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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

12 pessoas com raiva (RJ)

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Elenco em cena



Leandro Fazolla*, do "Cadernos Cênicos", escreve a crítica de "12 pessoas com raiva", espetáculo que brilhou no 13o Festival Niterói em Cena

Leandro Fazolla
Repetida à exaustão, “polarização” continua sendo uma das palavras mais utilizadas para definir o Brasil dos últimos anos. Em um período em que a política tomou o protagonismo da vida em sociedade, temos há algum tempo um país partido, que parece ter se tornado ainda mais radical durante a pandemia do novo corona vírus, quando a população se divide entre os pró-vacina e aqueles que parecem subverter qualquer racionalidade ao achar que não se vacinar é a melhor opção. Essa divisão tão acentuada parece ser, de cara, o que mais torna o espetáculo online “12 pessoas com raiva”, da Pandêmica Coletivo Temporário de Teatro, uma experiência tão atual. 

O espetáculo é a mais recente adaptação brasileira para “Twelve Angry Men”, de Reginald Rose, originalmente escrito nos Estados Unidos dos anos 1950 e já adaptado para o cinema e para o teatro – tendo recebido no Brasil o título “Doze homens e uma sentença”. A cargo de Juracy de Oliveira, também diretor do espetáculo, esta adaptação do Pandêmica Coletivo apresentada na 13ª edição do Niterói em Cena amplia suas possibilidades ao substituir os doze homens do título original por homens e mulheres. A isso, soma-se o fato de o coletivo ter sido formado de forma interestadual durante o confinamento, o que traz ainda uma multiplicidade de cores de pele e sotaques que amplifica as possibilidades dramatúrgicas do espetáculo e, ainda, as possibilidades que não são dadas somente pelo texto, mas podem ser apreendidas nas entrelinhas a partir desta multiplicidade em cena. Além de utilizar esta diversidade a seu favor, outro dos muitos méritos desta adaptação está em assumir completamente o ambiente virtual e a plataforma Zoom como elemento constituinte de seu enredo

Na trama, por conta da pandemia, doze jurados se encontram para uma reunião online onde terão que selar o destino de um jovem acusado de assassinar o próprio pai. A única condição é que o veredito tem que ser unânime e o réu só pode ser considerado culpado se não houver qualquer “dúvida razoável” sobre sua inocência. Em uma votação inicial, apenas uma jurada põe em dúvida a culpa do réu. A partir daí, começa um intenso debate, em um texto praticamente investigativo, que vai resgatando (e apresentando ao espectador, o que torna muitos dos diálogos bastante expositivos) os detalhes do crime e do julgamento para colocar em xeque a confiabilidade das provas e dos testemunhos. À medida que o espectador vai assistindo ao espetáculo, já parece claro o rumo que as coisas vão tomar. Entretanto, o que está em jogo vai muito além da necessidade de surpresas ou da previsibilidade do desfecho. Enquanto avança, o espetáculo vai suscitando uma série de discussões que não necessariamente se esgotam na própria peça (o que ficou ainda mais evidente no acalorado debate que se seguiu à apresentação, junto ao público presente), e que vão trazendo um ar de atualidade latente a ela, a despeito das quase sete décadas que separam a versão atual da encenação original. Racismo, etarismo, preconceito social, machismo, tudo vai sendo disposto sobre a mesa, em meio a provas, fatos e opiniões, à medida que os “tipos” presentes no júri vão se revelando a partir de suas diferentes perspectivas sobre o caso. 

A direção de Juracy acerta em cheio ao perceber que o que tem em mãos é, sobretudo, um ótimo texto e um grupo forte de atores, e não cede à tentação de se debruçar sobre invencionices tecnológicas desnecessárias. As possibilidades que o ambiente virtual oferece até são utilizadas vez ou outra na encenação, como um compartilhamento de imagem, pontuações mínimas por trilha sonora, mas nada que distraia o espectador ao ponto de ele esquecer que se trata de mais uma das inúmeras reuniões virtuais que ocorrem durante o isolamento social. Nesse sentido, até mesmo “tempos mortos” como a espera inicial pela entrada de todos os jurados contribuem para trazer o realismo da encenação. Não há jogo de câmeras, inserções externas nem nada que nos tire do contato direto com cada um dos personagens, presentes o tempo todo a partir das próprias câmeras frontais de seus aparelhos. 

Contando com um extenso elenco (composto por Enio Cavalcante, Gabrielly Arcas, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, José Henrique Ligabue, Leandro Vieira, Leonardo Netto, Mariana Queiroz, Maurício Lima, Múcia Teixeira, Nely Coelho, Ralph Duccini e Tatiana Henrique), é natural que alguns atores tenham mais espaço na trama do que outros. Mas, como um todo, o grupo se mostra pronto não apenas para defender seus personagens como, ainda, para se desvencilhar das armadilhas que o ambiente tecnológico pode trazer, desde um rápido “travamento” de câmera até mesmo a uma “queda” que pode deixar um ator fora de cena por alguns minutos, obrigando o restante do grupo a avançar com a dramaturgia mesmo na ausência de um dos personagens. E essas imprevisibilidades estão tão completamente assumidas pelo espetáculo e dominadas pelo elenco que, por vezes, o público pode ficar em dúvida se fazem parte da encenação ou de fato estão acontecendo no “mundo real” fora da trama.

Após meses de constante temporada virtual, é possível perceber um elenco bastante à vontade para inserir “cacos” e deixar o jogo acontecer. Jogo, inclusive, que se reinventa a partir da entrada do ator Leonardo Netto em substituição a Gilson de Barros na pele do “Número 4”. Se Gilson carregava nas tintas do personagem que, até o último segundo, considera culpado o réu em questão, tornando esse cabo de guerra mais acalorado e tenso, Netto oferece ao mesmo determinadas sutilezas que parecem enfatizar o fato de que, para o jurado em questão, o julgamento parece muito mais um acerto de contas com seu próprio passado do que, necessariamente, uma abordagem sobre a vida do réu em si. Duas nuances distintas que aproveitam bem o ótimo personagem e que podem dar (ao espectador que tiver a oportunidade de assistir aos dois em cena) novas camadas ao personagem e até mesmo ao próprio espetáculo. Principalmente pelas oportunidades que recebem do texto, chamam atenção no elenco, também, Tatiana Henrique, que assume a responsabilidade de conduzir a trama a partir dos questionamentos de sua personagem, única a, a princípio, duvidar da culpa do réu; Múcia Teixeira, um contraponto emocional dentro daquele universo em que sentimentos parecem emergir quase que exclusivamente a partir da raiva do título; e José Henrique Ligábue que muitas vezes consegue servir de alívio cômico com um dos personagens mais interessantes do espetáculo. 

Num espetáculo que trata sobretudo de divisão, o Pandêmica Coletivo se mostra assertivo ao trazer para a cena o oposto, a reunião de um Brasil de dimensões continentais, com diversas diferenças colocadas lado a lado em cena e que tornam possível o delicado encontro final, que nos lembra que, por trás daqueles profissionais chamados por números, há pessoas, nomes e histórias. E, por mais que a pandemia em que vivemos seja usada apenas como pano de fundo e não necessariamente tenha impacto direto na trama (para além de seu contexto de reunião online e uma ou outra inserção de texto), difícil não pensar, em uma época em que números são atualizados diariamente no noticiário, que pessoas, nomes e histórias também estão por trás dos quase 190 mil mortos negligenciados por uma parcela expressiva da população.





*Leandro Fazolla é Graduado em História da Arte, Mestre em Arte e Cultura Contemporânea, na linha de pesquisa de História, Teoria e Crítica de Arte e doutorando em Artes Cênicas. Ele assina o Canal Cadernos Cênicos no You Tube.

