sexta-feira, 11 de maio de 2012

À sua imagem e semelhança (RJ)


Foto: divulgação

História ruim contada de uma forma interessante

                “À sua imagem e semelhança” é um espetáculo produzido pelo grupo ComunidadeTeatral de Irajá (CTI) escrito e dirigido por Ribamar Ribeiro. A produção é amadora e aqui há que se fazer um esclarecimento sobre o termo. As produções teatrais se dividem em profissionais (quando há o objetivo de lucro e os profissionais envolvidos têm seus devidos registros nos das divisões regionais do trabalho após terem comprovado formação técnica ou acadêmica além de inúmeros trabalhos no mercado artístico), amadoras (quando os envolvidos têm suas atividades profissionais outras, dedicando-se à arte nas horas livres) e estudantis (quando os envolvidos apresentam trabalhos fruto ou parte de sua formação artística). Nos três níveis, há produções de alta ou de baixa qualidade e antever um resultado antes da obra ter sido vista não é outra coisa senão preconceito, o qual devemos sempre evitar. Participante do 33°Festival de Teatro da FETAERJ, Federação de Teatro Associativo do Estado do Rio de Janeiro, o espetáculo recebeu sete troféus (Prêmio Paschoalino) em diversas categorias. Agora está em cartaz no Teatro Municipal Ziembinski e ocupa, assim, uma janela de igual importância a dezenas de outras produções que se apresentam na cidade.
                O problema mais significativo de “À sua imagem e semelhança” é o texto. Com frases que se repetem num jogo até interessante, demora muito tempo para o espectador encontrar na obra resposta para o que exatamente está vendo. Então, a família (Pai, Mãe, Filho, Filha e Cachorro) apresentada no início ganha uma cena longa e há indícios de que a história está para começar. O conflito finalmente aparece: o filho morreu, mas a família não pode cuidar do seu enterro no momento porque a novela está para começar. Todo o cansativo jogo dramatúrgico que se viu até ali parece, enfim, fazer algum sentido. No entanto, a evolução desse conflito não se estabelece a contento. O tempo se perde, o espaço não se firma, a história não consegue se estabelecer. Sem tratar do tema de forma rica através de argumentos dissertativos, “À sua imagem e semelhança” é uma história mal escrita, ainda que contada, como será tratado a seguir, de forma interessante.
                A peça apresenta-se formalmente através do jogo de construção e de manutenção de uma linguagem cheia de códigos. As interpretações se dão a ver, nesse sentido, através de muitas marcas que escondem a espontaneidade, afastando-se do real além da narrativa. O efeito apresenta resultados interessantes do ponto de vista da narrativa, da estética e da produção. Primeiro, porque o espetáculo consiste em uma crítica à importância da televisão na vida do homem comum e, sendo assim, o trato com os seus códigos, muitos deles cristalizados pelo tempo e pela audiência constante, é positivo. Segundo, porque o excesso de marcas dá unidade estética ao todo e pode, do jeito como estão dispostos, divertir. Por fim, em se tratando de atores inexperientes, asseguram à produção ganhos de qualidade esperados, de forma que não há destaques no elenco, nem positivos e nem negativos.
                                Ficam, por fim, os figurinos de Cris Silva, que propõem uma estética potente, e um cenário ilustrativo de Rafael Balthazar e Ribamar Ribeiro, que é pouco utilizado além de um jogo cênico vivo embora superficial. Felizmente, acima de tudo, a graça de um elenco grande e jovem, unido em um só grupo, tratando com seriedade o teatro que apresenta ao público.

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FICHA TÉCNICA:
Texto e Direção: Ribamar Ribeiro
Elenco: Carola Prado, Cris Ventura, Fagner Falcão, Felipe Ferraz, Gustavo Araujo, Juliana Amorim, Leo Morais, Márcia Maia, Rafael Balthazar, Rodrigo Villas Boas, Talita Fusco e Zia Fatah.
Cenografia: Rafael Balthazar e Ribamar Ribeiro
Maquiagem: Getulio Nascimento
Figurinos: Cris Silva
Sonoplastia: Ribamar Ribeiro
Operação de som: Iamonã Vilhena
Iluminação: Bruno Caverninha
Produção: Cris Silva
Realização: Comunidade Teatral de Irajá - CTI

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O que você gostaria que ficasse? (RJ)


Foto: divulgação

A celebração da humanidade

                “O que você gostaria que ficasse” é um espetáculo teatral que surge a partir de uma pesquisa coletiva sobre o universo significativo sugerido no livro “O mundo sem nós”, de Alan Weisman, em que o autor imagina o processo de desaparecimento da humanidade já que nenhum dos meios de preservação existentes perduraria sem que o homem estivesse presente. Em termos estéticos, o mérito maior de “O que você gostaria que ficasse” está em unir o conteúdo à forma, a mensagem ao canal, o emissor ao receptor. A interatividade é usada de forma que o público participa da construção da história efetivamente. Quem assiste à peça é convidado a voltar no tempo. Lado a lado, a plateia se identifica entre si enquanto constrói um momento de rara beleza.

