sábado, 9 de março de 2013

Clímax (RJ)

Domingos Oliveira se despede dos palcos em "Clímax"
Foto: divulgação

O Bom Robim Domingos de Oliveira!

“Clímax” é um presente imenso ao público teatral do Rio de Janeiro de todas as idades, sobretudo aqueles que são fãs do trabalho do grande Domingos de Oliveira. Do que se vê no programa da peça ao que se encontra em cena, tanto em termos meramente visuais e sonoros, quanto no que diz respeito aos diálogos, à trama e à movimentação, tudo é resultado de uma concepção que parte da miscelânea, da simples e despojada justaposição, do enrosco, da paçoca, do burlesco. Denominada como uma peça cômica, filosófica e policial ao mesmo tempo, o jogo é tão despretensioso quanto divertido, simples quanto poderoso, banal quanto valoroso. Em cartaz no Teatro Glaucio Gil, a peça diz-se ser a última do diretor, escritor e ator Domingos de Oliveira, que se despede dos palcos aos 76 anos, quase cinquenta anos de profissão. 

É difícil dizer realmente quando a peça inicia e os bons valores estéticos da montagem começam aí. Nessa dramaturgia, teatro e brincadeira se confundem. Sentando em uma cadeira de rodas, Oliveira apresenta a si próprio e a seus colegas de cena e, numa digressão que lhe é característica, prende a atenção do público de forma que, quando menos se espera, o assunto já são os personagens e não mais os atores que os interpretam, ou o lugar onde a peça se passa, ou como a produção foi levantada. Em cena, também sentado em uma cadeira de rodas, com 77 anos, está um professor de literatura que gosta de romances policiais. Um grupo de amigos, composto por um delegado de polícia (José Roberto Oliveira), um ex-aluno (Matheus Souza), uma ex-esposa (Claudia Ohana) e por uma secretária (Érika Mader), se reúne regularmente para conversar sobre o que andam lendo dentro do gênero, assistir a filmes e para beber. No dia em questão, em que se comemora o aniversário do professor anfitrião, a cidade do Rio de Janeiro está em polvorosa, pois mais um assassinato terrível aconteceu no centro da Lagoa Rodrigo de Freitas. Há um perigoso serial killer solto na cidade e, muito provavelmente, ele é o responsável por esse crime que incansavelmente tem sido noticiado ao longo do dia. Chove lá fora. É noite quando os membros do grupo chegam vestidos socialmente para a efeméride. Entre conversas sobre a vida e exposição dos dramas pessoais de cada um, cogita-se a possibilidade de pode estar entre eles o cruel malfeitor. 

Nesse clima exagerado entre melodrama e cinema noir, entre trama policial e comédia de costumes, “Clímax” diverte, sobretudo, porque passa a sensação de que é divertido fazê-lo. As interpretações são positivamente péssimas, as construções recheadas de canastríces, lágrimas e frases sem entonação, o que, no todo, é perfeitamente engraçado. Enquanto estrutura, todos os elementos, incluindo o conjunto das interpretações, formam juntos uma sólida estrutura que consegue meritosamente transmitir a sensação de superficialidade. Mas é apenas uma sensação, já que trata-se de um gênero que está sendo atualizado. Nesse sentido, a direção, assistida por Tracy Segal e por Sol Miranda, tem um trabalho pontual em garantir a coerência do realismo para o bom ritmo da comédia que se dá a ver. 

O cenário de Renata Paschoal e de Luiz Prado e os figurinos de Paschoal e de Priscilla Rozenbaum descrevem o lugar e o momento, atendendo adequadamente às necessidades da narrativa. A iluminação de Paulo César de Medeiros, cheia de focos, propõe níveis para o desenrolar da história, alternando excelentemente os momentos: apresentação, digressão filosófica e melodrama policial. 

