sexta-feira, 12 de abril de 2013

À beira do abismo, me cresceram asas (RJ)

 Maitê Proença apresenta uma belíssimo trabalho
ao lado de Clarisse Derziê Luz
Foto: divulgação

O vôo de Maitê Proença

A tirar pelo seu excelente trabalho em “À beira do abismo, me cresceram asas”, pode se dizer que Maitê Proença deveria fazer mais teatro. Quem está acostumado a vê-la apenas bela nas grandes e nas pequenas telas, e nessas em pequenas e em médios planos, se surpreende positivamente com o seu trabalho exposto por inteiro, agora, no palco da Sala Fernanda Montenegro no Teatro do Leblon. Trata-se de uma peça simples, com roteiro de autoajuda e cheio dos clichês melodramáticos já esperados, o que não faz dela nenhum pouco menor enquanto objeto de arte (para quem é livre de preconceitos). Ao contrário, parte-se daí, desse lugar seguro, a avaliação de que a produção assinada por Cássia Vilasbôas (Nove Produções) é bem feita, porque segura na construção de sua própria identidade. Parte-se do clichê, mas não se fica nele. Os bons valores de “À beira do abismo,...” encontram eco nos ótimos trabalhos de interpretação, incluindo o de Clarisse Derziê Luz, mas sobretudo nas concepções de figurino e de cenário de Beth Filipecki e de Cristina Novaes respectivamente. Se o tema é simples, o trato é profundo e feito com valoroso esmero nos detalhes. Eis aí uma peça que lembra o homem enquanto homem, aproximando uns dos outros na plateia pela sua relação com a velhice própria e alheia a partir de sugestões cheias de beleza, investigação e poesia advindas do palco. Um belo trabalho! 

Com supervisão de Amir Haddad e com direção de Clarice Niskier e de Proença, o trabalho de atriz da segunda está sobretudo no olhar. É raro no teatro ver tão bom uso os tempos e das intenções todas elas baseadas no ponto focal, isto é, no para onde Maitê olha quando fala, ouve ou quando reflete. Seja para onde for, o espectador sente que é desse lugar (como que se concreto) que surge o trampolim para a reação ao que está acontecendo na cena. O trabalho, mérito da direção, tem excelente ritmo, delicadeza e força nos movimentos bem planejados, detalhes bem postos. O uso da voz, maior carência de Proença enquanto atriz, em um dos momentos, alcança bom resultado. É quando a personagem fala sobre a verdade de sua personagem que, na verdade, está dentro do que o outro vê sobre ela. Aí, o tom baixa, adquire uma cor mais gutural e vemos a atriz, pela primeira (e única vez) explorar um tom diverso que normalmente usa. 

Positivamente, vale destacar também a generosidade de Maitê Proença em cena. Todos sabemos que ela lidera a produção não só do ponto de vista da idealização do projeto, mas por ser simbolicamente o nome mais forte, devido aos trabalhos na televisão ao longo das últimas décadas. No palco de “À beira do abismo, me cresceram asas”, fãs e não-fãs encontrarão a profissional, muitas vezes, de costas ou de lado, ou simplesmente discreta e em silêncio, apontando o olhar do espectador para o trabalho de Clarisse Derziê Luz, esse cheio de força e excelentes usos dos tempos, da voz, do corpo e dos significados das palavras. Tem-se aí uma bela dupla de intérpretes, em que o jogo é equilibrado e, por isso, bastante bem feito. 

A dramaturgia contrapõe duas personagens bastante interessantes. Cheia cor, vivacidade, alegria e disposição, Valdina (Luz) deixa ver aos olhos mais sensíveis um interior pesado, porque cheio de mágoas. Seu bordão “Oh, Glória!” acaba por ser uma metáfora, uma máscara para as “inglórias” de sua vida. Ao seu lado, Terezinha (Proença) vive a depressão do abandono, da solidão, da velhice com coragem e sem artifícios. Talvez justamente por isso, por ser mais sincera com os próprios dissabores, diante do abismo, crescer-lhe-ão asas (O filme “Melancolia”, de Lars Von Trier, também trata da mesma tese). Nesse sentido, em termos teórico-analíticos, o espetáculo pode até parecer um drama sobre duas velhas companheiras abandonadas em um asilo, mas não é. O texto original de Fernando Duarte resultou, afinal, em um trabalho contemporâneo e forte que retirou o conflito narrativo do palco e o colocou sob a responsabilidade do espectador. Ela, a plateia, é quem identifica o que está por trás de cada figura e constrói, a partir daí, as articulações possíveis na estrutura tão bem engendrada por Niskier e por Proença. 

