domingo, 31 de julho de 2016

Terra papagalli (RJ)

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Foto: divulgação

Daniel Belmonte, Victor Albuquerque, André Rosa, Jojo Rodrigues, Tomaz Nogueira e Sarah Lessa


Ótimo conjunto de elenco em divertida aula de história

“Terra Papagalli”, com direção de Marcello Valle, é a versão teatral do livro homônimo de José Roberto Torero e de Marcus Aurelius Pimenta. A dramaturgia, assinada por André Vieira, Daniel Belmonte e pelo diretor, é ponto de partida para a encenação em que onze atores dão vida a Cosme Fernandes, português que, tendo sido degredado da Europa, veio junto com a frota de Cabral para a terra que futuramente seria conhecida como Brasil. A vida dele entre os índios e os europeus, contada no livro e na peça em uma mistura de fatos reais e fictícios, apresenta um interessantíssimo ponto de vista da história do país desse período um tanto obscuro. Além de Vieira e de Belmonte, no elenco composto de ótimos trabalhos, estão também André Rosa, Felipe Frazão, João Marcelo Iglesias, Jojo Rodrigues, Rômulo Chindelar, Sarah Lessa, Thiago Chagas, Tomaz Nogueira e Victor Albuquerque. A montagem fica em cartaz até o dia 7 de agosto no Teatro de Arena do Espaço SESC Copacabana.

Narrativa histórica
Publicado em 1997, o livro “Terra Papagalli”, narrado em primeira pessoa, se organiza nos dez mandamentos para se bem viver no Terra dos Papagaios. Português de origem judaica, o ex-seminarista Cosme Fernandes, quando tinha mais ou menos vinte anos, foi expulso da Europa devido a um caso de amor. Assim, preso à expedição de Cabral na aventura do descobrimento de um novo caminho para as Índias, ele acabou reconstruindo sua vida entre os índios e os europeus que passaram a conviver no que depois se chamou Brasil.

A chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, ao outro lado do Oceano Atlântico apimentou a disputa de Portugal e Espanha pela posse das Ilhas Canárias e da costa africana. O Papa Alexandre VI, vendo-se ameaçado pela França quanto ao governo de Nápoles, intermediou a divisão dos trajetos recém descobertos. De início, em 1493, as primeiras cem léguas pertenceriam a Portugal. Um ano depois, em Tordesilhas, um novo tratado foi feito e, a partir dele, Dom João ganhava 370 léguas a partir das Ilhas Canárias, que eram da Espanha. Coube, assim, ao inexperiente navegador Pedro Alvares Cabral comandar uma expedição que fizesse o reconhecimento desse novo terreno desconhecido oficialmente. (Há uma teoria de que, em 1498, o navegador Duarte Pacheco já teria feito uma viagem secreta ao Brasil em nome da coroa portuguesa.)

Expulsos os mouros e convertidos ao catolicismo (à força pela Inquisição) os judeus, os “indianos” precisavam também abraçar a “fé verdadeira”, concedendo, como já tinham feito os outros povos, seus bens à coroa (seja essa de Portugal, de Castela ou de Aragão). Diferente deles, porém, assim como aos africanos, aos índios não bastava assumir uma nova crença. Considerados de uma raça inferior, eles eram escravizados e vendidos como se fossem animais. (Antes de morrer, em 1504, a Rainha Isabel de Castela mandou prender Colombo por essa prática considerada indigna. Os outros monarcas do século XVI, no entanto, não seguiram o seu exemplo, pautados inclusive pela falta de consenso dos teólogos do Vaticano em relação ao tema.) Além do tráfico de pau-brasil, então, a venda de índios engordava os cofres ibéricos.

Na se sabe ao certo quando exatamente Cosme Fernandes veio para o Brasil, mas historiadores acreditam que, em 1502, ele já estava morando em uma região batizada de Cananeia, no litoral sul de São Paulo. Assim como a coroa espanhola, Portugal não havia permitido a vinda de mulheres para os povos d`além mar, o que se foi acontecer na época das Capitanias Hereditárias. Dessa forma, além das famílias nativas das regiões, os europeus que se estabeleceram por aqui formaram novas famílias, dando início à miscigenação. Na narrativa de José Roberto Torero e de Marcus Aurelius Pimenta, o protagonista teve várias esposas e muitos filhos. A enorme respeitabilidade (e força militar) de Cosme, trinta anos depois de ter chegado ao Brasil, torna esse argumento ainda mais plausível do que suas necessidades sexuais e sua liberdade moral-religiosa. 