Se fosse um filme, “Clímax” seria o melhor do trash no cinema B. Sendo teatro, é uma produção que sabe do seu próprio mérito a ponto de brincar com o crédito que a ela é dado. E a brincadeira é divertidíssima! Na despedida, Domingos de Oliveira brinda o público com o trecho final de "Sonho de uma noite de verão". Aqui vai ele em uma de suas traduções:

"Se vos causamos enfado por sermos sombras, azado plano sugiro: é pensar que estivestes a sonhar; foi tudo mera visão no correr desta sessão. Senhoras e cavalheiros, não vos mostreis zombeteiros; se me quiserdes perdoar, melhor coisa hei de vos dar. Puck eu sou, honesto e bravo; se eu puder fugir do agravo da língua má da serpente, vereis que Puck não mente. Liberto, assim, dos apodos, eu digo boa-noite a todos. Se a mão me derdes, agora, vai Robim, alegre, embora."
*

FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Domingos Oliveira

Elenco: Claudia Ohana, Domingos Oliveira, Érika Mader, Matheus Souza e José Roberto Oliveira

Voz Buarque: Roberto D’Ávila
Produtor Executivo: Luiz Prado
Figurinos: Renata Paschoal e Priscilla Rozembaum
Ambientação: Domingos Oliveira, Renata Paschoal e Luiz Prado
Iluminação: Paulo César Medeiros
Fotos: Guga Melgar
Assistente de Produção: Janaína Santos
Assistentes de Direção: Tracy Segal e Sol Miranda
Divulgação e Produtora Ocupação: Leila Meirelles
Produção: Forte Filmes

segunda-feira, 4 de março de 2013

Realismo (RJ)

Um dos melhores espetáculos do verão carioca de 2013
Foto: divulgação

João Velho em um dos seus melhores momentos

“Realismo” é um dos melhores espetáculos em cartaz no final do verão carioca de 2013. Escrito em 2006, o texto do escocês Anthony Neilson é nada menos que excelente e a direção de Tato Consorti em tudo organiza os elementos de forma a mostrar uma estrutura sólida que é plena em todos os seus aspectos. Interpretações, movimentações, signos meramente visuais ou sonoros, diálogos: tudo está conectado, produzindo uma obra única e singular que faz sorrir, gargalhar e emocionar, além de oferecer ótimo entretenimento e vasto material para refletir. Com bastantes marcas de contemporaneidade, o espectador precisa saber que estará diante de uma peça cuja dramaturgia (tanto a literária quanto a cênica) é bisneta dos três planos de “Vestido de Noiva” (Nelson Rodrigues, 1943), isto é, em “Realismo”, a convivência paralela de vários planos é apenas um dos muitos detalhes de sua (ótima) forma. Apresentado no Centro Cultural da Justiça Federal, o espetáculo haverá de ser um dos trabalhos mais marcantes da carreira do ator João Velho. 

Disposto a passar o sábado em casa, o personagem “João Velho” resolve passar o dia sozinho, esperando que sua ex-namorada retorne o contato. Enquanto isso, ele reflete sobre as perdas que acumulou ao longo de sua vida, os antigos relacionamentos, a infância, as amizades, as convivências, enfim, sua bagagem emocional que foi lhe tornando como ele é agora. As recordações surgem sem organização, as reflexões trazem mais perguntas que respostas, o passado parece não ser o indicativo do presente que, talvez, devesse ser. O dia passa pela janela enquanto a espera se alonga. As cenas se sucedem naturalmente, cheias de delicadeza nos diálogos de Neilson (tradução de Felipe Vidal) e com elogiosa sutileza na direção de Consorti. Abusando do clima leve da comédia, “Realismo” vai mostrando, aos poucos, que “realidade” não é sinônimo do que está acessível aos nossos sentidos e, muito menos, de verdade. E é nesse ponto que o espetáculo encontra forma e conteúdo na interlocução com a contemporaneidade. Como a "Winnie" de “Happy Days” (Samuel Beckett), "João Velho" está enterrado em seu buraco a espera de um "Godot" que lhe dê sentido. O tempo do relógio se esvai na medida em que a distância entre o que é causa e o que é feito deixa de ter lógica e existência. O sonho, a verdade e a lembrança passam a se misturar e o resultado são nós por vezes engraçados, por vezes reflexivos, mas sempre bastante fáceis de o homem contemporâneo se identificar. 

