sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Entre Cabelos, Olhos e Furacão (SP)


Filipe Catto no show
Foto: Pops Lopes

O universo expressionista de Filipe Catto

Do ponto de vista teatral, o show “Entre Cabelos, Olhos e Furacão", apresentado na última quarta-feira, 9 de outubro, no Theatro Net Rio, é um sucesso talvez tão grandioso como o é enquanto musical. No espetáculo, os elementos significativos são bem articulados, construindo discretamente uma atmosfera propícia (e bem vinda) para a fruição das letras cantadas em altas doses de potencialidade. A começar pelo refrão "Seu moço, traz mais uma gelada que a nega aqui hoje teve alforria!", da música “Roupa do corpo”, a primeira grande canção do repertório, todos os signos refletem o universo expressionista das letras. A personagem que sai de casa apenas com a roupa do corpo volta a aparecer criminosa (“Crime Passional”), solitária (“Nescafé”), excitada (“Adoração”), leve (“Dia Perfeito”) e solitária outra vez (“Luz Negra”), mas sempre muito apaixonada. E são esses sentimentos quem ditam as regras que dão a ver o mundo do qual ela tenta nos convencer: formas diagonais, muitas sensações, emoções afloradas, cores e tamanhos em oposição. Em tudo, há coesão e coerência, marcas de um percurso textual bem escrito e bem apresentado. 

Filipe Catto, cantor gaúcho de 25 anos, é contratenor, isto é, próximo correspondente do contralto (feminino), sua voz é aguda e seu intérprete parece à vontade quando em falsete. O resultado, uma voz que não é grave para um homem e nem aguda para uma mulher, argumenta em favor de uma figura que não pertence a nenhum lugar ou sentimento, mas é livre. Sem dúvida, o material sonoro de que o músico dispõe está plenamente a serviço das letras que compõe e canta, o que reforça as marcas realistas que são apenas ponto de partida para a fruição do expressionismo. Vítimas das emoções, seus personagens são amantes antes de serem homens ou mulheres, sempre em atividade, inconformados com o que destino lhes providenciou e em luta por algo melhor. A voz de Catto é forte e potente mesmo quando é sussurro, não deixando-se fixar, assim, sob a égide de nenhuma classificação da ordem do tom ou do volume. Forma e conteúdo, dessa forma, marcam de novo a coerência já apontada. 

Sobre os demais elementos estéticos, o repertório casa-se bem com o belíssimo desenho de iluminação, esse cheio de focos solitários e potentes, dispostos em diagonais ou em plongèe absoluto, ambas escolhas que desformam as formas e, por isso, ratificam o expressionismo. A lâmpada solitária, o coração de neon, as luzes coloridas dão a ver um universo de bas-fond, em cuja noite esses seres inconformados se movimentam bem. Nele se encontram Billie Holliday e Edith Piaf, Amy Winehouse e o grupo dos 27, além da nata do samba brasileiro da mítica Lapa de outrora, mesmo sendo todos eles expoentes de gêneros musicais diferentes. Filipe Catto, assim, com “Entre Cabelos, Olhos e Furacão", está em outro lugar que não é o mesmo de Marcelo Camelo, Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Tiê e de Malu Magalhães, entre outros, expressando a diversidade da nova música brasileira. 

“Entre Cabelos, Olhos e Furacão" é o segundo disco de Catto, seguido de “Fôlego”, lançado em 2011. Eis um artista cujo trabalho vale a pena conhecer e acompanhar. 

O teste in blues (RJ)

Carlos Vereza volta aos palcos 21 anos depois
Foto: divulgação

Monótono


O maior problema de “O teste in blues” é o fato de que o espectador mediano sabe que já viu tudo aquilo, porque é capaz de prever todos os acontecimentos. Numa noite de final de semana, o cinegrafista Michael recebe uma jovem atriz para o último de uma longa fila de testes de vídeo para o papel de uma protagonista. Ela está nervosa e demora em acertar o texto. Ele está cansado, desolado, em fim (e decadência) da carreira frustrada. Por algum motivo, ele se sente atraído por ela e os dois começam um diálogo que, de espontâneo, passa a ser imperioso, porque começa a chover forte lá fora. Nisso, um velho profissional se ressignifica a partir de uma jovem iniciante. Em igual sentido, uma garota cheia de referências da arte e da literatura se transforma depois de vislumbrar seu talvez trágico futuro. Escrito, interpretado, com direção e direção de trilha sonora de Carlos Vereza, o espetáculo constrói a sensação de mofo, de coisas já muitas vezes ditas, de tédio. Cumpriu temporada no Teatro Jobim no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. 