Em 1531, com a chegada de Martim Afonso de Souza, Cosme Fernandes, também chamado de Bacharel da Cananeia, é visto como um dos europeus mais importantes do Brasil ao lado de Diogo Álvares Correa, João Ramalho e de Antônio Rodrigues. Uma batalha entre o novo governo e suas tropas, essas que tinham auxílio de espanhóis e de franceses – ambos, mais que o portugueses, conheciam melhor a vida por aqui –, se travou. Dono de centenas de escravos e aliado de diversos caciques, Cosme venceu a batalha, expulsando os portugueses da Vila de São Vicente. A contemporaneidade desconhece o paradeiro final do Bacharel, embora reconheça nele uma biografia capaz de dar conta da complexa identidade da formação do que hoje se conhece como “povo brasileiro”.

Diferente do que acontece no livro, na peça “Terra Papagali”, o espectador não sabe onde e quando a história vai terminar enquanto lha assiste. Por mais interessante que a narrativa adaptada pode ser, lá pelas tantas, com vários atores, e todos eles aparentemente da mesma idade, interpretando o mesmo personagem, vem o cansaço. As cenas finais, tão boas quanto as primeiras, não vencem o desafio do ritmo por causa disso. O monólogo final em defesa das tribos indígenas que ainda hoje sofrem no país, por mais essencial que seja na construção de um mundo mais humano, esteticamente surge em um contexto debilitado, que lhe é prejudicial. Mesmo assim, os méritos da dramaturgia precisam ser valorizados e aplaudidos sobretudo no que diz respeito à encenação.

Ótimo conjunto de elenco
A direção de Marcelo Valle, com codireção de Danilo Moraes e direção de movimento de Dani Cavanellas, organiza a narrativa em um jogo muito interessante entre os atores. O espetáculo, atendendo às características da obra na qual se baseia, é irônico sem fazer disso uma proposta menos séria. A ficcionalização da história, ganhando contornos bastante válidos pela corporalidade dos intérpretes, surge como um elemento capaz de potencializar a importância histórica do todo positivamente. Cada novo quadro surge no palco com enorme criatividade e força em uma articulação que só não é melhor pelo enrubescimento do ritmo da dramaturgia como já se apontou.

Todos os trabalhos de interpretação são bastante bons. João Marcelo Iglesias, Jojo Rodrigues, Rômulo Chindelar, Sarah Lessa, Tomaz Nogueira, Daniel Belmonte, mas principalmente André Vieira, Victor Albuquerque e Thiago Chagas e sobretudo Felipe Frazão e André Rosa se destacam em trabalhos vigorosos, cheios de força, intensidade e equilíbrio. Em uma encenação em que todos os atores permanecem quase inteiramente em cena de alguma forma, a coesão das interpretações fica ainda mais responsável pela qualidade do todo. Isso acontece aqui, o que reforça as justificativas para o aplauso ao conjunto.

O cenário de Júlia Deccache e de Carla Ferraz, a luz de Maurício Fuziyama e de Renato Machado, a música original e a direção musical de Rodrigo Lima estão plenamente unidos em quadro estruturado com poucos elementos, mas valorosos sobretudo na viabilização do bom rimo inicial. O figurino, os adereços e o visagismo de Othon Spenner vencem o desafio de providenciar o jogo na caracterização dos diversos personagens, mas destacando a relação estética deles entre si, todos partes de um só espetáculo com sólida concepção.

“Terra Papagalli”, produzido por André Vieira e por Bruno Fagotti, vale a pena ser visto sobretudo por aqueles que reconhecem a importância do conhecimento da história para a compreensão do presente. Divertido e qualificado!