*

Ficha Técnica
Livremente inspirado em “12 Angry Men” de Reginald Rose

Idealização, Adaptação e Direção Geral: Juracy de Oliveira
Direção de Arte e Figurino: Luiza Fardin
Elenco: Enio Cavalcante, Gabrielly Arcas, Gilson de Barros, Giovanna Araújo, José Henrique Ligabue, Leandro Vieira, Mariana Queiroz, Maurício Lima, Múcia Teixeira, Nely Coelho, Ralph Duccini e Tatiana Henrique.
Direção: Juracy de Oliveira
Autor: Livremente inspirado em "12 Angry Men" de Reginald Rose
Classificação Indicativa: 14 anos
Duração: 75 min
​Link:@pandemicacoletivo

domingo, 27 de dezembro de 2020

Quem disse? – Teatro feminista para crianças (RJ)

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Foto: Laura França

Ana Luiza França e Filipe Codeço



Divertido, bonito e inteligente: excelente espetáculo para toda a família brilha na programação do 13º Niterói Em Cena

O excelente “Quem disse? – Teatro feminista para crianças” fez uma presença marcante na Mostra Niterói da programação do 13º Festival Niterói Em Cena. Com vibrante dramaturgia, ele é positivo em todos os aspectos, desde o texto de Ana Luiza França, até a encenação dirigida por Breno Sanches e interpretada por França e por Filipe Codeço. Dos quatro espetáculos que compuseram essa etapa, esse foi o melhor sobretudo pela maneira simples e inteligente com que toca os públicos de todas as idades e pelo jeito vivo com que se articula artisticamente na cena. Vale a pena assistir em família várias vezes! 


13o Niterói Em Cena

Escrito por Ana Luiza França, o texto gira em torno de dois amigos: Ritinha e Bernardo, duas crianças que se divertem em suas imaginações compartilhadas enquanto refletem sobre o mundo que as cerca. Ritinha está lendo um livro de Contos de Fadas cuja protagonista é uma Princesa que tem o mesmo nome que ela. Mas o livro é grosso e, quando a peça começa, ainda faltam muitas páginas para a história terminar de ser lida. Enquanto isso acontece, o amigo Bernardo, baseado no que amiga vai contando sobre a obra, vai tentando interpretar o Príncipe Encantado, aquele que deveria lutar contra o feroz monstro Biruta para salvá-la. Nos insucessos de Bernardo, várias questões vão sendo refletidas: o que é coisa de menino e de menina: profissões, roupas, nomes, vestuário, comportamento etc. Além disso, para além das questões de gênero e de sexualidade, estão também os valores: será que o monstro é mesmo monstro? Por que as princesas têm que ser libertadas pelos Príncipes? Elas mesmas não podem fazer isso por si próprias? Qual a função do Príncipe se não for a de salvar a Princesa? Meninos podem chorar? 

Para além das questões reflexivas que o texto promove, a dramaturgia é ótima por suas curvas em si na análise poética. É muito interessante perceber como os personagens vão se modificando ao longo da história. Pouco a pouco, a sensação que se tem é a de que o personagem Bernardo vai sendo esvaziado na curva ascendente que Ritinha faz no desenho da narrativa. No entanto, “Quem disse?” guarda para o final reviravoltas surpreendentes e deliciosas. Cheios de grande carisma, os personagens – que então passam a ser três – conquistam o coração do público com enorme mérito. 

Ana Luiza França e Filipe Codeço apresentam excelentes interpretações. Em nenhum momento, Ritinha e Bernardo são estereotipados, nem mesmo deixam de se dar a ver sucumbidos pelo discurso político que facilmente os devoraria em más mãos. Ao contrário, os dos atores mantêm acesas as chamas transformadoras das duas figuras, nunca deixando o público confortável diante de suas presenças. Cada novidade que surge, na interação de ambos ou na particular reflexão individual de cada um, revela um outro nível de suas possibilidades, abrindo caminhos instigantes. Tudo parece ótima oportunidade bem agarrada para os dois intérpretes exibirem seus vastos repertórios expressivos: os movimentos, as intenções, o aspecto gestual, os traços de emoção. 

A qualidade da direção de Breno Sanches se mostra no jeito sensível como o espetáculo vence o desafio da retórica. De fato, desde que a peça começa (partindo da palavra “feminismo” já no título), o espectador sente que está diante de um quadro dramático assumidamente político. Nesse sentido, o risco da longa e monótona argumentação, com muita abstração e pouca ação, se mostra como um obstáculo inicial que, na prática, nem chega a acontecer. Praticamente não há cenas paradas nessa peça, pois, ainda que os espaços cênicos não estejam suficientemente descritos na narrativa, os lugares discursivos são muito claros. Com fluência e criatividade, Sanches constrói paisagens que dão tempo para o público fruir a proposta, refletir sobre ela e ainda afeiçoar-se. 

Há ainda, em “Quem disse? – Teatro feminista para crianças”, números êxitos na cenografia e no figurino de Patrícia Muniz, na trilha sonora de Daniel Carneiro (com canções originais de Ana Luiza França) e no desenho de luz de Ricardo Lyra Jr. Todos esses elementos, com destaque para as bicicletas Anacleta e Jurema, dão a ver um espetáculo fluído, que precisa de pouco para se estabelecer, mas que, no detalhe, se mostra cuidadoso e qualificado. Vale porém um destaque positivo para as canções, pois elas surgem na narrativa ao natural e em ótima articulação com o todo. 

Por todos os elementos descritos acima, eis aqui um espetáculo digno dos aplausos que vem recebendo e que deverá – ainda mais – receber. Evoé! 

*

Ficha Técnica
​Realização: Abelha Mestra Produção Artística
Direção: Breno Sanches
Texto: Ana Luiza França
Elenco: Filipe Codeço e Ana Luiza França
Cenografia e Figurinos: Patrícia Muniz
Trilha sonora: Daniel Carneiro
Canções originais: Ana Luiza França
Desenho de luz: Ricardo Lyra Jr.
Design gráfico: Fábio Fontoura
Fotografia: Laura França
Operação de som: Bernardo Carvalho
Operação de luz: Ricardo Lyra Jr.
Produção executiva: Bernardo Carvalho
Direção de Produção: Ana Luiza França
Duração: 55 min.

sábado, 26 de dezembro de 2020

Em contos em encontros das águas (RJ)

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Foto: divulgação


Agromelados Cia Teatral

Érika Ferreira e Kadú Monteiro fazem Agromelados Cia. Teatral se destacar como um todo em ótimo espetáculo

No ótimo “Em contos em encontros das águas”, encontram-se, como dois entre os seus muitos méritos, o formidável vocabulário teatral de Érika Ferreira (1980-2020) e o enorme talento do diretor musical Kadú Monteiro. A peça, uma produção da niteroiense Agromelados Cia Teatral, foi a última obra cuja direção cênica foi assinada por Ferreira, que faleceu, em março desse ano, vítima da Covid-19. Pela excelência de sua obra e também por sua enorme contribuição à cena teatral fluminense, ela é a homenageada do 13º Festival Niterói Em Cena. Na narrativa, defendida com elogiosa disponibilidade por Cris Ribeiro, Ian Oliveiras, Luciano Barbosa e por Sylvio Moura, justapõem-se um conjunto de quatro lendas que têm a ver com rios: o rio Amazonas, os rios Negro e Solimões, a Mãe d’água e o Senhor do Lago. É um ótimo espetáculo que vale a pena ser visto. 
13o Festival Niterói Em Cena

É difícil analisar separadamente elementos como a dramaturgia e a particularidade das interpretações quando se está diante de um espetáculo tão criativo quando “Em contos em encontros das águas”. O que talvez possa se dizer é que, em termos de roteirização, há uma certa negativa linearidade no todo do espetáculo, mas isso é porque ele se organiza em quatro quadros com estruturas próprias e igualmente fortes e que podem, inclusive, ter sua ordem alterada entre si. O que une os episódios são apenas momentos em que as quatro figuras narradoras falam todas ao mesmo tempo em uma pequena confusão que felizmente dura alguns segundos. No interior das cenas, porém, contemplam-se narrativas cheias de curvas e possibilidades líricas. 

Érika Ferreira

Em se tratando da teatralidade propriamente dita, o primeiro maior mérito da peça é o vocabulário cênico de Érika Ferreira, que só infelizmente parece ser finito agora, porque ela se foi. Ao longo de cinquenta minutos, o que se vê no palco através de quatro atores, um músico e de cinco malas é uma variedade fenomenal de potencialidades semânticas. Um quadro puxa o outro, uma paisagem gera outra, mágicas surpreendentes acontecem, tudo isso apoiado apenas na criatividade da encenação. A título de comparação, algo assim se vê com frequência nos espetáculos da Cia OMondé, dirigida por Inez Vianna, do Rio de Janeiro. 