Como ator da peça, Carlos Vereza repete o mesmo personagem já muitas vezes vistos em suas participações na TV: o homem triste, desinteressado, vítima da própria melancolia e cheio de raiva reprimida. Passa as horas dentro de um estúdio velho, obsoleto, cheio de livros e pó, bebendo café e whisky, fumando um cigarro atrás do outro enquanto sua barriga cresce. Carolinie Figueiredo também não tem desafios na viabilização do contraponto, primeiro porque é só manifestar direta oposição a com quem contracena, e segundo porque, como já se disse, o papel é raso. O conflito entre os dois é pura e simplesmente as diferenças de suas personalidades e elas em suas vidas, pois, enquanto chove, estão ambos presos um ao outro. Dessa forma, fica-se sem entender a princípio porque ele não encerra logo ou o expediente ou a carreira (há tempo para isso antes da chuva começar) e porque ela simplesmente não vai embora, pegando um táxi (a peça se passa nos dias de hoje). Logo, somos levados a ter certeza de que os personagens são meros (e tolos) motivos para um texto que tergiversa sobre a velhice e a juventude, o trabalho e a arte. Em termos de dramaturgia literária e cênica e de interpretação, “O teste in blues” tem pouco a acrescentar. 

O cenário de José Dias, visivelmente, também não é desafiador, a não ser pelo virtuosismo da chuva que cai realmente no lado de fora da janela. A marca realista é bem vinda porque estamos diante de um drama realista psicológico, embora falte à peça uma trama melhor amarrada e sobrem-lhe críticas sociais. O figurino de Rafaela Rocha e a iluminação de Maurício Ferreira são igualmente positivos porque, sem problemas, fornecem os meios necessários para a narrativa correr, houvesse uma. 

21 anos depois da última vez em que esteve no palco de um teatro, o grande ator Carlos Vereza ainda fica na “dívida” com seu público fiel e admirador. “O teste in blues” não corresponde às expectativas infelizmente. 

*

Ficha Técnica:
Autor, Direção, Interpretação e Trilha Sonora: Carlos Vereza
Atriz Convidada: Carolinie Figueiredo
Direção de Arte e Cenografia: José Dias
Assistente de Direção: Marcelle Lacerda
Figurinos: Rafaela Rocha
Iluminação: Maurício Ferreira
Fotografia: Ricardo Rheingantz
Produção Gráfica: João Paulo Andrade
Assistente de Cenografia: Paula Senra
Cenotécnico: Adílio Athos
Teclados: Leo Silva
Assessoria de Imprensa: Passarim Comunicação / Ciranda Comunicação
Produção Executiva: Roberto Ricardo

domingo, 6 de outubro de 2013

Quem tem medo de Virgínia Woolf? (RJ)

Dirigido por Victor Garcia Peralta, elenco apresenta
excelentes trabalhos
Foto: divulgação