Sem dúvida, um dos maiores valores estéticos de “À beira do abismo” é o figurino de Beth Filipecki. Detalhe por detalhe, da maquiagem, à modelagem, passando pelo corte, pelas texturas, pelas estampas, as roupas caracterizam, sim, Terezinha e Valdina, mas vão além em suas asas. No processo de fruição, é possível encontrar, nas roupas, algumas indicações úteis sobre quem está mais preparada para voar embora triste e quem está mais disposta a ficar embora alegre. Cenário (Novaes), iluminação (Jorginho de Carvalho) e trilha sonora (Alessandro Perssan) acompanham Filipecki nos elogios. 

Seria superficial dizer que “À beira do abismo, me cresceram asas” é o que quer ser, embora esse já seria um grande valor. É supreendentemente mais! 

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FICHA TÉCNICA
Autora: Maitê Proença
Texto original: Fernando Duarte
Supervisão Direção: Amir Haddad
Direção: Maitê Proença e Clarice Niskier
Elenco: Maitê Proença e Clarisse Derzié Luz
Cenário: Cristina Novaes
Desenho de Luz: Jorginho de Carvalho
Figurinos: Beth Filipecki
Trilha Sonora: Alessandro Perssan
Direção de Movimento: Angel Vianna
Preparação Vocal: Rose Gonçalves
Assistente de direção e produção: Mayara Travassos
Assistentes de Iluminação: Daniel Galván
Assistente de Figurino: Edy Galvão
Confecção de Figurinos: Atelier de Costura – Edy & Ga
Assistente de Cenografia: Dina Levy
Assistente de Movimento: Marina Magalhães
Fotografia: Renata Dillon
Visagista: Cristiane Vicente
Maquiagem: Fabíola Gomez
Design Gráfico: Cubículo
Técnica em Iluminação Cênica: Poliana Pinheiro
Técnico de Montagem de Luz: Antônio Diniz
Técnicos Auxiliares de Luz: Denni Cintia, Marcos Braga e Samitri Bará
Operador de Luz: Hélio Malvino
Operador de Som: Alexandre Corecha
Diretor de Cena: André Boneco
Camareira: Nájala Nascimento
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Assistente de Assessoria de Imprensa: Fernanda Miranda
Direção de Produção: Cássia Vilasbôas
Produção Executiva: Fernando Duarte
Administrativo Financeiro: Karime Khawaja
Realização: NOVE PRODUÇÕES

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Na bagunça do teu coração (RJ)

Anna Bello e Cristiano Gualda
protagonizam musical com músicas de
Chico Buarque
Foto: divulgação

O estranho poder de fazer Chico Buarque ser inconveniente

O maior mérito de “Na bagunça do teu coração” é vencer o desafio da sua própria existência. Os ótimos arranjos para as canções de Chico Buarque e as boas interpretações de Anna Bello e de Cristiano Gualda, sob sábia direção de Rafaela Amado, merecem efusivos parabéns. A proposta em questão é muito difícil e, por terem vencido batalha tão insólita, as honras devidas são maiores. O grande problema diz respeito ao texto, afinal, comédia romântica é uma coisa e Chico Buarque é o seu exato oposto. Nesse sentido, a dramaturgia de João Máximo e de Luiz Fernando Vianna consegue fazer com que um dos maiores compositores da música popular brasileira pareça inconveniente. Em cartaz no Teatro dos Quatro do Shopping da Gávea, vale a pena ver o resultado de uma guerra vencida em nome da arte teatral, contemplando assim o talento de seus realizadores: elenco, músicos, direção e produção. 

O que caracteriza os musicais compostos por Chico Buarque, bem como boa parte de suas canções, é a brasilidade, então, traduzida por meio da ironia, do deboche, dos sentidos ocultos, do jogo de palavras, de seus sons, de seus significados. Nas letras, o tom político, bem como o sensual, estão presentes  ao longo das cinco décadas de música da carreira do artista. Os meios tons, as quebras do samba, a malemolência e a alegria (mesmo que trágica) do brasileiro são, em termos de suas articulações, o segredo que faz Chico Buarque ser quem é para a cultura nacional. No extremo oposto, estão as comédias românticas, o melodrama novelesco, a história idealizada. Com todo o respeito aos dois gêneros, e admiração a ambos, notar que um é diferente do outro não é situar um em lugar mais alto que o outro. Tarkovski seria um péssimo autor de novelas. O excesso de tempos mortos na TV faz cair a audiência. “Na bagunça do seu coração” parece ser “The Sound of Music” escrita por Stephen Sondheim. 