É provável que não haja destaques no elenco propositalmente. Defendida por Cris Ribeiro, Ian Oliveiras, Luciano Barbosa e por Sylvio Moura, a peça se dá a ver através de um extenso repertório corporal – nos gestos, nas expressões, na voz, nos movimentos, nas pausas, nas intenções. Isso tudo acaba por apagar esse ou aquele destaque. Seria, no entanto, injusto enumerar ou descrever apenas o valor da direção sem considerar o mérito dos Agromelados como um todo coeso e coerente. Com certeza, a direção qualificada de Érika partiu da disponibilidade expressiva de corpos criadores e criativos que são, agora, aqueles que continuarão aqui. 

Além da qualidade da direção, outro ponto que foge à coerência
Kadú Monteiro

plena de todos os elementos constituintes deste texto cênico é a potência de Kadú Monteiro na direção musical. No que diz respeito à sua colaboração à obra, o que se vê é um espetáculo à parte. A sonoplastia embeleza as paisagens, a interpretação das melodias eleva as potencialidades das cenas. Monteiro cantando “Lua Branca”, canção de Chiquinha Gonzaga de 1912, é algo que arrepia de tamanha beleza. Eis outro artista da Agromelados que merece sonoros aplausos por seu magnífico talento e apurada técnica. 

O desenho de luz de Rafael Grampola e o conjunto de todos os outros elementos visuais (as malas, os tecidos, os objetos, os figurinos) também agrega bons valores estéticos ao quadro como um todo. Em conjunto, eles se mostram disponíveis na veiculação do conjunto como instrumentos qualificados por serem ricos em potencialidades bem usadas. 

“Em contos em encontros das águas” começa com o palco vazio e termina deixando-o assim também. Em um dos seus trechos finais, há a expressão: “Aqui já foi. Agora é em outro lugar.” Ela revela – de modo sensível e sensibilizável – a efemeridade do teatro e, como ele, a das vidas humanas. Se o palco fica vazio, vazia porém nunca fica o coração daquele que sabe que conviver é ainda melhor que viver. Viva Kadú Monteiro! Viva Érika Ferreira! Viva os Agromelados! Parabéns. 

*

Ficha Técnica
​Direção: Erika Ferreira
Direção Musical: Kadú Monteiro
Iluminação: Rafael Grampola
Texto: Contos populares de domínio público
Elenco: Cris Ribeiro, Ian Oliveiras, Luciano Barbosa e Sylvio Moura
Músico: Kadú Monteiro
Produção: Claudia Macedo
Assistente de Produção: Juliene Pontes
Duração: 45 minutos


As bodas de Rapunzel (RJ)

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Foto: divulgação

                                         

Rachel Palmeirim e Ricardo Lyra Jr.

Nitereoinse Artecorpo Teatro e Cia. embeleza programação no principal evento teatral de sua cidade

O belo “As bodas de Rapunzel”, da Artecorpo Teatro e Cia., participou lindamente do 13º Festival Niterói Em Cena. O espetáculo dirigido por Rachel Palmeirim apresenta de modo encantador a história popularizada pelos Irmãos Grimm sob outra perspectiva. Nesta narrativa, quando a personagem-título e o Príncipe Encantado vão comemorar o 200º aniversário de casamento, surge a bruxa Gothel, o que motiva uma volta dos personagens ao passado. Com belas interpretações de Eliane Lugatti, de Ricardo Lyra Jr. e de Palmeirim, a peça conta também com a trilha sonora tocada ao vivo por Renato Badeco, que assina a direção musical. É um ótimo espetáculo para as crianças e para suas famílias. 

Campânulas

O nome Rapunzel tem a ver com uma pequena flor do campo cientificamente chamada de campanula rapunculus, ou simplesmente campânula. Trata-se de uma flor roxinha que muito provavelmente muita gente já viu por aí. Nos contos dos Irmãos Jacob (1785-1863) e Willhelm (1786-1859) Grimm, publicados em 1812, a história de Rapunzel e da Senhora Gothel aparece em uma versão que ficou muito célebre. Ela porém já era uma conhecida lenda que, ao longo dos anos, ganhou também outras várias abordagens. Entre elas, destaca-se a da norte-americana Serena Valentino, publicada no livro “Mother knows best: a tale of the old witch” (“Mais sabe melhor: um conto de uma velha bruxa”, em livre tradução minha). 

Em resumo, Gothel seria uma entre três bruxas cujo poder da mãe delas verdadeiramente se encontrava no seu sangue. Após mil aventuras em que a mãe e as irmãs de Gothel morrem e ela fica só, surge a importância da campânula na feitura de uma poção mágica capaz de curar pessoas doentes ou mesmo faze-las voltar à vida. Em sua solitária velhice, Gothel vê um homem roubar as belas campânulas do seu jardim e, então, descobre que o furto tem a ver com a gravidez da esposa dele. Gothel promete salvar a vida da esposa, mas exige que ele lhe dê o bebê, o que acaba não acontecendo. E quem assistir a “As bodas de Rapunzel” vai descobrir qual é a versão de Rachel Palmeirim e de Eliana Lugatti para o desfecho dessa história.


13o Festival Niterói Em Cena

O espetáculo, que estreou na primavera de 2014, é lindo em todos os aspectos, mas vale destacar o modo como ele ocupa o espaço e o tempo com excelente uso do cenário, do figurino, das canções e do desenho de luz. Os usos revelam criatividade e bom gosto, mas também inteligência e delicadeza. O signo das famosas “tranças de Rapunzel” dá unidade para o todo nos vários ambientes do cenário. O único elemento que fica estranhamente faltando é o “raponso”, que é como essa versão chama o legume cultivado por Gothel (e que acima foi referido como sendo a flor campânula). Na encenação, o raponso é a única coisa que só é expressa por meio de gestos, quebrando a coerência estética da proposta como um todo. 

O mais bonito de “As bodas de Rapunzel” é a mensagem de que todos temos nossas histórias e nelas habitamos e habitaremos para sempre. Com esse espetáculo, a niteroiense Artecorpo Teatro e Cia. fez ótima participação no principal evento teatral de sua cidade. Parabéns! 

*

Ficha Técnica
Realização: Artecorpo Teatro e Cia
Texto: Irmãos Grimm
Adaptação: Rachel Palmeirim e Eliana Lugatti
Direção: Rachel Palmeirim
Elenco: Eliana Lugatti, Rachel Palmeirim, Ricardo Lyra Jr e Renato Badeco.
Cenário: O grupo
Figurinos e Adereços: Eliana Lugatti
Direção musical: Renato Badeco
Iluminação: Ricardo Lyra Jr.
Operador de Luz: Hebert Said
Operadora de som: Hilneti Vargas
Direção de Produção: Cida Palmeirim e Rachel Palmeirim
Assistente de Produção: Junior Garcia

Duração: 55 minutos
Link: @artecorpoteatro

Pequeno inventário de impropriedades (SC)

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Foto: divulgação 

Max Reinert



Bom monólogo reflete sobre os impactos do encontro com a violência

O bom monólogo “Pequeno inventário de impropriedades” se apresentou na noite de domingo como parte da Mostra Teatro Em Casa do 13º Festival Niterói Em Cena. Concebido, escrito e interpretado por Max Reinert, o espetáculo, dirigido por Denise da Luz e produzido pela Téspis Cia. de Teatro de Itajaí-SC, é uma versão virtualizada de uma ótima produção homônima estreada no fim da primeira década dos anos 2000, cuja crítica encontra-se publicada aqui nesse mesmo site. Permanecem e se renovam os méritos da produção anterior, mas agora por motivos diferentes, porque outros são os signos dessa nova montagem. E aqui elas serão elogiadas, bem como tratados aqueles aspectos que talvez sejam limitações dessa produção que continua positivamente potente. 

