sexta-feira, 17 de julho de 2015

Godspell (RJ)



Foto: divulgação

CEFTEM lança grandes talentos ao teatro musical brasileiro

A montagem atual de “Godspell” é a mais fiel versão brasileira do original desde a de Altair Lima, em 1973. O musical, criado por Stephen Schwartz e por John-Michael Tebelak, estreou no circuito Off-Broadway em 1971, recebendo uma adaptação para o cinema dois anos depois dirigida por David Greene. Dividida em dois atos, a história traz, na primeira parte, uma justaposição de diversas parábolas retiradas dos quatro primeiros livros do novo testamento da bíblia (“gospel” é a expressão em inglês correspondente à palavra “evangelho”). Na segunda parte, há a narrativa dos últimos dias de Jesus: ele entre os fariseus, a última ceia, Getsêmani e a crucificação. Dirigida por João Fonseca, com direção de musical de Tony Lucchesi e versões de Bruno Camurati, a montagem é produzida pelo Centro de Estudos e Formação em Teatro Musical (CEFTEM), coordenado por Reiner Tenente. No palco, alunos concluintes do Curso de Prática de Montagem exibem o talento que desenvolveram em sala de aula, alternando-se no elenco semana após semana. Oscar Fabião, Vinicius Teixeira, Léo Bahia, Deborah Marins se destacam, mas Carol Botelho, cuja potência e qualidade vocal são altíssimas, é uma das maiores surpresas da temporada teatral carioca. A peça, que seguirá em cartaz até o fim de agosto, se apresenta somente às quartas-feiras, às 20h, no Teatro Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro. O ingresso é obtido através da doação de um quilo de alimento não perecível que será destinado, pela produção, ao Retiro dos Artistas.

Inspirado na tese de doutorado de John-Michael Tebelak, a versão final de “Godspell” trouxe consigo apenas a canção “By my side” (“Caminhar com você”, nessa tradução) e a estética associada ao movimento hippie do fim dos anos 60. Seu lançamento em Nova Iorque foi uma resposta comportada ao modo negativo como o filme “O Evangelho Segundo São Mateus” (Pasolini, 1964) e os musicais “Hair” (MacDermot, Rado e Riagni, 1967) e “Jesus Cristo Superstar” (Weber, 1971) estavam sendo vistos em redor do mundo. Ao lado de Tebelak e de Schwartz, o produtor Edgar Lansbury almejava associar a imagem de Cristo à da contracultura, subvertendo a mente reacionária da Guerra Fria em favor das liberdades pelas quais a juventude lutava principalmente desde a primavera de 1968. Muito mais modesto que seus pares, “Godspell” também deu certo talvez porque, naquele momento, foi mais facilmente “engolido” pela família tradicional ainda que esteticamente já era (e continua sendo) considerado bastante inferior.

Vendido na estreia como uma versão musical do evangelho de Mateus, na verdade, sua dramaturgia é composta por situações tiradas de todos os quatro evangelhos. Com curvas narrativas sensíveis demais para de assim serem chamadas, a dramaturgia fura alguns bloqueios da pura catequese com muita delicadeza. Um dos méritos da versão brasileira atual de “Godspell” é justamente a manutenção desses detalhes. Como na produção original, o mesmo ator interpreta João Batista e Judas. Personagens díspares na bíblia e na cultura cristã, esse ponto controverso da peça é um dos meios pelo qual os autores pautam a complexidade do homem real. Na mesma direção, em “Godspell”, é Jesus quem beija Judas e não o contrário como na tradição. Segundo os autores, Jesus perdoa seu traidor por antecipação. Outra questão relevante é a pouca clareza da cena da ressurreição, que não aparece no original tampouco aqui. Para Schwartz, esse musical valoriza o que os discípulos fizeram com o que aprenderam com Jesus mais do que narrativa de sua vida. Geralmente cortada, a cena de abertura (“Tower of Babble” / “Babel”) dava a ver vários filósofos como Sócrates, Tomás de Aquino, Nietzsche, Sartre, entre outros, em meio a uma confusão que só se apaziguava com a entrada de João Bastista, cantando “Prepare ye the way of the Lord” (“Prepare os caminhos do amor” nessa tradução). Na versão que aqui se analisa, no prólogo, os personagens se apresentam, dizendo seus nomes, os quais são os mesmos dos atores que os interpretam, e os modos como se relacionam com a religiosidade. A estética clown/hippie, dos anos 70, deu lugar a uma linguagem mais contemporânea (o que também aconteceu na produção da Broadway mais recente) e o vinho servido ao público no intervalo que acontece aqui também acontecia na versão original.

Os méritos de João Fonseca na direção desse espetáculo se devem pelo bom estabelecimento de um clima de união entre os componentes do elenco. Em uma entrevista célebre, a cantora americana Nina Simone (1933-2003) diz que a igreja é um grande celeiro de artistas porque lá as pessoas se sentem mais livres para cantar uma vez que não estão agradando primeiramente a si ou aos outros, mas a Deus. Nesse clima inicial, os diferentes talentos do elenco, bem como o modo diverso como os personagens estão apresentados na encenação e a variedade do público se articulam de forma a “preparar os caminhos” para um convívio menos precioso e mais amoroso entre palco e plateia. Sem coreografias complicadas (Victor Maia assistido por Carolina Botelho) e com trocas de cenas fluidas, a direção de João Fonseca (assistido por Gustavo Klein e por Lucas Massano) vence o desafio de uma narrativa tão difícil.

Além de Jesus (Raphael Rossato) e de João Batista / Judas (Oscar Fabião), todos os demais personagens representam a variedade de tipos juvenis, sem definições mais claras. O clima de conflito que poderia dar lugar a uma relação mais harmônica não acontece aqui. Desde a entrada, o público vê os atores se concentrando no palco e identifica marcas de uma relação amena que aparentemente eles têm entre si. Sem qualquer variação dramática, os atores-cantores dão a ver talento para o canto, mas têm quase nenhuma oportunidade de mostrar qualquer técnica interpretativa além de uma representação superficial na viabilização dos personagens das parábolas do primeiro ato. Isso também diz respeito a João Batista / Judas que, apesar de ser o único bom personagem de “Godspell”, é ainda fraquíssimo em relação ao narrador de “Jesus Christ Superstar”. Por isso, no elenco também formado por Raphael Rossato, Alain Catein, Claire Nativel e por Giovana Rangel, destacam-se Oscar Fabião, Vinicius Teixeira, Léo Bahia, Deborah Marins e principalmente Carol Botelho apenas pelo modo como as ótimas e excelentes interpretações das canções também auxiliam na aproximação do palco com o público em alta qualidade estético-musical. Rossato, que interpreta Jesus, aproveita mal as poucas oportunidades que tem de variar dramaticamente seu personagem, mas tem o mérito de construir uma figura carismática que corrobora com essa adocicada dramaturgia. Em boas colaborações, o figurino de Caio Loki, com orientação de Nello Marrese, e a luz de Luiz Paulo Neném são positivos.

Na história do teatro musical no Brasil, “Godspell” remete a Altair Lima que assinou a primeira produção da peça em São Paulo, em 1973, e no Rio, um ano depois. Naquela montagem, com tradução assinada por Vinícius de Moraes e com coreografias por Clarice Abujamra, Antônio Fagundes interpretava Jesus ao lado de Zezé Motta, Lucélia Santos, Wolf Maia e de vários outros nomes que fizeram parte do elenco nas várias versões que Lima assinou. Em 2002, Miguel Falabella dirigiu uma adaptação com Amanda Costa, Gottsha, Ivan Parente, Pedro Lima e com outros com direção musical de Josimar Carneiro. No ano passado, em Porto Alegre, Zé Adão Barbosa levou “Godspell” à cena com Álvaro RosaCosta, Lúcia Bendati, Marisa Rotenberg, Cíntia Ferrer e outros com direção musical de Everton Rodrigues. Todas essas produções passaram pela pergunta: qual é o lugar de “Godspell” hoje?

É bem verdade que canções, como “All for the best” (“Só pro melhor”) e principalmente “Day by day” (“Sem cessar”) são tão belas que se tornaram famosas para além da produção, mas, por outro lado, a contracultura já morreu, (aquel)as liberdades sexuais pelas quais se lutava já foram relativamente conquistadas e qualquer coisa relacionada a Jesus, hoje em dia, cheira a evangélicos que, injusta e infelizmente, são associados a crápulas como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Eduardo Cunha. O desafio da convivência entre pessoas tão diferentes em uma mesma sociedade, tema caro para a geração “Glee”, parece ter sido a feliz aposta dessa produção. O maior bem que ela traz à programação teatral carioca, no entanto, não é esse, mas a sugestão de nomes tão talentosos que hora iniciam suas carreiras, mas oxalá essas tenham vidas bem longas.

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Ficha técnica:
Um musical de Stephen Swartz e de John-Michael Tebelak
Direção: João Fonseca
Direção Musical: Tony Lucchesi
Coreografia: Victor Maia
Coordenação Pedagógica: Reiner Tenente
Assistente de Direção: Gustavo Klein e Lucas Massano
Assistente de Coreografia: Carolina Botelho
Iluminação: Luiz Paulo Neném
Assistentes: Paulo Coquito e Stacey Maika
Canhão: Bruna Leal
Figurino: Caio Loki
Orientação de Figurino: Nello Marrese
Assistente: Clara Equi
Comunicação Visual: Caio Loki
Design de Som: Raul Ribeiro
Assistentes: João Canedo e João Acioly

Arranjos instrumentais e adaptações e arranjos vocais adicionais: Alexandre Queiroz e Tony Lucchesi
Pianistas ensaiadores: Alexandre Queiroz e Gabriela Alkmim
Preparação Vocal: Tony Lucchesi

Banda:
Teclado 1 e regência: Alexandre Queiroz
Teclado 2 e regência: Tony Lucchesi
Teclado 2: Gabriela Alkmim
Guitarra e violão: Pedro Mota
Baixo: Alana Alberg
Bateria 1ª temporada: Léo Bandeira
Bateria 2ª temporada: André Guerra

Versões: Bruno Camurati (exceto “Tanto para agradecer”, de Miguel Falabella; e “Aprenda essa lição”, de Vinícius de Moraes, com adaptação de Bruno Fraga)
Composições adicionais: “Samba do devedor” (adaptação do samba enredo da Vila Isabel, de 1971) do elenco e da direção; e “Repente do Lázaro”, de Joana Mendes.

Elenco:
Raphael Rossato, Oscar Fabião, Carol Botelho, Alain Catein, Léo Bahia, Vinicius Teixeira, Claire Nativel, Laura Zenet, Deborah Marins e Giovana Rangel alternando com Bruno Fraga, Lyv Ziese, Analu Pimenta, Diana Cataldo, Bernando Dugin, Ingrid Gaigher, Erick de Luca, Ugo Capelli, João Telles e Joana Mendes.

Fotos: Mariana Moreira
Assessoria de Imprensa: Otávio Furtado
Assistente de Direção Musical: Alexandre Queiroz
Assistência de Produção: Victória Guedes
Produção Executiva: João Canedo e Joana Mendes
Realização e Produção Geral: Reiner Tenente e João Fonseca
Realização: CEFTEM e João Fonseca

Killer Joe (SP)

Elenco em cena


Foto: Hudson Motta


O ótimo casamento de Tracy Letts com Mário Bortolotto


Dirigido por Mário Bortolotto com o grupo Cemitério dos Automóveis, “Killer Joe” começou há duas semanas sua primeira temporada no Rio de Janeiro. A peça, que estreou em junho de 2014, foi escrita em 1991 pelo então iniciante Tracy Letts. Hoje em dia, esse autor americano é mundialmente conhecido por “Álbum de Família”, cuja dramaturgia lhe rendeu o Pulitzer em 2008 e cujo roteiro gerou um dos filmes mais bem cotados de 2014 com Meryl Streep e Julia Roberts concorrendo ao Oscar por ele naquele ano. Autor de clássicos da dramaturgia brasileira contemporânea, como “Medusa de Rayban”, “Nossa Vida não vale um Chevrolet”, “Homens santos e desertores”, “Uma pilha de pratos na cozinha” e como mais de quarenta outros títulos, Bortolotto seguramente é um dos dramaturgos brasileiros (bem) vivo e atuante mais importantes de nossa história recente. Gabriel Pinheiro, o único trabalho de atuação realmente destacável no elenco dessa montagem, interpreta Chris Smith, um jovem que planeja contratar um matador de aluguel para dar cabo da própria mãe para ficar com o dinheiro de seu seguro de vida. Bem ao estilo pulp, essa ótima comédia cheia de tiros, sangue, sexo e de cigarros diverte o público do Teatro Poeira, em Botafogo. Eis aqui um Mário Bortolotto raro, mas bom.

