quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Apareceu a Margarida (RS)

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Foto: divulgação

Renato Del Campão


Há dez anos, Renato Del Campão brilha com sua Margarida

O excelente “Apareceu a Margarida”, da Cia Teatrofídico, entra no seu décimo ano de apresentações. Trata-se de uma versão dirigida por Eduardo Kraemer para o celebrado texto escrito por Roberto Athayde, possivelmente a dramaturgia brasileira que mais ganhou versões no mundo nos últimos 45 anos. No elenco, Renato Del Campão é Margarida, uma professora extremamente autoritária. Por meio dela, o autor e o diretor sugerem uma metáfora para as consequências dos abusos de poder na vida dos indivíduos. Eis um belíssimo trabalho de interpretação, que merece todas as honras no teatro brasileiro. A montagem faz hoje sua última apresentação no 19o Porto Verão Alegre, no Teatro do SESC, no centro da capital gaúcha.

Uma bela metáfora sobre o fascínio do poder
Filho de Austregésilo de Athayde (1898-1993), aquele que foi por 34 anos consecutivos o presidente da Academia Brasileira de Letras, Roberto Athayde tinha 22 anos quando escreveu “Apareceu a Margarida”, em 1971. Foi seu quarto texto em um bloco de seis obras que o jovem compôs depois de voltar ao Brasil após uma temporada de quatro anos vivendo nos Estados Unidos. Sem mostrar o texto nem para seu pai, nem para sua prima - a famosa crítica de teatro Bárbara Heliodora (1923-2015) -, levou-o para Paschoal Carlos Magno (1906-1980), uma das pessoas mais importantes do teatro brasileiro entre as décadas de 40 e 70. Graças a isso, fez com que a obra chegasse às mãos do ator Luís de Lima (1925-2002), que tinha atuado com destaque em “Casa de bonecas”, de Henrik Ibsen, na versão dirigida por Cecil Thiré. Um acidente de carro fez com Luís de Lima ficasse impossibilitado de encenar Dona Margarida. O texto de Athayde passou, então, de Tereza Rachel (1934-2016) para Leila Diniz (1945-2002) até encontrar interesse em Marília Pêra (1943-2015).

A primeira versão de “Apareceu a Margarida” estreou no Teatro Ipanema, no Rio de Janeiro, em 4 de setembro de 1973, sendo essa o segundo espetáculo dirigido por Aderbal Freire-Filho. Na prévia para censura, seis imortais foram levados à sessão pelo pai do dramaturgo e a peça não só foi aprovada, como teve sua classificação indicativa reduzida para 14 anos. Dois meses depois, porém, a opinião da censura mudou e a produção foi retirada de cartaz até que fossem feitos vários cortes. Com Margarida, Pêra recebeu seu segundo Prêmio Molière de Melhor Atriz (RJ) e o Prêmio Governador do Estado (SP). A partir daí, começaram a surgir montagens internacionais, a começar pela dirigida pelo argentino Jorge Lavelli com a célebre atriz francesa Annie Girardot (1931-2011). O próprio Roberto Athayde dirigiu a versão americana com a atriz Estelle Parsons, que foi achincalhada pela crítica na produção de 1978. Atualmente, mais de trinta países já tiveram suas versões da peça, fazendo dela um fenômeno mundial da dramaturgia brasileira.

Marília Pêra
Com vários cortes a ponto de chegar a ter só 75 min, Marília Pêra manteve “Apareceu a Margarida” em seu repertório nos anos oitenta e noventa. É de 1996, a última apresentação de que se tem notícia até o momento. Em 2007, Marília Medina, com direção de Bruno Garcia, iniciou nova versão da peça que, ainda hoje, faz apresentações ocasionais no país. A produção da companhia gaúcha Teatrofídico, sobre a qual essa crítica aqui se refere, estreou em 8 de agosto de 2008 na Usina do Gasômetro. Por esse trabalho, o ator Renato Del Campão foi indicado ao Troféu Açorianos de Teatro Gaúcho na categoria Melhor Ator.