“Pequeno inventário de impropriedades”, escrito sob motivação de uma oficina de dramaturgia com Roberto Alvim – numa época anterior a transformação seja lá no que for –, trata do encontro de um homem com a violência. Embora não faça referência a isso, pode-se sem medo aludir a “O idiota”, de Doitoiévski, em que o puro e casto Príncipe Míchkin é lente através da qual o leitor observa toda a podridão de São Petersburgo. O espectador do monólogo não sabe exatamente qual é nem como foi o momento de encontro entre o narrador e a paisagem violenta, mas sabe que esse momento modificou sua vida, levando-o para um estágio de fluxo mental onde os velhos valores estão falindo em confusão. 

13o Festival Niterói Em Cena

A análise de “Pequeno inventário de impropriedades” é similar a de “Cálculo ilógico”, outro espetáculo participante do 13º Festival Niterói Em Cena. Na dramaturgia em si, não há movimento. Todo o movimento está no público, pois é audiência que vai se aproximando ou se distanciando do contexto da obra na medida em que vai entendendo ou não o quadro parado (mas não estático) que o personagem ora esconde, ora revela. Reconhece-se a beleza lírica do fluxo poético com que as palavras estão organizadas, com as imagens e os sons dispostos no quadro virtual da apresentação via Zoom (ou via You Tube), mas apontam-se os limites que a obra impõe à sua recepção. Tão logo o espectador percebe o mínimo que há para ser percebido (o tema), nada mais se desenvolve. 

A cena final é um ponto valoroso sobretudo da direção de Denise da Luz. Procurando não dar spoilers, vale dizer que toda a peça se refere a uma oposição entre a selvageria (e os cavalos são uma metáfora interessante a isso) e a disciplina dos modos e costumes da sociedade dita civilizada: o bem comer, o bem portar-se, o bem conviver. Essa oposição se descortina meritosamente – na boa escrita e na boa atuação de Max Reinert mas sobretudo na boa direção de Luz – para longe de outras oposições, como bem e mal ou como bom ou ruim. Tudo isso é interessante. Porém, o melhor da parte final é reparar uma levíssima curva ascendente na imagem poética. Toda a peça se passa dentro do que parece ser uma casa real, o que é, para muita gente, um símbolo de abrigo, de proteção, de resguardo. Essa mesma casa, na última cena, ganha um novo morador, uma esperança: um símbolo de carinho, de afeto, de companheirismo. Talvez isso seja sinal de que o personagem tão machucado pelo mundo exterior tenha encontrado um final feliz. 

A composição da imagem virtual pela multiplicação de sons e de quadros na cinematografia desse “teatro online” revela méritos na colaboração de Leonam Nagel na edição e de Hedra Rockenbach na ambientação sonora. Os trabalhos deles ofertam possibilidades semânticas de compreensão de que há múltiplas e controversas identidades girando dentro de um mesmo homem ao longo da narrativa. É um experimento interessante que merece elogios. 

Saúda-se a vitalidade de “Pequeno inventário de impropriedades” que segue se reinventando mesmo em contexto de pandemia, resistindo às intempéries e buscando seu espaço. Parabéns! 

*

Ficha Técnica
Concepção, Texto e Atuação: Max Reinert
Direção e Figurino: Denise da Luz
Ambientação sonora: Hedra Rockenbach
Transmissão e edição virtual: Leonam Nagel
Edição de vídeo dos cavalos: Vitor Zimmermann
Cenografia: Max Reinert
Participação especial: Chiclete
Elenco: Max Reinert
Direção: Denise da Luz
Autor: Max Reinert

Classificação Indicativa: 14 anos​
Duração: 40 min.
Link:@tespisteatro

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Cálculo ilógico (RJ)

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Jéssika Menkel

                                       

Bom monólogo abre a Mostra Palco do 13º Niterói em Cena

“Cálculo ilógico” foi a primeira peça da Mostra Palco do 13º Niterói em Cena, a parte do festival em que as apresentações aconteceram presencialmente dentro do Teatro Popular Oscar Niemeyer. Cumprindo rigorosamente todas as exigências sanitárias contra a propagação da Covid-19, o evento – com segurança – ofereceu ao público o bom monólogo escrito e interpretado por Jéssika Menkel que tem direção de Daniel Herz. Na história, uma mulher lida com o falecimento do irmão, liberando um fluxo de pensamento poético cheio de conceitos matemáticos. Com inspiração autobiográfica, o espetáculo estreou no outono de 2019 na zona sul do Rio de Janeiro. 

A dramaturgia se dá a ver aos poucos. De início, conhece-se um casal de irmãos e a boa relação que há entre eles. Aparecem também a mãe e o pai dos dois: quatro personagens que se metaforizam como quatro cantos de um cubo. A personagem-narradora, em sucessivas associações mentais relacionadas à aritmética e à geometria, deixa ver que há algo de errado então. A linguagem organiza o pensamento, mas, nesse caso, o fluxo mental dá acesso a um cálculo que é ilógico. E é aí que o público vai sentindo o conflito: Douglas, o irmão da personagem, morrera num acidente de trânsito. 

Há lirismo no modo metafórico como o panorama é construído diante do espectador. No entanto, é frustrante reparar que o drama não se desenvolve. Em outras palavras, o texto de “Cálculo ilógico” pincela aos poucos uma paisagem fixa, mas ela não se movimenta depois de completa. Dito ainda de outra forma, a floresta se movimenta em direção a Macbeth, mas, depois que há o encontro, o Rei Macbeth não é vencido conforme fora predito. 

A direção de Daniel Herz, assistido por Gabriela Checchia e por Tiago Herz, dá movimento para a sucessão de conceitos matemáticos sobre os quais se apoiam a dramaturgia. Jéssica Menkel transporta, de um lado a outro do palco, quase sem pausa, cubos de madeira, durante toda a encenação. Assim, interagindo com eles, ela procurar dar-lhes alguma vida estética. Como o tema da peça é a morte e isso é algo sensível a qualquer ser minimamente consciente de sua humanidade, há carisma no espetáculo até por vias de um certo de respeito. No entanto, as qualidades estéticas se mostram medianas ao final. O desenho de luz de Aurélio de Simoni e o figurino de Thanara Schonardie também se esforçam, como Menkel, na sustentação do argumento com relativa galhardia, mas, até aqui, pouco é realmente relevante. 

O aspecto realmente forte de “Cálculo ilógico” é o que está por trás da peça e que não está dito nela. De fato, quando a autora e atriz Jéssika Menkel tinha dez anos de idade, seu irmão Douglas, que na ocasião tinha 21 anos, falecera vítima de um atropelamento por um ônibus. Ou seja, o aspecto documental e o traço psicodramático da narrativa são os elementos mais hábeis na defesa da obra. E conhecê-los muda completamente a abordagem da audiência, mas aí teríamos outra peça para analisar. 

Em resumo, como está, trata-se de um bom espetáculo: honesto, criativo, fruto de empenho e de boas intenções. E tudo isso é elogiável. Merece aplausos ao fim. 

*

Ficha Técnica
​Autor: Jéssika Menkel
Direção: Daniel Herz
Elenco: Jéssika Menkel
Direção de produção: Maria Siman
Assistente de direção: Gabriela Checchia e Tiago Herz
Cenário e Figurino: Thanara Schonardie
Iluminação: Aurélio de Simoni
Preparação Vocal: Jane Celeste
Trilha Sonora: Éric Camargo
Produção Executiva: Fernanda Silva
Produtores associados: Jessika Menkel e Primeira Página Produções

Classificação Indicativa: 10 anos​
Duração: 55 min.
Link: @primitivosgrupoteatral

Lima entre nós: estudo compartilhado – a atualidade de Lima Barreto (RJ)

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Foto: divulgação
Leandro Santanna

                           
Ótimo espetáculo encerra a programação do 13º Festival Niterói Em Cena

Com um título longo, “Lima entre nós: estudo compartilhado – a atualidade de Lima Barreto” encerra bem a 13ª edição do Festival Nacional de Teatro Niterói em Cena, em apresentação presencial, no Teatro Popular Oscar Niemeyer, no centro da Cidade Sorriso. O monólogo tem inúmeros méritos, mas o cenário e a interpretação de Leandro Santanna estão no topo da lista das maiores qualidades. Com uma dramaturgia complexa assinada por Santanna e por Márcia do Valle, essa que assina também a direção, a montagem da Companhia Teatro Queimados Encena merece ser reassistido principalmente após o debate, esse que traz mais luz sobre Lima Barreto que a própria peça que o antecede. Foi uma delícia estar de volta à plateia de um teatro, sem dúvida, um dos lugares mais seguros para se estar entre os espaços públicos abertos legalmente na pandemia. Está de parabéns a coordenação do Festival e a direção do Teatro Popular pela oportunidade mas sobretudo pelo exímio cumprimento de todas as regras de higienização, essas executadas com rigor em todos os aspectos. 

