terça-feira, 9 de julho de 2013

Submarino (RJ)

Marcius Melhem e Luciana Braga em cena
Foto: divulgação

Algo mais que uma comédia sobre relacionamentos


O que “Submarino” tem de melhor é a forma como a história avança. Ao invés de haver um ponto de conflito que irá fazer girar o desenvolver até a sua resolução no ápice, como é de costume, o texto de Miguel Falabella e de Maria Carmen Barbosa tem a interessante estrutura auto-criativa. Ou seja, há de se notar, além do fato dessa ser mais uma comédia sobre relacionamentos entre homem e mulher, o modo como a narrativa evolui: um problema surge, é resolvido rapidamente, outro surge, é resolvido também e assim por diante. Com a excelente intepretação de Marcius Melhem, há um destaque também para o cenário de Miguel Pinto Guimarães. A peça, a terceira montagem desse texto no Brasil, está em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro. 

Na sequência regular de aparecimento do problema-resolução do problema-aparecimento de um novo problema- resolução do novo problema, a comédia abandona os caminhos tradicionais de discussão de relacionamento ou de vaudeville e parte para um universo que é mais contemporâneo, mais profundo e menos tolo. Escrito em 1990, a história de César (Melhem) e de Rita (Luciana Braga) é metáfora para as relações que não se explicam logicamente, mas que existem e duram. Nesse sentido, com bastante habilidade, a dupla de autores conseguiu, e consegue nos últimos vinte e três anos, fazer o teatro refletir o mundo sob uma ótica um pouco mais consistente do que parece fazer e do que comumente se vê em comédias, o que é positivo. 

Victor Garcia Peralta tira bons resultados de Melhem e de Braga, procurando explorar o que cada intérprete tem de melhor. Ele é um excelente comediante e sabe usar os tempos da comédia muito bem. Ela conserva em si um misto de ingenuidade e de força que expressa a contento o desejo de Rita de ir, mas também de ficar. O doce e constante César está inexplicavelmente atraído pela livre Rita de forma que um complementa o outro em suas diferenças. Próximas do real além da narrativa como convém, as interpretações são positivas porque sutis, baseadas em gestos discretos, tempos invisíveis e em entonações que ora guardam ora revelam novidades. 

Os figurinos de Rita Murtinho fazem um excelente casamento com o cenário e com a iluminação em termos de sua paleta de cores. A escolha dos trajes é positiva também porque informa sobre as características dos personagens e facilita o ritmo da encenação. Maneco Quinderé e Miguel Pinto Guimarães, mais uma vez, como em “Novecentos”, evidenciam um excelente trabalho, aqui dado o destaque em função do privilégio que os dois concedem ao público de ver bem o que está acontecendo no palco. Acompanhadas de linhas que marcam os limites do(s) quarto(s) em perspectiva, a(s) cama(s) está(ão) virada(s) para a assistência, posta(s) em diagonal ascendente, caída(s) para o proscênio. Nisso há o convite para prestar a atenção na história, essa a grande estrela do teatro dramático.

"Submarino" é uma comédia e espera-se rir de um tipo de teatro como esse. Quando, além de divertimento, é também motivo para pensar, nesse caso, é lucro total. Embora feito para afundar, esse "submarino" permanece à luz.

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FICHA TÉCNICA
Texto: Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa
Direção: Victor Garcia Peralta
Elenco: Luciana Braga e Marcius Melhem
Iluminação: Maneco Quinderé
Cenário: Miguel Pinto Guimarães
Figurino: Rita Murtinho
Trilha Sonora: Pablo Paleólogo
Projeto Gráfico: Maurício Grecco
Produção Executiva: Roberta Brisson
Direção de Produção: Fernando do Val e Cristiana Lara Resende
Produtores Associados: Cristiana Lara Resende e Marcius Melhem
Realização: Cris Lara Produções Artísticas Ltda
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany


Novecentos (RJ)