Sobre a dramaturgia, vale ressaltar que Roberto Athayde não escreveu uma crítica à ditadura militar. Pesquisadores respeitados afirmam que não há menções à política em qualquer um dos seus 28 textos (só Aderbal Freire-Filho dirigiu quatro deles). Não é um autor de esquerda, não é militante de nenhuma vertente ideológica, manteve-se sempre afastado de qualquer debate nesse sentido. Assim, todas as leituras que levam a essa abordagem que se fazem sobretudo de “Apareceu a Margarida” são ou da ordem da recepção do espetáculo ou de algum ponto mais original da encenação com méritos à direção ou à interpretação. 

A peça é a primeira aula de Dona Margarida, uma professora que assume uma turma primária logo depois do falecimento da docente anterior. (No Brasil, até 1971, o ensino era dividido em primário (5 anos), ginásio (4 anos) e secundário (3 anos). ) Como tal, ela leciona todas as disciplinas: francês, biologia, religião, matemática, geografia, português, entre outras, em uma escola privada e para uma turma mista. O realismo para por aí: ele é um trampolim para o absurdo que melhor lê essa dramaturgia. O extremo autoritarismo da professora, suas práticas na sala de aula (ela fica seminua, usa drogas, diz inúmeros palavrões, etc) e sobretudo os vários momentos em que se abre espaço para suas memórias pessoais tornam a peça claramente interessada em ser lida a partir de um código próprio. Na situação da narrativa, o absurdo situa os envolvidos – os personagens e o público – diante de um abismo onde tudo é possível. É nesse abandono a uma força que tudo pode é que nos encontramos. E talvez esse seja o panorama mais interessante de “Apareceu a Margarida”.

Margarida, algoz e depois vítima, é um símbolo do poder, mas a peça de que ela é a personagem principal é uma metáfora para um debate sobre como o poder é fascinante. Se, após todo o horror que a professora vomita em sua aula, os alunos sentirem, de alguma forma, pena dela, é sobre essa relação que “Apareceu a Margarida” é. A incapacidade de assumir uma postura mais ativa ou uma forte tendência em delegar para as instituições (governo, igreja, família) ou para outras instâncias públicas (a televisão e a grande mídia, por exemplo) a tarefa de pensar, de decidir e de agir são os focos da crítica que a dramaturgia oferece. Na cena final, quando se descobre na bolsa da professora uma arma capaz de destruir tudo, o aluno se senta amedrontado, resumindo o ponto de vista pessimista de Athayde nesse texto. Por que não lutamos? Por que não a expulsamos? Por que nos resignamos? São essas as perguntas que pairam quando a peça termina. E é baseado nesse mérito que podemos agora analisar a qualidade da montagem dirigida por Eduardo Kraemer.

Renato Del Campão em trabalho memorável
Em todos os aspectos, a versão da Cia. Teatrofídico potencializa com excelência os méritos do texto de Roberto Athayde. Com direção de Eduardo Kraemer, todo o ritmo da peça se dá a sentir através da vibrante articulação entre tempos diferentes em que se alternam episódios distintos. Margarida surge imponente, esmagando os alunos na abertura. Depois, atravessa crises de rebeldia quando um aluno se atrasa ou quando há um cheiro ruim que se espalha no ambiente. Retorna como mãe detentora da missão de cuidar e de proteger os alunos e exibe seu lado mais humano até se encontrar diante de uma derrota ou de uma vitória que só quem ver a peça (e pensar sobre ela) poderá identificar. Esses quadros, lado a lado, uns sobre os outros, como mergulhos e distanciamentos, oferecem a oportunidade de ver a complexidade da questão, o que é excelente.