                Com texto e direção assinados por Miguel Thiré, que outrora dirigiu os meritosos “Superiores” e “Dois para viagem” (esse em conjunto com Jô Bilac), a produção, vista pela teoria, constrói um espetáculo a partir da celebração do encontro, do teatro enquanto resultado de uma relação convivial (ver Jorge Dubatti) em que pessoas se reúnem e são testemunhas e produtores de poética ao mesmo tempo em que são a poética. Os atores Cynthia Reis, Eduardo Cravo, Jarbas Albuquerque, Raquel Alvarenga e Suzana Nascimento deixam no palco coisas que gostariam que ficassem na possibilidade de seu desaparecimento. A discografia dos Beatles em fita cassete, os quadros de Van Gogh, uma câmera fotográfica Polaroid são alguns exemplos. O público é delicadamente convidado a participar e atende ao convite com carinho, deixando também suas pequenas “heranças” através de desenhos feitos no chão com giz. O público deixa a sua marca, as pessoas existem, a história acontece. Surge uma personagem cuja vida é feita de respostas ouvidas pelos atores a partir de perguntas feitas ao público, de forma que, em cada apresentação, é outro o protagonista. O momento ganha marcas visíveis de unicidade e de grande valor estético.
                Em “O que você gostaria que ficasse”, a fluidez da narrativa faz dupla com uma fluidez estética felizmente. O clima  que as cores e as formas dos objetos imprimem localizam a história em um lugar que já passou e a trilha sonora de João Thiré acompanha o significado propondo reflexões sobre o tempo. A direção de arte de Junior Santana, em que trilha, cenário, figurino e iluminação se encontram, é um exemplo de quão próximos estão os signos estéticos das conseqüências significativas de sua fruição.
                O tom de voz é cálido, a movimentação é suave, o ritmo caminha pausada e docemente. Em tudo, está o valor do ser humano, personagens de uma história que acontece todos os dias em um cenário grandioso que chamamos de universo. A ver!

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Ficha técnica:
Concepção e direção: Miguel Thiré
Elenco: Cynthia Reis, Eduardo Cravo, Jarbas Albuquerque, Raquel Alvarenga e Suzana Nascimento
Assistência de direção: Paulo Mathias Jr. e Raquel Alvarenga
Direção de arte: Junior Santana
Trilha sonora original e seleção musical: João Thiré
Iluminação: Cadu Fávero
Projeto Gráfico: Raquel Alvarenga
Fotos: Antônio Pessoa
Produção Executiva: Ana Rios e Bruna Oliveira
Assistência de produção: Beatriz Novellino
Direção de Produção: Jarbas Albuquerque
Produção Geral: Thijoana Filmes
Realização: Brecha Coletivo

sábado, 5 de maio de 2012

Super Coffin ou Sonho de uma Noite de Velório (RJ)