O velho e batido roteiro de história de relacionamentos (que continua agradando há décadas e décadas a fio sem desmérito) se repete: um casal se conhece, se apaixona e casa. Começam a aparecer as diferenças, vêm as brigas, eles se separaram. Cada um segue o rumo da sua vida, tentando esquecer o ex-cônjuge. Então, se reencontram e vivem felizes para sempre. Bastante longe da complexidade das relações fluídas vividas na vida além das narrativas românticas, o sucesso do gênero faz par com o alto número de vendas de “Cinquenta tons de cinza” (Erika Leonard James). Seu lugar está garantido por atender a uma demanda que, sem nenhum preconceito, tem o seu valor estético bastante assegurado. A questão aqui é que nada disso tem a ver com Chico Buarque. 

Num determinado momento da peça, por exemplo, quando, ainda casados, Ele e Ela começam a brigar, canta-se “O casamento dos pequenos burgueses”. Chico Buarque, com ironia e força, fala de um casal que se odeia, em que um pensa na morte do outro, um trai e o outro finge que não sabe, em que ambos mantêm as aparências. Parte do espetáculo “Ópera do Malandro”, a canção surge no fim dos anos 70, engrossando a campanha em prol da aprovação da lei do divórcio, o que aconteceu em 1979. Na peça escrita por Máximo e por Vianna, o aparecimento dessa canção nessa cena é um equívoco: o casal de protagonistas de "Na bagunça do teu coração" não finge que se ama e não deixará para a morte a responsabilidade pela separação. Nesta dramaturgia, o casal se separa logo em seguida, ou seja, a leveza de que o melodrama precisa para correr solto, privilegiando a sucessão dos acontecimentos, emperra na profundidade da chanchada de Chico Buarque. No repertório de Chico, a história é menos importante que a riqueza semântica dos diálogos. Em outras palavras, o hermetismo apolíneo de “Na bagunça do teu coração (Ele terá três namoradas, Ela terá três namorados. Eles se conhecem numa festa de réveillon em Copacabana, eles se reencontrarão, também, numa festa de réveillon em Copacabana) atrapalha e é atrapalhado pela desforma sensorial dionisíaca de Chico Buarque. 

Tirando a trilha sonora, tudo no espetáculo é coerente. Com uma pequena exceção (o bolerinho amarelo da alagoana), todo o figurino (Teca Fichinski) varia de cinza a vermelho, passando pelo azul e pelo rosa. O cenário parte de uma concepção inteligente, que favorece a comédia romântica e a sua agilidade. Sem grandes destaques, o desenho de luz de Luiz Paulo Nenen também aponta para a narrativa em detrimento da forma. Os trabalhos de interpretação são positivos, sobretudo do ponto de vista musical, em que tanto Bello quanto Gualda protagonizam excelentes números, considerando a intenção do gênero comédia romântica. (No fim dos anos 90, Claudio Botelho e Cláudia Netto interpretaram os personagens e, como agora, naquela oportunidade, foi principalmente a escolha do elenco e da direção, quem garantiu os aplausos.)

A apoteose final de Máximo e de Vianna, a família Von Trapp subindo os Alpes, o casal se reencontrando em felicidade, faz o público sair animado do teatro. Alienado de sua vida real, a que está prestes a se reencontrar, o público esquece o tom amargo de deboche contida na felicidade em technicolor de Chico Buarque. Ela pareceria, afinal, um imenso estraga prazeres. 

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Ficha Técnica
ROTEIRO João Máximo e Luiz Fernando Vianna
MÚSICAS Chico Buarque
DIREÇÃO GERAL Rafaela Amado
DIREÇÃO MUSICAL João Bittencourt
ELENCO Anna Bello e Cristiano Gualda
BANDA Ajurinã Zwarg | João Bittencourt | Tássio Ramos
DIREÇÃO DE MOVIMENTO Ana Bevilaqua
PREPARAÇÃO VOCAL Ângela Herz
ILUMINAÇÃO Luiz Paulo Nenen
CENOGRAFIA e FIGURINO Teca Fichinski
DESIGN GRÁFICO Leo Miranda
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO Ana Paula Abreu e Renata Blasi
PRODUÇÃO Diálogo da Arte Produções Culturais
REALIZAÇÃO Doravante Produções Artísticas

terça-feira, 9 de abril de 2013

A poltrona escura (SP)

Baseado em três textos de Pirandello, monólogo
estreou em 2003
Foto: Lenise Pinheiro

Trilogia Pirandello – segunda parte: Sem articulação

Em “A poltrona escura”, Cacá Carvalho está maior que Luigi Pirandello (1867-1936) e, por isso, o resultado não é bom. Uma vez que não há signo teatral, isto é, todos os signos são tornados teatrais, faz parte da identidade do teatro a sua característica congregadora. No momento em que o teatro se impõe, ele perde. Em cartaz no Mezanino do Sesc Copacabana, zona sul do Rio de Janeiro, a peça é a segunda parte da Trilogia Pirandello, da qual também fazem parte os espetáculos “O homem com a flor na boca” e “umnenhumcemmil”. 