A peça estreou em 1993 em Chicago, nos Estados Unidos, se apresentando naquele ano em festivais no Reino Unido e ao redor do mundo. Quase vinte anos depois, virou filme com o título de “O matador de aluguel”, dirigido por William Friedkin, o mesmo de “O Exorcista”. Essa é a primeira versão da peça de Tracy Letts no Brasil, cujo “Bichado” (“Bugg”, no original de 1996) já havia recebido produção nacional em 2012. “Killer Joe” se passa nos anos 70, mas a versão atual acontece na década de 90, ambas no oeste dos Estados Unidos. Na história, Chris Smith (Gabriel Pinheiro) tem 22 anos e deve seis mil dólares que seriam pagos com a venda de cocaína. Seus planos deram errado quando Adele, sua mãe, encontrou a droga e a vendeu para reformar seu carro, um velho Ford. Depois de uma briga, ele foi expulso de casa, mas, antes de sair, ficou sabendo, através do padrasto Rex, que sua mãe era assinante de um seguro de vida no valor de cinquenta mil dólares. Na primeira cena, Chris invade a casa onde moram seu pai Ansel (Fernão Lacerda), sua irmã Dottie (Ana Hartamann) e sua madrasta Sharla (Aline Abovsky) para pedir dinheiro emprestado e propor um meio de receber o seguro de sua mãe. Para assassiná-la, entra em cena o matador de aluguel Joe Cooper (Carcarah), que passa a conviver com a família Smith. Criados por Letts, esses personagens têm tudo a ver com o universo da dramaturgia de Bortolotto e, talvez por isso, encontram-se em boas mãos nessa versão brasileira.

A direção de Mário Bortolotto, assistido por Gabriella Spadiari e por Valentini Durant, dá a ver a situação marginal em que esses personagens se encontram, apresentando um quadro cujos valores são opostos aos da sociedade politicamente correta, mas não menos irreais. Variando o ritmo da encenação conforme a destacar a poética do abandono nas cenas mais lentas e a valorizar a ação nos momentos de grande crise, a direção oferece aqui uma obra disposta a divertir principalmente quem consegue associar “Killer Joe” aos filmes B de Hollywood. O jeito como as cenas se articulam é capaz de evidenciar a habilidade dos personagens em engolir seus “sapos” e a obter o melhor que a pior situação lhes oferece. Trata-se de um excelente meio que parece ter Bortolotto encontrado para defender o homem em sua versão mais pobre. Infelizmente, nem todos os trabalhos de interpretação nesse espetáculo colaboram sempre para esse ideal.

Em vários momentos, Fernão Lacerda (Ansel), Ana Hartmann (Dottie) e Carcarah (Joe Cooper), apesar da distância do espetáculo em relação à sua estreia, demonstram preocupações excessivas com suas marcas interpretativas e, por isso, oferecem poucas possibilidades ao realismo em que o espetáculo está construído. Aline Abovsky (Sharla), mas principalmente Gabriel Pinheiro (Chris), em contrapartida, deixam ver nuances em aparentes imersões nos personagens, estando talvez mais entregues e menos enrijecidos, o que permite ao público acreditar neles com mais facilidade. Nas cenas de maior calma, essas naturalmente mais difíceis de viabilizar, percebe-se a disparidade dos trabalhos do elenco, ainda que a direção de Bortolotto pareça ter se esforçado na providência de maior regularidade. Observar como Pinheiro faz seu personagem reagir nas reviravoltas pelas quais seu Chris passa é uma delícia para quem gosta de bom teatro. Eis aqui um excelente trabalho!

