segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Cine Atlântida! – Uma chanchada musical (RJ)

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Foto: divulgação

Vitor Martinez, Rodrigo Naice, Thiago Prado e Carla Odorizzi

Ótimo espetáculo homenageia a fase de ouro do cinema nacional

O ótimo “Cine Atlântida! – Uma chanchada musical” celebra a fase de ouro do cinema brasileiro com muitos méritos. Com texto e direção de Rubens Lima Jr., a história lembra o clássico “Aviso aos navegantes”, filme de 1951 dirigido por Watson Macedo. A narrativa gira em torno de um grupo de artistas que, em uma viagem de navio à Argentina, se envolve na caçada a um mágico ladrão de joias. Como acontecia naquele tempo, a história era pretexto para os quadros com artistas expoentes da música popular. Aqui é mais do que isso: a produção é lugar de homenagem a nomes fundamentais da comédia brasileira do século XX. Com elenco em bons trabalhos e ótima direção musical, a peça tem destaque na excelência dos figurinos de Beth Serpa, que enchem os olhos da plateia. Enquanto assiste, a plateia aproveita o delicioso chá servido pela casa com todo o requinte que o público carioca merece. A montagem está prevista para ficar em cartaz até maio na Casa de Arte e Cultura Julieta de Serpa, no Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro.

Personagens notórios da comédia musical brasileira
Várias marcas na atuação fazem com que seja fácil identificar os personagens como reconstruções de Zé Trindade (Thiago Prado), Ivon Cury (Marcus Brandão), Oscarito (Vitor Martinez), Grande Otelo (Carlos Maia), Ankito (Rodrigo Naice) e José Lewgoy (Rodrigo Serphan). O repertório musical, coberto de marchinhas de carnaval e outras músicas populares do repertório brasileiro do século XX, são ainda apresentadas por Carla Odorizzi, Lucia Bianchini e Tatty Caldeira que trazem Marlene, Emilinha Borba, Aurora e Carmen Miranda, Zezé Macedo, Dercy Gonçalves, Glauce Rocha, Adelaide Chiozzo, Irmãs Galvão, Linda e Dircinha Batista, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Aracy de Almeida, Virgínia Lane entre outras. Nesse sentido, ao mesmo tempo em que é uma boa história e bem contada, o original “Cine Atlântida” é também uma homenagem a astros e estrelas que, ao longo de décadas, trouxeram e trazem alegria ao nosso povo.

O humor ingênuo, mas às vezes nem tanto, a narrativa fluída, os personagens bem marcados e a estrutura simples que caracterizavam as chanchadas também fazem parte do ideário estético do espetáculo. Sobretudo há que se destacar o comprometimento com o cuidado, com a qualidade, com os detalhes de modo que, em "Cine Atlântida", das marcações ao texto bem dito, dos figurinos cheios de detalhes ao desenho de luz, da orquestra tocando ao vivo à ótima relação com o público, tudo está habilitado para ganhar os melhores elogios da crítica mais severa.

Vitor Martinez e Thiago Prado em excelentes atuações
Nas intepretações, destacam-se Carla Odorizzi (Marlene) e Rodrigo Naice (Ankito), mas principalmente Vitor Martinez (Oscarito) e Thiago Prado (Zé Trindade), todos pela qualidade dos meios mobilizados para alcançar o público e fazer jus à história. Não só na corporalidade, mas também nos aspectos musicais, esses intérpretes elevam as qualidades estéticas do espetáculo como um todo.

O belíssimo figurino de Beth Serpa
Dentre todos os aspectos de “Cine Atlântida”, os figurinos de Beth Serpa são destaque. Cena após cena, um vasto guarda-roupa faz as vezes de cenário, enchendo de cores o palco e fazendo evoluir a história. Fazendo ótima relação com a época retratada, a paleta de cores, texturas e estampas chamam a atenção pelo preciosismo técnico, demonstrando nobre pesquisa e vital colaboração.

Com ótima direção musical e arranjos de Guilherme Menezes, “Cine Atlântida! – Uma chanchada musical” é um dos melhores espetáculos em cartaz na programação teatral do Rio. Valeapeníssima assistir. Aplausos!