Lima Barreto: o autor e a obra 
Antes de tratar com propriedade dos muitos elogios que “Lima entre nós” apresenta, vamos começar pela única questão mais nevrálgica do projeto. A dramaturgia de Leandro Santanna e Márcia do Valle tem uma avaliação paradoxal, isto é, pelos motivos que é positiva é também negativa. A questão é a seguinte: Santanna e Valle decidiram por compor o roteiro da peça apenas por trechos escritos pessoalmente por Lima Barreto, escritor carioca que viveu entre 1881 e 1922 (e que fez, vejam só!, todo o ginásio no Liceu de Niterói no finalzinho do século XIX). Essa opção dos criadores é instigante, porque apresenta um belíssimo uso da linguagem e interessante reflexão sobre a burocracia do serviço público e arte literária, pontos esses destrinchados por algum brasileiro que viveu no início do século XX. Por outro lado, quem for embora para casa assim que a peça termina sai sem saber praticamente qualquer coisa sobre quem é esse brasileiro: o personagem-título - Afonso Henriques de Lima Barreto. O público do 13º Festival do Niterói Em Cena, felizmente, foi brindado com um delicioso debate pós-apresentação. Foi nessa oportunidade que Santanna apresentou o personagem, que contextualizou a dramaturgia, que situou as ideias do espetáculo, permitindo melhor acessibilidade à obra. A impressão que se tem é a de que o espetáculo precisa mais do debate do que o debate da peça, o que, em termos estéticos, é tão peculiar quando entender que um quadro ou um poema precisa de explicação para ser apreciado. Então, em resumo, “Lima entre nós” (sem o debate) tem o mérito de instigar a audiência aos temas e à leitura ao mesmo tempo que tem o desmérito de apresentar muito pouco (ou quase nada) sobre o autor homenageado. 

Sobre Lima Barreto, vale dizer que, de fato, ele é um autor muito pouco estudado na história da nossa literatura nacional. Vale lembrar que, infelizmente, a disciplina de Literatura, hoje em dia, praticamente já deixou de existir na grade curricular das escolas no país desde que deixou de haver uma prova sobre ela no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio. Antes ainda, os escritores Simbolistas, Parnasianos e Pré-modernistas ficavam “afundados” em um cronograma limitado, de um lado, por Aluísio Azevedo e Machado de Assis no Realismo, e, de outro, por Mário de Andrade e Oswald de Andrade no Modernismo. Em outras palavras, Alphonsus de Guimaraens, Raimundo Correia, Olavo Bilac, Lima Barreto e Monteiro Lobato sempre acabaram sendo desprivilegiados. Lima Barreto é mais conhecido pela versão cinematográfica de seu romance “Triste fim de Policarpo Quaresma” (dirigido por Paulo Thiago e lançado em 1988, com Paulo José como personagem-título) e pela novela da TV Globo “Fera Ferida”, veiculada no horário das 20h entre 1993 e 1994 escrita por Aguinaldo Silva. Toda ela foi baseada na obra de Lima de Barreto: os romances “Recordações de Isaías Caminha”, “ Vida e Morte de J.M. Gonzaga de Sá”, “Triste fim de Policarpo Quaresma”, “Clara dos Anjos”, “O homem que falava javanês e outros contos” (em especial “O Numo e a Ninfa”, “Nova Califórnia” e “Os bruzundangas”. A antropóloga Lilia Schwarcz é uma pesquisadora que tem colaborado muito com a memória desse grande autor e vale a pena conhecê-la. 

Neto de escravizados, Lima Barreto teve uma infância relativamente privilegiada no Império do Brasil pela proximidade entre sua família e o senador Liberal Visconde de Ouro Preto, esse que acabou sendo o último Presidente do Conselho de Ministros do Imperador na Monarquia. Diferente do que todos normalmente aprendemos na escola, na manhã do dia 15 de novembro de 1889, no Campo de Santana, não houve a Proclamação da República, mas a prisão do Visconde de Ouro Preto e a deposição de todo o seu gabinete em um golpe dos militares e do Partido Conservador contra o Gabinete Liberal. A República, de fato, só foi anunciada na madrugada do dia 15 para 16 (sexta para sábado) quando circulava a fofoca de que o Senador Silveira Martins – inimigo pessoal do Marechal Deodoro da Fonseca – estava a caminho da corte tendo sido convocado pelo Imperador Dom Pedro II para assumir o posto de Ouro Preto, padrinho de Lima Barreto, o que era mentira. Com a mudança em 360º na política do país, o jovem Lima Barreto foi diretamente atingido. Toda a sua literatura foi marcada pela crítica à burocracia, ao positivismo, à república e sobretudo ao preconceito racial e social e à soberba literária dos Parnasianos. O estilo literário de Lima Barreto é diametralmente oposto ao de Olavo Bilac e ao de todos os poetas famosos da época, esses que estavam em moda no Brasil que celebrava a Belle Époque. Ou seja, era uma obra deslocada no tempo que não conseguiu esperar por um novo ciclo. Muito moço, Lima Barreto foi fatalmente acometido por problemas mentais e pelo vício da bebida, tendo falecido no ano da Semana de Arte Moderna, essa que enterrou o Parnasianismo e celebrou o jeito de escrever simples, fluente e direto que era praticado pelo escritor carioca homenageado no espetáculo “Lima entre nós”. 

Como já foi dito, a dramaturgia de “Lima entre nós: estudo compartilhado – a atualidade de Lima Barreto” optou por não trazer qualquer uma dessas questões contextuais e preferiu se focar na voz do escritor por meio dos textos de seus diários e de sua obra ficcional. A escolha é interessante: há mérito em se aproximar da obra sem nada conhecer sobre seu autor. No entanto, enquanto homenagem ou celebração, fica a desejar. Como já foi dito, é um paradoxo: bom e ruim ao mesmo tempo, mas aplaudível sempre! 

O espetáculo: os demais elementos da encenação 
Aparte as considerações sobre a dramaturgia, só há elogios aos outros elementos da encenação. Leandro Santanna apresenta brilhante trabalho interpretativo, degustando e fazendo degustar cada palavra nas excelentes construções frasais de Lima Barreto. Com calma, ele dá espaço para o público sorver um estilo composto há um século como se tivesse sido escrito ontem, fazendo vibrar a atualidade daquela literatura e daqueles posicionamentos. Sob direção de Márcia do Valle, seus movimentos pelo palco no modo como ele se utiliza de diversos recursos expressivos e níveis profundos de abordagem na caixa preta do palco é bastante elogiável. É tocante notar a maneira sensível como o espetáculo tem várias nuances bem aproveitadas: a crítica, o drama, a loucura, a lucidez, a reflexão filosófica, a paixão, as tentações, os desafios, as iluminações, as sombras, os impulsos e os limites. Em menos de uma hora de apresentação, o público está diante de uma belíssima interpretação e de uma direção inteligente. 

