quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Bibi canta e conta Piaf (RJ)

Em um dos melhores momentos,
Bibi Ferreira e Nilson Raman
interpretam Edith Piaf e Yves Montand
Foto: divulgação


Reverências!

Bibi Ferreira é um desafio para qualquer teórico de teatro. Todos nós sabemos que o que diferencia o teatro das outras artes é a relação triádica entre quem faz, quem vê e o que é feito. 2500 anos depois de terem sido escritas, podemos ler as tragédias de Sófocles. 250 anos depois de terem sido compostas, um estudante de piano pode tocar as músicas de Bach. As pinturas do renascimento estão vivas, “... E o vento levou” está disponível, o prédio do Theatro Municipal está de pé, ou seja, nenhuma outra arte precisa do artista para sobreviver e nem mesmo do público. Com teatro, não é assim. Em 1983, Bibi Ferreira interpretou Piaf pela primeira vez no Brasil, reinaugurando, no ano seguinte, o Theatro São Pedro, em Porto Alegre. Trinta anos depois desse acontecimento marcante para a história do teatro brasileiro contemporâneo, o mesmo concerto é remontado e as novas gerações tem a mesma atriz diante de si em igual (ou quem sabe maior, força). Bibi dribla o tempo, os conceitos fundantes do teatro, a rigidez estética e vence a cruzada com extrema galhardia. 

“Piaf, a vida de uma estrela da canção”, da autora inglesa Pam Gems, estreou no palco do Teatro Ginástico (hoje Sesc Ginástico) sob direção de Flávio Rangel, contando a vida da maior cantora francesa, Edith Piaf (1915-1963). O sucesso estrondoso deu a nossa maior cantora e intérprete a Comenda das Artes e das Letras da República Francesa por duas vezes – em 1985 e em 2009, orgulhando o Brasil e seus artistas. Agora, no ano em que se celebram os 50 anos de falecimento de La Môme, “Bibi canta e conta Piaf”, uma realização da Montenegro e Raman, voltou em uma temporada no Teatro Oi Casa Grande, com orquestra e coral, entre apresentações em outras capitais e, também, no Lincoln Center, em Nova Iorque. Na altura dos seus noventa anos e com belíssimo vigor físico (e vocal!), para nós, estar diante de Bibi Ferreira é um privilégio indulgente, uma honra purificadora, uma benção sem exageros. 

Com alta dose de elegância, Bibi e Nilson Raman (mestre de cerimônias) narram a vida de Piaf enquanto suas canções são interpretadas pela cantora, pelo coro e pelos músicos. Com uma sutileza sábia e bela, Bibi dá vida para as letras, critica, sorri e faz emocionar. A discrição dos gestos faz oposição com a grandiosa potência vocal de forma que, em dupla, a articulação de ambos cria o referencial cênico que se espera para a fruição das músicas, essas cantadas em francês e sem legendas. Para os não falantes do idioma de Piaf, basta olhar para sua intérprete e a história está dada: uma atriz, diante de um público, interpretando uma personagem. É destaque também a sobriedade com que Raman conduz a narrativa – sem exageros, em postura aristocrática e com grande clareza e carisma. Como um corifeu, Raman representa o público ao lado de Bibi, dando a ela o cuidado, o respeito e o carinho que ela merece. 

Cheia de palavras pomposas e um tanto quanto repleta de marcas exageradas, essa análise crítica está longe de expressar o arrepio que se sente ao ver alguém atravessar três décadas, trazendo Piaf de 1983 a 2013. Isso para não lembrar de “Minha querida lady” (adaptação de 1962 do musical “My fair lady”), de “Alô, Dolly” (de 1965, adaptação de “Hello, Dolly”), de “Gota d´água” (1975) e de “Bibi Ferreira vive Amália Rodrigues” (2001), entre tantos outros espetáculos desde 1946. Às portas de um novo espetáculo, em que interpretará as canções de Frank Sinatra, eis em Bibi uma determinação, uma disciplina, um talento inigualáveis. Reverências! 