*

Ficha técnica:
Texto e direção: Rubens Lima Jr.
Cenários e figurinos: Beth Serpa
Operador de som: Paulo Pessoa
Operador de luz: Diego
Execução dos figurinos: Gigi Monteiro
Alfaiataria: Eliezer Gonçalves
Direção musical e arranjos: Guilherme Menezes
Músicos: Ayres D’Athayde (bateria), Francisco Nilson e Carlos Henrique (contrabaixo), Cláudio Ávila (piano), Bruno Marques (sax e flauta) e Guilherme Menezes (violão)
Elenco: Carla Odorizzi, Carlos Maia, Lucia Bianchini, Marcos Brandão, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Tatty Caldeira, Thiago Prado e Vitor Martinez
Produção geral: Carlos Alberto Serpa

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Hamlet – Processo de Revelação (RJ)

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Foto: divulgação


Emanuel Aragão

Muitos problemas no monólogo sobre "Hamlet"

“Hamlet – Processo de Revelação” é um espetáculo com tantos problemas que seus méritos acabam por ser bem poucos. É claro que, consideradas as dificuldades de fazer teatro, sempre é preciso aplaudir quem se aventura. No entanto, coragem e pretensão são palavras com significado parecido, mas não sinônimas. No monólogo, com dramaturgia e interpretação de Emanuel Aragão, há uma série de questões que mal se aproveitam do clássico shakespeareano, substituindo as reflexões mais nobres e principalmente o feito maior é que seria o de interpretá-lo. O problema mais grave da montagem dirigida pelos irmãos Adriano e Fernando Guimarães é a confusão de propostas. Sem se decidir por qualquer uma, e nem aprofundar nenhuma, a peça fracassa e não é preciso ser Bárbara Heliodora (1923-2015) para perceber isso. Para discordar ou concordar, o espetáculo está em cartaz no Teatro 2 do Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, até amanhã. É bem provável que cumpra outras temporadas aqui e pelo país.

Os três movimentos da dramaturgia de Emanuel Aragão
Três movimentos são bem claros na dramaturgia de "Hamlet – Processo de Revelação” assinada por Emanuel Aragão. O primeiro é uma exploração do campo semântico do texto original de William Shakespeare (1564-1616). O monólogo começa com a história de um chinês de 84 anos que quis acabar com a própria vida, mas depois se distraiu enquanto lia as notícias do dia. Avança a partir da narrativa de momentos (talvez ficcionais, talvez não) que sucederam a notícia do falecimento do pai (ou de Aragão, ou dos diretores?) e os encaminhamentos do velório. Ainda inclui outras pequenas narrativas que, embora aparentemente reais talvez não sejam. O objetivo é explorar o universo significativo de “Hamlet”, oferecendo novas abordagens para o público experimentar seu sabor. Se só “Hamlet” já não bastasse ou se esse investimento realmente dessa conta de ir além do básico, sem dúvida, essa seria uma grande colaboração da proposta à grade da programação teatral carioca. Por motivos que a seguir serão apontados, não o é.

O segundo esforço da peça está em revelar o processo de interpretação de “Hamlet”. Em cena, o ator Emanuel Aragão revela pesquisa elementar sobre o clássico shakespeareano, apresenta sua tradução sobre o solilóquio mais famoso (“ser ou não ser”) do teatro universal e se empenha em, ato por ato, descrever um pretenso contexto narrativo que ele criou para interpretar o personagem. Uma vez que o original, nesses últimos quatrocentos anos, tem sido objeto de análise de estudiosos do mundo inteiro, não é difícil reconhecer a fragilidade das dúvidas que Aragão apresenta. Além disso, a beleza dos versos de Shakespeare e a profundidade do texto justamente têm sido objeto de reflexão porque eles valem muito mais que as motivações interpretativas que cada ator cria para si.

O terceiro movimento é a interpretação de trechos de “Hamlet”, feito esse que seria mais valoroso se não perturbado pelos outros dois. Eles alongam a narrativa, dispersam a atenção e, chamando a atenção mais para Aragão do que para Shakespeare, acabam por fazer a inglória batalha perder.

Direção deixa o lugar do ator ainda mais perigoso
Quando a peça começa, Emanuel Aragão está sentado no proscêncio acompanhando o público procurar o seu lugar para se sentar. Logo de início, o ator explica as “regras” do que ele chama de “conversa”: as luzes da plateia permanecerão acesas como sinal de que será possível o público interrompê-lo, manifestando-se, interagindo, participando da peça. Também que, por inclusive não ter duração previamente estabelecida, as pessoas podem ir embora quando achar que devem. No entanto, em mais de uma oportunidade, na sessão a que essa análise quer corresponder, ficou claro que o intérprete se vê em lugar mais perigoso do que o esperado. O texto é longo e difícil e, por vezes, fica difícil lidar com as colocações que o público faz. O misto de interpretação formalizada e improviso esbarra no desejo de Aragão de apresentar o seu espetáculo até o fim.