Vale dizer ainda sobre a direção de Kraemer que a montagem consegue o feito de divertir sem despretensiosamente entreter e faz pensar sem enrijecer. Além disso, promove uma experiência sensorial de primeira grandeza sem que a rígida relação entre palco e plateia se destrua, mas, ao contrário disso, seja feita como conteúdo da abordagem e não apenas aspecto formal. Eis um grande trabalho apoiado nos muitos méritos do texto, mas também nas interpretações e demais colaborações.

É muito possível que Renato Del Campão encontre, em sua Margarida, o melhor momento de toda a sua vasta e celebrada carreira profissional como ator até aqui. Nela, vê-se a exuberância de seu enorme talento, parte considerável de seu imenso repertório expressivo. O modo como a voz, os tons, as entonações e os ritmos vibram no estabelecimento de uma rica paleta de cores sonora mantém, nesse âmbito, o espetáculo em altíssimo nível. Como se não bastasse, há colaborações qualificadas também no uso do corpo e das expressões faciais e gestuais, tornando a movimentação outro aspecto muito positivo. Como raramente se vê, o ator não apenas domina o público, como sustenta sua atenção ao longo da peça que dura duas horas, oferecendo oportunidades para a gargalhada e para o riso, mas também para a reflexão e a emoção. Há aqui o pulsar de um trabalho memorável no teatro brasileiro do qual o povo gaúcho pode se orgulhar.

Brilho na grade de programação teatral de Porto Alegre
A montagem de “Apareceu a Margarida” conta ainda com a colaboração da interpretação de Jairo Klein, que dá vida a um aluno e localiza o lugar do público nesse papel da narrativa. De maneira intensa e sem jamais desequilibrar o balanço das atenções, apresenta o ator um ótimo trabalho dentro do proposto. Vale ressaltar ainda, de maneira muito positiva, o figurino de Antônio Rabadan, a trilha sonora de Maninha Pedroso e do Teatrofídico, bem como o cenário e o desenho de luz participam ativamente da estrutura espetacular. Em todos esses elementos, há a potência de algo que pode explodir na construção do sentido do todo. Sem dúvida, em todos esses aspectos, se vê o cuidado nos mínimos detalhes, a preocupação com todos os registros que compõem a cena junto com o texto e com as interpretações.

Esse “Apareceu a Margarida”, entrando no seu décimo ano de apresentações, eleva a qualidade da grade de programação teatral na capital gaúcha nesse verão de 2018. É um prazer aplaudir mais uma vez. E que seja sempre!

*

FICHA TÉCNICA
Autor: Roberto Athayde
Direção: Eduardo Kraemer
Atuação: Renato Del Campão (Dona Margarida ) e Jairo Klein (aluno)
Figurinos: Antonio Rabadan e Curso de Design de Moda e Tecnologia da Feevale
Fotos: Thiago Tavares
Material Gráfico: Eduardo Kraemer
Trilha Pesquisada: Cia Teatrofídico
Trilha Composta: Maninha Pedroso
Realização: Cia Teatrofídico

segunda-feira, 22 de janeiro de 2018

Inimigas íntimas (RS)

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Foto: João Ricardo

Ingra Lyberato e Fernanda Carvalho Leite


Ingra Lyberato e Fernanda Carvalho Leite no coração do público gaúcho

A comédia “Inimigas íntimas” chega ao seu décimo ano atraindo muito público. Escrito por Artur José Pinto, um dos dramaturgos gaúchos mais encenados no sul do Brasil, o texto tem direção de Néstor Monastério. Na história, duas amigas de infância, que estiveram separadas depois de alguns episódios de crise, se preparam para um reencontro com sabor de vingança. Nele, elas pretendem ter de volta a vida que uma teria roubado da outra. Fernanda Carvalho Leite e Ingra Lyberato são as atrizes que, de maneira ótima, interpretam respectivamente Mariana e Lúcia, bem como os outros personagens periféricos. A peça cumpriu três apresentações no 19o Porto Verão Alegre e deve voltar em cartaz para mais temporadas.