Isio Ghelman no cenário de Miguel Pinto Guimarães
Foto: divulgação

Um simples e excelente espetáculo

“Novecentos” é um belo monólogo que o teatro carioca produziu em 2011. Dirigido por Victor Garcia Peralta, a partir do texto do italiano Alessandro Baricco (1958), escrito em 1994, o ator Isio Ghelman interpreta um saxofonista de uma pequena orquestra de um navio que conta a história do seu colega pianista, o ilustre Danny Boodman T. D. Novecentos. Com poucos elementos, Ghelman constrói um teatro da melhor qualidade, narrando com excelência estética uma história forte, porque rica, múltipla e capaz de encantar. O espetáculo esteve em cartaz no Teatro Dulcina, na Cinelândia, Rio de Janeiro, dentro da programação artística da ocupação “Dulcina abre o Pano”. 

Na narrativa, Danny Boodman T. D. Novecentos é o maior pianista de todos os tempos, apesar de nunca ter saído do navio onde nasceu provavelmente filho de imigrantes da terceira classe. Encontrado no piano do salão principal, o bebê foi criado pelo então pianista tripulante, que o batizou com o seu próprio nome acrescido do ano em que a criança nasceu. Algum tempo depois, quando da morte daquele que o criou, o garoto ficou algumas semanas desaparecido em um dos esconderijos da embarcação, tendo reaparecido, depois, para a surpresa de todos, tocando piano com extrema habilidade e notório talento. Tornado homem de poucas palavras, não havia, em sua vida, nada que depusesse contra ele, sendo admirado por todos. Novecentos encantava os viajantes do navio e encanta as plateias quando sua história é tão bem contada como aqui é o caso. A cena do duelo com o “Pai do Jazz” e a cena em que o pianista ensaia uma saída primeira do navio marcam a curva ascendente que conduz para o ápice que nos tira o fôlego nesse monólogo tão simples e tão excelente. 

Isio Ghelman conta a história com precisão e com grandes outros valores. Utilizando de seu carisma, o texto chega ao espectador em doses bem pensadas em um ritmo que se altera positivamente em pausas e em diferentes velocidades e entonações. Pequenos gestos ganham significados grandes em função da estrutura bem articulada que o ator e a direção movimentam no palco. Nada é desperdiçado no falar, no olhar, no andar, no gesticular e em como tudo isso se engendra em um só quadro que começa no início e termina no final. Nenhuma palavra se perde, pois, com habilidade, Ghelman chama toda a atenção para si. 

Bem auxiliam o ator a iluminação de Maneco Quinderé, mas há que se dizer que o cenário de Miguel Pinto Guimarães vai além. As linhas horizontais, que variam em tons de cinza e em tamanho, podem significar ondas que são a única paisagem que realmente importa para Novecentos. Para nós, elas são lugares de escape, pontos de fuga difusos em que nos escondemos para fruir a história, fazer a catarse, nutrir a imaginação. As duas linhas verticais em verde e azul, que têm diferentes alturas, podem fazer analogia às teclas brancas e negras do piano, cujo conjunto de 88 peças são metáfora para o mundo que importa ao protagonista. O mérito brilhante do cenário de Guimarães é poder e não ser. Com humildade e força, a arte concreta nos convida a dar sentido, fazendo apenas a sua parte. Por isso, o casamento desse cenário com a história que é contada é tão potente, duradouro e feliz. 

Outro toque especialíssimo nessa montagem é a trilha sonora de Ary Coslov. O óbvio seria ouvirmos, durante toda a encenação, músicas interpretadas ao piano. Não é o caso. Coslov, ao participar da concepção de Peralta, situa o espectador de frente para o narrador e não para o narrado. Nas palavras do diretor: “Se Novecentos era o melhor pianista de todos os tempos, que pianista escolher para representa-lo? Cada espectador há de escolhê-lo quando assistir à peça.” Victor Garcia Peralta está certo e sua decisão é inteligente. 