Dono de um raro direito à palavra, o público quer se manifestar. Considerando que o original tem cinco atos, fica fácil perceber o quanto toda a proposta se alonga. Dirigido por Adriano e por Fernando Guimarães, o ritmo do espetáculo cai também porque nem se consegue adentrar no íntimo do príncipe da Dinamarca, nem se se compreende bem o intento da proposta. O purismo da dramaturgia (que se volta para si) não encontra eco na narrativa trágica elisabetana. E tudo fica mais parecendo um auto-elogio (pronto para agradar os amigos dos realizadores) do que uma partilha estético-artística com a plateia profissional.

Questões finais
Emanuel Aragão se esquece de questões muito relevantes sobre “Hamlet”. Escrita entre 1599 e 1601, toda a narrativa acontece mais ou menos dois meses depois do falecimento do misterioso Rei Hamlet e um mês após o casamento da Rainha Gertrudes com seu cunhado Cláudio, irmão do Rei. Toda a peça se passa nos corredores do poder da Dinamarca, afrontada pela Noruega em algum século final da Idade Média. Em nenhum momento das mais de quatro mil linhas do texto, fica claro onde estava o príncipe Hamlet (cuja idade varia entre 20 e 30 anos na opinião dos teóricos) quando esses acontecimentos tiveram lugar, mas se sabe que ele está enlutado e também que permanece príncipe, isto é, foi-lhe usurpada a coroa. A peça, assim, passa ao largo de um drama burguês em que um filho vinga o pai por quem chora copiosamente, mas alcança outras vias, do poder ao existencialismo. 

Profundamente inspirado pelas tragédias latinas (Plauto, Terêncio e Sêneca) e pelos romances de cavalaria, Shakespeare tinha uma noção de tragédia cuja origem vinha da Grécia. Ou seja, o conceito de liberdade naquela sociedade estratificada esbarrava não apenas nos limites sociais, mas no divino, no inexplicável, no além. Imerso na cultura elisabetana em que católicos e protestantes duelavam pelo comando político da Europa, o bardo sabia para quem escrevia: as reviravoltas da política, o público conservador, os atores que valorizavam a palavra acima de qualquer outra coisa. Infelizmente, no entanto, nem Shakespeare, nem seus contemporâneos escreveram sobre a peça algo que tenha chegado até a contemporaneidade.

Nesse sentido, “Hamlet – Processo de Revelação”, na ânsia de colorir o personagem e a narrativa, fica ainda muito distante da sua essência, revelando mais a perda da oportunidade do estudo do que exatamente valor estético. Eu usei o direito concedido de ir embora no fim do primeiro ato ainda respeitando o intérprete e sua equipe, mas com uma avaliação negativa sobre esse trabalho em específico. Fica o convite para opiniões adversas.

*

HAMLET – PROCESSODE REVELAÇÃO
Dramaturgia: Emanuel Aragão
Direção: Adriano Guimarães / Fernando Guimarães
Elenco: Emanuel Aragão
Colaboração: Liliane Rovaris
Iluminação: Dalton Camargos / Sarah Salgado
Cenografia: Adriano Guimarães / Fernando Guimarães / Ismael Monticelli
Figurino: Ismael Monticelli / Liliane Rovaris -
Projeto Gráfico, site e fotografia: Ismael Monticelli
Direção técnica: Josenildo de Sousa
Assistência: Eduardo Jaime
Produção e administração: Quintal Producões | Veronica Prates

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O Capote (MG)

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Foto: divulgação



Rodolfo Vaz

Rodolfo Vaz em espetáculo imperdível

"O Capote" abrilhanta a programação teatral do Rio nesse fim do verão de 2016. A versão para teatro do conto de Nikolai Gógol (1809-1852), com adaptação assinada por Drauzio Varella e por Cássio Reis, tem direção de Yara de Novaes com Rodrigo Fregman, Marcelo Villas Boas no elenco. No papel principal, Rodolfo Vaz está em brilhante atuação. A história, que se passa na primeira metade do século XIX na Rússia, narra a desventura do funcionário público Akáki Akákievitch na conquista de um novo sobretudo de lã, um capote. A indumentária, além de protegê-lo contra o frio, tem o poder de oferecer um certo de tipo de ascensão social, aspecto que facilmente faz a narrativa servir de reflexão para essa contemporaneidade aficionada por novos I-Phones, roupas de grife e carros de luxo. O espetáculo pode ser conferido até 13 de março no Teatro 1 do Centro Cultural do Banco do Brasil no centro. 