De um modo geral, o elenco apresenta trabalhos muito bons, exibindo uma direção bastante firme de Tato Consorti. Destaca-se, no entanto, o trabalho de João Velho (interpretando um personagem homônimo, o que dialoga com a construção de sentido do título da peça), cheio de doçura, carisma e integridade. Perdido em si mesmo, o personagem se dá a ver através de excelentes pausas, adequadas entonações e bom gestual. O personagem contempla os acontecimentos que se reavivam e/ou que acontecem consigo nesse sábado em casa, não se esforçando para controla-los. A opção confirma a trágica contemporaneidade que amarra a peça como um só todo. 

Aurora dos Campos, Antônio Guedes e Tomás Ribas (cenário, figurino e iluminação) têm, assim como Velho, em “Realismo”, um dos seus melhores trabalhos. Na cena da morte, por exemplo, em que Ribas cria um foco sobre um banco caído, há o exemplo de uma possibilidade de metáfora nascida pelo desenho inteligente de luz, criando uma gostosa piada. Na mesma direção, a máquina de lavar ou a presença do Gato, para citar também Campos e Guedes em bons momentos que não devem ser perdidos pelo espectador atento. 

Identificar obras teatrais inteligentes e, ao mesmo tempo, não pretensiosas é um prazer imenso. “Realismo” merece vida longa! 

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FICHA TÉCNICA

Texto: Anthony Neilson
Tradução: Felipe Vidal
Direção: Tato Consorti

Elenco: João Velho (João Velho); Adriano Saboya (Mullet/Pai); Paula Braun(Ângela/Apresentadora); Daniela Galli (Mãe/Política de Esquerda); Átila Calache (Átila Calache/Político Independente); Beatriz Bertu (Laura/Política de Direita); Christian Landi(Simão/Autoridade); Participação Especial (Gato)

Cenário: Aurora dos Campos
Figurino: Antônio Guedes
Iluminação: Tomás Ribas
Direção de Movimento: Marcelle Sampaio
Fotografia: Dalton Valério
Programação Visual: Luciano Cian
Direção de Produção: Tárik Puggina
Assistente de Direção de Produção: Carla Torres de Azevedo
Produção Executiva: Luísa Barros
Idealização: Imprecisa Companhia
Realização: Nevaxca Produções e Saboia Produções

Porcos com asas (RJ)

Andressa Lameu, Rafael Canedo e Patrícia Ramalho
são apresentados ao público carioca
Foto: divulgação

Peça revela talentos

Apresentado no Teatro Sesc Arena Copacabana, “Porcos com Asas” é um bom espetáculo, mas infelizmente perde a oportunidade de ser, além de bom, também importante. O problema está na dramaturgia, tanto literária quanto cênica, pois a peça tem, em sua narrativa, um problema de hierarquização, deixando claro que tanto o autor (Mario Sergio Medeiros) como o diretor (Claudio Handrey) não quiseram optar por um tema e aprofundá-lo. Ao contrário, a dupla de realizadores preferiu, dessa forma, apresentar uma galeria de situações envolvendo a adolescência, tratando todas elas de forma superficial. Escrita há trinta anos, "Porcos com Asas" já  revelou nomes importantes para o teatro brasileiro em outras montagens, como Murilo Rosa, Clarice Niskier e Luis Salém. A produção atual apresenta Andressa Lameu, Rafael Canedo e Patrícia Ramalho como responsáveis pelos melhores momentos da noite e é, por isso, bastante bem vinda! 