Excelência e rigor


“Quem tem medo de Virgínia Woolf?” é a peça mais famosa do mais importante dramaturgo vivo (e em atividade) da história do teatro universal. O norte-americano Edward Albee (nascido em 1928) a escreveu em 1962 e, desde então, montagens bastante meritosas mantêm acesas as chamas do bom teatro. O teórico Martin Esslin estava certo ao ler a obra a partir do gênero Teatro do Absurdo, na variação das atualizações para a América, em paralelo ao teatro europeu. Como em Sartre, Beckett ou Ionesco, temos aqui diálogos descontínuos e uma situação de aprisionamento que dizem mais sobre a complexidade do mundo contemporâneo do que o realismo, o romantismo ou mesmo o Teatro Pós-Dramático. O título pode, também, ser traduzido por “Quem tem medo de viver a vida sem falsas ilusões?”, pergunta que é respondida na fala final de Marta, esposa do professor Jorge, ambos anfitriões do jovem professor Nick e de sua esposa Mel. O chant, cantado sob a melodia de “Quem tem medo do Lobo Mau?” (em algumas versões, preferiu-se “Cabeça, ombro, joelho e pé” em função dos direitos autorais da canção do filme “Os três porquinhos”, da Disney), animou a festa dada pelo pai de Marta, reitor da Universidade onde Jorge e Nick trabalham, aos professores. Agora ele anima a recepção que Jorge e Marta oferecem em sua casa, começando por volta das duas da manhã. Dirigido por Victor Garcia Peralta e viabilizado pelo sempre excelente e bem vindo projeto VivoEnCena (louvores a Marcelo Romoff e a Expedito Araújo!), o espetáculo está em cartaz no Teatro dos Quatro, na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, sendo uma das melhores, porque vibrante, produções de 2013 no país. Embora Zezé Polessa e Ana Kutner apresentem trabalhos esplêndidos de interpretação, são Daniel Dantas e Erom Cordeiro quem, pelos motivos a seguir expostos, se destacam. Outro ponto relevante é o cenário de Gringo Cardia nessa peça que só oferece valores à programação teatral carioca. 

Jorge e Marta estão casados há 23 anos quando, nessa madrugada dos anos 60, nos Estados Unidos, recebem Nick e Mel em sua casa. Já bêbados e cansados, não só da noite mas um do outro, é preciso receber os visitantes para cumprir a ordem dada pelo Reitor de tratar bem o “novato” e sua esposa. Sem opção de não atender à campainha, a segunda festa começa sob a música de, essencialmente, quatro jogos cheios de perversidade: “Humilhando o anfitrião”, “Comendo a anfitriã”, “Pegar as visitas” e “Nosso filho”. Albee, assim, faz parceria com Ionesco e com Sartre evidenciando personagens vítimas de regras por eles desconhecidas. Essa é a metáfora e a contribuição do Teatro do Absurdo para a contemporaneidade: nós, humanos, permanecemos, como os gregos e elizabetanos – fantoches do destino, quase sempre incapazes de compreender as “linhas tortas” que os deuses escreveram. Jorge e Marta são carrascos um do outro desde que Marta percebeu que seu marido não era o “vencedor” que ela quis que ele fosse. Jorge, por sua vez, vinga-se de si próprio e de Marta, sendo ainda mais apático e, com isso, tragicamente irônico, do que por natureza ele parece ser. A crueldade constante e cada vez pior dos seus diálogos fazem direta oposição ao sentimentalismo hipócrita (e cafona) do modo como Nick e Mel se tratam, esses ainda no início do casamento e no começo da vida. Com o avançar da noite, e o gastar das falas sádicas, Jorge e Marta vão sendo vencidos pelo amor que um sente pelo outro. Por outro lado, o destino de horror vai sendo vislumbrado pelo jovem casal, esse também prisioneiro. (Albee sugere que Nick tenha se casado com Mel pelo dinheiro do sogro, um pastor evangélico.) 

Ao contrário do que os jovens atores costumam pensar, o Teatro Pós-dramático não é um grande desafio, simplesmente porque o gênero traduz para a arte cênica as ações e as interpretações do homem contemporâneo. Nesse sentido, o chamado “teatrão” é que é um obstáculo pelo qual todo esforço vale a pena. Normalmente em peças contemporâneas, Ana Kutner “dá a cara a bater” no personagem de Mel e vence o desafio, trazendo foco, concentração, técnica e talento que depõem a seu favor e em favor do espetáculo positivamente. Zezé Polessa, por sua vez, apresenta um dos trabalhos mais marcantes do ano em interpretação de personagem protagonista, viabilizando uma Marta sensual, ferina, forte, sarcástica. O ritmo com que os diálogos são ditos por ela, ao atualizar a comédia da qual a atriz é expoente, promove um fluxo textual que não se viu em Elizabeth Taylor, ícone da construção desse personagem no cinema. Por isso, temos aqui uma Marta à brasileira que atende às referencias e à linguagem do público e, assim, fazem Albee chegar à plateia muito mais naturalmente. Considerando as boas prerrogativas dessas duas atrizes, seu sucesso não nos surpreende. O mesmo não se pode falar de Daniel Dantas e de Erom Cordeiro, embora os motivos que lhes deem destaques sejam diferentes. 

