetáculo teatral, esse em que se vê apenas atores no palco, aqueles que conceitualmente são os realmente responsáveis pelo fazer teatral.

Depois de um coquetel político, Bernardo (Paulo Tiefenthaler), um economista de Brasília, segue com uma mulher (Solange Badin) para um antigo restaurante que já está quase de portas fechadas dada a hora tardia. O lugar faz com que as memórias do passado, quando ambos foram namorados, voltem. Começa um jogo de sedução que termina com a chegada de Thomaz (Paulo Giardini), o irmão de Bernardo e marido de Helena, e de Cecília (Isabel Lobo), esposa de Bernardo. No passado, Bernardo foi fazer um curso longe e, por isso, terminou o namoro com Helena. Quando retornou, ela já estava casada com seu irmão. No que diz respeito a ela, está claro que a “chama” ainda não apagou. Cecília, que é bastante ciumenta, percebe que há algo acontecendo e começa, furiosa, a inquirir o marido, o cunhado e sua esposa. Isso dura bastante tempo. Acontecimentos que vão surgindo nos momentos finais da narrativa vão dando margem para vir à tona o lado interior dos personagens: Helena não está satisfeita com o marido honesto e fiel, que não lhe “acende” na cama. Cecília é insegura como esposa como também o é enquanto mãe de uma mulher de dezesseis anos (Bella Camero), agora envolvida com Miojo (Oscar Saraiva), um traficante. Thomaz tem uma mágoa guardada em relação ao irmão por ele nunca ter ajudado na casa e na doença dos pais já falecidos. Bernardo sabe que precisa pagar pra ter uma fração da admiração que, de graça, o irmão desperta nas pessoas. Próprio do realismo psicológico, o universo interior de cada um é interessante quando consegue dar força para o desenrolar da trama. O problema é que falta trama em “Deixa que eu te ame”, pois, além da disputa de Helena e de Cecília por Bernardo, nada acontece durante dois terços do espetáculo. A história acaba sendo tola, despertando na plateia sentimentos superficiais próprios dos maus melodramas.

A direção de Aderbal Freire-Filho parece reconhecer que o texto está desequilibrado, ciente de que a dramaturgia investe demais na verticalidade (o interior dos personagens) sem a compensação de uma horizontalidade (o desenrolar dos fatos que levam ao fim). Talvez com a intenção de resolver o problema, colorindo a produção com passos de dança (sob uma só e repetitiva composição de Edu Lobo) e com uma certa teatralidade indesejada (óculos escuros, as aparições do Garçon (Cândido Damm), movimentos ilustrativos dos atores atrás da rotunda transparente, etc), a direção arrasta ainda mais a história, oferecendo uma comédia que, no fim, não tem graça alguma. As cenas em que os personagens se dirigem à plateia para falar de si são redundantes, porque não interessa ao público saber quem é aquele personagem se essa informação não mudará o que está por acontecer. As cenas finais são caóticas: tem-se a impressão de que tudo que não foi resolvido ao longo de oitenta minutos, o será feito em dez, o que torna ainda mais superficial o espetáculo como um todo. O tango remete a uma sedução que não existe no contexto afinal: Bernardo acaba sem Cecília e sem Helena, Helena acaba sem Bernardo e sem Thomaz, Cecília acaba sem Bernardo e sem a filha, Thomaz acaba sem a esposa e sem sua própria casa. Recheado de reflexões sobre ética, “Deixa que eu te ame” finda após ter dito muito pouco.

São boas, no entanto, as interpretações. Ainda que Isabel Lobo e que Oscar Saraiva pairem no senso comum em personagens sem exploração evidente, temos excelentes trabalhos sobretudo em Giardini, Badim e em Camero, esses responsáveis por emprestar uma certa humanidade complexa a essas figuras insólitas. O teatro é quando um ator interpreta um personagem diante do público, mas, quando esses atores são dirigidos por um diretor como Aderbal e estão em um espetáculo a partir de uma dramaturgia de Alcione Araujo, o que está por trás das cortinas acaba sendo inevitavelmente teatro também. E aqui isso é ruim. Para quem gosta de teatro, mais do que gosta desse ou daquele realizador, contemplar um momento negativo do trabalho de dois grandes homens de teatro, com o foi Alcione Araújo e ainda é Aderbal Freire-Filho, é, antes de qualquer outra coisa, um aprendizado.

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Ficha Técnica
Autor: Alcione Araújo
Direção: Aderbal Freire-Filho
Direção musical: Edu Lobo
Elenco: Solange Badim, Isabel Lobo, Bella Camero, Paulo Tiefenthaler, Paulo Giardini, Cândido Damm, Oscar Saraiva
Cenografia: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Ticiana Passos
Iluminação: Luiz Paulo Nenen
Direção de movimento: Marcia Rubin
Produção: Alice Cavalcante e Dulce Lobo
Realização: Dulce Lobo Produções Artísticas e Sábios Projetos
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação