quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Amores Surdos (MG)

Foto: divulgação

Quando a música não precisa de canções, um espetáculo impactante


           Vivendo o momento é sempre mais difícil analisá-lo. Mais ainda é descrevê-lo. Ao reproduzi-lo, corre-se o risco de, ao fazê-lo, não fazê-lo, que é quando o teatro fica tão próximo da realidade além da narrativa que até parece não ser teatro. Ao embrenhar-se por sua conta e risco nesse desafio mais terrível, o grupo mineiro Espanca! acertou em potencializar (dar potência) ao que de simbólico há no real de forma que o teatro pudesse ser trampolim para a realidade reproduzida. Com isso, o real além da narrativa está nessa peça tão fortemente simbólico, e por isso vivo, que o espetáculo “Amores Surdos” parece “esfregar na cara” da plateia o seu próprio reflexo. Desde o monólogo “Estamira”, de Dani Barros, com direção de Beatriz Sayad, não se via algo tão impactante. 

As marcas da contemporaneidade, que faz a produção verdadeiramente cheirar a Hoje, são possíveis de ser vistas 1) no texto; 2) na forma de dizer o texto; 3) no não-texto; 4) nos elementos visuais (paleta de cores e texturas), nos elementos sonoros (a trilha, o ritmo, o sapateado) e nos elementos proxêmicos (as relações de proximidades e de distâncias entre os atores em si e deles com o público). Para o leitor leigo, é preciso que ele saiba que essas são as estruturas que fundam o teatro desde a Grécia até o dia de hoje, embora, por muito tempo, pareceu ser apenas o texto o ponto importante. “Amores Surdos”, que estreou em 2006, diz muito quando não diz, mas diz mais ainda quando não ouve e quando vê. 

No apartamento de cima, onde moram os vizinhos, briga-se muito. E quando os gritos lá estão muito altos, eles ligam música clássica a todo o volume a fim de disfarçar para o resto do condomínio. Chega um anúncio do edifício dizendo que, a partir de agora, será permitido aos moradores criarem cães e chegam também várias ligações de um dos filhos que mora longe, onde cai a neve e o fuso horário é diferente do daqui. Ele sente saudades de sua família, quer saber se o seu quarto ainda está intacto, manda presentes, sente a falta de todo mundo. Um dos filhos sente falta de ar. O outro é sonâmbulo. O outro não consegue sair para trabalhar. A outra ouve músicas o dia inteiro. O pai parece estar no quarto, a mãe cuida de todo mundo, ocupada em educar, acolher, ensinar, levar adiante a rotina para a qual, talvez, fora criada. Então, em uma família bem penteada que não é nem preta, nem branca, mas cinza, vem a lama. Marrom, pastosa, suja. 

Com texto de Grace Passô e com direção de Rita Clemente, “Amores Surdos” é a segunda produção do grupo. Nele, como já foi dito, do ritmo da respiração dos intérpretes às marcas de entradas e saídas de cada elemento, ou jogo estabelecido entre as partes, tudo é teatro medido, testado e brilhantemente aprovado. Não há nada a mais, nem a menos. Quando não sabemos o que faz um dos filhos (Sanuel/Marcelo Castro) do lado de fora, por que ele não consegue partir, por que ele não consegue voltar, para onde ele deveria ter ido, é aí que se encontram as funções que o espectador contemporâneo precisa executar num tipo de teatro que lhe diga algo mais que o apenas entretenha. Quando a mãe é gentil com o filho (Joaquim/Assis Benevenuto) enquanto dorme, mas dura com ele quando está acordado, eis aí, talvez, a metáfora para as relações virtuais, aquelas que se estabelecem sem ser atuais, ou apenas postas em uma zona confortável, mas com regras múltiplas (os rizomas de Deleuze e de Guattari). Quando todos sabem o que acontecem no andar de cima, mas não sabem o que há no quarto do filho que partiu para o exterior, ou esteve o pai da família nos últimos cinco anos, então, Passô se aproxima (e muito!) de Nick Silver e constrói um “Pterodáctilos” brasileiro, do interior da casa, há de surgir uma lama suja que limpará todo o mal. O “golpe de mestre” vem em seguida: a única forma de limpar o mal é mantê-lo como está. 

“- Ninguém vai matá-lo. Tem coisas que não se matam. Tem coisas que foram feitas para se viver com elas. Essa é a nossa realidade. Não se arranca a coluna por causa da dor nas costas. Este bicho vai continuar aqui, nessa casa, dentro de nós. Dentro de nós. Ninguém vai mata-lo. Tem coisas que foram feitas para se viver com elas. Tem coisas que foram feitas para se viver com elas. Tem coisas que foram feitas para se viver com ela. Tem coisas que foram feitas para se viver com elas.” 

Cada filho, Assis Benevenuto (Joaquim), Gustavo Bones (Pequeno), Marcelo Castro (Samuel) e Mariana Maioline (Graziele), oferece excelente interpretação, vista na forma como falam e como silenciam, como se mexem e como mostram sentir. Com mais possibilidades de aparecer, mas aproveitando todas elas e criando muitas outras, Grace Passô é uma das atrizes cujo trabalho fica na retina para muito além do fim do espetáculo. Com viva inteligência em cena, o foco é dela e usado com maestria quando está em cena, sem hierarquizar negativamente a atenção, mas centrar a narrativa nessa que é uma das figuras centrais da história: a mãe. Com decisiva concepção de cenário (Bruna Christófaro) e de figurino (Paolo Mandatti), a iluminação de Cristiano Araújo e de Edimar Pinto confere ao todo a inclusão da realidade alheia e, ao mesmo tempo, a certeza de que estamos vendo uma história. Teatro e não teatro se confundem sob as lâmpadas abaixo do teto de PVC. 

Daniel Mendonça assina a trilha sonora, mas é preciso dizer que “Amores Surdos” é um musical dos bons assim como “O Leopardo”, de Luccino Visconti. A música está presente em todo o espetáculo sem esperar pelas oportunidades óbvias da dança ou da canção como nas produções comuns, mas cavando lugar em circunstâncias inusitadas. O número de sapateado é brilhante em forma e em conteúdo, para citar apenas um momento. No silêncio de uma das cenas do fim, inclusive, vem o refrão: 

“- Vocês, por favor, já podem ligar seus telefones. Alguém pode estar chamando por vocês e isso é muito importante.” 

Recomendo com veemência, desejo Vida Longa e agradeço. 


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FICHA TÉCNICA

Direção: Rita Clemente
Dramaturgia: Grace Passô

Atores: Assis Benevenuto (Joaquim), Grace Passô (Mãe), Gustavo Bones (Pequeno), Marcelo Castro (Samuel) e Mariana Maioline (Graziele).

Consultoria Dramatúrgica: Adélia Nicolete
Assistente de Direção: Mariana Maioline
Cenografia: Bruna Christófaro
Iluminação: Cristiano Araújo e Edimar Pinto
Figurino: Paolo Mandatti
Trilha Sonora: Daniel Mendonça
Direção Vocal: Babaya
Preparação Vocal: Mariana Brant e Camila Jorge
Preparação Corporal: Dudude Herrmann e Izabel Stewart
Coreografia/Professor de Sapateado: Eurico Justino
Técnico e Operador de Luz: Edimar Pinto
Cenotécnico: Joaquim Silva
Costureiras: Mércia Louzeiro e Ireni Barcelos
Produção: Aline Vila Real
Realização: Grupo Espanca!

domingo, 4 de novembro de 2012

DziCroquettes em Bandália (RJ)

Foto: divulgação

Afora os preconceitos, encantamento e diversão  


Talvez, o realmente único grave entrave de “DziCroquettes em Bandália – Um musical eletrônico” seja a expectativa e há um pouco de estímulo vindo negativamente da produção nesse sentido. No texto do programa, consta o seguinte: “Símbolo da contracultura na década de 70, os “DziCroquettes” estão de volta.” Não, não estão de volta. Quem for no Teatro Leblon assistir a “DziCroquettes em Bandália – Um musical eletrônico” não vai voltar ao passado, no Teatro Tereza Rachel, no meio da ditatura militar e achar revolucionário um grupo de homens magros e peludos vestidos ora de homem, ora de mulher, ora de ambos em excelentes coreografias de Lennie Dale. E, se pensar dessa forma, vai sair frustrado. “DziCroquettes em Bandália – Um musical eletrônico” é um ótimo NOVO espetáculo, que conserva na estética algumas referências com os Dzis antigos, mas em um novo tempo, para um novo público, com um novo elenco. A revolução, enfim, acabou, mas a arte continua. E, no novo formato, continua bem. 