O cenário de Mariko e de Seiji Ogama deixa bem maior o apertado trailer proposto no texto original, mas o efeito não é negativo. Menos claustrofóbico, essa ambientação dá espaço para os personagens se moverem e tempo para a plateia observá-los. Sai água da torneira, a televisão funciona e exibe programas dos anos 90, a comida existe realmente, a estante da sala está repleta de objetos meramente ilustrativos: toda a disposição auxilia no reforço do realismo de maneira que o público tem sua atenção direcionada à ação narrativa como convém ao gênero. O figurino de Letícia Madeira, no mesmo sentido, apresenta os personagens e suas realidades, apontando também para a situação em que eles se encontram. A sonoplastia assinada pelo diretor, bem como as inserções sonoras de Gabriella Spaciari e de Ninguém e os efeitos especiais de Kapel Furman, Rodrigo Telles e de Victor Akkas, reforçam o realismo com visível esmero e graça nos mínimos detalhes.

Associando o sono, a comida, a bebida e o sexo com o desenvolvimento de uma história policial bem popular, “Killer Joe” evolui de uma narrativa sombria para um quadro engraçadíssimo. Distante da trágica situação coberta de tempos mortos e de reflexões filosóficas sobre a vida do homem contemporâneo, essa peça, ainda que tenha personagens muito próximos do universo da dramaturgia de Mário Bortolotto, oferece outros sabores a quem gosta desse grande dramaturgo. Vale a pena ver!

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FICHA TÉCNICA
Texto: Tracy Letts
Tradução: Maurício Arruda Mendonça
Direção: Mário Bortolotto
Assistentes de Direção: Gabriella Spaciari e Valentine Durant

Ator / Personagem:
Carcarah / Joe Cooper (Killer Joe)
Fernão Lacerda/ Ansel (pai)
Gabriel Pinheiro / Chris Smith (filho de Ansel)
Ana Hartmann/ Dottie (filha de Ansel)
Aline Abovsky / Sharla (madrasta)

Cenário: Mariko e Seiji Ogawa
Figurino: Letícia Madeira
Iluminação: Fernando Azevedo
Sonoplastia: Mário Bortolotto
Inserções Sonoras: Gabriella Spaciari e Ninguém
Operação Técnica: Gabriel Oliveira (Little Beat)
Efeitos Especiais: Kapel Furman, Rodrigo Telles e Victor Akkas
Fotos: Hudson Motta e Leekyung Kim
Programação Visual: André Kitagawa
Produção: Aline Abovsky (SP), Ana Hartmann (SP) e Ana Nero (RJ)
Produção Executiva: Carcarah
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

terça-feira, 14 de julho de 2015

Beija-me como nos livros (RJ)

Foto: divulgação


José Karini, Julio Adrião, Ângela Câmara e Claudia Mele

Nova direção de Ivan Sugahara é frustrante

Da Companhia Os Dezequilibrados, “Beija-me como nos livros” encerra sem tantos méritos a trilogia sobre o amor, composta ainda pelos excelentes espetáculos “Amores” (de Domingos de Oliveira) e “Fala comigo como a chuva e me deixa ouvir” (de Tennessee Williams). Dirigida como os demais por Ivan Sugahara, essa peça apresenta imagens bonitas e ótimas interpretações do elenco formado por Ângela Câmara, Claudia Mele, José Karini e Julio Adrião, mas a escolha por um idioma inventado como o único falado durante os noventa minutos de encenação resulta em um cansativo processo de fruição que exaure mesmo o espectador mais disponível. Em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, a produção conta ainda com destacável figurino de Bruno Perlatto e iluminação de Renato Machado. É uma pena!