A peça começa e termina, fazendo referência ao mesmo (e interessante) assunto: a dificuldade de uma personagem adolescente de chegar ao orgasmo. Antônia (Lameu) tem dificuldades de se entregar. As conversas com a própria mãe (Ramalho) são difíceis, o contato mais íntimo com a melhor amiga (Julianne Trevisol) não se estabelece e o relacionamento com o namorado Rocco (Canedo) é conturbado. O conflito da personagem protagonista aparece, é descrito, é revelado com alto grau de importância, mas inexplicavelmente não se desenvolve, não se resolve, não se fecha. Enquanto isso, outros conflitos surgem, interrompendo aquele que poderia ser o elo de ligação entre toda a história, todos eles bem menores, e quase que igualmente pouco resolvidos. 

Começa o último ano escolar. Rocco, que ainda é virgem, se apaixona por Antônia, ela já com certa experiência sexual. Em meio a efervescência cultural de uma época não específica (o texto foi escrito em 1982, mas a encenação não deixa clara a data da narrativa), surge um movimento estudantil em que líderes se apresentam: é o caso do jovem Gianne (Manoel Madeira) e do professor Marcelo (Carlos Veranai). A iniciação sexual e política nascem, assim, ao mesmo tempo. Rocco se envolve sentimental e sexualmente com Marcelo, e o tema da homo ou da possível bissexualidade aparece também. A rejeição, os estereótipos, o poder são outros assuntos intrínsecos, tratados em meio ao desenvolvimento do namoro entre Rocco e Antônia, esse já, sozinho, terreno fértil para a fidelidade, a diferença entre homens e mulheres, a liberdade sexual, etc, etc, etc. No total, são quase duas horas em que, apesar de bem dirigidas, com bom ritmo e grandes trabalhos de interpretação, as cenas defendem sem força a narrativa de um modo geral, o que é negativo.

Andressa Lameu e Rafael Canedo exibem excelentes trabalhos de interpretação. Suas cenas são fortes, intensas, bem marcadas, com expressões e movimentos precisos, o que é excelente sobretudo para uma estreia. Patrícia Ramalho, em um personagem cômico, mostra bom jogo com o público, dominando o tempo da comédia com surpreendente habilidade. Em um momento mais dramático, Julianne Trevisol aproveita o pouco espaço e exibe segurança e boa dosagem emocional. Sem grandes destaques, os demais integrantes do elenco contribuem de forma positiva, dentro da concepção do diretor.

Os figurinos de Felipe Ferraz e a trilha sonora do diretor se esforçam sem resultado para definir uma época. Têm, como lado positivo, o mérito de dar colorido e movimento para as cenas. O cenário de Zanini de Zanine – um palco branco com cadeiras prateadas – tem o mérito de oferecer espaço livre para a narração, essa já cheia de entraves advindos da dramaturgia, como já se disse. A iluminação de Leysa Vidal dá excelente ritmo para a narrativa, sendo um dos elementos mais bem utilizados pela direção de Handrey assistido por Rogério Fanju. 

Escrito pelos italianos Marco Lombardo Radice e por Lídia Ravera (nenhum dos dois mencionados no programa ou na ficha técnica) e publicado pela primeira vez em 1976, o livro “Porcos com Asas” trata do romance entre os adolescentes Rocco e Antônia em meio aos ideais comunistas da Europa de 1968. Com bastante sucesso no Brasil nos anos 80,  o livro hoje ainda precisa ser redescoberto. 

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FICHA TÉCNICA:

Texto: Mário Sérgio Medeiros
Direção: Cláudio Handrey

Elenco:
Andressa Lameu - Antônia
Rafael Canedo - Rocco
Patrícia Ramalho - Mãe e Mulher do ônibus
Iuri Kruschewsky - Roberto
Julianne Trevisol - Lisa e Ana
Carlos Veranai - Professor Marcelo e Ele
Manoel Madeira - Gianne
Gabriella Cavalcanti - Laura

Assistente de direção: Rogério Fanju
Cenário: Zanini de Zanine
Figurino: Felipe Ferraz
Iluminação: Leysa Vidal
Trilha Sonora: Cláudio Handrey
Fotografia: Igor Rodriguez
Produção Executiva: Carlos Veranai e Thereza Moreira
Direção de Produção: Igor Rodriguez
Realização: Gypsy Produções