Uma boa comédia de Artur José Pinto
Mariana (Fernanda Carvalho Leite) e Lúcia (Ingra Lyberato) foram melhores amigas quando adolescentes. A primeira queria ser atriz e a segunda queria ser bióloga e ter filhos. Mariana dera seu primeiro beijo em um garoto chamado Osmar, por quem, tempos depois, Lúcia se apaixonou. O momento crucial da amizade (e da peça) se dá em um teste para um espetáculo de teatro. Lúcia acompanha a amiga, torcendo por ela. Convocada pelo diretor a participar, Lúcia ganha o personagem no lugar da amiga. Talvez como vingança, Lúcia ganha o coração de Osmar, com quem se casa e tem três filhos. Lúcia se torna uma atriz de sucesso não só no teatro, mas também no cinema e na televisão. Os anos se passam e, ao longo do tempo, é raro haver um encontro entre as duas. Ao fim de cada um, sempre fica a promessa de que se reencontrem um dia. 

Eis que o dia do ajuste de contas chega e é quando nós, o público, começamos a participar disso, ouvindo essas histórias em suas intensidades e cores. Mariana tem, como interlocutor, a sua empregada Ivette. Lucia, por sua vez, conversa com Jussara, uma jornalista que a procura para uma entrevista. Entre nós e as protagonistas, as personagens coadjuvantes, felizmente, enriquecem a cena trazendo cada uma um roll de características que deixa as situações mais engraçadas.

O maior mérito do texto está no modo como, em sua escrita, Artur José Pinto organiza a situação e prepara o leitor para a cena final. Pouco a pouco, o conflito vai se apresentando e tendo suas partes cada vez mais desenvolvidas, apontando para o desfecho. O texto acostuma o seu leitor a acompanhar as histórias com calma. As cenas são longas e as narrativas apresentadas em detalhes. O problema está no fim. Sem que essa análise antecipe detalhes do fechamento, vale dizer que a cena final está muito aquém do esperado. Ela é rápida e simples demais de modo que parece inacreditável que a história termine assim. (Na sessão de ontem, quando o black-out final marcou o fim da peça, alguém gritou pensando que havia faltado luz. A reação simbolizou uma sensação de que havia mais para acontecer.)

Fernanda Carvalho Leite e Ingra Lyberato brilham
A direção de Néstor Monasterio atualiza bem o texto para a cena. São excelentes as articulações dos quadros e a movimentação das atrizes no centro deles. É visível um cuidado na defesa de uma comédia tão simples que, em termos estéticos, alça alguma relevância positivamente. Em destaque, deve-se valorizar o ritmo de toda a peça e de cada uma de suas partes internas, o que evidencia uma pesquisa bastante interessante sobre os personagens sem que a peça chegue a virar uma coisa que ela não é.

Fernanda Carvalho Leite e Ingra Lyberato estão excelentes em cena, atingindo todos os objetivos esperados. O texto é dito de forma viva e honesta. Há franqueza e uma certa ingenuidade na exposição do corpo, nas brincadeiras cênicas, na movimentação. André Oliveira, que faz a contrarregragem, participa na construção desse clima, cativando o espectador com discrição. O conjunto carismático das atuações diverte e encanta o público que torce para o sucesso de todos os personagens.

O teatro comercial e o diálogo com a plateia
O figurino de Sérgio Lopes, o cenário de Rodrigo Lopes, a música de Duca Leindecker e de Néstor Monastério, a coreografia de Jussara Miranda e a luz do diretor, com destaque para o primeiro, participam pouco da encenação, mas de forma colaborativa e valorosa. Há bem poucos recursos, garantindo a fluência da comédia nesse tipo mais corriqueiro e sem grandes pretensões, mas ainda assim importante para o mercado.

“Inimigas íntimas” é um sucesso de público, reunindo os gaúchos há dez anos em torno das aventuras das personagens. Que o teatro comercial, em seu ótimo diálogo com as plateias, permaneça assim em ótimo bom nível. Vida longa!