No programa da peça, a produção justifica a escolha de um idioma incompreensível para o público (chamado de “gromelô”) uma oportunidade para a valorização dos outros aspectos envolvidos na comunicação entre os personagens. Assim, as entonações, as feições, os movimentos e todo o contexto em que os diálogos aparecem ficariam com a responsabilidade de oferecer o que for necessário para a plateia compreender as cenas. Na dramaturgia, logo no início, percebe-se facilmente que a história se divide em duas. De um lado, há dois casais de personagens originais (seus primeiros nomes são os mesmos dos atores que os interpretam: Ângela e José, Claudia e Julio) que vivenciam momentos de felicidade e de crise. De outro, quatro histórias célebres do repertório cultural do amor romântico são apresentadas em trechos ao longo da narrativa (“Tristão e Isolda”, “Romeu e Julieta”, “Os sofrimentos do jovem Werther” e “Don Giovanni”.) À plateia, chegam facilmente as situações dramáticas de ambos os lados e também o modo como elas se articulam, se envolvem, colaboram umas com as outras. A questão mais problemática é que, vinte minutos depois da peça ter começado, “Beija-me como nos livros” deixa de ser uma peça sobre o amor (ou sobre o amor romântico) e passa a ser sobre como esses atores são bons em falar um idioma que só eles entendem e, o que já se sabia, em dar vida a personagens cujas marcas são claras. Considerando o histórico dOs Dezequilibrados, esse é um desafio muito pequeno. É frustrante!

Há uma belíssima cena em que Ângela Câmara e Júlio Adrião estão sozinhos, mas lado a lado, evoluindo em uma coreografia delicada e complexa. Em outro momento, os quatro personagens originais bailam solitários e acompanhados, expressando, através da dança, seus sentimentos. A cena final é também de destacável beleza. Infelizmente esses momentos são pérolas na direção de Sugahara que vencem as barreiras impostas pela dramaturgia.

Em toda a encenação, é vibrante confirmar a expertise de Ângela Câmara, de Claudia Mele, de José Karini e de Julio Adrião. Atores experientes, muitas vezes elogiados e com carreiras sólidas, não há novidade nesses méritos aqui visíveis. A iluminação de Renato Machado amplia o espaço útil do palco do Teatro 1 do CCBB com rara beleza. Os figurinos, com destaque aos vestidos, de Bruno Perlatto também são pontos altos da produção. A trilha sonora, assinada também por Ivan Sugahara, facilita ainda mais o reconhecimento das histórias e o jogo de evolução delas através de um repertório acessível: “Tristão e Isolda”, de Richard Wagner; e “Por uma cabeza”, de Carlos Gardel; são bons exemplos de canções utilizadas provavelmente com esse objetivo. O cenário de André Sanches, em que cama, cadeiras e mesa parecem ter sido construídas a partir de pilhas de livros também facilita a fruição provavelmente também compensando a dificuldade trazida pelo texto.

A vida profissional dos atores é como qualquer outra vida profissional. Se aos atores experientes também não for dada a oportunidade de experimentar, qual a graça de envelhecer? “Beija-me como nos livros” é uma experimentação ainda que mal fadada, mas bem-vinda. Eles sabem o que estão fazendo e já provaram isso várias vezes.

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Ficha técnica:
Direção e Dramaturgia: Ivan Sugahara
Elenco: Ângela Câmara, Claudia Mele, José Karini e Julio Adrião
Assistente de Direção: Lívia Paiva
Direção de Movimento: Duda Maia
Direção Vocal e Pesquisa Fonética: Ricardo Góes
Dramaturgismo: Juliana Pamplona
Criação Dramatúrgica: Ângela Câmara, Claudia Mele, Ivan Sugahara, José Karini, Julio Adrião e Lívia Paiva
Cenário: André Sanches
Iluminação: Bruno Perlatto
Assistência de Figurino: Victor Guedes
Trilha Sonora: Ivan Sugahara
Técnico de Luz: Leandro Barreto
Desenho de Som: Luciano Siqueira
Direção de Palco: Wallace Lima
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Assistente de Assessoria de Imprensa: Fernanda Miranda
Design Gráfico: Luciano Cian e Cláudio Attademo
Fotografia: Dalton Valério
Marketing Digital: Qtal Design
Produção Audiovisual: Eduardo Chamon
Coordenação de Produção: Tárik Puggina
Direção de Produção: Carla Torres Azevedo
Produção Executiva: Aline Mohamed e Marcelo Chaffim
Administração Financeira: Amanda Cezarina
Realização Os Dezequilibrados e Nevaxca Produções