Quanto aos elementos estéticos outros, a iluminação de Paulo César de Medeiros dispõe diversos trechos da dramaturgia, organizando os momentos e auxiliando positivamente a audiência a acompanhar a evolução do roteiro assim como colabora na construção de quadros cheios de beleza. Destaca-se também que muitos pontos de luz oriundam de garrafas de cachaça suspensas no alto do palco, o que talvez seja uma metáfora para a iluminação da inconsciência trazida pela embriaguez. Na trilha sonora do Maestro Palhares, há também muitos méritos, mas talvez haja um excelente destaque para a inclusão, em momento bastante significativo, de um trecho da ópera “Tannhäuser” (1845), de Richard Wagner. Em primeiro lugar, porque Wagner foi um compositor romântico, e Lima Barreto viveu - de certa forma - sob a égide de uma melancólica saudade da monarquia que ele pouco ou quase nada conhecera. Em segundo lugar, porque “Tannhäuser” termina com o personagem-título chorando tardiamente sob o túmulo da mulher amada e aqueles que conhecem tanto a literatura de Lima Barreto como a referida ópera de Wagner podem chorar pela demora do Modernismo ter chegado em relação ao falecimento do escritor carioca. 

Para além de tudo, a direção de arte assinada Marcelo Viégas traz um cenário simples e potente, composto essencialmente por um baú cheio de facetas e muitos papeis cujos tons variam em nuances de amarelo. O figurino de Rosekeli Alves concorda com o cenário, em valorosa articulação que privilegia a simplicidade e, em contraste, a elegância do personagem: duas facetas em luta dentro de um homem hiper talentoso que viveu em uma época cheia de contradições políticas, artísticas e sociais. 

“Lima entre nós: estudo compartilhado – a atualidade de Lima Barreto” é um espetáculo marcante porque motiva a plateia a conhecer mais sobre o autor, sobre a época em que ele viveu e, mais ainda, a ir ao teatro. Parabéns! Evoé! Saravá! 

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Ficha Técnica
Texto: Lima Barreto
Roteiro: Leandro Santanna e Márcia do Valle
Direção: Márcia do Valle
Elenco: Leandro Santanna
Iluminação: Paulo Cesar Medeiros
Preparação corporal: Laura Sammy
Direção de arte e Produção executiva: Marcelo Viégas
Fotografia: Daniel Barboza
Filmagem: Bruno Rodrigues
Figurino: Rosekeli Alves
Trilha sonora: Maestro Marcelo Palhares
Fotos: Daniel Barboza
Arte final: Beá Meira
Mídias sociais: Leticia de Moraes
Assessoria de imprensa: Tassia Di Carvalho
Realização/Produção: Companhia Teatral Queimados Encena

Classificação Indicativa: 12 anos​
Duração: 55 min.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Metamorfose (BA)

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Foto: divulgação 

Grupo Ereoratá



A beleza do teatro de bonecos

“Metamorfose”, do grupo Ereoatá, preenche com galhardia a participação do gênero Teatro de Bonecos na programação do 13º Festival Nacional de Teatro Niterói Em Cena. O grupo, que é da Cidade de Lauro de Freitas, na Bahia, tem seu próprio espaço de apresentações e se dedica há muitos anos à feitura de fantoches, à animação e à arte do teatro de bonecos. Dessa vez, em uma rápida história de 26 minutos, eles apresentaram uma pequena narrativa de um velho sertanejo pescador que testemunha a transformação de uma larva em borboleta. Thiago Sansil, Eliete Teles e Rubenval Meneses são os animadores, sendo que esse último é também o responsável pela direção desse belo espetáculo para todas as idades. 

Na verdade, na dramaturgia, acontecem duas transformações. Primeiro, um velho solitário, que tem como únicas distrações a leitura de um jornal e a pescaria, vê sua cabra morrer, deixando-o mais só do que antes. Depois, há o aparecimento de uma larva que, aos poucos, se transforma em borboleta. Enquanto isso, o protagonista pesca um pé de tênis onde gostaria de ter apanhado um peixe e vê sua vida se modificar entre companhia e solidão, dia e noite, o tempo sempre caminhando ao futuro. 


13o Festival Niterói em Cena

A beleza maior do espetáculo está na sensibilidade da animação: o cuidado nos detalhes dos movimentos dos bonecos, a composição dos cenários, a articulação com a trilha sonora. Tudo isso toca os corações da audiência, enchendo-os de encantamento com enorme poesia. 

O Teatro de Bonecos é uma arte que precisa ser valorizada e ganhar força! É uma maravilha o 13º Festival Niterói Em Cena ter proporcionado isso ao seu público. 

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Ficha Técnica

Direção: Rubenval Meneses
Texto e construção dos bonecos: Eliete Teles e Rubenval Meneses
Atores (animadores): Eliete Teles, Rubenval Meneses e Thiago Sansil

Classificação Indicativa: 8 anos​
Duração: 26 min.
Link: @ereoata_teatro_de_bonecos

Histórias de confinamento (MG)

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Foto: divulgação

Eduardo Moreira



Uma lacuna na história do Grupo Galpão

“Histórias de confinamento” revela que o Grupo Galpão, em 2020, está confinado artisticamente e distante das potencialidades já descobertas por as companhias na relação entre teatro e internet. O espetáculo, que participou da 13ª edição do Festival Nacional Niterói Em Cena, justapõe um conjunto de pequenas cenas, todas elas trazendo uma rápida crônica sobre esses dias de isolamento social contra a pandemia da Covid-19. Enquanto investigação de linguagem, o resultado é bastante pobre sobretudo quando comparamos essa produção com outras já assistidas nos últimos meses por outros realizadores no país. Idealizado por Inês Peixoto, e dirigido por ela, por Thiago Sacramento e por Eduardo Moreira, esse último que também assina a autoria. No elenco, além de Peixoto e de Moreira, estão Antônio Edson, Fernanda Vianna, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Simone Ordones e Teuda Bara. Monótono, linear, presunçoso e um tanto quanto preguiçoso, o espetáculo deixa a desejar infelizmente. 

13o Festival Niterói Em Cena

Escrito a partir de histórias enviadas pelo público sobre a vida em quarentena, o espetáculo reúne, mas não articula formalmente as várias pequenas histórias que apresenta. Tem o mérito, claro, de haver aqui e ali uma apresentação bem superficial de cada personagem em seu rápido contexto narrativo, mas nada realmente relevante. Uma filha escrevendo ao pai, um homem que comemora o aniversário sozinho, uma mulher preocupada com a mãe idosa, pessoas falando ao telefone ou por videocall com os amigos, alguém que deu - sem querer - uma gorjeta de R$ 200,00 a um entregador de Ifood, vizinhos que se observam pelas janelas, demissões de colegas de trabalho, banheiros que implodem... Os episódios são divididos em meses, separando as épocas da pandemia desse ano. Linguisticamente falando, não há subordinação, mas só sucessivas coordenações justapostas. 

Inês Peixoto

Quanto às interpretações, não há algo muito complexo a destacar. Os quadros são parados, os cenários são praticamente os mesmos: cada personagem está em uma parte de sua casa em cada cena. Tampouco há algo que possa ser dito sobre figurino, direção de arte ou sobre edição. A dramaturgia é pouco consistente mesmo no interior de cada episódio, menos ainda no todo. A justificativa de que todo o espetáculo se baseia no cotidiano do isolamento também não é o bastante, porque trata-se de um coletivo que visivelmente, nesse trabalho, não se mostra coletivo, mas individual. A direção de fotografia também não está articulada: cada quadro tem um ponto de vista individual. Para dar um exemplo do que poderia ter sido: “Edifício Master”, de Eduardo Coutinho, seria uma ótima referência. Lá temos vários personagens individuais, com histórias únicas, mas o enquadramento é sempre o mesmo e garante a articulação e a poética que aqui não se viu. 

Enfim, “Histórias de confinamento” representa uma lacuna no preciosismo da história do Grupo Galpão. Uma pena. 