*

FICHA TÉCNICA:
Autor: Artur José Pinto
Direção: Néstor Monasterio
Elenco: Fernanda Carvalho Leite e Ingra Lyberato
Contrarregra e mordomo: André Oliveira
Figurino: Sérgio Lopes
Cenografia: Rodrigo Lopes
Música: Duca Leindecker, Néstor Monasterio
Coreografia: Jussara Miranda
Iluminação: Néstor Monasterio
Programação Visual: Nicolas Monastério

domingo, 21 de janeiro de 2018

Santo Qorpo ou O louco da província (RS)

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Foto: divulgação


Elenco

Homenagem a Qorpo Santo sucumbe em espetáculo ruim


“Santo Qorpo ou O louco da província” traz de forma negativa a figura célebre do dramaturgo gaúcho Qorpo Santo (1829-1883) ao verão porto-alegrense. O espetáculo é muito ruim porque tem uma dramaturgia mal escrita, uma direção que não se posiciona onde tem que se posicionar e uma coleção de péssimos trabalhos de interpretação. Escrita a partir do romance “Cães da província”, de Luiz Antônio de Assis Brasil, e da obra “Ensiqlopédia ou Seis mezes de huma enfermidade”, de Qorpo Santo, a dramaturgia é assinada por Áquila Mattos, Juçara Gaspar, Jeferson Cabral e por Naomi Luana. Dirigido por Inês Marocco, o espetáculo tem, no elenco, Jeferson Cabral, Rodolfo Ruscheinsky, Ketti Maria, Magda Schiavon, Renata Cieslak, Naomi Luana e Eduardo Schmidt ao lado de Aline Ferraz, Renan Leandro e de Juçara Gaspar, esses últimos em boas atuações. Da montagem em cartaz junto de outras 77 produções no 19o Porto Verão Alegre, devem-se destacar os ótimos figurinos de Rô Cortinhas e o desenho de luz de Fernando Ochoa. A peça se apresenta até hoje no Teatro Renascença. 

Inúmeros problemas na dramaturgia 
A intenção é boa, mas insuficiente. Entende-se que, ao escrever o texto, Áquila Mattos, Juçara Gaspar, Jeferson Cabral e Naomi Luana quiseram colaborar com (ou talvez promover!) a celebração da obra do dramaturgo José Joaquim de Campos Leão, autodenominado e conhecido por Qorpo Santo. Isso é positivo e deve ser aplaudido. No entanto, a partir do que se vê no palco em “Santo Qorpo ou O louco da província”, sobram problemas na construção dramatúrgica. Há momentos em que a peça quer ser a versão teatral do romance “Cães da província”, de Luiz Antônio de Assis Brasil. Há outros em que se dedica em oferecer a encenação de trechos de algumas das dezessete peças que Qorpo Santo escreveu ao longo de 1866 em Porto Alegre. E, por fim, há partes em que a dramaturgia quer divulgar a biografia do homenageado. Para quem está assistindo, isso tudo resulta em uma enorme confusão que fica ainda pior pela recorrência de diálogos longos em ação inexistente e nos problemas da ausência de um posicionamento claro sobre o conteúdo que se está viabilizando. 

Publicado em 1988, “Cães da província” é uma obra de ficção que une pontos de vista do seu autor sobre fatos históricos (como os crimes da Rua do Arvoredo e como a biografia de Qorpo Santo) e uma criação original de personagens inventados como Eusébio e Lucrécia e da história de ambos. Em si só, trazê-la sozinha para o palco já seria um feito complexo dados os vais e vens de sua narrativa. O mesmo se pode considerar a respeito da biografia de Qorpo Santo: ele era louco mesmo? Ou ele foi vítima da sociedade da época? Sabemos de seus posicionamentos radicais, mas aquilo que realmente está documentado (e que não é obra de ficção) nos oferece quais reflexões sobre sua vida? E, por fim, considerando sua obra dramatúrgica, o que ela tem a dizer sobre o mundo, sobre o seu autor e sobre si mesma? 