*

Ficha técnica:
Texto original: José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta
Adaptação: André Vieira, Daniel Belmonte e Marcelo Valle
Direção: Marcelo Valle
Codireção: Danilo Moraes
Direção de movimento: Dani Cavanellas
Elenco: André Rosa, André Vieira, Daniel Belmonte, Felipe Frazão, João Marcelo Iglesias, Jojo Rodrigues, Rômulo Chindelar, Sarah Lessa, Thiago Chagas, Tomaz Nogueira e Victor Albuquerque
Treinamento de coro: Fabianna Mello e Souza
Workshop vocal: Davi Guilhermme
Iluminação: Maurício Fuziyama e Renato Machado
Cenário: Júlia Deccache e Carla Ferraz
Música original e direção musical: Rodrigo Lim
Figurino, adereços e visagismo: Othon Spennr
Projeto gráfico: Bruno Dante
Fotografia: LuCa Ayres
Assessoria de imprensa: Breno Motta
Produção: André Vieira e Bruno Fagotti

Passional (RJ)

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Foto: J.Keise


Karen Mota, Bruno Quaresma e Anna Sant`Anna

Modesto

“Passional” é o novo bom espetáculo dirigido por Renato Livera. O texto escrito por Alexandre Mota, Danielle Heule, Rafael Sardão e pelo diretor narra a história de um escritor chamado Eugênio por quem duas mulheres se apaixonam: Miranda, a dona de seu bar preferido; e Lavínia, uma dançarina. O relacionamento entre eles – coberto de expectativas e de frustrações – é pautado pela movimentos ocasionados pela paixão. Com Anna Sant´Anna, Karen Mota e Bruno Quaresma em bons trabalhos de interpretação, o espetáculo finaliza hoje a sua primeira temporada no Teatro I do SESC Tijuca, na zona norte do Rio de Janeiro.

Estória simples e sem grandes pretensões
O bloqueio criativo de Eugênio (Bruno Quaresma) para finalizar seu novo romance e, assim, cumprir um contrato previamente firmado com uma editora, termina quando ele conhece Lavínia (Karen Mota). Ela é uma dançarina contratada para dançar no bar onde trabalha a garçonete Miranda (Anna Sant´Anna). O relacionamento entre Eugênio e Lavínia nasce e se estabelece intermediado por Miranda que tem sobre eles algum poder. Ao longo da peça, o jogo de expectativas e de frustrações vai sendo lugar onde se vê de que maneira o destino dos personagens será modificado pelo encontro entre eles.

“Passional”, relativamente modesto nas intenções e nos resultados, oferece uma estória simples e sem grandes pretensões positivamente. Os diálogos são bem construídos e deixam ver cenas que estruturam uma boa narrativa. A direção de Renato Livera, assistida por Elder Gattely, se apresenta a partir de articulações interessantes entre os quadros em um ritmo que acaba sendo o melhor de todo o trabalho. A movimentação dos atores, na troca de panoramas, revela um ótimo uso do espaço cênico esse preenchido de modo austero pelo cenário e de maneira potente pela iluminação de Renato Machado.

Sem nenhum arroubo estético
Não há interpretações relevantes, mas Anna Sant´Anna, Karen Mota e Bruno Quaresma contribuem para o todo sem desméritos dentro das possibilidades que o texto e a direção parecem ter-lhes oferecido. O figurino de Ticiana Passos, com elementos que visivelmente procuram se conter dentro de uma estrutura limitada, também não protagonizam, mas cumprem seu papel.

“Passional”, sem nenhum arroubo estético, faz uma passagem mediana pela programação teatral carioca sem correr grandes riscos.

*

Ficha técnica:
Texto: Alexandre Mota, Danielle Heule, Rafael Sardão e Renato Livera
Direção: Renato Livera
Elenco: Anna Sant´Anna, Karen Mota e Bruno Quaresma
Diretor assistente: Elder Gattely
Figurino: Ticiana Passos
Iluminação: Renato Machado
Operação de luz: Roberto Macedo
Operação de som: Mariana Amaral
Assessoria de imprensa: Gabriela Mota
Programação Visual: Leonardo Pires
Produção Executiva: Karen Mota
Direção de Produção: Anna Sant`Anna

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Lady Christiny (RJ)