Não há primeiro plano no teatro, pois, em todos os momentos da encenação, estamos diante do ator por inteiro. Quando toda a atenção se vê fisgada por sobre apenas uma parte mínima de Ghelman, vemos com facilidade e prazer que estamos diante de um excelente espetáculo. 

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Ficha Técnica
Dramaturgia: Alessandro Baricco
Tradução: Victor Garcia Peralta e Isio Ghelman
Direção: Victor Garcia Peralta
Intérprete: Isio Ghelman
Produção: Cristiana Lara Resende
Trilha sonora: Ary Coslov
Cenografia e iluminação: Maneco Quinderé e Miguel Pinto Guimarães
Direção de Movimento: Cristiana Lara Resende
Projeto Gráfico: Isio Ghelman
Produção executiva: Roberta Brisson

segunda-feira, 8 de julho de 2013

As horas entre nós (RJ)

Cris Larin, Joelson Gusson e Cristina Flores
Foto: divulgação

Nem mesmo uma homenagem à Virgínia Woolf

“As horas entre nós” parte de uma adaptação equivocada do romance “Mrs. Dalloway”, escrito por Virgínia Woolf (1882-1941) e publicado em 1925. Em função disso, toda a concepção assinada por Cristina Flores e por Joelson Gusson se manifesta de forma parcial em quase todos os elementos e em suas articulações ao longo do espetáculo com exceção do excelente figurino. Quando, afinal, a ideia está com problemas, não há como o objeto bem sobreviver. Em cartaz no Teatro Sergio Porto, um exemplo do quão fortemente estruturado precisa estar o conceito para se gerar uma obra. 

Todo o romance “Mrs. Dalloway” pode ser resumido em uma frase: é um elogio à renúncia, à desistência, ao suicídio e, sobretudo, à força e à coragem de que tudo isso precisa para acontecer. Para começar, Woolf escreve neorrealismo, isto é, um ponto além do realismo psicológico, mas com a mesma verticalidade (o leitor lê o mundo da personagem a partir dos olhos dela, com o filtro da crítica, mas sem o embaralho das emoções) que fez de Dostoievski o seu maior escritor. Todo o romance acontece em um dia em que Clarissa Dalloway prepara e realiza uma festa. As horas, então, são alargadas porque, em seus minutos e segundos, há escapes de consciência em cujo fluxo segue o leitor em busca do universo da protagonista, seu passado, seu presente, sua vida e o modo como ela reage a tudo isso. Septimus Smith, o coadjuvante mais importante entre vários do livro, é quem tem a coragem de dar cabo da própria vida, cansado que está de lutar contra as alucinações que ele vem tendo desde o fim da Primeira Guerra Mundial. Fosse romântico ou melodramático, o livro daria importância para as ações. Não o é. Tudo, até mesmo o suicídio de Septimus, são lembranças que passam na cabeça da Sra. Dalloway e que não interrompem seus planos para o dia. Clarissa, a personagem título, vive no mundo agora popularizado (no Brasil) pela série inglesa “Downton Abbey”: o entre guerras, as modificações na política britânica, as sólidas estruturas seculares começando vagorosamente a ser questionadas. Nada disso foi considerado na adaptação de Gusson, em que Septimus tenta funcionar com um espelho de Clarissa. Um erro. Em Woolf, é justamente a diferença entre ambos o que os afasta, ou seja, a coragem que ele tem e ela não são o que importa além de tantas outras coisas na relação de Dalloway e si própria. 