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Ficha Técnica


Idealização: Inês Peixoto
Direção: Eduardo Moreira, Inês Peixoto e Thiago Sacramento
Dramaturgia: Eduardo Moreira (a partir de relatos recebidos na campanha Histórias de Confinamento)
Direção de Arte: Paulo André
Assistência de Direção de Arte: Gilma Oliveira
Trilha Sonora: Wilson Lopes
Edição ao vivo: Thiago Sacramento
Design de Luz e Assistência de operação: Rodrigo Marçal
Assistência técnica de Teuda Bara: Admar Fernandes
Direção de Produção: Gilma Oliveira
Produção Executiva: Beatriz Radicchi
Comunicação: Bárbara Prado
Assistência de Comunicação: Letícia Leiva
Design Gráfico: Filipe Lampejo e Rita Davis
Produção: Grupo Galpão
Agradecimentos: Amauri Reis, Manoel Soares, André Dulci, Beto Franco

Autores das histórias:
Ana Mattoso Picco
Carlos Avelino
Carolina Resende
Cibele Marina
Diane Velôso
Diorela Kelles
Elza Cataldo
Estêvão Senra
Gabriel Garcia
Larissa Rezende
Lindsay Castro Lima
Maria Clara Nardy Carneiro
Quemuel Costa
Renata Azzam
Simone Tôrres
Thais Vasconcelos
Zé Caetano

Elenco: Antonio Edson, Eduardo Moreira, Fernanda Vianna, Inês Peixoto, Júlio Maciel, Lydia Del Picchia, Simone Ordones e Teuda Bara
Direção: Eduardo Moreira, Inês Peixoto e Thiago Sacramento
Autor: Eduardo Moreira

Classificação Indicativa: Livre​
Duração: 50 min.
Link: @grupogalpao

Caio F. em casa (BA)

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Foto: divulgação: 

Duda Woyda



A beleza de degustar um bom Caio Fernando Abreu em cena

“Caio F. em casa” foi um delicioso espetáculo da soteropolitana Ateliê voadOR Companhia de Teatro que encerrou a primeira noite de espetáculos do 13º Festival Niterói Em Cena. De um jeito bastante sensível e tocante, o monólogo foi capaz de emocionar aqueles lho assistiram pela beleza com que o texto foi composto, mas também pelo modo como as imagens e sons chegaram ao público através da câmera e sobretudo através da delicada interpretação de Duda Woyda. Nessa análise, vamos destacar também a colaboração pontual da dramaturgia de Djalma Thürler e da direção de Marcus Lobo. 

Quase vinte e cinco anos após seu falecimento (25 de fevereiro de 1996), o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu permanece vivo nos corações de pessoas de diferentes gerações, revelando a incrível potência de sua literatura. O teatro, mais que tudo, é o espaço que deu maior privilégio às imagens sensíveis e póeticas de Caio. E, no caso de “Caio F. em casa”, o maior mérito dessa produção é fazer também chegar a sensibilidade ao público. 

Em cena, vemos Duda Woyda em um espaço que parece ser uma casa real através de uma câmera em plano sequência operada pelo diretor Marcus Lobo. A peça faz, ao longo de quarenta minutos, uma viagem por essa casa, investigando cada espaço, vários objetos, explorando muitos climas. Tudo isso revela a cartografia das sensações poéticas da dramaturgia, mas também a intimidade do ser humano, que aqui se chama Duda, mas que bem poderia ser qualquer pessoa. O mais positivo do espetáculo é não tratar a solidão como uma consequência da pandemia de 2020, ou como um retrato do mundo pós-redes sociais, nem algo assim. Para o Ateliê Voador, talvez a solidão seja mais uma delícia entre as muitas condições humanas, um refúgio, um abrigo de que qualquer pessoa tem direito de usufruir quando desejar. 


13o Festival Niterói em Cena

A dramaturgia assinada por Djalma Thürler dá, de fato, destaque para cartas, contos e para romances de Caio Fernando Abreu, mas o texto também está composto por outros autores como Francisco Bosco, Giuliano Cedroni, Heather Roth e como o próprio Thürler. Em conjunto, o projeto investiga cantos íntimos da companhia consigo próprio, com suas lembranças, com suas reflexões, com seus sonhos. Caio Fernando Abreu faleceu antes o advento da internet, em uma época em que a intimidade só era quebrada pelo recebimento de uma chamada telefônica ou pela chegada de uma carta via correio. E o espetáculo celebra essa época ao longo de quase toda a sua extensão: privilegiando discos em LP, fotografias analógicas, livros físicos. Um celular só realmente aparece nos momentos finais da peça de maneira que o contexto vira um brinde à delícia que é conviver consigo próprio, essa que não desvaloriza a convivência com o outro. 

Outro aspecto positivo é a sensibilidade de Duda Woyda ao dizer o texto. Não há grandes movimentos, não há empolação, esforço, expressões marcadas, força, “teatralidade” (aspas propositais). Woyda simplesmente diz o texto, ou melhor, deixa com que ele transborde naturalmente de si, do seu personagem. Seus movimentos pela casa, na cartografia do espetáculo, são limpos, são simples, são elegantes, aparentemente verdadeiros. Esses valores colaboram para a atratividade do espetáculo, desarmado e desarmando os corações para a tela. “Caio F. em casa” é uma versão intimista do espetáculo teatral “O outro lado de todas as coisas”, que teve direção de Marcus Lobo e de Rafael Medrado e que foi realizado entre 2016 e 2019. 

A direção de Marcus Lobo explora, sim, a relação da tela com Woyda em sua atuação, mas está longe de desprivilegiar o entorno do personagem. O espectador da peça tem, diante de si, diversas facetas do ambiente geográfico – por meio de vários closes em objetos interessantes da casa –, mas também do ambiente sonoro, pois as músicas têm enorme importância nessa peça. Lobo tem uma mão segura na condução da câmera, mas mais segura ainda na manutenção do ritmo lento da produção: ele permite que a gente deguste o espetáculo, o que é melhor que simplesmente assistir-lho. 

Com todos esses méritos, “Caio F. em casa” é uma experiência que deixará saudades. Espera-se que nunca lhe faltem oportunidades de voltar à cena a mais e mais públicos diversos e/ou retornantes. Parabéns! 

*

Ficha técnica:
Dramaturgia: Djalma Thürler
Direção: Marcus Lobo
Atuação: Duda Woyda
Colaboração: Rafael Medrado e Mariana Moreno
Produção e Arte: Djalma Thürler
Filmagem/Câmera: Rafael Alves
Trilha Sonora: Roberta Dantas e Leo Fressato
Figurino: Luiz Santana
Fotos: Cleonice Woyda
Classificação Indicativa: Livre​
Duração: 35 a 40 min.
Link: @atelievoadorteatro

Onde estão as mãos, esta noite (RJ)

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Foto: divulgação


Karen Coelho


Karen Coelho em ótima interpretação dirigida por Moacir Chaves 

Os maiores méritos do monólogo “Onde estão as mãos, esta noite” estão na exuberante interpretação de Karen Coelho e na inteligente direção de Moacir Chaves. Juntos conseguiram criar um objeto artístico potente e interessante que vencesse os longos 33 minutos prejudicados por uma dramaturgia bastante ruim de Juliana Leite. Ela foi soberba e felizmente melhorada pela atriz e pelo diretor na vitória sobre seus desafios, os que lhes aumentam os aplausos aqui. O espetáculo se apresentou na abertura das peças virtuais do 13º Festival Niterói em Cena, na última sexta, dia 18 de dezembro, mas, por problemas técnicos, só agora está ganhando sua análise crítica. Em oportunidades vindouras, vale a pena ver pelo modo como Coelho domina magistralmente o quadro e como, através dela, Chaves domina o ritmo da apresentação como um todo, contribuindo numa versão Bob Wilson à Brasileira na interconecção entre as cores no quadro, os movimentos na tela, os pequenos, mas super potentes nos mínimos gestos. 


13o Festival Niterói Em Cena

Infelizmente vale começar, na análise, pelo que é mais polêmico: os desméritos da dramaturgia de Juliana Leite. A grande questão é que o texto poderia ser um excelente exercício de sala de aula de roteiro, onde alunos estariam experimentando a monotonia de Tchekhov, a tragédia pós-guerra de Beckett ou teatro do absurdo de Ionesco. Fora desses contextos didáticos, porém, a simples justaposição de frases desconexas, como (meramente ilustrativas) “Não ouço o ar condicionado há 3 dias e os chocolates das Americanas devem estar derretendo. O mormaço faz minhas roupas mofarem no varal. Meu tio me ligou três vezes hoje, mas deve ter sido engano, pois ele nunca liga para mim.” exala o fedor de uma dramaturgia que a pandemia de 2020 não conseguiu requentar. Aliás, vale dizer que comparar a Europa com seus prédios literalmente no chão pós ataques de bombas áreas com a classe média presa em casa pedindo Ifood agora em 2020 beira ao mal gosto. Não. Por mais grave que esteja tudo o que estamos passando nesse ano, nada se compara ao ideário estético do teatro do pós-guerra europeu. E também não somos da aristocracia russa para vermos se aproximar o exército comunista que dará fim aos nossos dias longos. 

