sexta-feira, 17 de maio de 2013

Apesar do amor (RJ)

Texto de Molière inédito do Brasil surge em espetáculo
sem concepção bem definida
Foto: divulgação

Para aprender o que não fazer

Apesar do amor” tem dois problemas graves: o péssimo trabalho de interpretação de todos os seus atores e uma direção que não se afirma em uma concepção que seja única. Escrito por Molière (1622-1673), em 1656, o texto é uma cópia de "l’Interesse (La Cupidité)", do italiano Nicolo Secchi. Na comédia clássica, com forte influência da Commedia dell’Arte, dois jovens estão apaixonados pela mesma moça, a filha mais nova de um homem que ficou rico através da tesouro herdado pelo seu primogênito. Ocorre que esse primogênito é, na verdade, uma mulher que está apaixonada por um dos rapazes que cortejam a sua irmã. No desenrolar da trama, o ritmo precisa ser rápido, as palavras bem ditas e os personagens bem construídos. Isso, porém, exige uma opção, uma forma de contar conscientemente escolhida. Ivan Fernandes parece não se decidir entre o melodrama, o vaudeville francês ou o teatro do besteirol. Em cartaz na Sala Maria Clara Machado, na Gávea, eis aí uma comédia que não faz rir, mas pode fazer refletir sobre as consequências negativas de uma obra construída apenas com boas intenções. 

A oratória mais próxima do real além da narrativa, mais casual, rotineira ou cotidiana aproximaria a obra do vaudeville francês, mas a falta de ritmo das cenas e de suas articulações afasta a atual montagem de “Apesar do amor" desse gênero. A fidelidade ao texto, em cujo final, há diversos deus ex maquina, em que tudo se resolve com largos exageros e “todos vivem felizes para sempre”, poderia oferecer uma leitura da história a partir dos melodramas cujo auge aconteceu no final do século XVIII e durante o XIX. No entanto, a sensualidade, o uso de expressões cotidianas e a malícia das piadas contemporâneas retiram a peça dirigida por Ivan Fernandes desse ponto de vista definitivamente. O uso de canções atuais e de expressões e pontos de vista do século XXI, bem como um ator representando uma mulher* apontam para uma atualização do gênero besteirol ou do teatro do ridículo. Infelizmente, as marcações firmes, a movimentação rígida e a falta de espontaneidade e de improviso levam a análise para uma concepção que seja contraditória. Ou seja, tudo o que permite à peça ser lida de uma forma também diz algo contra ela, o que reflete ou uma ingenuidade não própria do teatro profissional ou uma falta de reflexão estética sobre a própria obra cênica por parte do diretor, seus produtores e realizadores. 

Os atores, todos eles, não mostram um bom trabalho de interpretação. O texto é mal dito do início ao fim: as últimas sílabas não são pronunciadas, as entonações são regulares e monótonas, a dicção inexiste a contento. As expressões faciais e corporais exibem uma falta de consciência corporal, não há uma estrutura que se organize em forma de jogo com ritmo e flexão. Considerando esta ser uma janela destinada ao teatro profissional, as exigências que se fazem ao grupo são mais altas do que o grupo parece estar preparado.

A inclusão de números musicais (a direção musical é de Mario Fontanive Andrade) é um terrível equívoco tendo em vista a falta total de visível preparo do elenco para o canto (a preparação vocal é assinada por Thiago Roseiro): as músicas são interpretadas de forma mal afinada, sem projeção, sem ritmo e com falta de articulação nas cenas. A trilha sonora que acompanha a entrada dos espectadores na sala e a narrativa é confusa, porque arbitrariamente é interpretada ora ao vivo ora gravada, ora como representante de um estilo e de uma época, ora doutros sem claras justificativas. 

O cenário de Shizue Morimoto proporciona um bom resultado estético que é mal aproveitado no momento em que um dos personagens parece querer se afogar em uma fonte sem água. Quanto aos figurinos, as roupas têm bom desenho, mas causam um grande estranhamento pela forma bastante adversa com que estão construídos: muitos tecidos diferentes, sapatos de borracha, material estético de origem múltipla. Os adereços carecem de beleza e não agregam nem verdade, nem verossimilhança. 

Produzido e realizado pelo Teatro GAS, “Apesar do amor” exibe a importância da pesquisa em artes cênicas, da reflexão sobre a obra, do compromisso com a peça em relação à arte. Peça, aliás, é uma palavra que é sinônimo de Parte, cujo Todo é o idioma, aqui o teatro. A arte de Molière, ainda que ele estivesse vivo, permitiria muitas coisas, mas não todas elas ao mesmo tempo. Daí a importância de uma concepção, agora ausente, que dignifique a montagem e mantenha bem oxigenado o teatro. 


