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domingo, 22 de março de 2015

Luisa se estrella contra su casa (Argentina)

Foto: divulgação


Juan Manuel Wolcoff, Matías Vértiz e Luciana Mastromauro

Beleza e vigor incomensuráveis

O espetáculo argentino “Luisa se estrella contra su casa”, da Compañía Vilmadiamante, participou, neste final de semana, da programação do II Festival Dois Pontos. Com texto e direção de Ariel Farace, a peça foi co-produzida pelo VI Festival Internacional de Buenos Aires, em 2007. Além de Porto Alegre, em 2009, a produção já passou por Berlin e San Salvador, tendo recebido merecidos elogios por onde se apresenta. Com Luciana Mastromauro no papel título, o elenco conta também com Guido Ronconi, Matías Vértiz e Juan Manuel Wolcoff. O Festival Dois Pontos é fruto da parceria entre seis ocupações artísticas dos teatros do município do Rio de Janeiro: Ágora, Câmbio, Os Ciclomáticos, No Lugar, Projeto_ENTRE e Vem!. Infelizmente, a peça faz hoje, às 20h, sua última apresentação no Teatro Sérgio Porto, no bairro Humaitá.

Os méritos de “Luisa se estrella contra su casa” começam na dramaturgia. No texto de Ariel Farece, Luisa perdeu Pedro, a quem amava muito, em um acidente de moto. Não sabemos quem é Luisa, nem Pedro, nem qual a relação que havia entre os dois. Não sabemos quando isso aconteceu e nem há muitos detalhes sobre o acidente. Não há qualquer enredo nem antes, nem depois disso. Nesse sentido, toda a dramaturgia consiste em tentativas de dar corpo para diversas imagens que possam clarificar essa situação. Ao longo de sessenta minutos de encenação, o espectador percorre os diálogos, assumindo a responsabilidade pelas relações de sentido que encontra. Em sua beleza, o texto pode ser metáfora para sensações de perda. A frase “Há um ser que vive em mim como se eu fosse sua casa” ecoa enquanto o espetáculo vai colocando o espectador diante de aspectos muito delicados de sua existência.

Na direção de Farace, assistido por Andrés Rasdolsky, a falta de lógica das coisas leva ao sonho, mas esse lugar, longe de ser escape, funciona como um intervalo entre situações. Ali estão presentes memórias do passado e talvez mini-despertares em relação ao futuro. De um lado, todos os personagens estão congelados em uma situação: Pedro (Matías Vértiz) sorri enquanto diz nada sentir, o Vizinho (Guido Ronconi) toca sempre os mesmos acordes da mesma canção, o sapólio Odex (Juan Manuel Wolcoff) acompanha Luisa aonde ela vai e Luisa (Luciana Mastromauro) circula pelos mesmos ambientes e vivencia as mesmas imagens enquanto nada mais pode fazer. De outro, os lugares e as ações sofrem o desapego das regras convencionais. Os ramos da árvore não se movem, o frango que estava morto agora está vivo, a casa e o supermercado Coto se misturam. O ritmo dos diálogos, não lineares, é lento, marcando sua quebra com a realidade. Todos os elementos, assim, dão sua contribuição ao todo de forma efetiva e individual, dispensando a simples tarefa de ratificar, mas também revelando níveis de interpretação diferentes. É excelente a direção de Ariel Farace.

Guido Ronconi (o Vizinho), Juan Manuel Wolcoff (o sapólio Odex) e Matías Vértiz (Pedro) apresentam bons trabalhos de interpretação na medida em que suas expressões vencem o desafio de permanecerem lineares, estruturas por entre as quais o espectador deseja ver Luisa caminhar. Mas é Luciana Mastromauro (Luisa) quem tem destaque. O falar firme, aproveitando as sílabas, não esconde a emoção de cada imagem dada a ver. As expressões faciais e o corpo se equilibram em pontos sensíveis de cada cena. Os movimentos de olhar determinam os focos de atenção. Ao bater-se contra sua “casa”, a Luisa de Mastromauro nos toca.

O modo como o desenho de luz de Matias Sendon e de Ricardo Sica atua na encenação também é ponto relevante. O melhor momento é quando o foco fechado sobre Luisa quer dizer algo mais que apenas determinar em quem o espectador deve olhar. No mesmo sentido, o cenário de Cecília Zuvialde e de Farace e o figurino agem.

A economia dos elementos de “Luisa se estrella contra su casa” é apenas aparência. Em cada um, dos diálogos aos gestos, das interpretações, ao cenário, dos figurinos, da trilha e à luz, tudo foi usado com a responsabilidade de dizer algo que trouxesse algo novo ao todo da obra. Talvez esteja aí o maior motivo pelo qual a peça diga coisas diferentes a cada um e em cada momento, mas sempre diga. Por trazer ao Rio esse espetáculo, o Festival Dois Pontos prossegue sendo o ponto alto da programação do teatro carioca neste mês de março.