Em “Santo Qorpo ou O louco da província”, são citadas de modo direto ou indireto, pelo menos, oito peças de Qorpo Santo: “A impossibilidade da santificação ou A santificação transformada”, “A separação de dois esposos”, “Eu sou vida; eu não sou morte”, “Mateus e Mateusa”, “O marinheiro escritor”, “Um assobio” e “Um credor da Fazenda Nacional”. Algumas delas surgem nessa dramaturgia de modo direto quando os outros momentos da peça param para entrar uma cena inteira sem conexão com o resto. Há inúmeras posições diferentes de pessoas diversas sobre a contribuição de Qorpo Santo para o teatro. Todas elas não se esquecem de observá-la a partir da dúvida sobre sua sanidade, quase considerando sua dramaturgia assim como se consideram as obras plásticas dos artistas do Centro Psiquiátrico de Engenho de Dentro – o coletivo criativo coordenado nos anos 40 por Nise da Silveira e por Almir Mavignier. É teatro, mas até que ponto é esteticamente relevante? (São filosofia as belas reflexões que nos ofereceu a catadora de lixo esquizofrênica Estamira?) A peça, de algum modo, parece se posicionar no argumento de que Qorpo Santo foi vítima. Por outro lado, não se exime de reproduzir a versão de Assis Brasil do diálogo entre o dramaturgo e Napoleão III. 

Para além da barafunda promovida pela tentativa de união de intenções diferentes, o texto a oito mãos de Mattos, Gaspar, Cabral e Luana ainda sofre de problemas na organização interna. É interessante o modo como Inácia, a esposa de Qorpo Santo, surge na peça, uma referência trazida de “Cães da província”. No entanto, a rica relação entre ela e seu marido perde força na dramaturgia pelos zilhões de outros personagens e situações que também aparecem. Em vários momentos, a ação parece parar pelo advento de diálogos cujo conteúdo não interfere no enredo principal, estando ali apenas para marcar o interesse da dramaturgia em dar conta do homenageado. Uma hora e meia depois de ter começado, na narrativa, tudo leva a crer que a monotonia se estenderá por mais outros noventa minutos. Então, a peça finaliza mais sucumbida pela exaustão do que propriamente por uma concepção de dramaturgia bem articulada. Em outras palavras, o fim chega ao texto não como uma parte da estrutura dramatúrgica, mas como um cansaço da escrita. E, considerando todos um problemas, traz um alívio na leitura. Merecia, pois, um novo tratamento antes da produção. 

Péssimo uso da voz 
A direção de Inês Marocco, assistida por Gabriela Boccardi e por Magda Schiavon, não resolve os problemas do texto, mas traz ainda outros à versão dele para o palco. Em primeiro lugar, há que se analisar o efeito de fazer quatro atores interpretarem o mesmo personagem na peça. Em segundo lugar, os problemas de triangulação. E, por fim, o panorama geral dos trabalhos de interpretação. 

O recurso de fazer com que quatro intérpretes diferentes deem vida para o mesmo Qorpo Santo seria interessante se o gesto tivesse algo a dizer sobre as personalidades diferentes do homenageado. Se foi essa a intenção, ela não fica clara ao público talvez devido ao modo como o personagem surge embaralhado nas confusões da dramaturgia, que a peça não resolve. A impressão que se tem é de que a opção é um meio de Marocco pontuar o lugar do teatro contemporâneo na abordagem, o que, desconexo, torna-a meramente “engraçadinha”. Pior do que isso, o feito afasta o espetáculo de melhorar o mergulho em Qorpo Santo, porque, no jogo entre os atores, fica mais importante para a audiência entender essa alternância do que, de fato, conhecer o personagem. 