Conselho de classe (RJ)

Marcelo Olinto em excelente trabalho de interpretação
em "Conselho de Classe"
Foto: divulgação

Assistir é imprescindível

           “Conselho de classe” é uma peça instigante. O texto coloca em reunião quatro professores de uma escola pública, membros de um conselho de pais, alunos e funcionários, esses representados pelos professores, que também são pais e funcionários. Em questão, está, sim, as mazelas do ensino público nacional, mas muito mais que isso: a complexidade do homem, o lugar para onde nossas crenças nos levam, o desejo humano de paz e de descanso, além de seus valores éticos e morais. Sem dúvida, é um texto maduro de Jô Bilac, mas também um trabalho de ourivesaria de cada ator e sobretudo das diretoras Bel Garcia e Susana Ribeiro, cujos elogios se estendem a equipe. Vontade de rever várias vezes, vontade de sentar com os personagens e discutir (sou professor há 16 anos e, nos primeiros 5 anos, em escola pública de ensino fundamental), vontade de escrever essa análise que agora você lê. A peça está em cartaz no Espaço SESC - Mezanino e depois seguirá para a Sede das Cias. Nesse clima de manifestações nacionais e dia do professor, assistir à “Conselho de classe” é imprescindível. 

Na história, há uns dias, um aluno foi barrado na entrada da escola por usar boné pela diretora. Indignado, ele uniu-se a outros colegas, deles recebendo apoio, e a notícia se espalhou. O caso foi parar nos ensaios do grupo de teatro, que estava montando, sob a direção da professora de Artes, a peça “O pagador de promessas”, de Dias Gomes, cujo nome é também o da escola. No dia seguinte, a peça foi representada no ginásio, com a cruz de Zé do Burro servindo de meio de entrada da massa “embonezada” dentro da escola. Na confusão, a diretora foi agredida, hospitalizada e afastada por motivos de saúde da função. O conselho, então, precisa se reunir para dar conta de vários assuntos importantes antes do encerramento do ano letivo. Eis que um jovem diretor-substituto, interventor enviado pela Secretaria de Educação, aparece na reunião. 

Jô Bilac poderia ter escrito apenas um texto de conversas retóricas, cheias de filosofia, crises e idealismos. Felizmente, foi além. Em meio aos diálogos quase platônicos, há muitos intervalos e acontecimentos paralelos que dão base, escopo e cor para o que se diz. A professora que defende o equilíbrio se aproveita do ritmo ameno para vender roupas e produtos de beleza, além de utilizar o telefone da escola para fins pessoais. A professora que defende a ordem, a hierarquia, o cumprimento dos deveres e a retidão leva a chave do ginásio para a sua própria casa e mantém trancados parte da história da escola para motivos que ela considere privilegiados. A professora mais experiente e que ouve com mais atenção as posições também é a mais velha, a mais desacreditada e a mais querida do grupo. O interventor que vem defender a pureza das ações, o comprometimento, a responsabilidade é aquele que irá dar carona no seu carro para uma das professoras, pegando o volante imediatamente após beber uma latinha de cerveja. Assim, e muito mais, “Conselho de Classe” está longe de apenas expor os problemas das políticas públicas da educação, mas pauta a complexidade humana sob um ponto de vista ético e moral que inaugura um novo estilo em Jô Bilac (com menos força, o dramaturgo discutiu a profissão do crítico de teatro em “Caixa de Areia”). Por isso, toda a plateia sente o convite para a catarse, para a reflexão e para a discussão. O teatro cumpre o seu papel. 

Quando falamos em teatro aqui, falamos em Bel Garcia e em Susana Ribeiro, aqui assistidas por Raquel André, que assinam o transporte da literatura de Jô para o palco realizado pelo grupo Cia dos Atores. Com a maestria de quem conhece o idioma teatral, a dupla de diretoras dosa com galhardia cada informação que solta, de forma a virar o jogo, subverter a narrativa pelo seu oposto, reimprimir um ritmo que parecia ter sido perdido mas nunca o foi. O desenho de movimentação pelo palco é excelentemente usado, as pausas e os clímaxes nos momentos de diálogo, as intervenções externas (a água que falta, o banheiro sujo, o ventilador que pifa, as vozes que vêm da rua, o telefone que toca,...) e os momentos de reflexão dos personagens são usados em favor da narração e de sua fruição cênica com galhardia. O tempo passa sem que seja visto, a atenção está presa à velocidade com que as respostas vão sendo dadas às perguntas que o espectador vai fazendo à peça. 