A contemporaneidade da narrativa de Gógol
O cinquentão pobre e solitário Akáki Akákievitch sente o inverno castigar-lhe o corpo coberto por um capote cada vez mais puído. A necessidade esbarra no alto preço cobrado pelo alfaiate inicialmente, muito além de suas posses. Aos poucos, a narrativa original do russo Nikolai Gógol vai evoluindo em um movimento que pode ser analisado duplamente. Do ponto de vista da identidade, o olhar do outro por sobre o protagonista acaba por colocar em xeque sua subjetividade. Quanto à análise social, o conto serve como reflexão sobre o movimento de consumo: um objeto não é só visto pela sua utilidade, mas também pela sua capacidade de representar status social, alçando o consumidor para realidades até então estranhas.

Os sacrifícios homéricos que Akáki Akákievitch – vale notar que o nome do personagem é o mesmo do seu pai, outro elemento que anuncia sua falta de individualidade – em prol da compra de um novo capote dominam a narrativa. O desenvolvimento da história acentua as largas diferenças entre os pontos inicial e final desse conto lançado vinte e cinco antes de "O Capital", de Marx, mas já cheio de reflexões sociais que depois ganharam outras leituras. O advento da indústria e ampla aparelhagem dos meios de comunicação de massa tornaram o mundo de hoje bastante parecido com aquele descrito em "O Capote". Esse aspecto enche de méritos o projeto de adaptação dessa literatura para teatro.

A força da estética nessa direção de Yara de Novaes
Ao lado do dramaturgismo de Cássio Pires, a direção de Yara de Novaes revela a importância do equilíbrio entre o protagonista e o mundo que o circunda. Diferente de outras obras célebres do realismo psicológico – do qual Dostoiévski e Tchekhov são expoentes –, em "O Capote", o entorno não é apenas a paisagem e nem tampouco o algoz. Sem identidade, o anti-herói acaba invadido naturalmente no livro e na versão teatral. No palco, toda a estética de Novaes traz essas pistas: a paleta de cores regularmente sorumbática, a ampla exploração visual dos quadrados e o mobiliário apático do ótimo cenário de André Cortez. A iluminação de Bruno Cerezoli dá importância para os espaços escuros, recortando os personagens quando esses são trazidos pelo curso da narrativa para o primeiro plano e só nesses momentos. A trilha sonora interpretada ao vivo por Sarah Assis, presente na cena, inclui na argumentação a falta de vida dos sons eletrônicos. Com isso, oferece quase uma versão prêt-à-porter da música como meio de aproximar a questão narrativa de uma reflexão atual. De modo ainda mais claro, os figurinos de Cortez fazem o mesmo.

A brilhante interpretação de Rodolfo Vaz
Ao lado de Rodrigo Fregman e de Marcelo Villas Boas em bons trabalhos, Rodolfo Vaz apresenta uma interpretação que é excelente. Paulatinamente, o vínculo com a estética mais clownesca vai sendo abandonada não se sabe se pelo sufoco causado pela narrativa cada vez mais angustiante, se pela crítica realista mais afiada ou se pelo heroísmo mais impossível. Ao longo da encenação, o personagem Akáki Akákievitch vai sucumbindo pela tentação demoníaca a qual ele não pode resistir, deixando de viver em seu mundo original e ganhando o proscênio. Lá ele se encontra com o público, onde pode apunhalá-lo, vingando-se, mas ao mesmo tempo colocando-se em sacrifício em prol da reflexão. Eis um belo momento de Vaz como intérprete!

"O Capote", depois de estar em São Paulo e em Belo Horizonte, é um dos pontos altos agora da grade teatral do Rio de Janeiro. Imperdível!

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Ficha Técnica
Autor: Nikolai Gogol.
Adaptação: Drauzio Varella.
Dramaturgia: Cássio Pires.
Direção: Yara de Novaes.
Elenco: Rodolfo Vaz, Rodrigo Fregnan e Marcelo Villas Boas.
Musicista: Sarah Assis.
Cenografia e figurinos: André Cortez.
Trilha sonora e música original: Dr.Morris.
Vídeo arte e design de projeção: Rogerio Velloso.
Criação de luz: Bruno Cerezoli.
Visagismo: Leopoldo Pacheco.
Arte e projeto gráfico: Lápis Raro.
Fotografia: João Caldas.
Produção: Oitis Produções Culturais
Produção executiva : Rose Campos