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Foto: divulgação


Alexandre Lino


Monólogo controverso


“Lady Christiny” é o controverso monólogo escrito por Daniel Porto, dirigido por Maria Maya e interpretado por Alexandre Lino que o idealizou. A peça é baseada na vida real da personagem homônima, uma transexual cujo nome de batismo era Celso Marinaldo da Silva (1956-2006). A história foi antes contada no curta-documentário de mesmo nome dirigido por Lino em 2005. Em cena, a vida de Lady Christiny é narrada em primeira pessoa, com acréscimos na dramaturgia e participação de vídeos, revelando um panorama muito complexo. Ele negativamente perde melhores oportunidades de contribuir para uma sociedade menos intolerante. O espetáculo fica em cartaz no Teatro II do congelante SESC Tijuca na zona norte do Rio de Janeiro até o próximo domingo, dia 31 de julho.

Peça depõe contra quem diz elogiar
Antes de mais nada, vale ressaltar que a presente análise versa sobre o monólogo “Lady Christiny” e não sobre o personagem que o inspirou. Nesse sentido, a avaliação a seguir parte de um objeto estético e que não tem intenção de inferir qualquer julgamento a respeito nem de Lady Christiny, nem de seus familiares e suas opiniões pessoais.

O modo como a dramaturgia de “Lady Christiny” se estrutura é bastante controverso. De um lado, na fala em primeira pessoa, há a narrativa do “eu” por meio da qual a personagem se constrói diante do espectador. De outro, há a inevitável apresentação do “tu” e do “ele”, isto é, o para quem o personagem fala e a partir de qual lugar no mundo essa posição se dá. Nesse monólogo, a articulação desses três níveis gera um todo que desfavorece demais a personagem que aparentemente é homenageada. Em outras palavras, a peça depõe contra quem, a princípio, diz elogiar.

Sobre o primeiro nível, aquele em que se vê a narrativa da vida do personagem por ele próprio, sabe-se que Celso conheceu Célia quando ambos eram adolescentes e que, apaixonados, fugiram de casa para se casar. Dessa união, nasceram dois filhos – Kathya Alessandra e seu irmão – que vieram ao mundo antes da maioridade do pai. Aos vinte três anos, tendo gravado quatro discos de músicas românticas e vencido vários concursos de calouros inclusive na televisão, Celso se apaixonou por Claudio, que era seu fã e frequentava sua casa. Percebendo o sentimento que nascia entre seu marido e o amigo dele, Célia convidou o segundo para morar com sua família, pedindo apenas a Celso que não se divorciasse dela. Segundo Lady Christiny, essa foi a primeira vez que sentiu atração sexual por outro homem.

O relacionamento entre Celso e Claudio entrou em crise quando Célia revelou ao marido que o namorado dele a cortejava também. Para ela, isso era sinal de que o único meio dos dois permanecerem juntos era Celso adquirir uma identidade feminina que pudesse manter o desejo sexual de Claudio que, para ela, era heterossexual. A partir disso, Celso começou uma jornada de redesignação de gênero, transformando-se, com a ajuda de hormônios e de silicone, em Christiny. O relacionamento com Claudio durou quartorze anos e terminou quando se descobriu que esse cortejava Kathya Alessandra. Oficialmente, o casamento entre Celso/Christiny e Célia nunca se desfez.

Em segundo nível, o monólogo “Lady Christiny” revela ainda a opinião da personagem-título sobre si mesma e o mundo no qual essa avaliação acontece: o “tu” e o “ele”. Ao longo de todo o texto, é nítido que, para a personagem e também para sua filha, cuja imagem aparece por meio da reprodução de um trecho do documentário fílmico, o mundo se divide entre homens e mulheres e em heterossexuais e homossexuais. Em nenhum lugar do texto, a parece a palavra transexual, bem como seu conceito como também não o de qualquer outro. E essa abordagem anuncia uma visão de sociedade que hoje é muito limitada.