São brilhantes as interpretações. Em personagens extremamente opostos, César Augusto e Paulo Verlings se dividem em trabalhos que viabilizam personagens ora inaptos diante dos acontecimentos, ora dispostos a fazer algo por si (buscar uma vaga na Secretaria, dar direção para o caos instalado na escola). Outra oposição se repete em Leonardo Netto e em Thierry Trémoroux, essa mais clara que a anterior pela força de seus personagens na história, em que os intérpretes dão vida a posições morais e éticas bastante diferentes em relação a função do educador. Com igual força, cada um dos quatro personagens apontados precisa ser forte para garantir o equilíbrio e, assim, sustentar a tensão e fazer o público ansiar pelo final quando o resultado poderá ser dado. Eles o são, o que é excelente. No entanto, “Conselho de Classe” parece ser para Marcelo Olinto, cujo personagem resume em si todo o carisma da profissão de professor (entre todas, a profissão mais honrada!), cujo personagem requer para si o carinho do público pela sua idade avançada e cujo personagem diz as coisas mais vitais de jeitos mais sutis. O verdadeiro grito de “Conselho de classe” está no sussurro de Tia Paloma, interpretada por Olinto, em um dos momentos mais importantes do espetáculo. No jeito de caminhar, na fala aparentemente despretensiosa, no olhar falsamente desperdiçado, nos gestos muito sutis, Olinto está excelente. 

A opção da direção em fazer personagens femininos serem interpretados por homens pode até reforçar algum tipo de preconceito, mas, sem dúvida, faz muito bem para a peça. Não tenho dúvidas de que, fossem cinco mulheres em uma reunião de professores sob um calor infernal, o resultado estético não seria tão bom porque a plateia demoraria mais tempo para se interessar pelo assunto. Essa demora possível é consequência, sim, de preconceito, pois é como se não déssemos o devido valor ao que diz um grupo de mulheres. No entanto, o fato de demorarmos mais para entender o jogo de atores homens serem chamados por nomes femininos é o “perfume” de que Bilac, Garcia e Ribeiro se utilizam para encantar a plateia de forma que, quando notamos, já estamos fisgados pela trama, sem possibilidade (nem vontade) de voltar. 

Ainda antes de terminar, vale uma nota para o cenário (Aurora dos Campos), para o figurino (Rô Nascimento e Ticiana Passos) e para a iluminação (Maneco Quinderé). São vibrantes dos múltiplos espaços que a ambiência providenciou à direção. Corredores, saídas, cantinhos, zonas de proteção e de plena exposição, momentos meramente ilustrativos e outros bastante narrativos: não há um só detalhe que não seja bem aproveitado na organização e na utilização do espaço. Quanto ao vestuário, é bastante interessante notar o quanto as roupas masculinas dão feminilidade aos personagens pelas nuances. Um relógio colorido aqui, uma tiara lá, uma calça apertada adiante, um cabelo bem penteado a seguir, uma alfaiataria bem feita por fim são portas de entrada para as mulheres que estão em cena, sem que a questão de gênero se torne um problema (os personagens não são homens nem héteros, nem gays. São mulheres e todo o resto não nos interessam naquele contexto de discussão profissional). O desenho de iluminação, assim como a trilha sonora de Felipe Storino, tem o valor de ser discreto, mas presente. As mudanças de luz acontecem e pontuam o ritmo da peça muito bem, mas não fazem felizmente nos esquecer de que estamos num frio e monótono ginásio escolar. 

Ao contrário do que dizem, 2013 foi e está sendo um excelente ano para as artes cênicas no Rio de Janeiro. “Conselho de classe” é argumento em favor disso. 

*

Ficha técnica
Texto: Jô Bilac
Direção: Bel Garcia e Susana Ribeiro
Assistência de direção: Raquel André
Elenco: Cesar Augusto, Leonardo Netto, Marcelo Olinto, Paulo Verlings e Thierry Trémouroux
Figurino: Rô Nascimento e Ticiana Passos
Cenário: Aurora dos Campos
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha original: Felipe Storino
Direção de produção: Tárik Puggina
Produção: Nevaxca Produções
Coprodução: Treco
Realização: Cia dos Atores

terça-feira, 15 de outubro de 2013

A outra cidade (RJ)

Excelente direção de arte de Rui Cortez
Foto: divulgação

No futuro, saberemos

Se “A outra cidade” for realmente um bom espetáculo, só saberemos no futuro, pois creio que faltam agora fontes suficientes para embasar tal avaliação. Essa é, assim, uma das belezas da arte contemporânea: nem tudo pode ser plenamente analisado no momento da produção, pois há marcas que só ficarão claras em outro tempo. Escrito e dirigido por Pedro Brício, o espetáculo paira estranho no palco do Centro Cultural do Rio de Janeiro, criando lugares para imediatamente desfazer-se deles. Na trama, que se passa no sul da América do Sul, um garoto de 14 anos cria histórias de frente para o mar. Ele, cuja mãe faleceu na ocasião do seu nascimento, é obcecado pelo fim do mundo e agora aguarda um tsunami que está para chegar e arrasar toda a cidade. Tratado como fantasia depressiva do protagonista primeiramente, pois ninguém acredita que o tal tsunami de fato chegará, esse “lugar” que situa o personagem como um visionário logo é quebrado: de fato, vem o tsunami. Ou seja, a crença dele, que fazia com que o espectador o visse como alguém afetivamente ligado à morte, não era apenas crença, mas certeza. Comemorando os dez anos da Zeppelin Cia, esse espetáculo requer do espectador uma constante quebra de paradigma, embora não se aproxime do teatro do absurdo por apresentar referências de lugar e de tempo muito fortes. Divergente sem ser pós-dramático, “A outra cidade” tem difícil análise e difícil fruição e, talvez porque convide ao desafio, valha a pena ser visto. 