*

Ficha técnica:
Texto e Direção: Ariel Farace
Elenco: Luciana Mastromauro, Guido Ronconi, Matías Vértiz e Juan Manuel Wolcoff
Cenário: Ariel Farace e Cecilia Zuvialde
Desenho de luz: Matías Sendón e Ricardo Sica
Operação de luz: Sebastian Francia
Música original: Guido Ronconi


Ficha técnica do Festival Dois Pontos:

Realização: Treco Produções
Direção Artística:
ÁGORA - José Della Vedova, Fabianna de Mello e Souza e Mauro Vianna
CÂMBIO - André Vieira, Cesar Augusto e Jonas Klabin
Projeto_ENTRE - Daniela Amorim, Joelson Gusson e Marta Vieira
NO LUGAR - Fabricio Belzoff, Michel Blois e Rodrigo Nogueira
Os Ciclomáticos - Ribamar Ribeiro
VEM! - Alexandre Mello e Rogério Garcia
Coordenação de projeto: André Vieira e Marta Vieira
Coordenação de logística: Leila Maria Moreno
Produção de logística: Monna Carneiro
Coordenação técnica: Felipe Argollo e Leandro Barreto
Assistência de coordenação técnica: Lia Sarno
Assistente técnico: Juju Moreira
Produção de Arte: Rodrigo Abreu
Assistência de Produção de Arte: Bruno Henriquez e Renato Barreto
Coordenação de comunicação: Paula Rollo
Produção de comunicação: Marcelo Mucida
Programação Visual: Felipe Braga
Conteúdo, Webmarketing e Vídeos: Elisa Mendes e Julia Casotti
Fotografia: Arthur Seixas e Renato Mangolin
Coordenação Administrativa Financeira: Cristiane Cavalcante
Assistente Administrativo Financeiro: Carina Ribeiro
Produção Local: Aline Mohamad, Ana Beatriz Silva, Fábio Osório, Juliana Mansur, Rogério Garcia e Ton Dutra
Tradução de peças: Carlos Alberto Della Paschoa
Consultoria de shows: Márcia Figueiredo
Parceria: Galpão Gamboa e Pequena Central
Apoio Institucional: Consulado Geral da Argentina e Instituto Cervantes
Patrocínio: Prefeitura da Cidade de Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Cultura

domingo, 23 de outubro de 2011

Luisa se estrella contra su casa (Argentina)


Foto: Nádia Mastromauro

"A vida só é possível reinventada”

Há tanta esperança nos nove meses que antecedem o nascimento quanto saudades no período que sucede a morte. Limpar armários antes cheios, fazer sozinho programas antes divididos, lavar um só prato e uma só xícara, ler uma piada e não repassar, guardar para si toda a água da térmica. O tempo vai passando...

Se passa, ele existe. E está presente, não está ausente. Há pessoas que, quando saem de nossas vidas, deixam apenas o tempo em seu lugar. Um tempo que é preciso ser materializado de um jeito novo. E por que não surpreendente? E por que não também mornamente? Penso que a surpresa mais interessante é aquela que surge da mesmice. Os novos significados só são novos aos nossos sentidos. E é isso que nos faz passíveis de sermos novos, reinventados como já dizia Cecília Meireles.

Então, somos convidados a reinventarmos nossas gavetas, nossos armários, nossos criados-mudos. Quarto fechado, o sol lá fora e uma música tocando dentro de nós. É quando novos bichos são gerados, borboletas e elefantes. Raízes. É da intimidade do ventre que vem a vida. É da solidão de si que sai a morte.

Ariel Farrace, dramaturgo e diretor da Cia. Vilma Diamante, me fala sobre essa intimidade necessária. O mundo toca Luísa, a sua heroína, enquanto ela não consegue tocar-se. A personagem caminha como se flutuasse, conversa como se sorrisse, vive como se... “Luisa se estrella contra su casa” foi o espetáculo mais tocante a que assisti nessa edição do Porto Alegre em Cena, tamanho o poder de nos lembrar humanos. Tamanho o poder de nos tocar enquanto nós não podemos nos tocar.

Nossa casa de papelão poderia voar pelos ares ao sutil sopro do lobo mal. O sorriso cristalizado de Luísa desaparece a cada repetição melódica do violão do vizinho. O foco de luz sobre o todo é sensível às novidades e às mesmices. Da parte ao todo e do todo à parte, a produção de Buenos Aires trata da ausência como, a mim me parece, deve ser tratada: sutilmente, delicadamente, amorosamente.

E também de forma muito inteligente. Luísa abraça Pedro que partira e já não sente. Ao não sentir nada, Pedro torna-se, por um breve momento, o protagonista. Por não sentir nada, Pedro está morto, está ausente. Não é a toa que “sente” é parte de ausente. E também em presente para quem sente. Com tons de realismo fantástico, Luísa conversa com seu mundo e o sente. Reinventa-se. Presenteia-se.

O falar é calmo. O movimento é leve. A voz é dura e o sorriso é marcado. Cada elemento pede licença para entrar e é acolhido pela protagonista que abraça a si quando se despede. Dentro dela, há um ser que vive como se fosse sua própria casa. E cada sistema desse espetáculo teatral vive dentro da peça como se a peça fosse sua casa. E nós, a assistência, vivemos dentro da narrativa, essa tão brilhantemente dirigida e interpretada, como se a gerássemos e dela fôssemos colher frutos.

Não falo espanhol, não iria assistir ao espetáculo, mal sabia o nome da peça e hoje ainda não sei que ator interpreta que personagem. Mas foi porque limpei as gavetas do armário que espaço novo surgiu para essa história tão especial me ser contada. O tempo vai passando...

E se passa, ele existe.

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Ficha técnica

Texto e direção: Ariel Farace / Elenco: Luciana Mastromauro, Matías Vértiz, Juan Manuel Wolcoff e Guid Ronconi / Cenário: Ariel Farace e Cecilia Zuvialde Figurino: Matías Sendón e Ricardo Sica / Iluminação: Matias Sendón e Ricardo Sica / Trilha sonora: Guido Ronconi / Produção: Festival Internacional de Buenos Aires e Compañía Vilma Diamante

*Texto escrito em setembro de 2009 por ocasião do 16º Porto Alegre em Cena