A dramaturgia assinada por Stefano Geraci une três textos do autor italiano: “Os pés na grama”, “O carrinho de mão” e “O sopro”, publicados nos livros “Berecche e la Guerra” (1919) e “Candelora” (1928) de forma não articulada. Ou seja, o espectador desavisado não tem instrumentos necessários para ver que, no palco, são três personagens diferentes em contextos, inclusive estéticos, diferentes, mas negativamente é convidado a pensar que trata-se de uma só persona em uma história mal escrita. Não há mudanças na interpretação de Carvalho e nem tampouco no cenário, no figurino, no desenho de iluminação, ou na forma como o ator se dirige ao público (encenação). O teatro, assim, amordaça os textos (Pirandello) sobre suas ordens (Bacci) em uma narrativa que dura quase duas longas horas (Geraci) em que o espectador, perdido, tenta dar sentido ao que, de fato, não faz sentido. 

Na primeira história, depois da morte da esposa, o marido vê-se abandonado no quarto dos fundos, abandonado pelo filho e condenado a se despedir de suas referências mais essenciais (os móveis da casa, por exemplo). Trata-se de um Pirandello realista, herdeiro de Ibsen no teatro psicológico europeu. Na segunda, um conhecido advogado expõe seu ranço com a sociedade que o cerca e confessa o meio de que se utiliza para se livrar da tensão: uma tara sexual, um segredo a ser guardado a sete chaves. Eis aí um Pirandello que, por estar mais próximo de Albee, pode ser facilmente lido como um dos iniciadores do teatro do absurdo que, décadas depois, será conhecido. Por fim, na última narrativa, que é mais próxima da segunda, há um homem que descobre ter um poder sobrenatural, capaz de tirar a vida de outrem com um gesto simples e discreto. O fato o torna senhor da morte e da vida alheia. Sem perceber as passagens de uma história para a outra, a plateia espera ansiosa pelo desfecho da primeira parte quando começa a segunda e das duas quando começa a terceira, acreditando que o todo é um ato só. “O senhor viúvo é quem tem o poder de matar? O advogado é o filho do senhor viúvo ou uma lembrança que ele tem de quando sua esposa ainda era viva?” Como uma novela mal resolvida, os núcleos são abertos, mas não se fecham claramente aos olhos de para quem o teatro é dirigido. Desse modo, é possível afirmar que “A poltrona escura” é um espetáculo fechado em si mesmo. 

Cacá Carvalho é um intérprete forte, potente e que conhece bem seu potencial expressivo. Sem um bom trabalho de direção, como é o caso aqui, o personagem único carece de marcas que valorizem forças, diferenciem tons, segreguem situações. Sem coesão, nem coerência, o trabalho nesse espetáculo parece histriônico demais, como que um portfólio das potencialidades do já renomado artista. É nele, em Carvalho, que se baseia a afirmação de que, nessa peça, o teatro parece querer ser mais forte que Pirandello. 

Sem articulação, elementos estéticos como figurino, cenário (ambos de Márcio Medina) e iluminação (Fábio Retti) aparecem insujeitos à avaliação, porque deslocados de uma estrutura que lhes dê suporte. Com estreia acontecida há dez anos, em 2003, a produção não agrada. 

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FICHA TÉCNICA - Trilogia Pirandello

COM: Cacá Carvalho

Direção: Roberto Bacci
Dramaturgia: Stefano Geraci
Cenário e figurino: Márcio Medina
Iluminação: Fábio Retti
Fotos : Lenise Pinheiro
Produção: Fondazione Pontedera Teatro
Realização: CASA LABORATÓRIO PARA AS ARTES DO TEATRO, FONDAZIONE PONTEDERA TEATRO/Italia
Gestão e Produção Executiva: Núcleo Corpo Rastreado
Assessoria de Imprensa no RJ: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Produção no RJ: 3! Ideias e Soluções Culturais
Técnico de Luz: Yuri Cumer
Tradução: Cacá Carvalho
Arte grafica trilogia: orbi designer