* No texto literário de Molière, há uma atriz que interpreta um homem para que seu pai seja digno de uma herança que só recebeu em função do nascimento desse primogênito. No texto dramático de Fernandes, há um ator que interpretada mulher que interpreta um homem, talvez, como uma relação entre a narrativa clássica e o tema da homossexualidade. A opção estética, infelizmente, carece de uma estrutura que lhe dê base, de forma que sua concretude não possa ser lida como apenas algum tipo de apelo ao riso fácil. 

*

Ficha técnica:
Texto: Molière
Tradução, Adaptação e Direção: Ivan Fernandes

Elenco (em ordem alfabética):
Diogo Borges (Erasmo)
Flavia Spranger (Frosina)
Guga Guimarães (Ascânio)
João Uno (Renatão)
Luciano Martins (Valério)
Maria Clara Nascimento (Marinete)
Raphael Carbone (Alberto)
Ruy Lemos (Polidoro)
Shizue Morimoto (Mascarilho)
Tatiane Albernaz (Lucília)

Musico Convidado: Mario Fontanive Andrade
Direção de Arte: Shizue Morimoto
Direção Musical: Mario Fontanive Andrade
Light Design: João Gaspary
Design de Som: Christian Dias
Preparação de Voz: Thiago Roseiro
Cenário e Figurino: Shizue Morimoto
Preparação de Corpo: Criz Muñoz
Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues
Produção Executiva: Paloma Morimoto
Produção e Realização: Teatro GAS

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Silêncios claros (RJ)

Cenário de Jorge Roriz e iluminação de Vilmar Olos
são destaques na peça a partir de contos de
Clarice Lispector
Foto: divulgação

Corajosa proposta: desafios transpostos: ótimo espetáculo

A partir de quatro contos de Clarice Lispector (1920-1977), Ester Jablonski surge com “Silêncios Claros”, produção que levou dez anos para ser maturada. Dirigida por Fernando Philbert, a peça, em cartaz no Parque das Ruínas e no Teatro Serrador, reúne quatro textos da escritora ucraniana naturalizada brasileira conhecida por seus personagens intimistas e seu fluxo livre de consciência. Talvez seja por isso, por essa característica tão forte dos textos de Lispector, que o monólogo não seja excelente, apesar de ótimo. As personagens ou a personagem interpretada(s) por Jablonski é sempre duas, no mínimo, ao mesmo tempo: quem faz e quem narra. E as forças de ambas não são as mesmas. Os grandes destaques da produção são a concepção de cenário de Jorge Roriz e de iluminação de Vilmar Olos, que, com inteligência e força, concretizam no palco alguns conceitos essenciais para a fruição da obra cênica. 

A dramaturgia parte dos textos “A fuga”, “O grande passeio”, “Uma tarde plena” e “Uma galinha”. Todos eles, de uma forma geral, refletem a solidão, ou o ponto de vista solitário de alguém em relação ao mundo. O externo das personagens surge filtrado pelo interior sensível de indivíduos que não têm poder nem força para modificar a sua realidade, assistindo aos acontecimentos. Não se tratam de vítimas, nem de cúmplices, mas de um tipo de plateia cuja opinião não interessa a ninguém. O espetáculo que elas vêem, assim, são os fenômenos que acontecem dia a dia diante dos seus olhos: a galinha no canto da casa, a cachoeira, o Maranhão, o bicho que poderia ser um rato,... Nesse sentido, a gloriosa contribuição de Lispector para a literatura é a oferta de uma força que protege suas personagens diante das agruras e das felicidades do mundo, de forma que elas estão, mais do que são. É essa força que a escritora tem a dar através de seus livros.