Foto: divulgação

Teatro popular de qualidade

                “Super Coffin ou Sonho de uma Noite de Velório” está há 13 anos no repertório de OsCiclomáticos Companhia de Teatro, grupo que, neste ano, assumiu a gestão do Teatro Municipal Ziembinski, no bairro Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro. Escrito por Odir Ramos da Costa, o texto consiste em uma farsa bem aos moldes de Moliére, Martins Pena e Ariano Suassuna. Os personagens se apresentam com marcas bastante fortes que os distanciam uns dos outros pela oposição, reconhecendo-se, assim, no contexto da trama que evolui de forma clara e ágil. Na história, Benvindo Seja da Silva é o dono da representação brasileira da multinacional Super Coffin, uma empresa do ramo funerário que, então, completa 25 anos no Brasil. Quis o destino que, na mesma data, a funerária estivesse na iminência de vender o seu 50.000º caixão, um número simbólico. Para comemorar o feito, Benvindo contrata um publicitário (Azevedo) para criar e executar uma campanha a fim de estimular as vendas. Apesar de irresistíveis promoções, ocorre que o 50.000º defunto não surge, obrigando Benvindo a questionar as propagandas que têm sido veiculadas a respeito da sua empresa. Enquanto isso, na fábrica de caixões, um antigo funcionário falece, mas deixa como último pedido não ser enterrado em um caixão da Super Coffin. Valores morais e religiosos entram em jogo na decisão da viúva: ser fiel à vontade do marido ou vender-se às promessas do patrão.
                Dirigido por Renato Neves, a comédia tem um ritmo rápido, que providencia à narrativa a agilidade que ela requer. Construídos superficialmente, os personagens são apresentados ao público pela ratificação de marcas, facilitando a identificação e possibilitando a auto-referenciação ao longo da peça. O cunho popular, que caracteriza o gênero em sua raiz, está exposto nas piadas de cunho sexual, na crítica ao fanatismo religioso, na malandragem, na corrupção e no deboche. O palco está quase o tempo inteiro limpo de forma que a movimentação acontece a contento. De um modo geral, as interpretações garantem um discurso fluído, com boas dicções, corpos ágeis e olhares irônicos capazes de transformar cenas simples em grandes momentos cômicos. Talvez o maior valor da direção seja o fato de manter constante o surgimento de “surpresas”, vencendo o desafio da monotonia de forma bastante criativa. Há, no entanto, alguns problemas. Um deles é a divisão do foco. Em várias cenas, a atenção está dividida em duas ou três partes, de forma que o texto está sendo dito em um lado do palco e, em outros dois, outras situações estão concorrendo com ela de forma gratuita e, por isso, negativa. Outra questão é a sustentabilidade do ápice. Em determinado momento da história, há uma cena que se repete três vezes, cada uma, de forma diferente. A forma como a sequência acontece dá a ver a sua eleição como o ponto alto da peça, de forma que tudo o que vem depois dela constitui o desfecho. “Super Coffin” é um espetáculo tradicional e que apresenta, como já se disse, uma estrutura aristotélica. Logo, espera-se que as resoluções aconteçam rapidamente, encerrando a fruição no momento alto. Infelizmente não é o que acontece. As cenas finais são longas, havendo um epílogo maior ainda. Como não poderia deixar de ser, o ritmo cai vertiginosamente.
                O elenco é composto por um grupo afinado e criativo. Fabio Alavez (Benvindo), Getúlio Nascimento (Basofia) e Júlio César Ferreira (Macadame) são as melhores participações, porque apresentam interpretações vivas com marcas fortes de espontaneidade. Sem dizerem uma só palavra, Fernanda Dias, Juliana Santos, Carla Meireles (Coffin Girls) e, sobretudo, Mauro Carvalho (a Secretária) se tornam essenciais na narração pela forma pontual com que ampliam as potencialidades cômicas da produção. É difícil de se compreender o que diz Nívea Nascimento (a Crente Nanete) na primeira metade do espetáculo, assim como há que se observar que o ritmo cai nas cenas em que atua Fabíola Rodrigues (Dona Emerenciana), talvez, em função da voz escolhida. Há um excesso de histrionismo no trabalho de interpretação de Ribamar Ribeiro (Azevedo) que é igualmente prejudicial.
                Os aspectos visuais de “Super Coffin ou Sonho de uma Noite de Velório” são positivos dentro da função que executam. O ponto alto do cenário de André Vital está na presença da estátua de São Jorge sempre iluminada a contrastar com a forte presença da personagem evangélica. Os figurinos, também assinados por Vital, são ricos, elevando o resultado estético da produção, sobretudo quando, na segunda parte da peça, exploram-se variações do roxo, cor litúrgica da penitência e, simbolicamente, da espiritualidade. A opção pela discomusic, na trilha sonora, é coerente com a concepção do espetáculo que localiza a história nos anos 70, mas oferece um grave problema à fruição da peça: o volume da operação é desreguladamente altíssimo.
                Em cartaz no Teatro Municipal Ziembinski, “Super Coffin ou Sonho de uma Noite de Velório” acontece em paralelo à exposição “Os Ciclomáticos Companhia de Teatro 16 anos de Vivência”. O grupo, pelo espetáculo e por chegar nesta etapa de sua história, merece aplausos.

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Ficha técnica:
Autor: Odir Ramos da Costa
Direção: Renato Neves

Elenco:
Fabio Alavez - Senhor Benvindo
Mauro Carvalho - Secretaria
Ribamar Ribeiro - Azevedo
Fabiola Rodrigues - Dona Emerenciana
Getulio Nascimento - Basofia
Julio Cesar Ferreira - Macadame
Nívea Nascimento - Nanete
Carla Meirelles - Coffin Girl 
Juliana Santos - Coffin Girl
Fernanda Dias - Coffin Girl

Cenografia, Figurinos e Maquiagem: André Vital
Sonoplastia: Renato Neves
Iluminação: Mauro Carvalho
Produção: Ribamar Ribeiro
Realização: Os Ciclomáticos Companhia de Teatro