Ao longo da peça, a personagem Lady Christiny faz inúmeras críticas ao comportamento que ela julga ser dos homossexuais: a promiscuidade, a afetação, a falta de valores. Segundo ela, citando suas palavras, a sociedade está certa em ter preconceito contra os gays dado o modo como eles se apresentam ao mundo. “Quando eu vejo dois homens se beijando na rua, eu tenho vontade de tacar uma lâmpada na cabeça deles!” – diz, se referindo à terrível agressão que, na vida real, um casal gay sofreu na Avenida Paulista, em 2010. Afirmando-se como uma “travesti comportada”, ela aponta solenemente para o outro de cuja identidade orgulhosamente se separa.

Esse contexto se ratifica em outros lugares da dramaturgia. A personagem Kathya se refere ao pai como “ele” e ensina seu filho a chamar o avô de Vô Chris. Lady Christiny, aparecendo no vídeo com o corpo fisicamente identificável com o de uma mulher, chama a si própria de “homem”. E afirma que voltaria atrás em sua transformação em mulher se pudesse. Ao final, afirma se orgulhar de conhecer as mulheres melhor que todo mundo. Desse modo e por tudo isso, o discurso oral da peça, na sua oposição entre o “eu” e os “outros”, os homens e as mulheres, os homossexuais e os heterossexuais, vai a falência quando o discurso imagético é muito mais complexo. Em outras palavras, se, de um lado, o monólogo vê o mundo dividido em dois, de outro, tem-se uma realidade em que várias partes se encontram e se misturam.

Em síntese, o espetáculo “Lady Christiny” acaba por narrar a história de uma personagem aprisionada em padrões de identidade de gênero que não atendiam à complexidade de seus impulsos naturais. Suas ideias de família e suas opiniões sobre bom comportamento, fazendo pleno sentido no âmbito da reflexão racional, esbarravam na incapacidade (ou impossibilidade) de incluir posturas não previamente determinadas e que fossem mais de acordo com sua própria história. Quando Christiny e Kathya revelam que, se estivessem no lugar de Célia, não tolerariam a abertura do relacionamento para incluir Claudio e que, fosse Célia quem se anunciasse como lésbica, não aceitariam sua “opção”, seus preconceitos contra si próprias e suas histórias oferecem uma visão mais digna de pena do que de homenagem na contemporaneidade.

Espetáculo perde oportunidades preciosas
Vestindo um figurino masculino com, na maquiagem, leves realces mais femininos, Alexandre Lino interpreta o monólogo sentado atrás de um microfone. Gestos sutis mais afetados e alguns agudos na entonação vocal dão pistas de um personagem não facilmente identificável com homem heterossexual. Assim, a versão teatral de Lady Christiny, em oposição ao modo como a personagem aparece no vídeo-documentário, antevê por justaposição (e não de maneira mais articulada) o modo como ela se transformou.

A qualidade da interpretação de Lino, porém, esbarra na concepção do espetáculo, que é dele também, essa por sua vez aparentemente não melhorada pela dramaturgia de Daniel Porto e pela direção de Maria Maya. O modo controverso com que “Lady Christiny” mistura homenagem com crítica deixa unicamente nas mãos do espectador a responsabilidade pela compreensão da peça. Isso faz com que, no público, aconteça um outro espetáculo. Toda vez que uma parcela da plateia ri daquilo que a outra considera um horror fica nítida a conjuntura social problemática em que vivemos. Considerados os inúmeros casos de machismo, homofobia e de transfobia que o Brasil vergonhosamente apresenta, a simples pauta dessa problemática, sem posição mais clara contra ela, deixa a desejar.

“Lady Christiny”, com bela iluminação de Renato Machado, perde a chance essencial de se posicionar de maneira mais clara, contributiva e necessária para um mundo com menos intolerância.

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FICHA TÉCNICA
Texto: Daniel Porto
Direção: Maria Maya
Elenco: Alexandre Lino
Iluminação: Renato Machado
Direção de Arte: Tatiana Brescia
Programação Visual: Guilherme Lopes Moura
Fotografia: Janderson Pires
Webdesign: Mariana Martins
Videografismo e Assessoria geral: Renato Krueger
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias
Produção Executiva: Equipe Cineteatro Produções
Preparação Vocal: Gina Martins
Realização: SESC
Idealização e Direção de Produção: Alexandre Lino
Um projeto da Documental Cia.