Por outro lado, de modo estranho, há muitos problemas na triangulação. Número incontável de cenas são feitas completamente viradas para o público quase sem contato visual entre os intérpretes. Os monólogos – e há vários deles na peça – parecem diálogos com a plateia, o que vai na contracorrente do texto, esse visivelmente tendido a conversas internas do personagem consigo mesmo. 

Para piorar, de um modo geral, a montagem perde muito com péssimos trabalhos de interpretação. Das dez pessoas do elenco, apenas três sabem dizer o texto de maneira audível e compreensível para a audiência. Em todos os demais, o volume se perde por um mau uso das entonações e as frases perdem a força por uma dicção muito problemática. Em Jeferson Cabral, em Rodolfo Ruscheinsky e em Eduardo Schmidt, três entre os quatro atores que interpretam o protagonista, o caso fica pior, considerando as inúmeras falas que eles têm. Schmidt tem dois momentos positivos de exceção: quando interpreta Qorpo Santo durante o exame e quando dá vida à Mateusa. Ketti Maria, que interpreta Inácia, apresenta um trabalho com os mesmos defeitos infelizmente: o fim das frases não se entende. Em resumo, agregando ainda uma sucessão de problemas na reação dos corpos e no movimento das intenções, “Santo Qorpo ou O louco da província” é muito mal defendido no geral. 

Há três casos positivos que é preciso valorizar. Aline Ferraz e principalmente Renan Leandro e Juçara Gaspar se distanciam dos demais colegas por apresentarem méritos naquilo que os outros não exploram. Suas vozes são bem postas, tudo é claro e sonoro. Além disso, sobretudo em Gaspar, há trabalho de corpo elogiável na viabilização dos personagens, propondo jogos que, se não se desenvolvem a contento, é talvez mais por culpa da contracena. Não se tratam de trabalhos excelentes, mas, pelo menos, neles, se compreende a narrativa com mínima clareza. 

Lindo guarda-roupa 
Sobram os figurinos de Rô Cortinhas e o desenho de luz de Fernando Ochoa como os aspectos mais positivos da montagem. O guarda-roupa, todo ele, apresenta um conjunto de modelos muito bem feitos, o que oferece um panorama visual bastante bonito de se ver. A iluminação aumenta ainda mais os méritos do vestuário, trazendo uma sensação de luz à gás que ajuda a audiência a localizar a narrativa no século XIX. O cenário de Martino Piccinini é composto por versões diferentes de cadeiras de madeira, contribuindo de modo sutil, mas interessante, com o panorama. A trilha sonora, em vários momentos, prejudica a peça devido aos já comentados problemas na dicção dos atores. Não fossem esses, é possível que ofereceria melhor resultado. 

“Santo Qorpo ou O louco da província” estrou em junho de 2014, fazendo temporadas ocasionais desde então. É impossível imaginar como tanto tempo de carreira fez com que tal mau resultado chegasse a 2018. É uma pena. 

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Ficha Técnica:
Direção: Inês Marocco
Roteiro livremente inspirado no romance "Cães da Província", de Luiz Antônio de Assis Brasil e nos textos de Qorpo Santo
Elenco: Aline Ferraz, Eduardo Schmidt, Jeferson Cabral, Juçara Gaspar, Ketti Maria, Magda Schiavon, Naomi Luana, Renan Leandro, Renata Cieslak e Rodolfo Ruscheinsky
Cenografia, arte gráfica e fotografia: Martino Piccinini
Figurino: Rô Cortinhas
Iluminação: Fernando Ochoa
Operação de Luz: Vinicius Lopes
Assistência de direção: Gabriela Boccardi e Magda Schiavon
Dramaturgia: Áquila Mattos, Jeferson Cabral, Juçara Gaspar e Naomi Luana
Orientação musical: Adolfo Almeida Jr.
Criação e execução da trilha sonora: O grupo
Assistência na orientação musical: Eduardo Schmidt
Produção: Jeferson Cabral, Juçara Gaspar, Naomi Luana e Renata Cieslak
Divulgação: Juçara Gaspar