Ariela (Ludmila Rosa), cujo espírito vemos, é a mãe de Valentin (Bernardo Marinho) e de Augustino (Sérgio Módena). Pela forma como seus diálogos com o filho mais novo se dão a ver na estrutura dramática, é o espectador levado a crer que se trata de mais uma imaginação de Valentin. Não o é, pois Mercedes (Erica Migon), irmã de Ariela e atual namorada de César (Sávio Moll), viúvo de Ariela, também vê a falecida. Não sabemos onde foram parar as fotos de Ariela, há um guarda roupa na areia da praia sem que sua origem e destino sejam revelados e, por aí, vários contextos se abrem, mas não se fecham e tampouco se relacionam os demais. 

Nas conversas com o espírito da mãe, Valentin quer muito saber para onde vão os mortos quando não mais vivos, enquanto a mãe deseja que o filho pare de pensar nela, já que essas lembranças machucam a sua alma. A relação entre esses dois objetivos é forte e potente, mas parece não ter sido o bastante para a dramaturgia de Brício. Em “A outra cidade”, esse diálogo divide lugar com a frustração de César e de Mercedes: ele largou as aulas de filosofia que lecionava para trabalhar em uma loja de sapatos e ela quer que seu relacionamento seja oficializado por César. Na casa, Augustino e sua noiva Pepeliz (Branca Messina) estão às portas do casamento, com apenas um resquício de sugestão de que algo talvez não vá bem entre eles. E, assim, como os personagens mal podem influir dentro de seu próprio núcleo, quanto menos nos demais, não há uma história que realmente se manifeste enquanto uma estrutura sólida e que dê conta do todo de “A outra cidade”. Por esse não aprofundar de trato e por essa falta de sugestão de hierarquia e articulação narrativa, a peça entrega para o espectador a responsabilidade pelo sentido, embora finque-se em lugar de contadora de história, cheia de informações divergentes. 

A direção de Pedro Brício tampouco é clara. O ritmo da comédia, sobretudo em Migon, em Messina e em Celso André (ele em personagem menores) não encontra lugar à vontade na história de Ariela, que morreu de câncer; de Valentin, que não conheceu a mãe; de César, que não sabe o que fazer da vida. Assim, nem ri-se em alguns momentos, nem chora-se em outros, e nenhum dos dois lados aponta para algum tipo de humor negro que poderia melhor embasar a concepção. Estão em bons trabalhos Bernardo Marinho, Sávio Moll e é possível identificar a boa contribuição de Celso André na diversidade de seus personagens. No entanto, Branca Messina e Ludmila Rosa trazem participações fracas, sem carisma, com falas verbais e gestuais sem vida e nem cor. 

O maior ponto positivo de “A outra cidade” é a belíssima direção de arte de Rui Cortez. Os figurinos estão excelentes em ótimo casamento com o cenário tanto no chão e na rotunda, como na escolha dos móveis e na dupla com o desenho de iluminação de Tomás Ribas. A marca atemporal, em que o verde marinho colore a cidade litorânea prestes a desaparecer e também as lembranças da ditadura sul-latino-americana, é vista tanto nos trajes masculinos como na diferente composição das roupas femininas. O conjunto faz pensar sobre o valor não completamente visto, mas, quem sabe, imanente nesse espetáculo de Pedro Brício. Esperemos! 

*

FICHA TÉCNICA
Texto e Direção: Pedro Brício
Elenco: Bernardo Marinho, Branca Messina, Celso André, Erica Migon, Ludmila Rosa, Sávio Moll e Sergio Módena
Direção de Arte, Cenário e Figurino: Rui Cortez
Iluminação: Tomás Ribas
Música: Felipe Storino
Programação visual: Alcinoo Giandinotto
Direção de Produção e Administração: Carla Mullulo
Produção: Carla Mullulo e Sábado Produções Artísticas
Realização: Zeppelin Cia
Patrocínio: Banco do Brasil
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil