segunda-feira, 22 de abril de 2013

Pequenas tragédias (RJ)

Ana Carbatti em grande momento
de sua carreira
Foto: divulgação

Complexidade sem peso: um ótimo espetáculo em cartaz

Idealizada por Ana Carbatti e por Sean McIntyre, “Pequenas Tragédias” é uma ótima produção que está em cartaz na Sala Rogério Cardoso, da Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro. A partir de quatro histórias de Alexander Pushkin (1799-1837), a produção merece ser vista por vários motivos. O primeiro deles é a importância do texto. Em seguida, a excelência das interpretações e, por fim, a forma como os elementos foram bem articulados. Dirigido por Fabiano de Freitas, o espetáculo perde o caminho no início da última história, mas, até aí, só tem méritos. Por isso, vale o aplauso. 

Para entender a importância de Alexander Pushkin (1799-1837) para a literatura russa (e mundial), é preciso imaginar, em um homem só, um misto do que há de melhor em José de Alencar e em Machado de Assis. Fruto de uma sólida educação europeia, o pequeno Pushkin teve acesso ao que havia de melhor na arte neoclássica e, já no início do século XIX, sua literatura se tornou cerne tanto do romantismo como do realismo psicológico que iria dominar artisticamente a Europa e o mundo até a era do Iluminismo. O lugar trágico, o ideal romântico e o ponto de vista parcial, assim, fazem dele não apenas o fundador da literatura russa (Camões é o fundador da literatura portuguesa), mas um dos principais escritores da história. 

As quatro histórias que fazem parte do espetáculo, cuja dramaturgia é assinada por McIntyre, são: “O convidado de pedra”, “Mozart e Salieri” (que, ao lado de “O cavaleiro avarento” e “O banquete durante a peste”, fazem parte do livro homônimo escrito em 1830), “Conversa entre o livreiro e o poeta” (1830) e “Cena de Fausto” (1825). Nas três últimas da ordem aqui citada, é possível identificar o lugar trágico do personagem protagonista. Salieri não pode fazer outra coisa além de envenenar Mozart. O Poeta não pode fazer outra coisa que não vender seus poemas e sobreviver. Fausto precisa entregar-se a Mefistófoles e cumprir sua parte no acordo. Para esses três personagens, o destino que bate à porta deve ser atendido por mais pesado que o encontro seja. O cordeiro trágico, afinal, é aquele se entrega em silêncio ao sacrifício. O espectador sente esse poder ritualístico que atravessou os séculos de Eurípedes a Racine enquanto faz a sua crítica da situação: ao poder (o Vendedor de Livros), ao cristianismo (Mefistófoles), à mediocridade (Salieri). Baseado nesses aspectos, é possível identificar que Fabiano de Freitas estrutura a cena em retórica lenta e precisa, com frases extremamente bem articuladas, movimentos pesados e com entonações marcadas a contento. 

Ainda que, em alguns poucos momentos romântico em demasia, Renato Carrera apresenta excelente trabalho de interpretação. Os gestos são precisos, as marcas de personagens são postas de forma visível, a dicção está perfeita. Sem exceções, o trabalho de Ana Cabartti é vibrante, sólido, consistente. A dupla faz girar a evolução das narrativas com força, empurrando a encenação para o ápice que se dá em um belíssimo black-out ao som do Réquien em Ré Menor, de Mozart (a direção musical é de Roberto Bahal). Bem estruturada, a cena sintetiza as ações até ali, purgando os sentimentos do público na catarse prevista por Aristóteles em sua análise das tragédias clássicas. 

Em se tratando da cena final, em que Don Juan, personagem de “O convidado de pedra”, se encontra com a estátua do marido de sua amada, há que se dizer que o seu lugar na dramaturgia depõe contra ela. De todas, é a história menos clara, menos crítica e menos trágica. O lendário personagem de Don Juan vem dos romances de cavalaria, célebres durante o período Humanista (Cervantes) em que o homem descobria o mundo. Não é esse o lugar clássico, por mais esforços que Pushkin tenha feito em situá-lo ali. (Mozart, Baudelaire, Liszt, Dumas e Byron, com mais sucesso, o colocaram no lugar romântico que é seu de direito. Goldoni e Moliére lhe deram graça no teatro farsesco.) Nela, o ritmo da encenação de Freitas cai e nem números com guitarras conseguem fazê-la ajustar-se. 

“Pequenas Tragédias” é um espetáculo em que os elementos visuais se articulam ao espaço com excelência. O cenário de Carlos Alberto Nunes enche o lugar de cor e de conforto, sem reduzir as possibilidades de movimento. O figurino de Daniele Geammal permite sentir a oxigenação do lugar árcade (neoclassicismo) com elegância. Renato Machado tem grandes momentos no desenho de luz, sendo o seu melhor nos pequenos focos de luz visíveis quando Salieri (a direção de movimento é de Sueli Guerra) gira ao redor de seu próprio eixo com o veneno na mão. 

Exemplo de expressão técnica, inteligência conceitual e visão artística apurada, o trabalho resulta em um espetáculo teatral complexo, mas sem o peso da profundidade. É, por isso, bom objeto de estudo, bom entretenimento e ótima peça de arte. 

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FICHA TÉCNICA
Texto: Alexander S. Pushkin
Tradução: Sean McIntyre
Direção: Fabiano de Freitas
Direção de Movimento: Sueli Guerra
Direção Musical: Roberto Bahal
Elenco: Ana Carbatti e Renato Carrera
Cenografia: Carlos Alberto Nunes
Figurino: Daniele Geammal
Iluminação: Renato Machado
Fotos: Renato Mangolin
Programação Visual: Elio de Oliveira
Direção de Produção: Ana Carbatti
Produção Executiva: Cristina Carvalho
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Por que será que as amamos tanto...? (RJ)

Tuca Andrada estreia na direção
Foto: divulgação

Uma peça sobre os homens

“Por que será que as amamos tanto...?” é mais uma excelente oportunidade para quem gosta de teatro exercitar o ponto de vista e separar um texto muito ruim de uma direção muito boa. Não acredito em acepções preconceituosas do tipo “o diretor Tuca Andrada ajuda a dramaturgia de Daniel Datola”, porque literatura tem os seus instrumentos de linguagem que são diferentes do teatro. Julgar um a partir do outro é um erro grosseiro. No caso desse espetáculo, recém estreado no aconchegante Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, os diálogos do escritor argentino ainda inédito no Brasil chegam pelas mãos de Andrada, que estreia na função de diretor. No palco, os atores Marco Miranda (Leo) e Wesley Aguiar (Joca) abrem a temporada ainda bastante inseguros, enrijecidos, presos às partituras de movimento, o que é, por ora, negativo. Os indicadores, no entanto, são positivos: o teatro é  uma arte viva afinal. Com o tempo, a união Datola + Andrada + Miranda + Aguiar tem tudo para oferecer uma produção “mais azeitada” de forma que, pela temática de forte cunho popular, poderá fazer o público gargalhar, o que ainda não acontece infelizmente. 

Em cena, há uma dissertação (e não uma narração!) sobre as mulheres do ponto de vista machista, generalista e simplório por parte de dois homens casados. (Eis aí as marcas de arte popular de que se falou no parágrafo anterior. Esteja longe dos leitores qualquer preconceito sobre esse gênero teatral, tão difícil, tão rico e tão valoroso como qualquer outro, frisa-se). O problema da dramaturgia está em ficar no exato meio do caminho entre a poesia (e ironia) de, por exemplo, duas canções de “My fair lady”: “I`m an ordinary man” e “A hymn to him”, em que os homens ressaltam a sua superioridade diante do sexo feminino, e, no extremo oposto, de peças como “Diálogo dos Pênis”, coberto de piadas do tipo stand up comedy, despretensiosas e leves (do ponto de vista formal). Ou seja, “Por que será que as amamos tanto...?” parece não saber se quer ser uma narrativa tradicional, com frases ricamente construídas (cheias de próclises, ênclises e tempos verbais raros na linguagem oral) e personagens profundos, apesar da ausência total de conflito externo, ou se quer ser uma comédia de mesa de bar, dissertando acerca do panorama triste em que vivem os homens, esses em posições submissas diante de suas esposas. Cinquenta minutos depois de ter começado, sabe-se exatamente o mesmo que se sabia no décimo minuto e a revelação final surge sem ser verdadeiramente um ápice. 

Assistida por Leila Moreno, a direção de Tuca Andrada é firme, criativa e responsável por dar curvas a esse diálogo absolutamente linear. A fuga do realismo, com partituras bem desenhadas, manifesta a intenção de aproximar esses personagens do gênero farsa, justificando (e diminuindo as consequências negativas) a superficialidade das falas no não-desenvolvimento dos assuntos. Em vários momentos, o resultado é positivo, sobretudo na narração da cena da festa de casamento da qual Leo e sua esposa participaram como convidados, o melhor momento de toda a encenação. Ainda destacando positivamente o trabalho da direção, observa-se que o espaço é bem usado, vários níveis são explorados e há base para o jogo que, com o desenrolar dos finais de semana desta e das futuras temporadas, há de ser jogado (ou melhor jogado). 

Marco Miranda e Wesley Aguiar, embora não joguem entre si, têm alguns bons momentos em suas interpretações. Leo (Miranda) usa bem os tempos e as intenções, embora sem tanta desenvoltura na relação espacial. Sem boa respiração e naturalidade, Joca (Aguiar) usa bem os movimentos, criando boas situações. Cenário (Jayro Botelho e Tuca Andrada), iluminação (Fabiano Carneiro), figurinos (Ana Roza) e direção musical (Marcelo Alonso Neves) utilizam as oportunidades que têm para compor o quadro, imprimindo possíveis outros níveis de fruição, mantendo-se discretas em suas funções. Neves e Carneiro participam na criação de momentos específicos, Botelho e Andrada deixam a arena livre para o ritmo correr tão solto quanto possível e Roza estabelece diferenças entre Léo e Joca. Enquanto quadro, o resultado é positivo. 

Ao lado de tantas produções que tratam ora do universo feminino, ora dos relacionamentos contemporâneos, “Por que será que as amamos tanto...? tem seus méritos principalmente por ser possível identificar nela boas intenções. Caberá, talvez ao futuro, o sucesso ainda não visto. 

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FICHA TÉCNICA
Texto: Daniel Datola
Tradução e adaptação: Mônica Mayer
Direção: Tuca Andrada
Elenco: Marco Miranda e Wesley Aguiar
Assistente de direção: Leila Maria Moreno
Direção musical: Marcelo Alonso Neves
Iluminação: Fabiano Carneiro
Cenário: Tuca Andrada e Jairo Botelho
Figurinos: Ana Roza
Produção executiva: Edmar Caetano
Projeto gráfico: Mais Programação Visual (Humberto Costa)
Realização: Iluminata Produções Artísticas Ltda.

Aos domingos (RJ)

Texto inédito de Julia Spadaccini
ganha direção de Bruce Gomlevsky
Foto: Bruno Tetto

Peça trata da importância do acúmulo de si mesmo

Com muitos méritos, “Aos domingos”, o novo texto de Julia Spadaccini, trilha o caminho inverso do conhecido clássico do teatro brasileiro contemporâneo “A partilha”, de Miguel Falabella. Ainda que diferentes, os limites, tanto de chegada como de partida, são os mesmos: de um lado, uma herança, e, de outro, irmãos que se reencontram depois de muito tempo sem se verem. Enquanto no segundo, quatro irmãs se encontram para dividir a herança, no primeiro, em espetáculo dirigido por Bruce Gomlevsky, dois irmãos se reencontram para devolvê-la. Nas duas obras, finda a relação com os pais, resta aos irmãos muito além de objetos caros e de tipo sanguíneo comum: um dever com relação às velhas lembranças de tardes de domingo. Em cartaz no Teatro Glaucio Gil, em Copacabana (lugar narrativo onde, aliás, acontece o encontro das personagens de Falabella), Juliana Teixeira brilha na sua interpretação de "Ana", irmã de "Edu", personagem interpretado por Jorge Caetano. Além das marcas formais que ratificam as distâncias e as proximidades entre as duas peças, há que se identificar o conteúdo que “Aos domingos” guarda em si para compartilhar. 

No jardim de sua casa (no cenário, Nello Marrese ratifica a sua preferência por tablados circulares já vistos em “Os Mamutes” e em “R&J de Shakespeare”), Ana espera o irmão a quem não vê há seis anos. Nesse período, a mãe dos dois, anteriormente abandonada pelo marido, falecera. O encontro agendado para este dia tem, assim, grande significado: depois de um longo tempo, à mesma mesa, sentarão a filha, o filho e o pai. Os diálogos Spadaccini e os movimentos da direção de Gomlevsky (assistido por Glauce Guima) deixam ver de forma parcimoniosa cada personagem. A fruição disponível remete a Ibsen e a Tchekhov, talvez, por causa de uma quarta parede bastante forte e de um convite firme à catarse (purgação das emoções, segundo Aristóteles). Estamos, pois, dentro de Ana e de Edu, olhando o mundo a partir de seus paradigmas. Enquanto um foge da verdade em um casamento idealizado com Sérgio (Paulo Giardini), em sonhos com Johnny, um amigo de infância (Bruno Padilha), e com um mundo cheio de tolhas brancas, taças de cristal e ar condicionado na cozinha, o outro foge da verdade em terras distantes, em contatos mínimos com o mundo externo a si próprio e em relações passionais. Spadaccini e Gomlevsky fazem com que, nessa produção da Nova Bossa Produções Culturais, a verdade encontre o casal de irmãos. Um vulcão está para transbordar, pois é hora do acerto de contas. Só uma taça vazia, afinal, pode ser preenchida novamente. 

Em personagem coadjuvante, Paulo Giardini (Sérgio) imprime excelente resultado à obra, reforçando os momentos cômicos que, em “Aos domingos”, servem de impulso para o drama que há de vir. Ótimos tempos, entonações bem usadas, coluna curvada, sua participação é curta, mas marcante. Em uma construção bastante sóbria, Bruno Padilha (Johnny) está contido, fazendo bom contraponto com os protagonistas, esses em ebulição. No jogo de cena, Juliana Teixeira manifesta marcas de um nervosismo cheio de conteúdo, consequências de uma figura quente, sufocada, cansada de tanto esperar por ar puro depois de muito carregar as frustrações do passado (E a memória das inúteis tranças feitas pelo irmão em seu cabelo na infância para esperar o pai que nunca vinha é apenas um exemplo delas.). Seus movimentos dão ritmo, cor, consistência para a narrativa. Infelizmente, Jorge Caetano, no final de semana de estreia do espetáculo, ainda não joga em mesmo nível que a colega, manifestando uma construção pouco à vontade, endurecida e, por isso, menos contributiva com as necessidades do realismo psicológico. 

Figurinos de Flávio Souza estão bem no que diz respeito ao casal Ana e Sérgio, mas estão incoerentes com o todo em se tratando de Edu e de Johnny. Tecidos, ausência de meia (em Edu), modelagem das roupas usadas por esses dois últimos expressam um tempo que não é mesmo de vitrolas, telefones com fio e televisores pequenos. Luiz Paulo Nenen apresenta um desenho de luz cuidadoso, cheio de riqueza em detalhes que potencializa a condução das emoções. Já citado, Marrese, aqui ao lado de Natalia Lana, emoldura a história, articulando positivamente os signos em uma hierarquia que favorece o ritmo. A trilha sonora a partir de Edith Piaf acrescenta novas possibilidades de níveis para fruição sem emperrar a narrativa, mas possibilitar diferentes velocidades na construção de sentido. 

Na peça de Miguel Falabella, as irmãs não partiram para o mundo para encontrar a vida, mas para continuar a vive-la sob seus próprios pés. O retorno a casa da mãe e a redescoberta de um aparelho de chá de brinquedo são um convite para a preservação dos laços mais remotos. Em “Aos domingos”, Julia Spadaccini responde de forma a chamar a atenção para o fato de que, às vezes, é chegada a hora de cortar laços, separar o “joio do trigo” e não partilhar mais nada de si, conseguindo, assim, talvez, sobreviver às comédias da vida burguesa (de Copacabana). 

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FICHA TÉCNICA

TEXTO – JULIA SPADACCINI
DIREÇÃO – BRUCE GOMLEVSKY

ELENCO / PERSONAGENS
JULIANA TEIXEIRA - Ana
JORGE CAETANO - Edu
BRUNO PADILHA – João
PAULO GIARDINI - Sergio

ASSISTENTE DE DIREÇÃO – GLAUCE GUIMA
CENOGRAFIA – NELLO MARRESE e NATALIA LANA
FIGURINO – FLAVIO SOUZA
ILUMINAÇÃO – LUIZ PAULO NENÉM
TRILHA SONORA – BRUCE GOMLEVSKY
PROGRAMAÇÃO VISUAL – CAROLINA VAZ
VISAGISMO – EVÂNIO ALVES
GESTÃO DE REDE SOCIAL – ALAINA PAISAN
FOTOGRAFIA – PÁPRICA FOTOGRAFIA
PLANO DE MÍDIA – MAURO VIANNA
PRODUÇÃO EXECUTIVA – CAMILA VIDAL
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO – ACACIO VELLOSO
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO – JULIANA TEIXEIRA
REALIZAÇÃO – NOVA BOSSA PRODUÇÕES CULTURAIS
ASSESSORIA DE IMPRENSA – JSPONTES COMUNICAÇÃO - JOÃO PONTES E STELLA STEPHANY