Gusson e Flores trouxeram “Mrs. Dalloway” para o Brasil de 1978. Se, em Woolf, as pessoas retornam pra casa com o fim da guerra, em "As horas entre nós", as pessoas retornam para o que sobrou de um país que vive ainda uma guerra bastante velada (e que, para muitos, nunca existiu). O Tratado de Versalhes marcou oficial e mundialmente o fim da Primeira Guerra. A Anistia não marcou o fim da ditadura brasileira. Septimus de Woolf lutou pela pátria contra outros países. Septimus de Gusson lutou no próprio país contra o governo militar, aliás, do qual faz parte o Sr. Dalloway, marido de Clarissa, e seu amigo de juventude. Se lá Septimus é um herói, aqui é um doente, aterrorizado pela tortura a que sobreviveu, digno de pena. Ou seja, os contextos e as regras que constroem os dois personagens homônimos são diferentes, apesar dos nomes permanecerem inadvertidamente os mesmos. Em suma, “As horas entre nós” é uma rede de argumentos que não conduzem e nem autorizam uma tese. Não há, afinal, tese aqui infelizmente e esse é o maior problema do espetáculo em questão. 

Permanecendo, agora, na análise da peça, nota-se que, principalmente depois de um monólogo de Septimus, todos os personagens, em algum momento, têm um momento de pura retórica em favor de alguma ideia a respeito da vida, das emoções, das relações, enfim. Nota-se aí um esforço em chamar para si uma importância através do verbo, falidas tenham sido as tentativas de fazê-lo cenicamente. Os diálogos se arrastam ou sem profundidade ou com uma profundidade forçada. O melhor momento, um dos únicos realmente bons, é o telefonema de Lucrécia para Clarissa no final da peça. Nele há emoção e imagetização, duas coisas que não são de Woolf, mas bem poderiam ter sido de Gusson, que é outro artista e se propôs, aliás, a algo diferente, embora sem sucesso. 

Os trabalhos de interpretação são difíceis de se analisar, considerando a fragilidade dos personagens que os atores tiveram em mãos. É possível ver bons momentos em Carolina Ferman (Elizabeth), além da já citada cena de Cristina Flores (Lucrécia), mas, de resto, sabe-se que todo o trabalho está comprometido, apesar do elenco ser composto por atores com experiência. 

Com os demais elementos não poderia deixar de ter acontecido o mesmo. A trilha sonora (Vicente Coelho e Dragão Voador) é extremamente ilustrativa e apenas isso. O cenário (Gusson) age no mesmo sentido redundante e pobre, com o desmérito de construir um ambiente próprio para conversas em uma peça em que os monólogos parecem ser bem mais valorizados. O desenho de iluminação é positivamente invisível e o figurino, composto por trajes belissimamente bem feitos, apontam para o realismo, no que fazem bem.

"As horas entre nós" anuncia-se como releitura de Virgínia Woolf, mas nem mesmo uma homenagem lhe presta. 

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FICHA TÉCNICA
Direção e Adaptação: Joelson Gusson
Concepção: Cristina Flores e Joelson Gusson
Dramaturgia: Diego de Angeli e Joelson Gusson

Elenco em ordem alfabética: Carolina Ferman, Cristina Flores, Cris Larin, Joelson Gusson, Leonardo Corajo e Lucas Gouvêa.

Participação de Anna Mullotte (em vídeo).
Diretora Assistente: Dulce Penna de Miranda
Luz: Paulo César Medeiros
Figurinos: Joana Lima Silva
Assistência de figurino: Carolina Casarin
Cenografia: Joelson Gusson
Cenotécnico: André Salles
Trilha Sonora: Vicente Coelho e Dragão Voador
Preparação Vocal: Marly Santoro
Direção de Movimento: Paula Maracajá
Visagismo: Vanessa Andrea
Fotografia: Paula Kossatz
Roteiro Vídeo Praia: Joelson Gusson e Leonardo Corajo
Programação Visual: Balão de ensaio
Assistência de Direção e Produção: Luiz Fernando Lopes
Administrador de Temporada: Marta Vieira
Administração Financeira: Aline Carrocino (Alce Produções)
Assistência de Administração Financeira: Aline Mohamad
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Assistência de Assessoria de Imprensa: Fernanda Miranda
Direção de Produção: Aline Carrocino (Alce Produções)
Produção Executiva: Igor Veloso
Realização: ARSX Produções Artísticas e Dragão Voador Teatro Contemporâneo