Na concepção de dramaturgia, direção e de interpretação da peça teatral, Jablonski precisa narrar e interpretar, isto é, sentir e pensar, ou viver e informar o que está vivendo quase ao mesmo tempo. Sem dúvida, eis aí um desafio bastante grande uma vez que expressar a solidão, contando sobre ela para alguém, é uma dialética complexa que, não com facilidade, a arte consegue dar conta. O cenário de Roriz e a iluminação de Olos contextualizam a personagem em um quadro que favorece a transposição desse obstáculo positivamente. Cadeiras suspensas (lugares, posições, cargos, situações discursivas: mãe, filha, parente, desconhecida, companheira de viagem, mulher...) estão unidas por fios em uma rede que expressa relações. O desenho de luz pinta o palco com linhas, valorizando a atriz no momento em que ela necessita ser vista pelo público, mas sempre destacando a forma solitária com que ela dá a ver a sua personagem também solitária. Por fim, a trilha sonora de Marcelo Alonso Neves marca a passagem do tempo e o ritmo da narrativa: tratando a história como se ela fosse algo a ser confessada para si mesmo. Pela forma como todos os elementos estão envolvidos, o resultado é positivo, porque a proposta foi atingida apesar de sua corajosa pretensão. 

O sucesso de Clarice Lispector, assim como o de seu discípulo Caio Fernando Abreu, se dá em função da literatura ser um tipo de arte que se frui sozinho. Com o teatro, o que acontece não é o mesmo. Construir com sucesso uma estrutura propícia, considerando as necessidades de cada dispositivo para narrar (livro e palco), é um problema anterior à narrativa. Jablonksi e sua equipe estão de parabéns. 

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Ficha Técnica:
Textos: Clarice Lispector
Direção: Fernando Philbert
Elenco: Ester Jablonski
Iluminação: Vilmar Olos
Musica Original: Marcelo Alonso Neves
Operador de Som e Luz: Felipe Antello
Figurino: Kiara Bianca
Cenário: Jorge Roriz
Fotos: Adélia Jeveaux
Programação Gráfica: Cláucio Salles
Direção de Produção: Daniela Paita
Produção: Jablonsky Produções
Assessoria de Imprensa: lu nabuco assessoria em comunicação

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Favela (RJ)

Gabriel Chadan, à esquerda,
tem excelente trabalho de interpretação
Foto: divulgação

Excelente texto e ótimas interpretações: bom espetáculo da zona oeste estreia no Leblon

“Favela”, espetáculo que estreou na Festa Internacional de Teatro de Angra dos Reis e cumpriu temporada no Teatro Fashion Mall, chega agora ao Teatro do Leblon, enriquecendo substancialmente a programação de teatro da zona sul do Rio de Janeiro. Entre muitas questões, uma que deve ser destacada é a impossibilidade de descolar a dramaturgia dessa peça do momento presente: “Favela” é 2013, não é 2003 e não será 2023. Nesse sentido, o jeito mais adequado de ler a obra é através do realismo naturalismo justamente por esse gênero oferecer uma descrição mais acentuada do espaço, esse o verdadeiro protagonista da narrativa. Michel Gomes, Rafael Zulu e Renata Tavares, mas principalmente Ana Berttines e Gabriel Chadan impõem à cena o vigor de que ela precisa para realmente aparecer no teatro profissional com galhardia, o que é extremamente positivo. 

Aos moldes de “O Cortiço”, obra de Aluísio Azevedo, ou de “Quando as máquinas param”, de Plínio Marcos, os personagens de "Favela" agem por instinto, nem vítimas, nem algozes, mas distantes de qualquer moral ou ética que os julgue. A “comunidade” (ou, usando o termo politicamente incorreto, “a favela”) é o ecossistema desses seres sem escolha, apesar da falsa ideia de poder escolher. O traficante fortalece a violência, mas expulsa do grupo os baderneiros. O pastor evangélico é preconceituoso, mas é o amor da vida de sua esposa. A fofoqueira é linguaruda, mas ajuda a quem lhe pede. O bonitão é conquistador, mas cuida do bem estar da sua mãe. Um por um, todos os personagens podem ser vistos a partir de pontos positivos e negativos, o que distancia a obra do melodrama e a aproxima da realidade além da narrativa. Com direção e idealização de Márcio Vieira, o espetáculo com cem minutos de duração narra o período de mais ou menos um ano na vida de vizinhos, amigos, pessoas que se criaram juntas e, apesar das diferenças, convivem diariamente uns com os outros. O texto de Rômulo Rodrigues é fluido e, na medida em que se compreendem os diálogos (há problemas na interpretação!), nota-se movimento linear e levemente ascendente que anuncia o fim, mas que também pode ser apenas o anúncio de um recomeço.