Encerrando qualquer comparação entre o espetáculo e o grupo que transformou o teatro brasileiro há quarenta anos, os novos Dzis não são nem magros e nem peludos, mas sarados e lisos. Os personagens, e a confusão entre o que é real e o que é ficção já deixou de ser inovadora há muitas décadas, são um grupo de rapazes que estão dispostos a vivenciar a sua própria sexualidade e a vida de um jeito mais livre e despojado. Vivendo em uma garagem, eles descobrem o documentário sobre “DziCroquettes” (2009, Tatiana Issa e Raphael Alvarez) e, inspirados naquela estética, transformam o lugar em uma casa de shows, mas, também, em um lugar onde corpos são vendidos ao prazer a fim de ganhar-se algum dinheiro. O mote, que não passa de um mote, pois permanece sem desenvolvimento e sem final, é apenas um motivo para os números de dança e de música que surgem do início ao fim e encantam, em sua maioria, a plateia. Com destaque positivo para as cenas de Flamenco, para o número de Kiko Guarabira e para “Dois prá, Dois pra cá” (belamente interpretada por Leandro Mello), apenas para citar três grandes momentos, o espetáculo apresenta um conjunto de bons cantores e bons dançarinos que, dirigidos por Ciro Barcelos, que também atua no elenco, ficarão ainda melhores com o tempo, as sucessivas temporadas e, espera-se, os novos espetáculos que darão continuidade ao projeto que agora estreia. 

Com exceção da participação de Bayard Tonelli, que interpreta “Borboletas também sangram” com força, ritmo e com magia, todas as cenas de texto se justapõem estranhamente com a estrutura da peça como se dela não fizessem parte, mas fossem legendas explicativas para o que se está vendo. A cena em que os atores pedem dinheiro ao público é negativamente agressiva, porque constrangedora (principalmente porque o público dos Dzis de hoje é burguês e não mais alternativo como, talvez, o era há quarenta anos). Há um apelo cansativo, mas não desnecessário, em repetir que o espetáculo foi montado sem recursos e uma tensão, essa, sim, exagerada em discutir a multiplicidade de orientações sexuais que pairam no elenco de atores e/ou de personagens. O desgaste desses momentos age em sentido oposto aos excelentes e marcantes figurinos de Claudio Tovar, que exploram com beleza e com criatividade tanto o lado feminino como o lado masculino, ora com divisões, ora sem elas, de cada intérprete e/ou figura. Impressa em cada roupa, a assinatura de Tovar, participante como Bayard e como Ciro do antigo grupo dos Dzis, pontua as ligações suficientes com o grupo referencial. 

Ciro Barcelos, antes e depois de tudo, está de parabéns pela coragem de ter liderado essa produção. Sem medo das comparações que vieram e, infelizmente porque equivocadas ainda virão, o novo espetáculo e o novo grupo estão em pé de forma viva e potente. Os temas do século XXI são outros, a discussão política tem outra cara, o impacto da misoginia não é o mesmo. Mas “DziCroquettes” faz parte da história do teatro brasileiro e o esforço, nem sempre alcançado, em não cristalizá-lo merece incentivo (sobretudo financeiro) e aplauso. Com empenho e valor, a direção musical de Demétrio Gil e design de som de Washington Campos, o cenário de Barcelos e de Guarabira (que seria muito mais animadamente fruído em uma casa de shows do que num comportado palco italiano) e a luz de Aurélio de Simoni fazem de “DziCroquettes em Bandália – Um musical eletrônico” mais um musical que celebra o Rio de Janeiro, o teatro nacional e o público cada vez mais atento a produções bem feitas. 

Uma vez que está na origem etimológica da palavra “teatro” o conceito de “lugar de onde se vê”, o que o público espera ver no palco não é, afinal de contas, algo tão impensável assim. Se, nesse sentido, o teatro acontece de verdade no olhar do público, que ele se deixe acontecer sem conceitos anteriores, mas com o coração aberto para algo novo cheio de encantamento e de diversão. 

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FICHA TÉCNICA

ProduçãoGeral: Cristal Produções Entretenimento
Concepção, roteiro e direção Geral: Ciro Barcelos
Assistente de direção e roteiro: Radha Barcelos
Músicas,letras e texto: Ciro Barcelos
Colaboraçãode textos: Colaboração Coletiva
DireçãoMusical, vocal e arranjos: Demetrio Gil
Figurinista:Claudio Tovar
Participaçãona estamparia de figurino: Victor Dzenck
Coreografia:Ciro Barcelos e Kiko Guarabyra
Cenógrafo:Pedro Valério
Designde Luz: Aurélio de Simoni
Designde Som: Washington Campos
Produçãode Elenco: Radha Barcelos
ProduçãoExecutiva: Renata Fagundes & Fernanda Fagundes

ELENCO

*Ciro Barcelos
*Wilson Procopio
*Franco Kuster
*Thadeu Torres
*Pedro Valério
*Cleiton Morais
*Kiko Guarabyra
*Leandro Mello
*Demétrio Gil
* Sonny Duque
*Kostya Biriuk
* Bayard Tonelli

sábado, 3 de novembro de 2012

Noites Brancas (RJ)