Não há dúvidas de que Cordeiro é um bom ator, mas sua participação em “Quem tem medo de Virgínia Woolf?” só pode ser avaliada pelo interesse que o intérprete traz ao personagem de Nick, sem dúvida, a figura menos privilegiada do drama de Albee. Em vários momentos, a força de Cordeiro dá a Nick cores de heroísmo, fazendo-o co-protagonista ao lado de Jorge e não apenas coadjuvante. Não há um só momento em que Cordeiro esteja apagado em cena, apresentando um trabalho que situa o jovem professor em uma função opinativa, irônica, muito mais interessante do que se espera. Quanto à Daniel Dantas, quem está acostumado a sempre vê-lo repetir os mesmos personagens na televisão há décadas há de se surpreender aqui. Quanto mais chegamos ao fim da narrativa, maior ele parece estar diante da Marta de Polessa, o que é excelente visto o equilíbrio que se atinge com o feito. Mais uma vez, o teatro carioca tem no seu palco um conjunto de elenco que é unânime em positividade, conferindo justificativas para um aplauso agradecido ao trabalho da direção. 

É verdade que os trabalhos de figurino (Marcelo Pies), de iluminação (Maneco Quinderé) e de trilha sonora (Marcelo Alonso Neves) são positivos, mas o destaque é da concepção de cenário de Gringo Cardia. “Quem tem medo de Virgínia Woolf?” é lido como Teatro do Absurdo, mas não menos corretamente tido como uma atualização do gênero neorrealista norte-americano, cujos expoentes são Tennessee Williams e Arthur Miller. Nesse sentido, as marcas de verossimilhança presentes na cena, essa vazada com vistas ao infinito, são sólidas bases para o dramaturgo e o diretor brincarem com seus quatro “fantoches”. O girar da sala, em uma interessantíssima mudança de eixo, faz o cenário deixar de ser apenas ilustrativo ou informacional, mas passar também a ser plenamente cênico, isto é, capaz de contribuir para a narrativa não apenas como argumento, mas como argumentador. 

Muito antes dos milhares de amigos do Facebook, das cutucadas e dos curtires, dos smiles via Whatsapp, dos seguidores do Twitter e da venda quase livre do Rivotril, “Quem tem medo de Virgínia Woolf?” falava (e fala!) sobre a sedutora vida de ilusões sob a qual muitos de nós preferem se abrigar para não enfrentar a realidade. Quando elas se esvaem, na vida, restam apenas os vencedores. Jorge e Marta, assim, nos fazem um belo convite para uma noite de chagas, mas com uma essencial recompensa. Esse convite precisa ser aceito! 

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FICHA TÉCNICA:
Texto: Edward Albee
Tradução: João Polessa Dantas

Elenco: Zezé Polessa, Daniel Dantas, Erom Cordeiro e Ana Kutner

Direção: Victor Garcia Peralta
Direção de arte / cenografia / programação visual: Gringo Cardia
Iluminador: Maneco Quinderé
Figurinos: Marcelo Pies
Visagismo: Fernando Torquatto
Trilha Sonora: Marcelo Alonso Neves.
Assessoria de imprensa: Approach Comunicação Integrada
Operador de som: Yuri Ribeiro
Operador de luz: Mario Junior
Lei de incentivo: Sodila Projetos Culturais
Produção executiva: Carmem Oliveira
Direção de produção: Giuliano Ricca
Produtores Associados: Zezé Polessa/Giuliano Ricca
Realização: MJC Polessa Produções Artísticas / Ricca Produções Artísticas