O elenco, de um modo geral, exibe bom uso do palco, da movimentação gestual e proxêmica, mas boa parte do grupo tem péssima dicção e praticamente nenhuma expressão facial. Há gritos em exagero, o que dificulta a compreensão, entonações pobres, sem substância e excesso pouco útil de força. Natalio Maria (Pastor Pereira), Helena Giffoni (Mulher do Pastor) e Dilene Prado (Valdira) têm boas oratórias, mas suas construções são tão rasas quanto superficiais. Simplemente não se consegue entender o que dizem Kawane Weza (Marilyn Mou), Gistele Castro (Jane) e Cláudia Leopoldo (Sara) tamanhos são seus problemas de articulação e projeção das palavras do texto. As duplas Carla Cristina (Meire) e Leandro Santana (Osmar), e Rafael Zolly e Wallace Fortunato (bandidos) têm boas figuras, mas nada além infelizmente para ser visto. José Augusto Mathias (O dançarino) não parece estar à vontade em cena, o que prejudica a fruição, considerando o número alto de vezes em que o ator está no palco. 

Fazem boas participações Cinthia Andrade (Elisa), Cridemar Aquino (Seu Euzébio), Felipe Frazão (Kadu) e Dja Martins (Dona Jurema), nenhum deles com grande destaque. O melhor do elenco de “Favela” se encontra nos belíssimos trabalhos de interpretação de Michel Gomes (apesar do terrível trabalho de voz), de Rafael Zulu (Juvenal) e de Renata Tavares (Suelen), sendo possível encontrar  neles força e intensidade, bom usos do tempo e do ritmo e presenças cênicas potentes. Chama-se a atenção para Gabriel Chadan (Murilo) e para Ana Berttines (Dona Vilma) pela forma ímpar com que estabelecem com seus pares os jogos cênicos, as relações de poder e as marcas fortes de verossimilhança.

O cenário de Derô Martins é bom, porque, além de ilustrar, possibilita o uso do palco com profundidades diversas. No entanto, o desenho de iluminação de Djalma Amaral não têm bom casamento com a ambientação, pois os refletores deixam ver os vazamentos de seu feitio, além de deporem contra a fruição em um contraluz negativo na casa de Dona Jurema. A trilha sonora é concordante com a estrutura na articulação da obra, apesar de, em um dos momentos, oferecer leveza em uma situação que exigiria maior peso. 

Diferente das produções teatrais dos períodos mais nacionalistas do teatro brasileiro, “Favela” não surge como síntese da cultura do país, mas como exposição de uma pequena parte dessa cultura. Sem grandes pretensões, assim, agrada porque surpreende positivamente aqueles mais reservados em relação a talentos mais puros e menos conhecidos do circuito profissional. Pelos resultados positivos e pelas cenas tão bem interpretadas, mas sobretudo pelo belo texto, a produção é bem vinda. 

*

FICHA TÉCNICA
Texto: RÔMULO RODRIGUES
Direção e idealização: MÁRCIO VIEIRA

Elenco:
B Boy - João Augusto Mathias
Bandido "D'Bonde" - Rafael Zolly
Bandido "Sinistro" - Walace Fortunato
Dona Antônia - Helena Giffonni
Dona Jurema - Dja Marthins
Dona Vilma - Ana Berttines
Elisa - Cinthia Andrade
Fiel Kadu - Felipe Frazão
Jeomar - Michel Gomes
Juvenal - Rafael Zulu
Meire - Carla Cristina
Menina Marilyn “Mou” - Kawane Weza
Moça Jane - Gisele Castro
Moça Sara - Claudia Leopoldo
Murilo - Gabriel Chadan
Osmar - Leandro Santanna
Pastor Pereira - Natalio Maria
Policial Celso - Nilson Melo
Seu Euzébio - Cridemar Aquino
Suelen - Renata Tavares
Valdira - Dilene Prado

Iluminação: DJALMA AMARAL
Cenário: DERÔ MARTIN
Figurinos: CAIO BRAGA
Direção de Corpo: SUELI GUERRA
Preparação Vocal: PEDRO LIMA
Direção Musical: MÁRCIO EDUARDO
Música inédita: GABRIEL CHADAN - BANDA FULANOS E CICLANOS
Música inédita: JOÃO AUGUSTO MATHIAS - Mc JOTA
Música “Meu nome é favela”: ARLINDO CRUZ
Assistente de Direção: GILBERT MAGALHÃES
Fotografia: FERNANDA SABENÇA
Arte: LEONARDO MIRANDA
Produção: PRAMA COMUNICAÇÃO (Ana Berttines e Rômulo Rodrigues) &
SOBRADINHO CULTURAL ( Leandro Antônio, Milton Filho e Márcio Vieira)