Assim, com tudo isso, Karen Coelho e Moacir Chaves tiveram em mãos o enorme desafio de transformar uma dramaturgia cuja 32ª página era exatamente igual à 5ª em algo relevante. E meritosamente conseguiram o feito. Talvez muito inspirado pelo primeiro ato de “Happy Days”, dirigido há alguns anos pelo encenador Robert Wilson (com Adriana Asti), Moacir Chaves soube conduzir Coelho a quase não se mexer em cena, dando potência à cada mínimo movimento, à cada gesto da atriz em quadro, criando exuberante tensão. O modo como atriz revira os olhos, ajeita sua coluna, varia suas tensões e, assim, dá vida a uma mulher trancafiada em seu minúsculo apartamento, como Winnie em seu buraco, dá luz à prisão que nós todos – conscientes do perigo que nos circunda do lado de fora – estamos confinados, isso sem perder a esperança de que dias melhores virão. Karen Coelho prende a atenção do público enquanto dosa, em evolução, o próprio revelar de suas expressões emotivas como um vulcão beckettiano prestes a explodir, mas que o faz seja por quais forem os motivos: a demora da vacina talvez. Eis aqui um belíssimo trabalho de interpretação que renova a potencialidade da nossa condição humana e pode emocionar pelas esperanças que não vêm, pela simplicidade que não mais se escuta, pela solidão que lhe assombra. 

A Chaves cabe ainda o elogio pelo cruzamento entre a atriz e o enquadramento. O fundo amarelo preponderante, o quadro sempre parado, a espera frustrada para que algo aconteça. O ritmo linear do espetáculo é cortado pela acrescência de alguns elementos decorativos, como se fossem alusões a uma possível mudança que não chegará, tudo isso reforçando a tragicidade particular do momento em que vivemos agora, especial e não comparável com nenhum outro. O espetáculo termina com uma bela reflexão sobre o que faremos com nossas mãos quando isso passar. E as mãos de Coelho aparecem ao mesmo tempo potentes, mas inúteis, em uma complexidade difícil de ser encarada, mas aqui enfrentada por uma atriz e por um diretor capazes de reconhecer o peso dos símbolos. 


“Onde estão as mãos, esta noite” vale a pena ser visto, se não pelo texto, com certeza pela beleza da interpretação de Karen Coelho, pela magistral direção afiada de Moacir Chaves, mas também pela direção de arte de Luiz Walchelke, em que a taça em vinho pela metade se une às paredes amarelas e à estante de livros vermelha. Tudo isso sabendo se comunicar com o figurino da atriz que se transforma ao longo dos 33 minutos em algo que poderá não vir a ser, mas que nos deixa com a amarga esperança de liberdade. 

Um bom espetáculo, sem dúvida. 

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Ficha Técnica

Direção: Moacir Chaves
Atuação: Karen Coelho
Dramaturgia: Juliana Leite
Direção de arte: Luiz Wachelke
Técnico de som e luz: Marcello H.
E equipe de suporte técnico e de divulgação.
Classificação Indicativa: Livre​
Duração: 35 min.
Link: @ondeestaoasmaos



sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

O edredom (RJ)

Foto: divulgação
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Tauã Delmiro

Com coragem, belo espetáculo enfrenta o tema do isolamento infantil

Seis anos depois, o premiado esquete “O edredom” volta ao Festival Niterói em Cena, dessa vez, participando como um espetáculo longo. A história é sobre uma perda que ocorre na vida de uma criança quando ela decide se isolar do resto do mundo. Vencedor nas categorias de Melhor Texto e Melhor Ator em 2014, Tauã Delmiro retorna à programação mais uma vez trazendo seu excelente trabalho de interpretação em espetáculo tão provocante quanto potente entre inúmeras outras qualidades. 

Para assistir, clique aqui:


13o Niterói em Cena

Dirigido com cuidado nos menores detalhes por Manu Hashimoto, o espetáculo narra a história de uma criança que se sente oprimida pelo mundo que a cerca e que parece impor uma decisão sobre ser menino ou ser menina. No seu modo único de sentir, o problema é que nenhuma das duas ofertas lhe parece ser suficientemente atrativa: se optar por ser menino, terá que nunca mais chorar; se por ser menina, irá casar-se e não ser feliz. Tudo o que essa criança pede de natal, neste ano, é ser como um dos seus peixes favorito do aquário de seu quarto – o Manteiga: ser menino e ser menina ao mesmo tempo. 

Na dramaturgia assinada por Tauã Delmiro, a estrutura se organiza de modo multifocal. O público acompanha o ponto de vista da criança, mas também do peixe. E ainda vemos outros personagens externos, como o Papai Noel do shopping do bairro, o dono de uma confeitaria, apresentadores de televisão, outros peixes, transeuntes, entre outros. A abordagem traz inúmeras referências à peça “Hamlet”, de William Shakespeare, cujo nome também popularmente batiza uma entre milhares espécies de animais marinhos. Há ainda menções a “O Lago dos Cisnes”, Edith Piaf, Noel Rosa, Simone, a astrologia etc. A trilha sonora, composta por canções e por áudios, é talvez um dos pontos mais altos do espetáculo pela sua variedade de registros e pela excelente contribuição na solidez da narrativa. 
Peixe Hamlet Manteiga


O título “O edredom” tem a ver com o isolamento, que é o verdadeiro tema da peça. Quando a criança resolve se isolar – seja para se proteger, seja para se preparar –, ela acaba sinalizando que “há algo de podre no Reino da Dinamarca”. O peixinho Manteiga sente a falta da criança e planeja um jeito de salvá-la, mas só ela talvez de fato tenha essa chance. O famoso solilóquio “ser ou não ser” (ato III, cena 1) de Shakespeare, que é citado também aqui nessa dramaturgia em momento bastante relevante, trata sobre o tema da reflexão e da decisão de modo negativo: “Assim, a reflexão faz de todos nós covardes. Assim, a cor saudável e natural de uma decisão fica doentia enquanto uma sombra pálida deixa fétido o pensamento.” O/a protagonista de “O edredom”, indo na mesma direção do Príncipe da Dinamarca, talvez seja castigado por não se abrir o suficiente sobre suas dores. Na peça clássica, a problemática se revela em um diálogo entre o jovem Hamlet e o fantasma de seu pai. Nessa daqui, a questão é abordada apenas na conversa entre a criança e o Papai Noel do shopping. Nem o fantasma, nem o bom velhinho poderão ajudar os protagonistas. 

Realizada pelo Coletivo Macacos Alados, a peça tem ainda méritos no cenário e no figurino. O primeiro revela a principal referência da criança: o peixe Hamlet Manteiga. O segundo traz luz sobre a androginia do personagem protagonista com o vibrante mérito de não recorrer a estereótipos, mas preferir o lirismo e a beleza. Os dois, como também o texto, a direção e a atuação, são exemplos da sensibilidade por trás dessa produção tão responsável e corajosa. 

Por vários motivos, de diferentes matizes, é cada vez mais importante que estejamos atentos aos sinais de isolamento das crianças. O silêncio delas pode ser sua forma de gritar e precisamos ouvi-las e acolhê-las. Ainda que, em superfície, “O edredom” pareça unicamente tratar de questões de gênero ou de orientação sexual, em profundidade, a peça é sobre afeto, sobre cuidado, sobre amizade, companhia e carinho. 

Foi bom ver o 13º Niterói Em Cena começar assim. Parabéns! 

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Ficha técnica:
Realização: Coletivo Macacos Alados
Texto e performance: Tauã Delmiro
Direção: Manu Hashimoto
Intérprete de Libras: Wesley Leal