Foto: divulgação

Narração e narrativa em um equilíbrio interessante

Uma das questões mais interessantes do espetáculo “Noites Brancas” é o fato de que, em sua encenação, o ato da narração tem tanta importância quanto a narrativa. Interessante não significa nem realmente bom, nem realmente ruim, mas peculiar. Pode-se dizer com segurança que, fosse um Dostoiévski comum, isto é, realista psicológico, como “Irmãos Karamazov”, “Crime e Castigo” ou como “O Idiota”, o resultado sairia melhor porque, nesses romances, a análise do personagem é mais interessante do que o que ele faz. Dirigido por Thierry Trémouroux, diretor belga radicado no Brasil, e com atores, não atores e músicos no elenco, o espetáculo produz imagens ricas em beleza, cheias de sonoridade e com ótimas interpretações. O destaque está para a atriz francesa Hélène De Reymaeker, para o ator Rafael Veríssimo, para o cenário e figurino de Desirée Bastos e para a direção musical de Fabiano Krieger e de Lucas Marcier. 

“Noites Brancas” é um Dostoiévski inicial, um Dostoiévski romântico, assim como Machado de Assis em “Ressurreição” e em “A Mão e Luva”, ambos muito distantes de “Dom Casmurro”. É a história de amor de um rapaz que encontra, numa noite branca (um fenômeno em que o céu permanece claro mesmo após o sol se pôr porque ele permanece pouco abaixo da linha horizonte), uma moça triste nas margens do rio Niéva. Ele conta a história dele pra ela, ela conta a história dela pra ele. Ele se apaixona perdidamente por ela e ela aceita ficar com ele. Então, o grande amor da vida dela, que, a princípio, não viria nunca, reaparece e o rapaz, que é quem conta a história 15 anos depois, fica sozinho. Ou seja, toda a história é vista a partir daquele que ficou sozinho. O leitor não tem o ponto de vista nem dela, nem do outro que chegou. E é esse olhar único que a encenação de Thierry Trémouroux resgata ou quer resgatar. A pergunta é: o quanto de nós empregamos na história ao contá-la? Assim, o jogo no palco é de contadores vários para uma história única. Os personagens se sucedem em vários idiomas, em várias marcações, em várias traduções. E é bem feito na medida em que as cenas se alternam, mas permanecem como resultado imagens poéticas cheias de fluidez sem menos profundidade. 

Raquel Karro e Thales Coutinho, mas sobretudo Hélène De Reymaeker e Rafael Veríssimo têm interpretações sensíveis, cheias de docilidade e de candura, trazendo à superfície toda uma carga emocional presente no texto e, então, no todo da encenação. A cena final, coroada com a frase que termina o romance, fica na retina positivamente junto de outras tantas que foram vistas no decorrer da narrativa. Talvez a curva dramática que retoma a história não fique tão clara, mas eis aí o limite bravamente cruzado que separa o que é teatro do que é literatura. No palco da Cia dos Atores, é o primeiro que se celebra. 

Desirée Bastos constrói um lugar nobre para a narrativa. Muitos papéis brancos juntos dentro de um quadrado semi-transparente são a neve e a desolação, a frieza não só da paisagem russa, mas da solidão seja onde for que ela estiver sendo sentida. Os detalhes dos belos figurinos, sobretudo dos ternos, mas também dos vestidos ampliam os níveis de percepção da obra positivamente. A iluminação de Renato Machado, mas ainda mais a direção musical de Fabiano Krieger e de Lucas Marcier constróem lugares, marcam o ritmo e enriquecem os quadros. A sonoridade da fala russa, dita por Nancy Gaissionok, traz uma musicalidade ímpar que reforça a importância da narração em relação à narrativa. 

“Noites Brancas” é fruto de um processo composto por várias etapas, pontuado por cinco residências voltadas para a tradução do texto literário: três delas na Cia dos Atores, uma no Atelier de Preparação de Atores em Angra dos Reis e uma no Centro de Reciclagem de Atores no Rio de Janeiro. Após uma temporada no Espaço Sesc de Copacabana, em que se apresentou o primeiro capítulo com o título "Primeira Noite: Não se apaixone por mim", agora, enfim, a versão final que estreou no Festival Tempo. Vida longa! 

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Ficha técnica:

Direção: Thierry Trémouroux
Em cena: Arley Veloso, Clarisse Zarvos, Hélène De Reymaeker, Nancy Gaissionok, Rafael Veríssimo, Raquel Karro, Thales Coutinho e Fabiano Krieger
Dramaturgia: Thierry Trémouroux
Consultoria de Dramaturgia: Luisa Buarque
Cenário e Figurino: Desirée Bastos
Assistente de Cenário e Figurino: Amanda Ramos
Iluminação: Renato Machado
Direção Musical: Fabiano Krieger e Lucar Marcier
Programação Visual: Bruno Perlatto, Thierry Trémouroux e Raquel Karro
Produção Executiva: Fernanda Avellar e Marina Gadelha